{"id":2822,"date":"2023-11-17T13:47:46","date_gmt":"2023-11-17T16:47:46","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2822"},"modified":"2023-11-21T16:24:31","modified_gmt":"2023-11-21T19:24:31","slug":"uma-provocacao-publica-em-resposta-a-outra-lembrar-e-resistir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/11\/17\/uma-provocacao-publica-em-resposta-a-outra-lembrar-e-resistir\/","title":{"rendered":"Uma provoca\u00e7\u00e3o p\u00fablica em resposta a outra: <em>Lembrar \u00e9 resistir!<\/em>"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Uma provoca\u00e7\u00e3o p\u00fablica em resposta a outra: <em>Lembrar \u00e9 resistir!<\/em><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Silvia Lopes de Menezes<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_2823\" aria-describedby=\"caption-attachment-2823\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2823\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/B69-19-300x200.jpg\" alt=\"Foto de Alice Vergueiro\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/B69-19-300x200.jpg 300w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/B69-19.jpg 401w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2823\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Alice Vergueiro<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A quarta-feira 28 de junho foi mais um dia de assombro. V\u00e1rios ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o noticiavam que o governador Tarc\u00edsio de Freitas havia promulgado uma lei que homenageia o coronel Erasmo Dias! Era o resultado de um projeto de lei apresentado pelo deputado estadual bolsonarista Frederico D\u2019Avila (PL), propondo batizar com o nome do torturador um viaduto em sua terra natal, a cidade de Paragua\u00e7u Paulista: o entroncamento localizado no quil\u00f4metro 475 da Rodovia Man\u00edlio Gobbi. Mas&#8230; Homenagem a torturador? De novo? Ora, o terr\u00edvel 17 de abril de 2016 n\u00e3o estava esquecido. Foi o dia em que um Brasil estarrecido ouviu o homem que ocuparia a presid\u00eancia de 2019 a 2022 bradando, em seu voto na C\u00e2mara dos Deputados pela aprova\u00e7\u00e3o do in\u00edcio de um processo de <em>impeachment<\/em> da presidenta Dilma Rousseff, outra homenagem que jamais deveria ter sido proferida. Disse o calhorda:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cNesse dia de gl\u00f3ria para o povo brasileiro, tem um nome que entrar\u00e1 para a hist\u00f3ria nessa data pela forma como conduziu os trabalhos dessa Casa. Parab\u00e9ns, presidente Eduardo Cunha! Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela fam\u00edlia e pela inoc\u00eancia das crian\u00e7as em sala de aula, que o PT nunca teve. Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de S\u00e3o Paulo, <u>pela mem\u00f3ria do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff<\/u>, pelo ex\u00e9rcito de Caxias, pelas nossas For\u00e7as Armadas, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto \u00e9 sim!\u201d (grifo nosso)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>A homenagem de 2016 n\u00e3o pode ser impedida. Tampouco gerou para seu ator as consequ\u00eancias cab\u00edveis pelo ato contr\u00e1rio aos princ\u00edpios de nossa Constitui\u00e7\u00e3o. O tal coronel Ustra foi o chefe do DOI-Codi (o Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00e3o do Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna de S\u00e3o Paulo, onde muitos militantes pol\u00edticos foram torturados nos anos 1970). Um homem com muitos simpatizantes, entretanto. Um s\u00edmbolo da repress\u00e3o pol\u00edtica na ditadura. E Dilma Rousseff foi a presidenta que criou a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, a maior iniciativa que j\u00e1 tivemos de resgate da mem\u00f3ria desse per\u00edodo terr\u00edvel de nossa hist\u00f3ria. Essa Comiss\u00e3o investigou, de 2012 a 2014, as graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos cometidas pelos agentes do Estado no per\u00edodo da ditadura e gerou um relat\u00f3rio muito extenso e completo, que obviamente desagradou as For\u00e7as Armadas e figuras como o derrotado nas urnas em 2022.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Mas a homenagem proposta neste junho de 2023, efeito da heran\u00e7a ditatorial e um desrespeito \u00e0 democracia brasileira, \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o p\u00fablica que n\u00e3o pode ser permitida. E que merece resist\u00eancia. Merece resposta. Neste caldo, a Comiss\u00e3o Arns, sabendo de que a PUC-SP realiza atos anuais de mem\u00f3ria da terr\u00edvel invas\u00e3o em 1977, prop\u00f4s uma parceria que gerou o ato <em>Lembrar \u00e9 Resistir!<\/em>, que aconteceu no \u00faltimo 25 de setembro, e teve como mote homenagear n\u00e3o um covarde torturador, mas a corajosa mulher que se negou a apertar sua m\u00e3o: Nadir Kfouri, reitora da PUC-SP \u00e0 \u00e9poca da terr\u00edvel invas\u00e3o.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, ent\u00e3o, n\u00f3s da sociedade civil, reunidos com a comunidade da PUC-SP no Tucarena, pudemos rememorar esse triste epis\u00f3dio de nossa hist\u00f3ria com um v\u00eddeo produzido com imagens da \u00e9poca exibido no sagu\u00e3o de entrada, com a m\u00fasica e a fala eloquentes de Daniela Mercury \u2013 hoje tamb\u00e9m membro da Comiss\u00e3o Arns \u2013 e de Marcello Quintanilha, com as falas de representantes dos grupos que compuseram a comiss\u00e3o organizadora e, sobretudo, com fortes depoimentos de testemunhas da viol\u00eancia de Estado em 1977. Ao final, antes que sa\u00edssemos afetados por tudo que vimos e ouvimos, pudemos ainda participar de uma bela homenagem a Nadir Kfouri.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Aprender<\/p>\n<p>H\u00e1 46 anos, a PUC-SP foi invadida pela pol\u00edcia militar sob o comando do tal Erasmo Dias. Naquele 22 de setembro de 1977, a reitora da PUC-SP era Nadir Kfouri, a homenageada da nossa manh\u00e3. Neste 2023, foi a atual reitora, Maria Amalia Pie Abib Andery, a primeira chamada pela mestra de cerim\u00f4nias. Maria Am\u00e1lia diz que n\u00e3o viveu a experi\u00eancia da invas\u00e3o, mas viveu os primeiros momentos de trauma ap\u00f3s a invas\u00e3o. Ressaltou que lembrar \u00e9 contar a hist\u00f3ria, trazer a experi\u00eancia contada para todos aqueles que n\u00e3o a viveram. Como psic\u00f3loga, sabe \u2013 disse ela \u2013 que aprendemos n\u00e3o apenas pela experi\u00eancia pr\u00f3pria, pela experi\u00eancia vivida, pela experi\u00eancia na carne, mas tamb\u00e9m pelos testemunhos, pelo texto, pela fala, pela experi\u00eancia contada. E fez a hip\u00f3tese de que talvez esta seja a mais importante maneira de aprender, principalmente quando se trata de pol\u00edtica. Est\u00e1vamos todos ali ent\u00e3o a contar e recontar a terr\u00edvel experi\u00eancia de invas\u00e3o que a PUC-SP vivera e cada fala e cada testemunho que se seguiu trouxe novos elementos para o combate ao apagamento e a constru\u00e7\u00e3o de nossa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Repudiar<\/p>\n<p>A fala de Maria Am\u00e1lia foi seguida, a princ\u00edpio, pelas de representantes dos demais organizadores. Jos\u00e9 Carlos Dias, presidente da Comiss\u00e3o Arns se referiu ao ato como um desagravo \u00e0 PUC-SP. Contrap\u00f4s, em seu discurso, os gritos com que vociferava aquele que o governador pretende homenagear \u2013 &#8220;Ato p\u00fablico \u00e9 proibido!&#8221; \u2013 \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o firme mas n\u00e3o violenta da nossa homenageada: &#8220;N\u00e3o dou a m\u00e3o a assassino.&#8221; Fez, por\u00e9m, uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o do passado com o presente lembrando que Erasmo Dias representou o esp\u00edrito antidemocr\u00e1tico e violento daqueles tempos, assim como hoje Tarc\u00edsio representa. Atribuiu \u00e0quele ato, al\u00e9m do desagravo, tamb\u00e9m um car\u00e1ter de den\u00fancia das viol\u00eancias perpetradas pelo seu governo, como as da Baixada Santista. E finalizou: \u201cRepudiamos o fascismo! Repudiamos homenagens de fascistas a fascistas!\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Punir<\/p>\n<p>A seguir, a presidenta da UNE Manuela Mirela lembrou que, no primeiro dia da ditadura, a sede da UNE foi incendiada e que, no dia da invas\u00e3o da PUC-SP, h\u00e1 46 anos, acontecia III Encontro Nacional de Estudantes, que foi invadido. Estudantes s\u00e3o sin\u00f4nimo de resist\u00eancia, disse ela: \u201cN\u00f3s n\u00e3o podemos homenagear aqueles que lideraram a opress\u00e3o ao movimento estudantil e atacaram nossa democracia!\u201d. Como Jos\u00e9 Carlos Dias havia mencionado, Nadir Kfouri se negou a e Manuela refor\u00e7ou que at\u00e9 hoje n\u00e3o damos as m\u00e3os a assassinos. Lembrou ainda que a UNE pede a puni\u00e7\u00e3o dos golpistas de 8 de janeiro, bradando: \u201cSem anistia para quem ataca nossa democracia!\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Agir<\/p>\n<p>Carlos Rodrigues, presidente do Centro Acad\u00eamico 22 de Agosto, chegou ent\u00e3o trazendo um exemplo dessa resist\u00eancia. Lembra dos estudantes agredidos, queimados e muitos levados ao DOPS naquele 22 de setembro de 1977 e da trucul\u00eancia dos militares. Afirmou que o que levou \u00e0 invas\u00e3o foi a intoler\u00e2ncia abjeta contra a liberdade de pensamento pol\u00edtico, justamente porque os estudantes se reuniram para reorganiza\u00e7\u00e3o da UNE, importante \u00f3rg\u00e3o civil de resist\u00eancia \u00e0s sev\u00edcias da ditadura militar. Segundo ele, o 22 de Agosto ajudou na organiza\u00e7\u00e3o daquele Encontro e permanece na luta contra o legado deixado pelos militares. \u00c9 nessa esteira que, junto com os partidos pol\u00edticos PDT, PT e PSOL, a Faculdade de Direito e seu Centro Acad\u00eamico ajuizaram a ADI 7430, uma A\u00e7\u00e3o Direta de Insconstitucionalidade, para que o STF declare inconstitucional a lei homologada por Tarc\u00edsio neste junho para homenagear Erasmo Dias. Nossa recente democracia precisa de defensores, disse ele, antes de repetir o mote do Centro Acad\u00eamico: &#8220;n\u00e3o se cala a consci\u00eancia de um povo\u201d!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O texto da ADI afirma que a homenagem ao torturador afronta princ\u00edpios constitucionais, como o da dignidade da pessoa humana, o da cidadania e do pluralismo pol\u00edtico e o princ\u00edpio democr\u00e1tico. Erasmo Dias foi secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo de 1974 a 1978 e, segundo os autores, \u201ctinha como uma de suas principais miss\u00f5es a asfixia do movimento estudantil em territ\u00f3rio paulista, notabilizando-se por ter fracassado em impedir a realiza\u00e7\u00e3o do III Encontro Nacional dos Estudantes, em setembro de 1977\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Outro importante depoimento sobre o torturador teria sido o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Mem\u00f3ria e Verdade da Prefeitura de S\u00e3o Paulo, que caracteriza sua gest\u00e3o como \u201cmarcada pela repress\u00e3o pol\u00edtica e pela prote\u00e7\u00e3o aos crimes cometidos por policiais\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os estudantes estiveram ainda representados por Giovana Freitas, presidente do Centro Acad\u00eamico Benevides Paix\u00e3o, que nos lembrou de que ser radical \u00e9 cortar as coisas pela raiz e que \u00e9 preciso destruir ar antidemocr\u00e1tico que paira no pa\u00eds. Ela foi seguida por Maju\u00ed Costa, representante do Coletivo Sarav\u00e1, que \u00e9 o quarto coletivo negro da PUC-SP, segundo ela, por falta de estudantes negros. Ela prop\u00f4s o in\u00edcio de uma nova \u00e9poca em que possam ter voz. Por fim, Leonardo Carvalho, estudante que participou da escrita da ADI, afirmou que esta resist\u00eancia \u00e9 poss\u00edvel hoje gra\u00e7as \u00e0 luta de muitos dos ali presentes. Temos a Constitui\u00e7\u00e3o em vigor h\u00e1 35 anos e, gra\u00e7as a ela, n\u00e3o estamos mais desamparados. Leonardo recuperou que o texto da ADI busca dizer o \u00f3bvio: torturadores n\u00e3o podem ser homenageados numa democracia constitucional! No entanto, segundo ele, em um pa\u00eds marcado pelo autoritarismo como o nosso, dizer o \u00f3bvio no mais das vezes \u00e9 ser revolucion\u00e1rio. Assim, est\u00e1vamos reunidos para dizer o \u00f3bvio e construir o futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais tarde, Flavio Bastos, advogado que representava a OAB-SP, lembrou que o fascismo se alimenta do esquecimento e do negacionismo e que aquele ato reiterava ao Brasil a import\u00e2ncia da mem\u00f3ria hist\u00f3rica. Afinal, quem n\u00e3o souber lembrar o passado est\u00e1 condenado a repeti-lo. Assim, defendeu tamb\u00e9m a revoga\u00e7\u00e3o da lei que homenageia aquele arauto da ditadura e da viol\u00eancia que \u00e9 Erasmo Dias. Beth Sah\u00e3o, deputada estadual do PT, por sua vez, tamb\u00e9m iniciou sua fala se referindo \u00e0 lei aprovada no mandato anterior e rapidamente sancionada por Tarc\u00edsio. Em sua vis\u00e3o, a resposta do governador aos questionamentos da ministra Carmen L\u00facia foi absolutamente med\u00edocre. Tarc\u00edsio teria afirmado que Erasmo Dias foi um deputado competente e que, em seu curr\u00edculo, n\u00e3o tem essa caracter\u00edstica de ter sido um torturador.\u00a0 Em contrapartida, Beth apresentou ent\u00e3o o PL 1426, que altera nome da esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 PUC-Cardoso de Almeida para PUC Profa. Nadir Kfouri.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sentir<\/p>\n<p>Feitas as falas dos organizadores do evento, foi inaugurado um momento especial do ato, o momento de mem\u00f3ria de quem vivenciou a invas\u00e3o. A primeira depoente foi Cl\u00e1udia Costin, ex-ministra de Administra\u00e7\u00e3o, ex-secret\u00e1ria da Cultura do Estado de S\u00e3o Paulo, ex-secret\u00e1ria municipal de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro e membro da Comiss\u00e3o Arns. Cl\u00e1udia chegou falando de sentimentos amb\u00edguos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua presen\u00e7a ali, porque lembrar d\u00f3i muito! Contou que foi \u00e0 PUC naquele 1977 para uma reuni\u00e3o durante o III Encontro Nacional de Estudantes e depois para sua celebra\u00e7\u00e3o. Com a chegada da pol\u00edcia, enquanto os estudantes celebravam pacificamente, foi derrubada em cima de uma bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo que a deixou com uma doen\u00e7a respirat\u00f3ria bastante complicada. Foi pisoteada, porque as pessoas foram levadas a entrar na PUC-SP por um corredor muito estreito, mas lembra da solidariedade de estudantes que, ainda assim, ajudavam quem caia. Foi levada ao ambulat\u00f3rio do DOPS porque estava ferida e seria interrogada. S\u00f3 depois de dias foi levada para casa. Descobriu somente a posteriori que fora enquadrada na Lei de Seguran\u00e7a Nacional, considerada uma das respons\u00e1veis pela organiza\u00e7\u00e3o do Encontro. Com isso, n\u00e3o sabia se se sentia orgulhosa pela honra n\u00e3o devida (uma vez que n\u00e3o havia participado da organiza\u00e7\u00e3o) ou se se ofendia por depois ter sido considerada uma das sete pessoas presas apontadas como \u201cinocentes \u00fateis\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sustentar<\/p>\n<p>Ana Bock, psic\u00f3loga e professora titular da PUC-SP, seguiu com seu testemunho. Contou que, naquele 22 de setembro, estava em uma reuni\u00e3o de professores (talvez uma assembleia da Apropuc, a Associa\u00e7\u00e3o de Professores da PUC-SP) enquanto os estudantes estavam na porta do TUCA comemorando a reativa\u00e7\u00e3o da UNE. De repente, ouviram bombas, correram para a sacada e viram um horror: estudantes se atropelando, descendo a ladeira de entrada da PUC-SP. Uns eram derrubados, outros tentavam ajudar, mas bombas estouravam sobre eles. Os professores, do alto, pediam calma, mas os policiais estavam atr\u00e1s deles. Os professores, assim, voltaram para o audit\u00f3rio e fizeram a cena de continuidade da reuni\u00e3o. Ana tinha 25 anos e corajosamente se escalou para ficar na porta da sala e deixar estudantes entrarem. Logo policiais chegaram e ela e o professor que a acompanhava (o professor Nicola, que atuava no Ciclo B\u00e1sico) se puseram na frente e disseram que ali era uma reuni\u00e3o de professores. \u201cN\u00e3o ousem entrar!\u201d. Mas quem os obedeceria? Ana contou que um p\u00e9 de bota em seu peito a tirou da frente e que, dessa forma, os policiais entraram na sala e passaram a gritar para que fizessem uma fila para sair de m\u00e3os dadas. Foram quatro filas que rumaram para um estacionamento em frente ao Tuca. Ali estiveram centenas de pessoas aglutinadas ouvindo gritos do coronel Erasmo Dias, que os ofendia e os obrigava a sentarem apertadinhos para caberem todos. Disse tamb\u00e9m Ana que, na fila, muitos choravam de medo daqueles policiais que tinham olhares duros, que nem cruzavam com os deles. Segundo ela, em seguida, chegou a doce e firme professora Nadir Kfouri, que questionou o coronel dizendo que s\u00f3 havia dois caminhos para entrar na PUC-SP, pelo vestibular e a convite, e que ele n\u00e3o parecia se encaixar em nenhum deles. Pergunto: qual dessas duas figuras mereceria uma homenagem nossa?<\/p>\n<p>O depoimento de Ana seguiu. Disse que, aos poucos, as pessoas foram obrigadas a se levantar e se apresentar ao coronel. Deveriam provar com documentos ou crach\u00e1s que eram da PUC-SP. Mas nem todos tinham documentos&#8230; Nadir, por\u00e9m, reconhecia ou fingia reconhecer as pessoas como estudantes e professores da Universidade. \u201cAcho que ela inventava&#8230;\u201d, disse Ana. Mas o fato \u00e9 que algumas lideran\u00e7as estudantis escaparam assim, enquanto Dias continuava a gritar &#8220;Eu quero a Veroca!&#8221; (Vera Paiva, presente no ato e que deu seu testemunho mais tarde). De fato, h\u00e1 diverg\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero exato de detidos naquela data, mas as informa\u00e7\u00f5es veiculadas pela PUC-SP d\u00e3o conta de 514 estudantes detidos ao final da triagem (302 rapazes e 212 mo\u00e7as), sendo dez deles lideran\u00e7as estudantis. Todos os feridos teriam sido presos, os feridos em estado grave teriam sido atendidos em hospitais da regi\u00e3o, 92 estudantes teriam sido conduzidos para a sede do DOPS e os demais para a sede do Batalh\u00e3o Tobias de Aguiar.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Contudo, Ana encerrou seu depoimento compartilhando conosco as duas li\u00e7\u00f5es que entende ter recebido naquele dia. A primeira delas \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel que um agente do Estado aja com trucul\u00eancia e viol\u00eancia e a segunda \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel, frente a um duro e violento enfrentamento, mantermos a coragem e um sentimento de seguran\u00e7a transmitido por outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Afetar-se<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo depoimento foi o de Margarida Genevois, soci\u00f3loga que foi presidente da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo por tr\u00eas mandatos e hoje, aos 100 anos, \u00e9 presidente de honra da Comiss\u00e3o Arns. Seu testemunho foi lido pela amiga Maria Victoria Benevides, tamb\u00e9m da Comiss\u00e3o Arns. Margarida contou que recebeu a incumb\u00eancia da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz, \u00e0 qual os estudantes tinham pedido ajuda, de ouvir quatro jovens que foram feridas na invas\u00e3o: Iria, Graziela, Virginia e Maria Cristina. Dirigiu-se ent\u00e3o ao hospital onde estavam, mas foi surpreendida por uma esp\u00e9cie de gaiola de arame colocada em volta de uma delas para proteger o corpo em carne viva do contato com os len\u00e7\u00f3is. Diante da cena, Margarida disse que n\u00e3o teve coragem de perguntar nada e nem tirou seu bloquinho de anota\u00e7\u00f5es da bolsa. Ora, o bloquinho que deveria conter suas entrevistas com elas n\u00e3o cont\u00e9m nada, mas ficou guardado no fundo do arm\u00e1rio, como s\u00edmbolo do seu choque e da sua dor. Lembrou-nos ent\u00e3o que \u00e9 perigoso esquecer os fatos do passado que incomodam, porque \u00e9 mais c\u00f4modo esquecer e, dessa maneira, fatos podem se tornar quase normais. \u00c9 preciso, portanto, protestar e n\u00e3o esquecer, para que nunca volte a acontecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Desaparecer<\/p>\n<p>Pl\u00ednio Sampaio era amigo de Luiz Francisco de Carvalho Filho, o pr\u00f3ximo depoente. Ele \u00e9 advogado criminal e foi presidente da Comiss\u00e3o Especial de Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Contou-nos no ato que foi em fun\u00e7\u00e3o dessa invas\u00e3o que compreendeu o significado pol\u00edtico do verbo \u201cdesaparecer\u201d: perder algu\u00e9m e imaginar a viol\u00eancia inomin\u00e1vel a que poderia ser submetido. Felizmente, Pl\u00ednio s\u00f3 desapareceu momentaneamente e ainda est\u00e1 por a\u00ed, mas a dor lhe veio ainda assim. Luiz enfatiza que essas pessoas que desapareceram e seus familiares e amigos \u00e9 que merecem nossa homenagem e n\u00e3o um coronel fac\u00ednora. Al\u00e9m disso, ressalta que temos que olhar tamb\u00e9m \u2013 porque o tempo n\u00e3o para! \u2013 para os desaparecidos de hoje, \u201can\u00f4nimos, assassinados diariamente nas periferias e nas favelas, por for\u00e7a e obra das nossas pol\u00edcias em todo o Brasil, especializadas em matar gente, sobretudo pretos e pobres.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Coletivizar<\/p>\n<p>Vera Paiva, professora titular do Departamento de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP, \u00e9 a Veroca a que se referia Erasmo Dias. Ela iniciou seu depoimento dizendo que estranhou o &#8220;Cad\u00ea a Veroca?&#8221; porque n\u00e3o estava na PUC-SP naquele dia, era da USP e os movimentos tinham lideran\u00e7as coletivas independentes da tend\u00eancia pol\u00edtica a que cada um fazia parte. Seu testemunho foi no sentido de apontar que a natureza coletiva da lideran\u00e7a os protegia e, ao mesmo tempo, afirmava o tipo de movimento social de resist\u00eancia e afirma\u00e7\u00e3o da democracia que aquela gera\u00e7\u00e3o queria construir. Vera contou que eles tinham uma grande rela\u00e7\u00e3o de autoprote\u00e7\u00e3o na rua e um senso de coletivo, apesar das diferen\u00e7as, e que n\u00e3o fazia sentido que uma figura assumisse essa centralidade. \u201cEu n\u00e3o me sinto uma lideran\u00e7a mais ou menos do que mais ningu\u00e9m\u201d, disse em certo ponto. Do seu ponto de vista, essa personagem, a Veroca, n\u00e3o fazia sentido. Havia muitas mulheres no movimento estudantil, inclusive, e estavam reconstruindo a UNE naquela reuni\u00e3o clandestina. Assim, para ela, esse &#8220;Cad\u00ea a Veroca?&#8221; n\u00e3o expressa nada al\u00e9m da mentalidade dos ditadores que viam nela a filha de Rubens Paiva, al\u00e9m de ser a Veroca.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> Ela, por\u00e9m, n\u00e3o costumava falar sobre isso, \u201ccomo boa parte das pessoas que viveram a ditadura, a tortura e o massacre de seus familiares n\u00e3o contaram, n\u00e3o compartilharam e carregam essa experi\u00eancia dolorosa mas resistente, porque a gente ia pra luta sem necessariamente personalizar a nossa experi\u00eancia individual de persegui\u00e7\u00e3o e tortura com a ditadura\u201d. Vera lembrou que, em todas as vezes em que foi interrogada, faziam perguntas como refer\u00eancia a seu pai e ela respondia, afetada, algo como \u201cN\u00e3o fale o nome do meu pai! Voc\u00ea sabe melhor do que eu onde ele est\u00e1 e o que fizeram com ele!\u201d.<\/p>\n<p>De todo modo, Vera n\u00e3o estava na PUC-SP naquele dia, mas encarregada do esquema de seguran\u00e7a de quem estava vindo de outra cidade para o Encontro de reconstru\u00e7\u00e3o da UNE. A coordena\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a foi feita a partir da casa de sua pobre m\u00e3e \u2013 que transitava entre estar no DOPS com eles, quando necess\u00e1rio, e pedir para n\u00e3o passar novamente pelo que viveu com o pai dela \u2013 em um plant\u00e3o de reencaminhamento dos jovens que participaram da reuni\u00e3o, sa\u00edram clandestinamente e protegidos e j\u00e1 estavam, naquela altura, no primeiro dos \u00f4nibus que tomariam rumo a seu destino. Por seguran\u00e7a, havia sempre mais de um \u00f4nibus, ali\u00e1s. Quando voltava com seu marido Marcelo, tamb\u00e9m da diretoria do DCE (o Diret\u00f3rio Central dos Estudantes da USP) e pararam em um bar, foram abordados por jovens que n\u00e3o n\u00e3o sabiam quem eram e disseram que tinham invadido a PUC-SP e matado e prendido um monte de gente. Eles teriam escapado pulando o muro do estacionamento. Vera disse que, ap\u00f3s a not\u00edcia, fizeram o de sempre: ligaram para Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado que os auxiliava nessas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A terceira cena compartilhada por Vera \u00e9 mais recente. Se passou em Bras\u00edlia, neste 30 de agosto. Familiares de v\u00edtimas da viol\u00eancia de Estado durante a ditadura, que conseguiram se autofinanciar, l\u00e1 estiveram pedindo a reinstaura\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o de Mortos e Desaparecidos. Vera nos lembrou ent\u00e3o que, mais do que falar em mem\u00f3ria, verdade e justi\u00e7a, \u00e9 preciso lutar por mem\u00f3ria, verdade, justi\u00e7a <em>e repara<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o.<\/em> Precisamos encontrar, enterrar, saber o que aconteceu com cada uma dessas pessoas. E ali est\u00e1vamos a lembrar. E lembrar \u00e9 resistir porque continua acontecendo. \u201cA gente n\u00e3o pode esquecer do assassinato de Marielle Franco e da tentativa de desaparecerem os corpos de Dom e Bruno\u201d, convoca Vera.<\/p>\n<p>Valdir Mengardo, jornalista e professor da PUC-SP, confirmou o depoimento de Vera ao dizer que havia v\u00e1rias tend\u00eancias pol\u00edticas na \u00e9poca, mas estavam todos juntos para refundar a UNE. No dia da invas\u00e3o, estava no corredor polon\u00eas para tomar borrachada e, na sua vez, o militar olhou para tr\u00e1s e ele passou inc\u00f3lume. Al\u00e9m disso, deu sorte tamb\u00e9m porque os estudantes que ficaram no estacionamento iam para o Batalh\u00e3o Brigadeiro Tobias e os que tinham antecedentes pol\u00edticos eram levados para o DOPS, mas n\u00e3o conseguiram juntar suas fichas e escapou do DOPS, embora j\u00e1 fosse fichado l\u00e1. Tendo contado o que viveu na invas\u00e3o, Valdir prop\u00f4s uma reflex\u00e3o. Apontou que aquele era um dia de rememora\u00e7\u00e3o desse passado, mas que lembrara da can\u00e7\u00e3o do compositor Sidney Miller, que dizia &#8220;ou\u00e7a bem o que eu lhe digo\/v\u00e1 ouvir um samba antigo\/pra entender o que h\u00e1 de novo&#8221;.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> N\u00e3o se pode esquecer esse julgamento extempor\u00e2neo do marco temporal, essa CPI do MST, a homenagem que se quer prestar a Erasmo Dias, disse ele. De seu ponto de vista, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o vivos como aquela repress\u00e3o a que foram submetidos, mas s\u00e3o atos t\u00e3o selvagens como aqueles, de modo que \u00e9 preciso lutar por liberdades democr\u00e1ticas e por um regime que n\u00e3o mais contemple todas essas formas de barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Por fim, homenagear<\/p>\n<p>O \u00faltimo depoimento daquela manh\u00e3 foi o de Juca Kfouri, sobrinho de Nadir Kfouri, nossa homenageada. Depois de brincar dizendo que jornalistas n\u00e3o podem ser ing\u00eanuos, mas, \u00e0s vezes, ele comete ingenuidades e, naquele dia, cometeu a ingenuidade de achar que encontraria l\u00e1 o governador que n\u00e3o conhece S\u00e3o Paulo e iria ao ato pra saber por que n\u00e3o se pode homenagear Erasmo Dias, contou que tia Nadir \u2013 a Dia, como era conhecida na fam\u00edlia \u2013 jogava futebol com os sobrinhos e, anos depois, com os sobrinhos netos. E jogava bem a corinthiana, disse ele. Tamb\u00e9m parece que ela batia um bol\u00e3o na universidade. Com representa\u00e7\u00e3o da ONU, saiu dando aulas mundo afora. Passou um ano na Espanha entre Madri e Barcelona, formando assistentes sociais, e, segundo ele, voltou em d\u00favida de se gostava mais de Madri ou de Barcelona, do Real Madrid ou do Barcelona. Juca sup\u00f4s que, rebelde como ela era, teria gostado mais de Madrid. Ser\u00e1?<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Nadir Kfouri se tornou a primeira reitora mulher de uma pontif\u00edcia universidade cat\u00f3lica, gra\u00e7as a Dom Paulo Evaristo Arns, que intercedeu por ela junto ao papa Paulo VI. Seu segundo mandato, por\u00e9m, n\u00e3o foi por indica\u00e7\u00e3o. Nadir foi eleita pelos trabalhadores e estudantes da Universidade. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Juca disse que falar de tia Nadir e Dom Paulo no mesmo ambiente em que se fala de Erasmo Dias \u00e9 quase uma heresia.<\/p>\n<p>Em seguida, Juca lembrou de outro epis\u00f3dio envolvendo o torturador e sua fam\u00edlia. Contou que, no mesmo larguinho de uma rua sem sa\u00edda em que a Dia jogava futebol com seus sobrinhos, seu pai levou um tiro e morreu, em um assalto \u00e0 sua m\u00e3e, ao meio-dia, na porta de casa, em 1986. Na ocasi\u00e3o, Juca j\u00e1 era figura not\u00f3ria e programas policiais da televis\u00e3o, como os de Gil Gomes e Afan\u00e1sio Jazadji, come\u00e7aram a fazer uma campanha pela pena de morte porque tinham matado um procurador de justi\u00e7a, ignorando o fato de que esse procurador sempre foi contra a pena de morte. Tempos depois, por causa de uma viol\u00eancia de torcida, Juca foi convidado para um debate na r\u00e1dio Globo, ancorado por Osmar Santos e com a participa\u00e7\u00e3o daquele que Juca chamou de \u201cbesta fera\u201d. O torturador disse que Juca tinha sangue de barata porque seu pai tinha sido morto por um bandido e ele tinha sido contra a pena de morte para esse bandido. Foi a\u00ed que Juca teve a oportunidade de dizer a ele que podia at\u00e9 ter sangue de baratas, mas que o militar tinha sangue de covardes, sangue de torturadores. O debate, depois disso, foi encerrado. Mas n\u00e3o est\u00e1 encerrado o debate que ali nos levou. A ADI 7430 segue em tramita\u00e7\u00e3o e Juca encerra sua fala defendendo que \u00e9 necess\u00e1rio que n\u00e3o permitamos nunca que Erasmo Dias seja nome de coisa alguma e que lutemos pela desmilitariza\u00e7\u00e3o das PMs, lembrando de que temos not\u00edcias de que inocentes foram torturados e mortos no Guaruj\u00e1 por PMs.<\/p>\n<p>O ato \u201cLembrar \u00e9 resistir!\u201d estava prestes a ser encerrado por Rog\u00e9rio Sottili, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, e Laura Greenhalgh, diretora executiva da Comiss\u00e3o Arns, quando Juca retomou o microfone para dar uma \u00faltima informa\u00e7\u00e3o sobre tia Nadir. Perguntou se sab\u00edamos quem herdou seu apartamento e contou que nossa homenageada o deixou para o filho da empregada que a serviu por anos. Em seguida, recebeu como presente uma placa como a da foto, que, a convite da atual reitora, foi levada pelos presentes at\u00e9 a esquina da PUC com a rua Cardoso de Almeida, onde foi colocada como provoca\u00e7\u00e3o p\u00fablica ao governador Tarc\u00edsio. Sim, homenagens s\u00e3o boas, governador! Mas nunca a um calhorda, a um torturador, a um agente do Estado que atuou na repress\u00e3o durante uma ditadura. N\u00e3o daremos as m\u00e3os a assassinos! Nadir Kfouri presente!<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista e psic\u00f3loga. Aspirante a membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. Membro associado da Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns (Comiss\u00e3o Arns).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Transcri\u00e7\u00e3o livre a partir do registro dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WvN7nYxbH-o\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WvN7nYxbH-o<\/a>. Acesso em novembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> O relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade est\u00e1 dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/\">http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/<\/a>. Acesso em novembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> O ato \u201cLembrar \u00e9 Resistir!\u201d foi organizado conjuntamente por PUC-SP, Comiss\u00e3o Arns, Instituto Vladimir Herzog, UNE, N\u00facleo Mem\u00f3ria, OAB-SP e Centro Acad\u00eamico 22 de agosto e teve apoio da PUC-SP pela democracia, APG da PUC-SP, Centro Acad\u00eamico Benevides Paix\u00e3o, Coletivo Sarav\u00e1 de alunos da PUC e Grupo Prerrogativas. O registro do evento est\u00e1 dispon\u00edvel na \u00edntegra em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FcRlq8f3Hq8\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=FcRlq8f3Hq8<\/a>, acesso em novembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> O texto completo est\u00e1 dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/j.pucsp.br\/noticia\/faculdade-de-direito-professores-politicos-e-entidades-vao-ao-stf-contra-homenagem-erasmo-dias\">https:\/\/j.pucsp.br\/noticia\/faculdade-de-direito-professores-politicos-e-entidades-vao-ao-stf-contra-homenagem-erasmo-dias<\/a>. Acesso em novembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Relat\u00f3rio dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/cidade\/secretarias\/upload\/direitos_humanos\/RelatorioCMV_DVD.pdf\">https:\/\/www.prefeitura.sp.gov.br\/cidade\/secretarias\/upload\/direitos_humanos\/RelatorioCMV_DVD.pdf<\/a>. Acesso em novembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> A \u00edntegra do PL e informa\u00e7\u00f5es sobre sua tramita\u00e7\u00e3o podem ser encontradas em <a href=\"https:\/\/www.al.sp.gov.br\/propositura\/?id=1000502980&amp;tipo=1&amp;ano=2023\">https:\/\/www.al.sp.gov.br\/propositura\/?id=1000502980&amp;tipo=1&amp;ano=2023<\/a>. Acesso em novembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Dados dispon\u00edveis em <a href=\"https:\/\/www.pucsp.br\/comissaodaverdade\/movimento-estudantil-invasao.html\">https:\/\/www.pucsp.br\/comissaodaverdade\/movimento-estudantil-invasao.html<\/a>. Acesso em novembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Rubens Paiva, seu pai, foi preso, torturado e assassinado por agentes da reoress\u00e3o. Foi um dos desaparecimentos investigados pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. Mais informa\u00e7\u00f5es podem ser encontradas em <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rubens_Paiva\">https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Rubens_Paiva<\/a>. Acesso em novembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Esta cita\u00e7\u00e3o provavelmente se refere ao final do samba \u201cArgumento\u201d, de Sidney Miller. A letra e a m\u00fasica podem ser encontradas em <a href=\"https:\/\/www.vagalume.com.br\/sidney-miller\/argumento.html\">https:\/\/www.vagalume.com.br\/sidney-miller\/argumento.html<\/a>. Acesso em novembro de 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o daremos as m\u00e3os a assassinos! 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