{"id":2684,"date":"2023-09-18T23:56:06","date_gmt":"2023-09-19T02:56:06","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2684"},"modified":"2023-09-21T13:57:26","modified_gmt":"2023-09-21T16:57:26","slug":"o-estrangeiro-e-as-varias-formas-de-segregacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/09\/18\/o-estrangeiro-e-as-varias-formas-de-segregacao\/","title":{"rendered":"O estrangeiro e as v\u00e1rias formas de segrega\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O estrangeiro e as v\u00e1rias formas de segrega\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Maria Beatriz Vannuchi<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 17 de junho deste ano o Departamento de Psican\u00e1lise promoveu a mesa O<em> estrangeiro e as v\u00e1rias formas de segrega\u00e7\u00e3o<\/em>, uma atividade da FLAPPSIP<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> .<\/p>\n<p>Desde o ano de 2017, nossa associa\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica vem participando da FLAPPSIP,\u00a0 que re\u00fane v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica Latina, e tem se dedicado a pensar pr\u00e1ticas psicanal\u00edticas enraizadas no contexto geopol\u00edtico, como apontou F\u00e1tima Vicente. A\u00a0 proposta \u00e9 de trabalhar os conceitos da teoria e da cl\u00ednica interpeladas pelas condi\u00e7\u00f5es sociais espec\u00edficas de cada um desses pa\u00edses, mas tamb\u00e9m, n\u00e3o esquecer o passado colonial comum a todos, que historicamente cunhou condi\u00e7\u00f5es de segrega\u00e7\u00e3o, a ponto de serem naturalizadas.<\/p>\n<p>Neste ano em que 10 associa\u00e7\u00f5es latinoamericanas est\u00e3o convidadas a participar do 12\u00ba Congresso com o tema: <em>Psican<\/em><em>\u00e1lise: bordas e transbordamentos: <\/em><em>transforma<\/em><em>\u00e7\u00f5es em tempo de excesso<\/em>, esta mesa anunciou a riqueza das trocas que nos espera.<\/p>\n<p>Helena Albuquerque apresentou o tema da mesa evocando a famosa novela de Albert Camus, <em>O estrangeiro<\/em>, e percorreu distintas condi\u00e7\u00f5es de estrangeiridade que caracterizam o humano, introduzindo\u00a0 a quest\u00e3o que seria trabalhada por diferentes mas\u00a0 convergentes perspectivas e contribui\u00e7\u00f5es desta mesa bil\u00edngue.<\/p>\n<p>Em face da complexidade das apresenta\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m pela condi\u00e7\u00e3o de not\u00edcia desse texto, escolhi pin\u00e7ar um aspecto de cada uma das falas, que certamente n\u00e3o abarca a riqueza\u00a0 dessas contribui\u00e7\u00f5es, mas traz algumas pe\u00e7as do que foram essas falas, a partir do que mais me tocaram.<\/p>\n<p>Jorge Cantis, da\u00a0 ASAPPIA, da Argentina, trouxe seu\u00a0 trabalho sobre a a cl\u00ednica\u00a0 com o desamparo e as crises dolorosas decorrentes das rupturas que as migra\u00e7\u00f5es provocam. A perda de refer\u00eancias desencadeia estados de vulnerabilidade que requerem um trabalho de luto. E, por vezes, a dor da perda produz uma tal <em>drenagem pulsional<\/em> que chega a alterar as fun\u00e7\u00f5es de autoconserva\u00e7\u00e3o e as possibilidades de liga\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. Quando isso incide na impossibilidade de fazer la\u00e7os, ficaria caracterizada uma <em>situa\u00e7\u00e3<\/em><em>o traum<\/em><em>\u00e1<\/em><em>tica<\/em>.<\/p>\n<p>Lembrou que, no isolamento da pandemia de Covid 19, tivemos algo da viv\u00eancia que\u00a0\u00a0 chamamos de experi\u00eancia de migra\u00e7\u00e3o, ao que Silvia Alonso, no <em>chat<\/em>, sublinhou que todos n\u00f3s fomos <em>um pouco estrangeiros<\/em>, nos tempos da pandemia. Cantis acrescentou que observou um fen\u00f4meno de retra\u00e7\u00e3o narc\u00edsica e de intensifica\u00e7\u00e3o da endogamia, como ganho secund\u00e1rio do isolamento.\u00a0 Ainda teremos bastante a escutar e falar sobre os paradoxos da estrangeiridade e do excesso familiar nestes tempos.<\/p>\n<p>Particularmente rico foi o seu apontamento cl\u00ednico com acento na economia pulsional, de que no trauma de migra\u00e7\u00e3o, mais al\u00e9m da estrangeiridade, h\u00e1 uma marca de <em>ex\u00edlio<\/em>, com a\u00a0 perda da l\u00edngua materna, ou original, como ele\u00a0 nomeou. A perda da l\u00edngua original pode ser brutal pela dimens\u00e3o sem\u00e2ntica, certamente, mas mais especificamente pela <em>musicalidade da l\u00ed<\/em><em>ngua<\/em>. Perdem-se fonemas, tons e ritmos, e essa perda intensifica o desamparo. Segundo ele, para al\u00e9m da imposs\u00edvel tradu\u00e7\u00e3o entre uma l\u00edngua e outra, isso pode gerar um fracasso identificat\u00f3rio. E, nessas situa\u00e7\u00f5es, adverte para a import\u00e2ncia da an\u00e1lise ocorrer entre um analista e um analisante que tenham essa l\u00edngua e essa musicalidade em <em>comum,<\/em> para a recupera\u00e7\u00e3o da possibilidade de falar e ser escutado pelo outro, para o reinvestimento nos la\u00e7os. Como foi lembrado no debate posterior \u00e0s apresenta\u00e7\u00f5es, isso tamb\u00e9m foi um dado nas an\u00e1lises de residentes estrangeiros durante a pandemia.<\/p>\n<p>Dunia Samame, da CCPl do Peru, fez uma consistente descri\u00e7\u00e3o sobre o lugar do estrangeiro nos pactos sociais, baseada na concep\u00e7\u00e3o de que os la\u00e7os de uma coletividade sempre implicam movimentos de hierarquiza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o e que, em\u00a0 decorr\u00eancia disso, o que est\u00e1 fora, ou o estrangeiro, \u00e9 visto e sentido como perigoso. Lembrou o que Freud denomina de <em>narcisismo das\u00a0 pequenas diferen\u00e7as<\/em>, propondo que as forma\u00e7\u00f5es coletivas, em sua fascina\u00e7\u00e3o pela identidade, desenham muitas vezes\u00a0 grandes diferen\u00e7as, separando o bom interior do exterior amea\u00e7ador. Isso fica evidente nas hist\u00f3rias de nossos pa\u00edses, com a etnologiza\u00e7\u00e3o do sofrimento ps\u00edquico no racismo contra negros e ind\u00edgenas,\u00a0 levando ao\u00a0 fen\u00f4meno de\u00a0 \u201cmanicoloniza\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, pela hist\u00f3rica\u00a0 desumaniza\u00e7\u00e3o e seu efeito de adoecimento ps\u00edquico do outro do branco colonizador.<\/p>\n<p>Discorreu sobre figuras das rela\u00e7\u00f5es de estrangeiridade em tr\u00eas escritos de fic\u00e7\u00e3o e\u00a0\u00a0 destacou que a \u00e9tica psicanal\u00edtica n\u00e3o s\u00f3 parte do trabalho com o estrangeiro em n\u00f3s, como que no campo das diferen\u00e7as entramos em contato com os fen\u00f4menos do\u00a0 desconhecimento, reconhecimento e da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Concluiu sua fala ressaltando que essa \u00e9tica vai numa dire\u00e7\u00e3o distinta do ato de receber o estrangeiro como h\u00f3spede, o que ainda resguarda uma soberania identit\u00e1ria. O acolhimento das diferen\u00e7as gera a cria\u00e7\u00e3o do <em>comum,<\/em> que implica a ren\u00fancia \u00e0 paix\u00e3o pela mesmidade.<\/p>\n<p>Nossa colega do Departamento de Psican\u00e1lise, Heidi Tabacof, trouxe um rico relato de\u00a0\u00a0 sua escuta cl\u00ednico-institucional como ferramenta de acolhimento da alteridade e supera\u00e7\u00e3o da segrega\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s destas\u00a0 experi\u00eancias citou institui\u00e7\u00f5es de trabalho com a condi\u00e7\u00e3o de estrangeiridade, tanto nas cl\u00ednicas sociais, quanto nas cl\u00ednicas p\u00fablicas, como na escuta dos efeitos do racismo, mas tamb\u00e9m ou com o que poder\u00edamos chamar de outridade na s\u00e9rie <em>Psicanalistas que falam<\/em><strong>, <\/strong>por ela dirigida.<\/p>\n<p>Pela import\u00e2ncia destes trabalhos, mas tamb\u00e9m pela amizade que nos toca na partilha\u00a0 do car\u00e1ter destes trabalhos, sua fala me emocionou. Especialmente no relato do trabalho coletivo na nossa institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica onde a escuta de falas que n\u00e3o eram escutadas e do que ficava como \u201cestrangeiro\u201c a esta institui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica gerou\u00a0 mudan\u00e7as importantes.<\/p>\n<p>Dando lugar a falas de duas alunas negras de nossos cursos, tomadas como uma\u00a0 convoca\u00e7\u00e3o ao trabalho com a segrega\u00e7\u00e3o racial nos la\u00e7os de nossa sociedade, e tamb\u00e9m na tradi\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, abriu-se um espa\u00e7o de revela\u00e7\u00e3o da repeti\u00e7\u00e3o da figura de estrangeiro perigoso projetada na popula\u00e7\u00e3o negra. O movimento pol\u00edtico de escutar o racismo entre n\u00f3s, t\u00e3o cruel e fundante da\u00a0 <em>brasilidade<\/em>, teve como ato inicial o evento durante todo ano de 2012, <em>O racismo e o negro no Brasil: q<\/em><em>uest<\/em><em>\u00f5es para a p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1lise<\/em>, que depois veio a se tornar uma publica\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o do Grupo <em>A cor do mal-estar, do<\/em><em> trauma<\/em><em> ao letramento<\/em>, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de cotas raciais, \u00e0 abertura e sustenta\u00e7\u00e3o de dispositivos de letramento, tanto para professores como para alunos do Departamento, \u00e0 inclus\u00e3o de psicanalistas negros como professores convidados em nosso curso de forma\u00e7\u00e3o. Todo esse processo tamb\u00e9m foi gerado e acompanhado por um\u00a0 instrumento de acolhimento daqueles que aportavam o desejo de novos campos e grupos\u00a0 de pesquisa e de cl\u00ednica, a\u00a0 Incubadora de ideias.<\/p>\n<p>Tomar o racismo como quest\u00e3o que nos cabe corresponde \u00e0 postura de fazer conjugar os tra\u00e7os que o Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae sempre tomou\u00a0 como marca de distin\u00e7\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica no campo da Psican\u00e1lise Brasileira.<\/p>\n<p>Nesse processo somos um tanto estrangeiros, outro tanto arquitetos e outro, ainda,\u00a0 habitantes dos espa\u00e7os comuns. N\u00e3o \u00e9 pac\u00edfico, nem indolor, encontrar as nossas resist\u00eancias que temos\u00a0 analisado, tanto\u00a0 desenhando brechas nos espa\u00e7os internos, quanto nas trocas com as institui\u00e7\u00f5es estrangeiras-amigas.<\/p>\n<p>Por fim, no <em>chat<\/em> houve uma conversa bastante interessante sobre as contribui\u00e7\u00f5es apresentadas, ampliando ou pontuando as falas dos palestrantes.<\/p>\n<p>Termino este breve relato convidando a assistir ao material dispon\u00edvel em nosso <em>site<\/em> sobre esse encontro.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Comiss\u00e3o Organizadora: Grupo de Apoio Flappsip<br \/>\nDanielle M. Breyton (delegada Flappsip)<br \/>\nHelene Albuquerque (delegada Flappsip)<br \/>\nMara Selaibe, Maria Aparecida Barbirato, Silvia Alonso e Silvia Ribes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Conceito forjado por Emiliano Camargo David, do Instituto Amma, Psiqu\u00ea e Negritude.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Site do Departamento\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?mpg=07.08.51\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?mpg=07.08.51<\/a><br \/>\n&#8211; Youtube do Departamento:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2-Cmny0ojNk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2-Cmny0ojNk<\/a><br \/>\n&#8211; Youtube do Sedes:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ciRh5wCF0Yg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ciRh5wCF0Yg<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Breve relato sobre nossa mesa FLAPPSIP entre institui\u00e7\u00f5es estrangeiras-amigas anuncia pot\u00eancia do Congresso que nos espera. Por Maria Beatriz Vannuchi.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[49],"edicao":[216],"autor":[223],"class_list":["post-2684","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-flappsip","edicao-boletim-68","autor-maria-beatriz-vannuchi","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2684"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2684\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2781,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2684\/revisions\/2781"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2684"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2684"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}