{"id":2667,"date":"2023-09-18T23:25:29","date_gmt":"2023-09-19T02:25:29","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2667"},"modified":"2023-09-18T23:32:01","modified_gmt":"2023-09-19T02:32:01","slug":"colecao-zines-clinicas-de-borda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/09\/18\/colecao-zines-clinicas-de-borda\/","title":{"rendered":"Cole\u00e7\u00e3o <em>Zines Cl\u00ednicas de Borda<\/em>"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Cole\u00e7\u00e3o <\/strong><strong><em>Zines Cl\u00ednicas de Borda<\/em><\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Patitucci<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cole\u00e7\u00e3o de <em>Zines<\/em> <em>Cl<\/em><em>\u00ednicas de Borda<\/em>, publicada pela n-1 edi\u00e7\u00f5es, foi lan\u00e7ada em mar\u00e7o deste ano, trazendo-nos um retrato da psican\u00e1lise que vem sendo praticada no pa\u00eds pelas cl\u00ednicas p\u00fablicas. De alguns anos para c\u00e1, se ampliou o movimento de coletivos cl\u00ednicos que oferecem atendimento a popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas e comunidades vulner\u00e1veis, com pouco ou nenhum acesso a cuidados ps\u00edquicos, exclu\u00eddas dos consult\u00f3rios particulares. A cole\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 em aberto, conta agora com 22 <em>Zines<\/em> que correspondem, por sua vez, a 22 cl\u00ednicas presentes em v\u00e1rias cidades e Estados do Brasil, como Psican\u00e1lise na Rua (Cuiab\u00e1), Ocupa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica (Santo Antonio de Jesus\/BA, Vit\u00f3ria, Belo Horizonte e Rio de Janeiro), Falatrans (Juiz de Fora), Cl\u00ednica do Cuidado Belo Monte (Altamira), Margens Cl\u00ednicas (S\u00e3o Paulo), Projeto Gradiva (Porto Alegre), dentre outras.<\/p>\n<p>A meu ver, trata-se de uma iniciativa importante, na medida em que os<em> Zines<\/em>, pequenas revistas feitas pelos pr\u00f3prios coletivos, nos apresentam os registros da cl\u00ednica presente nas ruas e nas comunidades brasileiras. E, por meio deles, emerge a riqueza de uma psican\u00e1lise plural e inclusiva, cuja extens\u00e3o \u00e9 tecida pela rede de cl\u00ednicas p\u00fablicas, produtoras de efeitos na pr\u00e1tica cl\u00ednica, na teoria e na forma\u00e7\u00e3o do analista, como Freud previu.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos mais esquecer que a fun\u00e7\u00e3o social da psican\u00e1lise est\u00e1 inscrita desde sua funda\u00e7\u00e3o. Elizabeth Ann Danto, em seu livro <em>As cl\u00ednicas p\u00fablicas de Freud, <\/em>resgatou a hist\u00f3ria dessa inscri\u00e7\u00e3o, ao narrar como Freud marcou a mudan\u00e7a de perspectiva da psican\u00e1lise em seu discurso proferido no 5\u00ba Congresso Psicanal\u00edtico Internacional, poucos meses antes do final da Primeira Guerra Mundial, e publicado em 1919, com o t\u00edtulo de <em>Caminhos da terapia psicanal\u00ed<\/em><em>tica<\/em>. Freud chamou a aten\u00e7\u00e3o para o direito ao atendimento cl\u00ednico gratuito de uma popula\u00e7\u00e3o adoecida que, desprovida de condi\u00e7\u00f5es financeiras e materiais, e agravadas pela guerra, n\u00e3o tinham acesso \u00e0s cl\u00ednicas privadas dos analistas que atuavam na \u00e9poca. \u201cEle explicou\u201d, diz Danto, \u201cpor que, em um momento de luta entre a necessidade humana e as for\u00e7as socioecon\u00f4micas dominantes, os psicanalistas n\u00e3o podiam mais insistir em considerar a neurose do individuo como \u00fanico <em>locus <\/em>de interven\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Era preciso, portanto, ampliar o alcance do tratamento ps\u00edquico, tornando a psican\u00e1lise acess\u00edvel e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Foi assim que as primeiras gera\u00e7\u00f5es de analistas, inspirados por Freud e sob o impacto da crise humanit\u00e1ria gerada pela Primeira Guerra, fundaram, a partir de 1920, dezenas de cl\u00ednicas p\u00fablicas em v\u00e1rias cidades do continente europeu, fomentando a produ\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica em todos os seus \u00e2mbitos. Foram anos de trabalho fecundo, que acabou nos escombros da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Se as primeiras cl\u00ednicas p\u00fablicas n\u00e3o resistiram \u00e0 viol\u00eancia da Segunda Grande Guerra, a voca\u00e7\u00e3o social da psican\u00e1lise, no entanto, n\u00e3o se perdeu. Mas passou para a margem da pr\u00e1tica e da forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, quando n\u00e3o invisibilizada ou apagada por um rumo mais elitista, tanto na cl\u00ednica quanto nas forma\u00e7\u00f5es institu\u00eddas.<\/p>\n<p>A elitiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise teve como um de seus efeitos ser definida a partir dos enquadres realizados nos consult\u00f3rios particulares. O atendimento feito de forma diferente desse enquadre n\u00e3o era, ent\u00e3o, considerado psican\u00e1lise. Nos anos 90, trabalhei em alguns equipamentos de sa\u00fade mental e ouvi, por diversas vezes, que ali n\u00e3o se fazia psican\u00e1lise, que os atendimentos que n\u00f3s, psicanalistas, faz\u00edamos n\u00e3o era psican\u00e1lise, pois a popula\u00e7\u00e3o atendida n\u00e3o sabia falar sobre seu sofrimento, n\u00e3o associava. O equ\u00edvoco dessa concep\u00e7\u00e3o se revelava no trabalho de analistas que continuavam a realizar e sustentar os atendimentos populares, dentro dos equipamentos de sa\u00fade mental, nas ruas ou onde quer que eles estivessem presentes, escutando o sofrimento ps\u00edquico. E o florescimento atual das cl\u00ednicas populares brasileiras demonstra, mais uma vez, o potencial da psican\u00e1lise na perspectiva social defendida por Freud, o qual considerava que a produ\u00e7\u00e3o nesse campo seria importante para a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Como sabemos, a psican\u00e1lise \u00e9 conectada ao meio sociopol\u00edtico e cultural no qual est\u00e1 inserida, e na contracapa dos <em>Zines<\/em> lemos a seguinte apresenta\u00e7\u00e3o: \u201cA Cole\u00e7\u00e3o de Zines das Cl\u00ednicas de Borda Brasileiras, aberta a novos fasc\u00edculos, nasce da experi\u00eancia compartilhada de psicanalistas inconformadas e inconformados com a resposta cl\u00ednica de seu fazer e da sua forma\u00e7\u00e3o face \u00e0 realidade nacional brasileira, exposta \u00e0 brutalidade e \u00e0 viol\u00eancia estrutural.\u201d Ent\u00e3o, inquietos com o desamparo de uma popula\u00e7\u00e3o desassistida, que sofreu e sofre os efeitos do racismo, da desigualdade social, dos fluxos migrat\u00f3rios, viol\u00eancia de g\u00eaneros, a grave crise pol\u00edtica e sanit\u00e1ria que vivemos nos \u00faltimos anos, analistas se uniram para criar os diversos coletivos que comp\u00f5em as <em>Cl\u00ednicas de Borda<\/em>. Esses analistas, de diferentes abordagens te\u00f3ricas, se fizeram presentes nos diversos territ\u00f3rios como pra\u00e7as, ocupa\u00e7\u00f5es, periferias, quilombos. E em contato com o territ\u00f3rio escolhido, criaram dispositivos cl\u00ednicos pr\u00f3prios \u00e0 demanda que emergiu atrav\u00e9s da aten\u00e7\u00e3o e da escuta das quest\u00f5es vividas pelas popula\u00e7\u00f5es acolhidas. Assim, os diferentes dispositivos que formam os diferentes enquadres tornaram poss\u00edvel a contin\u00eancia de uma transfer\u00eancia em curso e, por meio desta, encontrar as formas poss\u00edveis de cuidado.<\/p>\n<p>Esse contexto de heterogeneidade aponta para o potencial da pr\u00e1tica p\u00fablica da psican\u00e1lise, como vemos na mesma contracapa: \u201cTrazem experi\u00eancias m\u00faltiplas e plurais, sem necessariamente criarem um m\u00ednimo comum, nas quais experimentam o vigor da pr\u00e1xis psicanal\u00edtica na transforma\u00e7\u00e3o de sujeitos, processos, espa\u00e7os p\u00fablicos, modos de pertencimento e participa\u00e7\u00e3o, meios de forma\u00e7\u00e3o.\u201d Esse vigor aparece nos registros das diferentes cl\u00ednicas, os quais relatam as quest\u00f5es complexas que movem e envolvem cada uma delas e como as discuss\u00f5es te\u00f3ricas e t\u00e9cnicas que acontecem em grupos de supervis\u00e3o, de discuss\u00e3o cl\u00ednica e grupos de estudos sustentam o trabalho dos analistas implicados no trabalho.<\/p>\n<p>As Cl\u00ednicas de Borda enfrentam, portanto, discuss\u00f5es que podem resultar em novos aportes te\u00f3rico-cl\u00ednicos e s\u00e3o produtoras de forma\u00e7\u00e3o e pesquisa. Nesse sentido elas revelam a for\u00e7a e a riqueza desse trabalho para se pensar a psican\u00e1lise que praticamos hoje.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos <em>zines<\/em>, as C<em>l\u00ednicas de borda<\/em> originaram mais um fruto: em novembro ocorrer\u00e1 o 1\u00ba Encontro Nacional das Cl\u00ednicas de Borda. Ser\u00e3o dois dias que reunir\u00e3o os coletivos para discutir os seguintes temas: a dimens\u00e3o transferencial e a quest\u00e3o do pagamento. Esse encontro \u00e9 parte da programa\u00e7\u00e3o do 2\u00ba Col\u00f3quio Internacional de Decoloniza\u00e7\u00e3o e Psican\u00e1lise, que acontecer\u00e1 entre 13 e 15 de novembro, na UFMG, Belo Horizonte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma e representante do Departamento de Psican\u00e1iise no Movimento Articula\u00e7\u00e3o das Entidades Psicanal\u00edticas Brasileiras.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Danto, Elizabeth A. <em>As cl\u00ednicas publicas de Freud, <\/em>p. XX.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Obra aberta de pequenos registros de coletivos cl\u00ednicos em movimento retrata a atualidade da fun\u00e7\u00e3o social da psican\u00e1lise brasileira. Um convite \u00e0 leitura, por Ana Patitucci.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[81],"tags":[83],"edicao":[216],"autor":[217],"class_list":["post-2667","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leitura","tag-leituras","edicao-boletim-68","autor-ana-claudia-patitucci","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2667","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2667"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2667\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2672,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2667\/revisions\/2672"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2667"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2667"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}