{"id":2690,"date":"2023-09-19T00:07:15","date_gmt":"2023-09-19T03:07:15","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2690"},"modified":"2023-09-19T00:07:15","modified_gmt":"2023-09-19T03:07:15","slug":"ze-celso-interprete-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/09\/19\/ze-celso-interprete-do-brasil\/","title":{"rendered":"Z\u00e9 Celso, int\u00e9rprete do Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Z<\/strong><strong>\u00e9 <\/strong><strong>C<\/strong><strong>elso<\/strong><strong>, <\/strong><strong>int\u00e9rprete do<\/strong><strong> B<\/strong><strong>rasil<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Mauro Pergaminik Meiches<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O convite para escrever sobre Z\u00e9 Celso no tempo de sua morte vem do livro que escrevi nos anos 90 sobre o Teatro Oficina, originalmente uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado. Ele vinha de um longo per\u00edodo, ap\u00f3s o ex\u00edlio pol\u00edtico, de luta cultural para reabrir o Oficina com v\u00e1rias obras j\u00e1 escritas prontas para serem encenadas. Nesse momento, interpretei esses projetos como movimentos de desejo e aproximei-os da teoria das puls\u00f5es.<\/p>\n<p>Depois da defesa, deixei um exemplar para ele num s\u00e1bado \u00e0 tarde, e segunda-feira na hora do almo\u00e7o recebi um telefonema muito entusiasmado. Na montagem de <em>Hamlet<\/em>, que reinaugura o teatro, mas que estreou no Sesc Pompeia, ele faz uma discreta men\u00e7\u00e3o ao trabalho \u00e0 guisa de agradecimento, marcando um momento de virada para si.<\/p>\n<p>Era j\u00e1 o in\u00edcio desta era do Oficina que se estende at\u00e9 agora, mais uma vez gloriosa, lotada de p\u00fablico, pol\u00eamica, ousada.<\/p>\n<p>Num terceiro tempo, recente, Z\u00e9 escreveu o pref\u00e1cio para a segunda edi\u00e7\u00e3o do livro. Transfer\u00eancias cruzadas\u2026<\/p>\n<p>Z\u00e9 Celso morreu v\u00edtima de um inc\u00eandio! Banal, catastr\u00f3fico, que o atinge com a sa\u00fade debilitada e consuma o que tanto tem\u00edamos mas j\u00e1 antev\u00edamos. Na encena\u00e7\u00e3o pr\u00e9 pandemia de <em>M<\/em><em>acumba<\/em><em> A<\/em><em>ntropof\u00e1gica<\/em>, uma corifeia falava na porta de entrada do teatro na rua Jaceguai: <em>N<\/em><em>\u00e3o<\/em><em>, Z<\/em><em>\u00e9 <\/em><em>C<\/em><em>elso n\u00e3o vai morrer agora<\/em><em>!<\/em> Enfim, o acaso que o leva obedece a uma defini\u00e7\u00e3o do tr\u00e1gico: em um instante, o antes e o depois tornam-se radicalmente diferentes. Um corte, um raio e tudo mudou.<\/p>\n<p>Tive com ele a primeira impress\u00e3o do conceito de tr\u00e1gico, que depois virou uma paix\u00e3o intelectual e um instrumento de trabalho cl\u00ednico. Foi atrav\u00e9s dele que li Nietzsche pela primeira vez. N\u00e3o \u00e9 pouco n\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa d\u00edvida pessoal est\u00e1 longe de ser \u00fanica. Como j\u00e1 escrevi v\u00e1rias vezes, o Oficina &#8220;fez a cabe\u00e7a&#8221; de gera\u00e7\u00f5es em plena ditadura militar. Os chamados filhos diletos da classe m\u00e9dia urbana iam a esse teatro assistir e, mais que tudo e num crescendo irrefre\u00e1vel, tentar novas maneiras de viver. Isso n\u00e3o pegou minha gera\u00e7\u00e3o, o que sempre lamento com muita dor de cotovelo, mas fazer o qu\u00ea? Vim depois e, \u00e0 minha maneira, herdei!<\/p>\n<p>A contracultura, a vers\u00e3o tropicalista do teatro brasileiro, o desmanche paulatino da sala teatral italiana (que fomentaram uma po\u00e9tica potent\u00edssima e muito pol\u00eamica), rumo ao ato n\u00e3o mais teatral, de escritura pr\u00f3xima do zero, uma representa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o representa, uma utopia incontest\u00e1vel, sinalizam uma dire\u00e7\u00e3o: encenar o imposs\u00edvel do desejo. Tem a ver com a hist\u00f3ria da arte em todas as suas linguagens mais radicais e inaugurais, tem a ver com a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Aproximar arte e vida causa estranhezas. E gra\u00e7as.<\/p>\n<p>O Oficina cutucou, sempre, costumes e hipocrisias. Z\u00e9 Celso foi um int\u00e9rprete do Brasil \u00e0 altura de seus maiores pensadores, dentro e fora do teatro. Tinha a vis\u00e3o totalizante de uma condi\u00e7\u00e3o aprendida junto \u00e0 trag\u00e9dia, ao princ\u00edpio tr\u00e1gico, mas tamb\u00e9m junto \u00e0 luta pol\u00edtica e cultural em seu sentido mais pedestre. E era um erudito de primeira grandeza, al\u00e9m de tocar piano! Tudo isso vinha traduzido num estilo que desorientava a interpreta\u00e7\u00e3o consagrada, provocava uma fric\u00e7\u00e3o de sentido, claro, para quem se dispusesse a experimentar. Muitas respostas a isso foram violentas, outras mais educadas insistiram em reconduzir este trabalho para um lugar recalcado. Sabemos que n\u00e3o d\u00e1 certo! Conheceram ambas a mesma resposta desconcertante da boca do pr\u00f3prio: <em>C<\/em><em>omo voc\u00eas s\u00e3o caba\u00e7o<\/em><em>!!!!<\/em><\/p>\n<p>Resgato algumas mem\u00f3rias, leitores mais velhos v\u00e3o me acompanhar, outros, mais jovens, talvez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>PRIMEIRA CENA<\/p>\n<p>Viveu-se em S\u00e3o Paulo uma era de horrores na ditadura militar (n\u00e3o gosto nem de lembrar); um nome resumia, ao mesmo tempo, a marca da tirania e de muita coisa pr\u00f3xima ao que chamamos agora de bolsonarismo. Paulo Maluf. Governador bi\u00f4nico (n\u00e3o eleito), um l\u00edder fascista, truculento, corrupto e por a\u00ed vai. O Oficina queria ser tombado para ser reformado. O tombamento sai depois de muita batalha e a trupe vai a Maluf pedir financiamento para a reforma, uma demoli\u00e7\u00e3o na verdade, que dar\u00e1 lugar \u00e0 atual configura\u00e7\u00e3o. Na chegada ao gabinete, os saltimbancos entoam hinos a Dioniso, deus do teatro, deus do transe orgi\u00e1stico, numa cena inspirada nas <em>B<\/em><em>acantes<\/em>, de Eur\u00edpides, um dos projetos j\u00e1 escrito que foi encenado depois. Convidam e Maluf topa ler o papel de Penteu, o rei repressor de Tebas que queria enquadrar as mulheres embriagadas por obra de Dioniso, as bacantes. Isto \u00e9 o in\u00edcio do texto. Quem fazia Dioniso era Elke Maravilha, figura \u00edmpar da cena paulistana, modelo absolutamente extravagante, alta, imensa, um monumento \u00e0 cultura <em>drag <\/em>que s\u00f3 vir\u00e1 depois. Ap\u00f3s a leitura, a trupe recusa a oferta de dinheiro de Maluf e pede MAIS. A cara, a m\u00e1scara do governador cai!<\/p>\n<p>A performance tinha, al\u00e9m do texto grego, o roteiro baseado numa pe\u00e7a did\u00e1tica de Bertold Brecht sobre <em>O acordo<\/em> (que tamb\u00e9m ser\u00e1 encenada mais tarde). Menciono detalhes para revelar as camadas de erudi\u00e7\u00e3o sempre presentes nos trabalhos deste brechtiano antrop\u00f3fago, que devora sem cessar nem hesitar matrizes da hist\u00f3ria universal do teatro, para construir um teatro arqueologicamente atual.<\/p>\n<p>O atrito entre o poder secular e o religioso da arte estampou-se em todos os jornais. A arte saiu de casa sem sair da representa\u00e7\u00e3o, refez o teatro no centro do poder da p\u00f3lis. Linha t\u00eanue, malandra, que em linguagem de rua pode ser dita: <em>P<\/em><em>hoderam o governador<\/em><em>! <\/em>(Isto \u00e9 bem Teatro Oficina) Pegaram o malandro no pulo. A m\u00e1scara de generoso virou p\u00f3!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>SEGUNDA CENA<\/p>\n<p>Em 1992, Z\u00e9 Celso e Marcelo Drummond, seu companheiro, se juntam a Raul Cortez &#8211; ator de primeira linha j\u00e1 falecido (como \u00e9 ef\u00eamera a gl\u00f3ria!), que teve passagem pelo come\u00e7o do Oficina nos anos 60 -, para encenar <em>A<\/em><em>s boas<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o do Z\u00e9 para <em>A<\/em><em>s criadas<\/em> (<em>L<\/em><em>es<\/em> <em>bonnes<\/em>), de Jean Genet. Uma montagem <em>trans<\/em>, <em>avant la lettre<\/em>! Duas empregadas, na aus\u00eancia da patroa, vestem suas roupas e se revezam nos pap\u00e9is de empregada e patroa, em cenas despudoradas de exibi\u00e7\u00e3o de puro sadismo ou de sutilezas abusivas caras \u00e0 domina\u00e7\u00e3o de classe (Genet), como o leitor preferir. A um certo momento a patroa chega\u2026<\/p>\n<p>Raul Cortez fazia a patroa. Era conhecido por ser uma <em>prima donna<\/em>. O clima nos bastidores esquenta; h\u00e1 uma briga e um rompimento. Na declara\u00e7\u00e3o aos jornais, um ato de subvers\u00e3o: <em>E<\/em><em>mpregadas despedem patroa<\/em><em>!<\/em><\/p>\n<p>Estamos num tempo sem direitos trabalhistas para empregados dom\u00e9sticos, ali\u00e1s ainda bem longe deles. \u00c9 um belisc\u00e3o na pele do nosso eterno e incur\u00e1vel patrimonialismo, pequeno desconforto, do\u00eddo para alguns, que vem de um lugar inesperado, potente, demolidor. N\u00e3o importa, penso, o tamanho de sua repercuss\u00e3o. Sublinho a l\u00f3gica da invers\u00e3o que preside o olhar para o mundo e da qual h\u00e1 in\u00fameros outros exemplos nessa trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Aprendi com o Oficina do meu tempo (hist\u00f3rico e pessoal) a pensar diferente, a olhar diverso: um lado espetacular das coisas se deu a ver num instante e perpetuou uma inquieta\u00e7\u00e3o desejante. Num tempo de <em>insight<\/em> totalizador e conclusivo, enxerguei o mundo de outro \u00e2ngulo. Uma interpreta\u00e7\u00e3o in\u00e9dita do pa\u00eds, que inclui sua origem remota, sua geografia, seu <em>modus operandi <\/em>nefasto e sedutor, sua beleza e sua crueldade tornou-se uma chave de leitura.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o da arte se realizou est\u00e9tica e politicamente.<\/p>\n<p>Teatro e fora do teatro, antes e depois.<\/p>\n<p>Ao escolher contar aqui estes epis\u00f3dios e n\u00e3o o que se passou no teatro nas \u00faltimas d\u00e9cadas, estarei em d\u00edvida de bilh\u00f5es com o diretor de <em>O rei da vela<\/em>, de Oswald de Andrade, que pudemos rever em vers\u00e3o recente no Sesc Pinheiros. Z\u00e9 fazia D. Poloca e, de novo, declarava fazer uma D. Poloca <em>trans<\/em>! Sempre antenado ao seu tempo, ele encena de novo o texto que fala da usura e da penhora da vida. \u00c9 ou n\u00e3o uma foto instagram\u00e1vel do pa\u00eds?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>TERCEIRA CENA<\/p>\n<p>Uma \u00faltima, irresist\u00edvel. Z\u00e9 e Marcelo se casaram um m\u00eas antes do inc\u00eandio fatal. Ao declararem porque se casavam, disseram: <em>C<\/em><em>asamos para poder ter amantes<\/em><em>!<\/em><\/p>\n<p>Grande e querido Z\u00e9 Celso, com quem aprendi um pouco da coragem necess\u00e1ria para viver!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, autor de <em>U<\/em><em>ma puls\u00e3o espetacular:<\/em> <em>Psican\u00e1lise e<\/em><em> T<\/em><em>eatro<\/em>. S\u00e3o Paulo, Escuta, 1997. Segunda edi\u00e7\u00e3o, 2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A encena\u00e7\u00e3o do imposs\u00edvel do desejo na tocante escrita de Mauro Meiches. Sobre legado, heran\u00e7as e aprendizados. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[109],"tags":[128],"edicao":[216],"autor":[225],"class_list":["post-2690","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-homenagem","tag-homenagem","edicao-boletim-68","autor-mauro-pergaminik-meiches","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2690","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2690"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2690\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2691,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2690\/revisions\/2691"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2690"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2690"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2690"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2690"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2690"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}