{"id":2838,"date":"2023-11-17T14:06:24","date_gmt":"2023-11-17T17:06:24","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2838"},"modified":"2023-11-17T14:06:43","modified_gmt":"2023-11-17T17:06:43","slug":"envelhecine-um-novo-projeto-do-grupo-de-trabalho-sobre-o-envelhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/11\/17\/envelhecine-um-novo-projeto-do-grupo-de-trabalho-sobre-o-envelhecimento\/","title":{"rendered":"Envelhecine: um novo projeto do grupo de trabalho Sobre o envelhecimento"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Envelhecine: um novo projeto do grupo de trabalho Sobre o envelhecimento<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>Fabiana Benetti<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Um cinema de rua esperan\u00e7a, ao oferecer, ao transeunte distra\u00eddo, algo que talvez n\u00e3o esperasse encontrar. Esperan\u00e7a uma cidade de encontros, de pessoas na rua, de noites na cal\u00e7ada depois do filme para uma conversa que n\u00e3o acaba.<\/p>\n<p>Um cinema de rua nas imedia\u00e7\u00f5es do Sedes deu ao nosso grupo a ideia de criar encontros que congregassem o envelhecimento, o cinema e a cidade. \u00c9 assim que surge o Envelhecine e sua proposta t\u00e3o simples de compartilhar ideias e afetos atrav\u00e9s do cinema, convidando as pessoas para se encontrarem em outro lugar que, esperamos, possa se tornar afetivo.<\/p>\n<p>O primeiro Envelhecine aconteceu no dia 26 de setembro, no Cine LT3, onde nos encontramos para assistir ao filme <em>Ensina-me a viver<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><em>.<\/em> Em um funeral de um total desconhecido, Harold conhece Maude, uma mulher de 79 anos que compartilha com ele o costume de visitar essas cerim\u00f4nias. Ela o aborda e questiona se ele costuma ir a vel\u00f3rios de desconhecidos como ela. O jovem rapaz melanc\u00f3lico \u00e9 um jovem obcecado pela morte. Ele constantemente prepara falsos suic\u00eddios (ele diz ter feito 15 tentativas), assiste enterros de estranhos e dirige um carro funer\u00e1rio.<\/p>\n<p>Maude se torna uma companhia constante do rapaz, que se apaixona por ela e pelo seu modo de vida inventivo, desprendido, afetuoso, libert\u00e1rio, entusiasmado e despreocupado. Ele fica encantado com o modo peculiar com que ela acontece em sua vida, que v\u00ea beleza em todas as coisas e \u00e9 excessivamente despreocupada, em contraste com sua pr\u00f3pria seriedade e morbidade. Maude e Harold formam um v\u00ednculo imediato: ela mostra a ele os prazeres da arte, da m\u00fasica, da dan\u00e7a e o ensina como aproveitar ao m\u00e1ximo o tempo que habita na Terra.<\/p>\n<p>A esta rela\u00e7\u00e3o leve e vitalizada, op\u00f5e-se a rela\u00e7\u00e3o de Harold com a m\u00e3e: ela \u00e9 separada e pertencente a uma classe social abastada. Embora ela pare\u00e7a estar sempre preocupada com ele, na realidade ela parece n\u00e3o v\u00ea-lo de fato e apenas querer enquadr\u00e1-lo em seu pr\u00f3prio modo de vida. Ela tenta impositivamente arrumar namoradas para ele, de acordo com seu pr\u00f3prio crit\u00e9rio de valor. Harold resiste, assustando e aterrorizando suas pretendentes, praticando atos terr\u00edveis e repulsivos, em cenas engra\u00e7ad\u00edssimas. Ele tem tamb\u00e9m um tio militar, que admira o presidente americano Richard Nixon e aspira que ele se aliste no ex\u00e9rcito. As tentativas de suic\u00eddio parecem ser ao mesmo tempo sua recusa em se deixar enquadrar e um grito para se fazer existir aos olhos da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Esse jovem e triste rapaz, colado na sombra de uma m\u00e3e dissociada, pragm\u00e1tica e morta, cultua a cena de estar morto como seu \u00fanico modo de exist\u00eancia. No encontro com a senhora mais velha aconteceu uma inesperada e improv\u00e1vel composi\u00e7\u00e3o erogeneizada e vital para ambos. A senhora, j\u00e1 desprovida de qualquer receio de se arriscar para fazer valer sua vontade, furta carros para transport\u00e1-la para qualquer lugar, sem medo ou culpa pelo ato ou consequ\u00eancia. Nessas experi\u00eancias com ela, o rapaz vai se afetando e criando outro repert\u00f3rio simb\u00f3lico para o seu desejo de viver, entregando-se ao acolhimento de Maude, com quem podia sentir, ser visto e considerado na singularidade daquele encontro. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois desse encontro t\u00e3o significativo com Maude, Harold anuncia \u00e0 sua m\u00e3e que vai se casar, resultando em manifesta\u00e7\u00f5es de desgosto de sua fam\u00edlia, seu psiquiatra e sacerdote. Todas as institui\u00e7\u00f5es tradicionais erguem-se contra seu desejo e pretendem reprimi-lo. Maude completa 80 anos e Harold prepara para ela uma festa surpresa. Enquanto dan\u00e7am, Maude diz a Harold que &#8220;n\u00e3o poderia imaginar uma despedida mais encantadora&#8221;. Ele imediatamente pergunta a ela o que quis dizer e Maude revela que propositalmente causou a escolha de sua morte. Ela reafirma que acredita que 80 \u00e9 a idade apropriada para morrer: com 75, a vida \u00e9 boa, com 85, j\u00e1 seria por demais limitada.<\/p>\n<p>Num acaso, Harold percebe que Maude traz uma tatuagem em seu bra\u00e7o: nada \u00e9 dito a respeito, mas parece que ela foi uma sobrevivente do holocausto, o que torna ainda mais espantosa sua vitalidade e alegria. Ela frequentava diversos funerais, talvez at\u00e9 como recurso de elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica frente aos traumas que deve ter sofrido com tanta crueldade e mortes nos campos de concentra\u00e7\u00e3o. O quanto esse h\u00e1bito que ela tinha de ir ao cemit\u00e9rio e enterros era como um ritual, um modo de poder enlutar os tempos mortos e traum\u00e1ticos como tamb\u00e9m se preparar para a pr\u00f3pria morte, podendo assim escolher como morrer. Este \u00e9 um ponto essencial para a experi\u00eancia de Maude: ela estar preparada para morrer faz dela livre para viver.<\/p>\n<p>Concomitantemente, Harold, que no encontro com Maude, sente-se vivo no afeto que troca com ela, caminha para um movimento mais criativo e musical. Acessa a sexualidade e habita a temporalidade do acontecimento er\u00f3tico nas diferen\u00e7as singulares do encontro potente que cria recursos e possibilidades de inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a de idade nesse encontro n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o; ela evoca um encontro sem finalidades objetivas que proporciona uma experi\u00eancia amorosa, in\u00e9dita, conjugada e por fim marcada como ritual de passagem para a vida de Harold e morte de Maude. Harold leva \u00e0s pressas Maude a um hospital, onde ela recebe tratamento e morre. No momento final, o carro de Harold aparece caindo em um penhasco \u00e0 beira-mar, como um livramento da m\u00e3e morta. Desta forma, parece que se descola da obsess\u00e3o pela morte, apresentando-se vitalizado, antropofogizado de Maud. Depois da queda, a \u00faltima cena mostra Harold alegremente em p\u00e9 no topo do penhasco, segurando seu banjo e cantando uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O carro era um carr\u00e3o que ele ganhara da m\u00e3e, e transfigurara em carro funer\u00e1rio, bem a seu gosto. Ao lan\u00e7\u00e1-lo no abismo, ele se despede do universo materno, despede-se da fixa\u00e7\u00e3o na morte e, num lindo s\u00edmbolo de trabalho de luto por Maude, ele incorpora sua alegria de viver, dan\u00e7ando ao fluxo da m\u00fasica. Quando ele disse a Maude que a amava, ela bem que o alertou: agora ele poder\u00e1 amar mais.<\/p>\n<p>Esse filme aborda muitos pontos tocantes e importantes sobre os caminhos do viver e morrer e tamb\u00e9m ilustra muito bem os encontros e desencontros que potencializam ou n\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es afetivas e an\u00edmicas de forma atemporal. Ele nos elucida sobre o luto e a melancolia, num jogo ir\u00f4nico sobre o tempo cronol\u00f3gico com o tempo de Kair\u00f3s. Maude, no seu processo de lutos e de morte, podendo se experimentar no tempo in\u00e9dito do presente, do encontro, enquanto Harold j\u00e1 se sente morto no carro funer\u00e1rio como imagem e semelhan\u00e7a de sua m\u00e3e morta. Harold, no trauma que circunscreve um espa\u00e7o conflitivo que se esfor\u00e7a por manter cativa a imagem da m\u00e3e, que \u00e9 inanimada lutando contra o seu desaparecimento. Ele quebra a insist\u00eancia de reviver a perda permanecendo no tempo parado do trauma. Aquilo que provoca, ao n\u00edvel do Eu prim\u00e1rio confundido com o objeto, o sentimento de uma deprecia\u00e7\u00e3o narc\u00edsica que se traduz como vazio. Nutrir a m\u00e3e morta significa manter em segredo o mais antigo amor pelo objeto primordial, sepultado pelo recalcamento prim\u00e1rio da separa\u00e7\u00e3o mal-sucedida entre os dois parceiros da fus\u00e3o primitiva. As tentativas de suic\u00eddio tamb\u00e9m eram uma forma de tentar matar a m\u00e3e morta que nele habitava. Mas Harold encontra uma outra forma de composi\u00e7\u00e3o que faz com que ele viva uma outra forma de investimento e gozo, como na segunda chance a que se refere Winnicott. Um encontro acolhedor e consistente que lhe d\u00e1 o tempo e espa\u00e7o necess\u00e1rio para que o ser remova a armadura do falso self e possa advir, finalmente, como sujeito espont\u00e2neo.<\/p>\n<p>O envelhecer pode estar ligado \u00e0 incapacidade de se desidentificar do ego, do papel, da forma, da identidade da pseudo seguran\u00e7a de um lugar conhecido e esperado, de um tempo parado, da falta de outrar-se que implica no esvaziamento simb\u00f3lico da vida? Ele indica o quanto a morte em vida pode nos atravessar independente da idade? Algo que depende muito do agenciamento que se apresenta, do quanto o tempo que nos convida a habitar, inventar e deixar criar fluxos em dire\u00e7\u00e3o aos afetos, em compostagem para ritmo e movimento.<\/p>\n<p><em>Ensina-me a viver<\/em> conta sobre a vitalidade gerada pelo encontro que perturba a ordem identit\u00e1ria, desperta Eros, desacomoda o Eu no assombro ante a alteridade do outro e de si.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, integrante externa do grupo Sobre o envelhecimento.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Dirigido por Hal Ashby, 1971.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relato da primeira edi\u00e7\u00e3o: Ensina-me a viver.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[145],"edicao":[226],"autor":[233],"class_list":["post-2838","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-cinema","edicao-boletim-69","autor-fabiana-benetti","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2838","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2838"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2838\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2840,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2838\/revisions\/2840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2838"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2838"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2838"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2838"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2838"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}