{"id":2820,"date":"2023-11-17T13:39:14","date_gmt":"2023-11-17T16:39:14","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2820"},"modified":"2023-11-21T16:26:22","modified_gmt":"2023-11-21T19:26:22","slug":"a-escrita-da-vida-cotidiana-psicanalise-fora-da-clinica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/11\/17\/a-escrita-da-vida-cotidiana-psicanalise-fora-da-clinica\/","title":{"rendered":"A escrita da vida cotidiana &#8211; psican\u00e1lise fora da cl\u00ednica"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>A escrita da vida cotidiana \u2013 <\/strong><strong>psican<\/strong><strong>\u00e1lise fora da cl\u00ednica<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por S<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>rgio Telles<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Psican\u00e1lise \u201cfora da cl\u00ednica\u201d, mencionada no t\u00edtulo de nossa mesa; ou \u201cmente na linha de fogo\u201d, mote do recente congresso da IPA em Cartagena ou ainda o podcast <em>IPA off the couch<\/em> \u2013 a meu ver s\u00e3o tr\u00eas evid\u00eancias de uma mudan\u00e7a pol\u00edtica institucional significativa, visando inserir a psican\u00e1lise na discuss\u00e3o de quest\u00f5es p\u00fablicas e sociais.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que acompanha a psican\u00e1lise desde seus prim\u00f3rdios e que atingiu o auge durante o nazismo, quando os instrumentos anal\u00edticos, que poderiam ter detectado a destrutividade que se armava, n\u00e3o foram devidamente utilizados, como afirmou o prefeito de Berlim num outro congresso da IPA, em 1985.<\/p>\n<p>Jacques Derrida, no 2\u00ba Encontro dos Estados Gerais da Psican\u00e1lise, realizado em Paris, em 2000, defendeu vigorosamente o retorno da psican\u00e1lise ao debate pol\u00edtico. Afirmou ent\u00e3o ser imprescind\u00edvel a colabora\u00e7\u00e3o do pensamento anal\u00edtico em tr\u00eas fundamentais pilares da sociedade \u2013 a \u00e9tica, a pol\u00edtica e o jur\u00eddico. Lembra ele que, ao lado da conhecida resist\u00eancia que o mundo oferece \u00e0 psican\u00e1lise, \u00e9 importante que ela se d\u00ea conta da resist\u00eancia que, ela pr\u00f3pria, oferece ao mundo e a si mesma.<\/p>\n<p>Segundo Frosh, ao ir para \u201cfora da cl\u00ednica\u201d, a psican\u00e1lise assume que, de fato, possui um poder heur\u00edstico interpretativo grande demais para ficar restrito ao campo terap\u00eautico; reconhece que, apesar das eventuais obje\u00e7\u00f5es, est\u00e1 amplamente estabelecido ser ela hoje um indispens\u00e1vel instrumento para a compreens\u00e3o das ci\u00eancias humanas e sociais.<\/p>\n<p>Uma outra consequ\u00eancias de sua sa\u00edda para \u201cfora\u201d \u00e9 perceber que sua capacidade interpretativa do social tende a assumir uma conota\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica ao poder, o que gera uma tens\u00e3o entre o disruptivo pr\u00f3prio de suas descobertas e a tradicional postura institucional conformista ou burocratizada, que a mant\u00e9m na retaguarda.<\/p>\n<p>Frosh alerta para o que chama de tend\u00eancia \u201ccolonialista\u201d da psican\u00e1lise ao se aproximar dos demais campos de conhecimento. Em fun\u00e7\u00e3o de sua for\u00e7a, a psican\u00e1lise tende a colonizar, a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de amo e escravo com os demais saberes, sem facilitar o franco com\u00e9rcio com eles. Ela tende a fertiliz\u00e1-los, sim, mas sem se deixar fertilizar por eles.<\/p>\n<p>A abertura para o \u201cfora\u201d tenta, justamente, corrigir essa distor\u00e7\u00e3o, como, por exemplo, ao reconhecer a necessidade de dar mais \u00eanfase \u00e0s quest\u00f5es de classe social, g\u00eanero e ra\u00e7a, que at\u00e9 recentemente recebiam pouca aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nessa mesa de escritores, parece-me que nos cabe falar de nossa escrita enquanto pr\u00e1tica da psican\u00e1lise \u201cfora da cl\u00ednica\u201d. Nosso modelo, como sempre, \u00e9 Freud, com seu inaugural <em>Psicopatologia da vida cotidiana<\/em>, onde, de forma acess\u00edvel ao grande p\u00fablico, mostrou a presen\u00e7a do inconsciente \u201cfora\u201d, a c\u00e9u aberto, nas condutas, conversas, comportamentos de pessoas nas mais diversas situa\u00e7\u00f5es, demonstrando que essa dimens\u00e3o do psiquismo \u00e9 universal, compartilhada por todos e n\u00e3o apenas por aquelas que apresentam transtornos ps\u00edquicos.<\/p>\n<p>Muitos de n\u00f3s seguimos seu exemplo. Ocupamos posi\u00e7\u00f5es na m\u00eddia, analisando e interpretando aspectos da vida sociocultural e pol\u00edtica, visando divulgar o conhecimento anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Pessoalmente, continuo achando a leitura anal\u00edtica de cinema e de livros um excelente ve\u00edculo para mostrar ao p\u00fablico como funciona a mente do analista na produ\u00e7\u00e3o de suas interpreta\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es, na medida em que o material interpretado est\u00e1 franqueado a todos. Para tanto, procuro escolher sempre filmes nos quais a conflitiva inconsciente seja decisiva no desenvolvimento do enredo e que tenha uma estrutura narrativa original, que nos proporcione tamb\u00e9m um gozo est\u00e9tico. Lars von Trier, Terrence Malick, Peter Greenaway, David Lynch, Jean-Luc Godard, diretores que admiro, s\u00e3o alguns bons exemplos dessa escolha. \u00c9 claro que essa sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica que n\u00e3o se possa examinar filmes de corte mais popular.<\/p>\n<p>Alguns anos atr\u00e1s, quando comecei a publicar meus textos na imprensa, a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica de filmes e livros era vista com retic\u00eancias, a dita \u201can\u00e1lise aplicada\u201d era condenada, julgava-se que n\u00e3o se podia interpretar \u201cfora da cl\u00ednica\u201d. Com o tempo, as obje\u00e7\u00f5es caducaram. Glen Gabbard h\u00e1 muito criou uma se\u00e7\u00e3o sobre cinema no <em>International Journal<\/em>, h\u00e1 poucos meses foi criado o <em>Freud Film Club<\/em> no Freud Museum de Londres e hoje s\u00e3o inumer\u00e1veis os grupos de cinema e psican\u00e1lise, o que acho muito bom.<\/p>\n<p>Nossa escrita est\u00e1 a servi\u00e7o da psican\u00e1lise, no intuito de divulg\u00e1-la e defend\u00ea-la dos recorrentes ataques. Mas a psican\u00e1lise a impregna por outras vias. Ela nos d\u00e1 elementos para investigar as fontes de nossa criatividade, as motiva\u00e7\u00f5es inconscientes do desejo de escrever, os temas que escolhemos, a forma que usamos para express\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u00c9 reconhecida e bem explorada a proximidade entre psican\u00e1lise e literatura, na medida em que ambas se apoiam na linguagem e visam a compreens\u00e3o da alma humana. Essa proximidade provoca rusgas.<\/p>\n<p>Uma delas \u00e9 justamente a postura colonizadora da psican\u00e1lise, que age como se estivesse de posse de todos os \u201csegredos\u201d da literatura.\u00a0 Aqui cabe a cr\u00edtica contra a \u201caplica\u00e7\u00e3o\u201c da psican\u00e1lise, ou seja, a imposi\u00e7\u00e3o imperial de seus conhecimentos a um outro campo, sem levar em conta as peculiaridades ali envolvidas e o quanto poderia ser alterada por aquele contato. Ao inv\u00e9s da \u201caplica\u00e7\u00e3o\u201d, imp\u00f5e-se a \u201cimplica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A proximidade entre literatura e psican\u00e1lise \u00e9 tanta que alguns te\u00f3ricos julgam ser a psican\u00e1lise um \u201cnovo g\u00eanero liter\u00e1rio\u201d. Lionel Trilling (1951) diz que Freud contribui com a literatura ao trazer sua vis\u00e3o tr\u00e1gica da natureza humana e ao mostrar o funcionamento \u201cpo\u00e9tico\u201d da mente humana, desde que ela obedece \u00e0s leis liter\u00e1rias da met\u00e1fora e meton\u00edmia (condensa\u00e7\u00e3o e deslocamento).<\/p>\n<p>Steven Marcus (1975), ao escrever sobre o caso Dora, afirma que Freud criou um novo g\u00eanero liter\u00e1rio, o da hist\u00f3ria de caso (<em>case history<\/em>). Marcus aponta v\u00e1rias t\u00e9cnicas liter\u00e1rias modernistas usadas por Freud, como a figura do \u201cnarrador n\u00e3o confi\u00e1vel\u201d e uma estrutura narrativa fragmentada a ser reconstru\u00edda.<\/p>\n<p>\u00c9 grande a semelhan\u00e7a entre a associa\u00e7\u00e3o livre e o chamado \u201cfluxo de consci\u00eancia\u201d, t\u00e9cnica liter\u00e1ria inovadora utilizada amplamente por Joyce, Virginia Woolf e Proust, apesar de te\u00f3ricos e os pr\u00f3prios escritores n\u00e3o estabelecerem um nexo direto entre os dois procedimentos. Atribui-se a cria\u00e7\u00e3o do \u201cfluxo de consci\u00eancia\u201d ao escritor franc\u00eas \u00c8douard Dujardin. Entretanto, Ellmann, bi\u00f3grafo de Joyce, relata que uma amiga pr\u00f3xima de Joyce o censurava acerbamente por nunca ter reconhecido\u00a0 publicamente sua d\u00edvida com Freud.<\/p>\n<p>Por sua vez, ainda evidenciando a proximidade entre psican\u00e1lise e literatura, o pr\u00f3prio Freud refere-se ao poeta alem\u00e3o Schiller como um precursor da associa\u00e7\u00e3o livre.<\/p>\n<p>Steve Marcus diz: \u201cA psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 liter\u00e1ria apenas por se expressar de forma narrativa, mas por tratar os pacientes como seres liter\u00e1rios, personagens em busca de hist\u00f3rias que fa\u00e7am sentido e que lutam com a linguagem para consegui-lo\u201d.<\/p>\n<p>Peter Brooks (1982) pensa que, em <em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>, Freud tenta criar um modelo narrativo para a pr\u00f3pria vida, maneja a Puls\u00e3o de Vida e a Puls\u00e3o de Morte como personagens em conflito, \u00e0 procura de um desfecho definitivo.<\/p>\n<p>Lacan, como \u00e9 sabido, enfatiza a liga\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise com a linguagem, mas n\u00e3o se debru\u00e7a especificamente sobre literatura, a n\u00e3o ser no trato do conto de Poe, &#8220;A carta perdida&#8221;, que deu margem a uma pol\u00eamica famosa com Derrida.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 novidade que a psican\u00e1lise tem influenciado fortemente a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria\u00a0 com seus temas e sua vis\u00e3o de mundo, como mostra, por exemplo, a obra de Philip Roth, explicitamente em livros como <em>O complexo de Portnoy<\/em>,\u00a0 <em>Minha vida como homem<\/em>, <em>O seio<\/em>.<\/p>\n<p>Mas tudo isso o pr\u00f3prio Freud j\u00e1 havia reconhecido ao dizer que seus casos cl\u00ednicos mais pareciam contos liter\u00e1rios que relatos cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Se os casos cl\u00ednicos parecem contos liter\u00e1rios \u2013 e eu mesmo escrevi um livro de casos baseado nesse pressuposto &#8211; vale tamb\u00e9m o reverso: a escrita liter\u00e1ria pode parecer um tratamento anal\u00edtico. Enquanto escrevia seu romance <em>Ao farol<\/em>, Virginia Woolf disse: \u201dSuponho que fiz para mim mesma o que os psicanalistas fazem para seus pacientes. Expressei algumas emo\u00e7\u00f5es sentidas profundamente por muito tempo. E ao express\u00e1-las, eu as expliquei e pude ent\u00e3o finalmente deix\u00e1-las de lado\u201d.<\/p>\n<p>Virginia Woolf aponta para a dimens\u00e3o terap\u00eautica da escrita em si. \u00c9 um momento em que o ego organiza o tumulto interno e toma o controle, cont\u00e9m a ang\u00fastia, a confus\u00e3o e o medo, dispondo-os ordenadamente num texto escrito. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a pr\u00e1tica de escrever di\u00e1rios, compreensivelmente t\u00e3o frequente na adolesc\u00eancia, \u00e9 habitual entre escritores, que nele depositam a ganga bruta da qual sair\u00e1 depurado o ouro de suas obras. A escrita de um di\u00e1rio pode se assemelhar ao exerc\u00edcio de uma autoan\u00e1lise.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o autobiogr\u00e1fica pr\u00f3pria dos di\u00e1rios \u00e9 valorizada por Derrida. Ele afirma que \u2013 em seu caso pessoal &#8211; o desejo de escrever teve conota\u00e7\u00f5es eminentemente autobiogr\u00e1ficas. Suas considera\u00e7\u00f5es podem ser generalizadas. O sujeito descreve a si mesmo, suas conting\u00eancias, faz confid\u00eancias, confiss\u00f5es; diz o que \u00e9, como \u00e9, porque \u00e9. Mas logo se d\u00e1 conta que pode ir al\u00e9m daquilo que <em>de fato ocorreu, <\/em>seu pensamento pode focar naquilo que <em>n\u00e3o ocorreu, <\/em>no que <em>poderia ter ocorrido, <\/em>e, assim, a escrita autobiogr\u00e1fica cede espa\u00e7o para a escrita ficcional, regida n\u00e3o mais pela suposta realidade hist\u00f3rica e sim pela fantasia, pelo desejo.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia do g\u00eanero autobiogr\u00e1fico na escrita liter\u00e1ria, que aproxima a literatura da psican\u00e1lise, levanta algumas quest\u00f5es para Derrida. Pergunta-se ele &#8211; \u00e9 poss\u00edvel algu\u00e9m escrever uma autobiografia, ou seja, escrever sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, se a parte mais verdadeira dessa hist\u00f3ria est\u00e1 reprimida? Mais ainda, pode ele afirmar ser autor de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria? Ou a hist\u00f3ria que ele julga ser a sua lhe foi contada pelo Outro? Sua hist\u00f3ria \u00e9 o que houve ou a que ouviu?<\/p>\n<p>Sabemos que h\u00e1 v\u00e1rios tipos de escritas. O que distingue a escrita liter\u00e1ria de todas as outras? Como distinguir a escrita liter\u00e1ria da escrita psicanal\u00edtica?<\/p>\n<p>Derrida tem extensos textos sobre literatura. Ele a rastreia desde os debates de Plat\u00e3o sobre a palavra falada e a escrita, a primeira entendida como <em>logos <\/em>e verdade, e a segunda como <em>m\u00edmesis<\/em> e mentira. Seria essa discuss\u00e3o um dos elementos b\u00e1sicos de seu ambicioso projeto de cr\u00edtica \u00e0 metaf\u00edsica que permeia toda a filosofia ocidental.<\/p>\n<p>Num de seus escritos, afirma que o que distingue a escrita liter\u00e1ria das demais \u00e9 o fato de que ela permite \u201cdizer tudo, dizer qualquer coisa\u201d \u2013 \u201c<em>tout dire<\/em>\u201d, em franc\u00eas.<\/p>\n<p>Esse \u201ctudo dizer\u201d significa que a literatura pressup\u00f5e uma liberdade total de express\u00e3o para dizer a verdade.<\/p>\n<p>Essa liberdade, esse \u201ctudo dizer\u201d ou \u201cdizer qualquer coisa\u201d deve ser entendida como um <em>princ<\/em><em>\u00ed<\/em><em>pio<\/em>, pois na realidade h\u00e1 muitos impedimentos, quer seja os imediatamente postos pelos poderes e autoridades vigentes que se sentem amea\u00e7ados pela verdade, ou os de ordem afetiva, pessoal, que restringem em muito a a\u00e7\u00e3o dessa liberdade.<\/p>\n<p>O \u201cdizer tudo\u201d ou \u201cdizer qualquer coisa\u201d da literatura tem uma proximidade com as recomenda\u00e7\u00f5es freudianas sobre a associa\u00e7\u00e3o livre \u2013 quando o paciente \u00e9 informado pelo analista que deve \u201cdizer tudo\u201d na sess\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u201ctudo dizer\u201d na an\u00e1lise traz um paradoxo, pois o analista, ao prop\u00f4-lo, sabe de antem\u00e3o que h\u00e1 uma impossibilidade estrutural de ser cumprido, desde que os mecanismos de defesa (repress\u00e3o, cis\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o, proje\u00e7\u00e3o, n\u00e3o representa\u00e7\u00e3o etc.) impedem o acesso aos conte\u00fados inconscientes.<\/p>\n<p>O impedimento estrutural de \u201cdizer tudo\u201d na an\u00e1lise e na autobiografia talvez n\u00e3o ocorra na literatura. Ali essa dificuldade seria driblada com a figura do \u201cnarrador onisciente\u201d, que tudo sabe, inclusive os desejos e motiva\u00e7\u00f5es inconscientes dos personagens.<\/p>\n<p>E o que seria esse \u201ctudo dizer\u201d compartilhado pela literatura e a psican\u00e1lise? Talvez se refira \u00e0s nossas insuport\u00e1veis verdades mais intimas, n\u00f3s que somos vorazes canibais matricidas kleinianos, empedernidos parricidas freudianos, fratricidas kancyperianos, seres bionianos mergulhados no caos de evanescentes emo\u00e7\u00f5es \u00e0 procura de uma forma de express\u00e3o, enfim \u2013 n\u00f3s que somos sujeitos cheios de culpa em busca de puni\u00e7\u00e3o, procurando uma poss\u00edvel reden\u00e7\u00e3o com a repara\u00e7\u00e3o dos crimes realizados.<\/p>\n<p>O \u201ctudo dizer\u201d da literatura tem ainda uma semelhan\u00e7a com a parr\u00e9sia dos gregos, retomada por Foucault em seus \u00faltimos estudos. A parr\u00e9sia \u00e9 a coragem do homem comum de \u201ctudo dizer\u201d aos poderosos, gesto que o coloca imediatamente em grande risco, mas que n\u00e3o o impede de faz\u00ea-lo. \u00c9 a atitude altaneira do homem livre, oposta \u00e0 bajula\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o, atitudes pr\u00f3prias dos escravos e subalternos.<\/p>\n<p>Um exemplo liter\u00e1rio recente de parr\u00e9sia \u00e9 o escritor austr\u00edaco Thomas Bernhard, cuja implac\u00e1vel escrita exp\u00f4s de maneira muito direta e corajosa os desvios da sociedade austr\u00edaca frente ao nazismo, mas n\u00e3o apenas, o que lhe trouxe n\u00e3o poucos dissabores.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 quest\u00e3o da diferen\u00e7a entre a escrita liter\u00e1ria e escrita psicanal\u00edtica, penso que a literatura, com sua abertura e descompromisso a n\u00e3o ser com ela mesma e os v\u00e1rios n\u00edveis de significados e aspectos formais da linguagem, \u00e9 o contr\u00e1rio de um texto cient\u00edfico, que se esfor\u00e7a em transmitir uma informa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e definida. \u00c9 o que ocorre com a escrita psicanal\u00edtica, que tem um objetivo determinado &#8211; a transmiss\u00e3o do seu saber. Sem mencionar a dimens\u00e3o \u00e9tica, pois a psican\u00e1lise \u2013 em seu v\u00e9rtice terap\u00eautico \u2013 tem responsabilidades espec\u00edficas no trato com seres humanos. Dando um exemplo pessoal, na escrita de meus casos, embora esteja atento a seu aspecto narrativo formal, meu objetivo prec\u00edpuo \u00e9 o reproduzir o mais fielmente poss\u00edvel o ocorrido na sess\u00e3o, algo muito diferente do quando escrevo um texto liter\u00e1rio, ficcional, que me exige uma fidelidade exclusiva ao texto e a nada mais.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que analistas estejam impedidos de usar os recursos lingu\u00edsticos e liter\u00e1rios em seus relatos cl\u00ednicos e te\u00f3ricos, como vimos com o texto de Maria Carolina Scoz Monti, \u201cMecanismo de n\u00e1ufragos: o Ideal do Eu e seus perigos\u201d, que recebeu merecidamente o Pr\u00eamio Mario Martins. Sem mencionar o pr\u00f3prio Freud que, com seus escritos, recebeu o Pr\u00eamio Goethe de literatura.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Originalmente apresentado no 29o congresso brasileiro da FEBRAPSI, <em>O Eu com Isso: afetos em emerg\u00eancia<\/em>, em mesa cultural sobre Psican\u00e1lise e literatura, novembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Escritor e psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre pol\u00edticas institucionais e a pr\u00e1tica da escrita. Por S\u00e9rgio Telles.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[228],"edicao":[226],"autor":[227],"class_list":["post-2820","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-mundo-hoje","tag-politica-da-psicanalise","edicao-boletim-69","autor-sergio-telles","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2820","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2820"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2820\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2958,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2820\/revisions\/2958"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2820"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2820"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}