{"id":2843,"date":"2023-11-17T14:16:58","date_gmt":"2023-11-17T17:16:58","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2843"},"modified":"2023-11-17T14:16:58","modified_gmt":"2023-11-17T17:16:58","slug":"entretantos-ca-entre-nos-tres-das-rodas-de-conversas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/11\/17\/entretantos-ca-entre-nos-tres-das-rodas-de-conversas\/","title":{"rendered":"Entretantos C\u00e1 entre N\u00f3s: tr\u00eas das rodas de conversas"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Entretantos C\u00e1 entre N\u00f3s: tr\u00eas das Rodas de conversas<\/strong><\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Para transformar o trauma<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>pelo GT Di\u00e1rios cl\u00ednicos<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mobilizados pelos atravessamentos da pandemia e a partir dos relatos realizados nos encontros semanais do grupo, o GT Di\u00e1rios Cl\u00ednicos convidou os participantes do Entretantos para uma conversa sobre os efeitos deste per\u00edodo na pessoa do analista.<\/p>\n<p>Por narrativas entremeadas, tecemos sentidos para o trauma. Temos o desejo de organizar, de buscar refer\u00eancias, temporalidades, de ficcionalizar o que n\u00e3o conseguimos recuperar ou entender. Seguem testemunhos de um di\u00e1rio imposs\u00edvel da pandemia.<\/p>\n<p>Setembro\/2023<br \/>\nEu lembro das ruas desertas, silenciosas\u2026 era esquisito\u2026 sim, tinha medo, mas n\u00e3o do v\u00edrus. Mas tamb\u00e9m apareceram golfinhos nos canais de Veneza, parecia uma utopia materializada.<\/p>\n<p>Fevereiro\/2022<br \/>\nN\u00e3o me lembro daquela cena da m\u00e1scara; hoje \u00e9 como se ela n\u00e3o tivesse existido, ainda que esteja presa na minha cara.<\/p>\n<p>Maio\/2020<br \/>\nEntrei pelos corredores da UTI sem cumprimentar ningu\u00e9m. Na porta do quarto, uma pequena mesa: \u00e1lcool gel, prop\u00e9, touca de cabelo, luvas, avental, m\u00e1scara N99 e m\u00e1scara normal, <em>face s<\/em><em>hield<\/em>. A m\u00e9dica \u00e0 minha frente usava duas m\u00e1scaras. \u201cDra., \u00e9 necess\u00e1rio usar duas m\u00e1scaras?\u201d \u201cFa\u00e7a o que quiser!\u201d<\/p>\n<p>Junho\/2021<br \/>\nSil\u00eancio, falta oxig\u00eanio!<\/p>\n<p>Mar\u00e7o\/2020<br \/>\nDepois de driblar um c\u00e2ncer de pulm\u00e3o por dez anos, meu pai falece de madrugada, quase dia. Ao nascer do sol, enquanto o corpo dele \u00e9 levado pelos fundos do hospital, a recep\u00e7\u00e3o do pronto-socorro \u00e9 envolta de faixas de sinaliza\u00e7\u00e3o e equipada com <em>sprays<\/em> de \u00e1lcool gel, a entrada \u00e9 vedada aos visitantes. Embora n\u00e3o soub\u00e9ssemos dimensionar o que ainda estava por vir, sab\u00edamos que algo de incontorn\u00e1vel havia chegado. O tempo era outro, e eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Julho\/2020<br \/>\nQuando eu voltei para o consult\u00f3rio, os limoeiros e o manac\u00e1 haviam secado. Sobraram apenas o terr\u00e1rio e as espadas de S\u00e3o Jorge e Santa B\u00e1rbara &#8211; que nunca voltaram a ser as mesmas. Eu deitei no tapete e fiquei olhando para o teto. Me lembro de ficar esperando ouvir o barulho das portas abrindo e das pessoas entrando. Mas, naquela hora, eram s\u00f3 eu, o tapete e as plantas.<\/p>\n<p>Setembro\/2023<br \/>\nNa roda, Juliana lembra do primeiro encontro presencial com seu grupo do semin\u00e1rio, at\u00e9 ent\u00e3o <em>online<\/em>, e da saudade que descobriu sentir. Os psicanalistas dizem que todo encontro \u00e9 um reencontro. Reencontro de uma saudade?<\/p>\n<p>Fevereiro\/2021<br \/>\nDo outro lado destas paredes,<br \/>\nfurtivo, invis\u00edvel<br \/>\nUm v\u00edrus espreita minha carne entediada<br \/>\nSem cor<br \/>\nSem cheiro<br \/>\nSem gosto<br \/>\nN\u00e3o reclamo: sobrevivo<\/p>\n<p>Setembro\/2023<br \/>\nA pandemia de COVID me afetou em v\u00e1rios setores da vida &#8211; no total perdi 23 pessoas entre amigos daqui, de Mo\u00e7ambique e parentes pr\u00f3ximos. E meu cachorro de 11 anos, Yanzer. Mas eu sofri mais com o dia-a-dia do (des)governo B. Cada declara\u00e7\u00e3o, cada \u201clive\u201d (\u201cmorta\u201d), o completo descaso com a resposta nacional \u00e0 pandemia (sem testes, sem vacina), o negacionismo\u2026. E era TODO DIA. Ent\u00e3o, em <em>lockdown <\/em>tendo um vizinho martelando (literalmente) das 7h30 \u00e0s 19h30, minhas salva\u00e7\u00f5es foram a an\u00e1lise, o aumento de trabalho, o isolamento ac\u00fastico do quarto que virou escrit\u00f3rio e as tantas conversas <em>online<\/em> em que podia \u201cbrindar\u201d com amigos, compartilhar as dores e supera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Perdi muita gente sem poder chorar devidamente, sem os rituais do luto e na \u00fanica vez em que aceitei participar de um zoom-de-vel\u00f3rio fiquei mal uns dias na sequ\u00eancia e decidi n\u00e3o participar mais. As aulas do Sedes eram um b\u00e1lsamo: ter o que ler, ter os pares para comentar, aprender com os queridos professores\u2026. Foi parte do <em>kit<\/em> de sobreviv\u00eancia. Ter sa\u00eddo dos grupos de fam\u00edlia com b**naristas e entrar nos grupos dos pares foi vital. As elei\u00e7\u00f5es que tiraram os fascistas do poder executivo tamb\u00e9m ajudaram. Sobrevivemos! Sequelados aqui e ali, mas sobrevivemos!<\/p>\n<p>1976, Paulo C\u00e9sar Pinheiro<br \/>\nNingu\u00e9m ouviu<br \/>\nUm solu\u00e7ar de dor<br \/>\nNo canto do Brasil<\/p>\n<p>Setembro\/2020<br \/>\nO passarinho<br \/>\nna pitangueira<br \/>\nn\u00e3o \u00e9<br \/>\ntema<br \/>\nas milhares de mortes<br \/>\ntodos os dias<br \/>\n\u00e9:<br \/>\ntema<\/p>\n<p>Abril\/2020<br \/>\nSonho: Eu estava no meu quarto no apartamento do Rio. A casa havia sido invadida por bandidos armados. De repente percebo que os bandidos tinham esquecido uma metralhadora sofisticada em meu quarto. Ali eu me via num dilema: tinha a oportunidade de usar aquela arma e tentar salvar minha fam\u00edlia ou ficar escondido. Eu teria que sair do quarto com a metralhadora nas m\u00e3os e render os bandidos que nos mantinham ref\u00e9ns. Eu sentia medo, teria que me arriscar muito correndo o risco de ser rendido com a metralhadora em punho. A falta de habilidade para operar uma arma daquelas me segurava, nunca me interessei por armas na vida. Eu imaginava um filme, como que antecipando a cena onde sairia do quarto com a metralhadora, desesperado, tentando salvar a fam\u00edlia. Em seguida, acordo assustado.<\/p>\n<p>1951, Adorno<br \/>\nSeria imposs\u00edvel para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos.<\/p>\n<p>Setembro\/2023<br \/>\nAlgu\u00e9m conta na roda a pergunta da pequena neta que continua a nos inquietar: quando ser\u00e1 a pr\u00f3xima pandemia? Ecoam outras perguntas: quando ser\u00e1 a pr\u00f3xima guerra? Quando vai acabar a \u00e1gua? A Amaz\u00f4nia? Quando a \u00faltima casa de S\u00e3o Paulo vai ser demolida? Quando vamos deixar de conseguir driblar a pobreza em nossas (des)confort\u00e1veis bolhas? Quando voltaremos a ter esperan\u00e7a? Sobrevivemos?<\/p>\n<p>1977, Michel Foucault<br \/>\nEm um texto precioso chamado &#8216;Uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 vida n\u00e3o fascista&#8217;,\u00a0 ele diz que resistir ao fascismo n\u00e3o \u00e9 apenas lutar contra um ditador e seus asseclas. Resistir \u00e9 tamb\u00e9m perceber como se produz o fascismo em todos n\u00f3s. Pergunta Foucault: &#8220;Como fazer para n\u00e3o se tornar fascista mesmo (e sobretudo) quando se acredita ser um revolucion\u00e1rio? Como livrar do fascismo nosso discurso e nossos atos, nossos cora\u00e7\u00f5es e nossos prazeres? Como desentranhar o fascismo que se incrustou em nosso comportamento?&#8221;<\/p>\n<p>Setembro\/2023<br \/>\nDois tempos do trauma: o tempo de sobreviver e esperan\u00e7ar que a barb\u00e1rie se transforme em humanidade (mas parece que ainda n\u00e3o foi dessa vez\u2026) e o tempo, a posteriori, de recordar e tentar elaborar o que hoje parece distante, mas completamente vivo dentro de mim. Ser\u00e1 que somente no coletivo \u00e9 poss\u00edvel dar conta dessa experi\u00eancia pand\u00eamica e transformar o trauma em outra coisa?\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Relato da <\/strong><strong>r<\/strong><strong>oda de <\/strong><strong>c<\/strong><strong>onversa <\/strong><strong>\u201cDo trauma ao l<\/strong><strong>uto: <\/strong><strong>relato do atendimento grupal e virtual a f<\/strong><strong>amiliares de <\/strong><strong>v\u00edtimas de v<\/strong><strong>iol<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncia <\/strong><strong>p<\/strong><strong>olicial<\/strong><strong>\u201d ocorrida no <\/strong><strong><em>Entretantos <\/em><\/strong><strong><em>C<\/em><\/strong><strong><em>\u00e1 <\/em><\/strong><strong><em>Entre N<\/em><\/strong><strong><em>\u00f3<\/em><\/strong><strong><em>s<\/em><\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0 <\/strong><strong>por <\/strong><strong>Gustavo Lerner Battagliese<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na tarde do dia 30\/09, durante a \u00faltima rodada de apresenta\u00e7\u00f5es dos trabalhos do <em>Entre<\/em><em>tantos,<\/em> aconteceu a Roda de conversa \u201cDo trauma ao luto: relato do atendimento grupal e virtual a familiares de v\u00edtimas de viol\u00eancia policial\u201d. O grupo Faces do traum\u00e1tico (ao qual chamarei de &#8220;Faces&#8221; ao longo do relato) estabeleceu a modalidade \u201croda\u201d para criar um espa\u00e7o de troca transcendente ao mero relato de suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>A roda de conversa \u00e9 um dispositivo vers\u00e1til e pressup\u00f5e horizontalidade entre seus participantes. Sua disposi\u00e7\u00e3o f\u00edsica varia de situa\u00e7\u00e3o para situa\u00e7\u00e3o. No evento, a composi\u00e7\u00e3o foi a de um semic\u00edrculo onde os participantes se sentaram enquanto os membros do Faces, Maria Angelina Cabral, Camila Munhoz, Clarissa Motta e Fl\u00e1vio Ver\u00edssimo, o fizeram em sua extremidade plana. O in\u00edcio da atividade se deu com a leitura de um texto sobre a experi\u00eancia do atendimento. A contraposi\u00e7\u00e3o entre a base plana e o restante da roda me evocou diversas associa\u00e7\u00f5es que abordarei nesta minha exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A narrativa se inicia com a procura feita pela Defensoria P\u00fablica de S\u00e3o Paulo para que o Faces estabelecesse atendimento aos parentes de nove jovens que foram mortos pela pol\u00edcia em um evento dentro de uma das maiores comunidades da cidade. Com isso, estabeleceu-se o contato com os familiares e, a partir da\u00ed, a constru\u00e7\u00e3o de uma proposta de grupo terap\u00eautico.<\/p>\n<p>O desenvolvimento do trabalho foi marcante em diversos aspectos. Citarei alguns: os desafios de formar um grupo frente aos limites impostos pela pandemia e a consequente escolha da modalidade <em>online<\/em>, que se fez a \u00fanica vi\u00e1vel frente \u00e0s dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas de seus participantes; a premissa por parte do Faces de que a responsabilidade pelas mortes era unicamente da pol\u00edcia, fato que parece ter sido o ponto fundamental para que a transfer\u00eancia grupal pudesse se estabelecer; o duro trabalho de tessitura de representa\u00e7\u00f5es e mem\u00f3rias do acontecido, daquilo que foi visto e do que foi apenas imaginado; e, por fim, o significativo trabalho de diferencia\u00e7\u00e3o das diversas esferas do poder p\u00fablico, com o reconhecimento do que seriam gestos de repara\u00e7\u00e3o, acolhimento e descaso. O final do relato ficou marcado pelo movimento de reconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e complexidade de cada uma das v\u00edtimas, precipitado pela exig\u00eancia que a justi\u00e7a colocava ao grupo para que fosse celebrado um acordo extrajudicial.<\/p>\n<p>A roda recebeu esta hist\u00f3ria com bastante intensidade. Era not\u00e1vel nas express\u00f5es de todos n\u00f3s a mobiliza\u00e7\u00e3o que uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia de Estado \u00e9 capaz de provocar. Em um primeiro momento, quando os motores da discuss\u00e3o ainda se aqueciam, pude reparar algo que deve ter sido, no m\u00ednimo, an\u00e1logo ao que essas fam\u00edlias viveram: a indigna\u00e7\u00e3o e o questionamento de onde estava o poder p\u00fablico. Foi a\u00ed que ocorreu minha primeira associa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 base plana do c\u00edrculo onde estavam os membros do Faces. Era quase como se os coloc\u00e1ssemos, ainda que de uma maneira sutil, em um lugar de balc\u00e3o de direitos humanos de uma ONG ou at\u00e9 da pr\u00f3pria Defensoria.<\/p>\n<p>Quest\u00f5es t\u00e9cnicas foram sendo levantadas. Por que a escolha de um grupo operativo? A primeira resposta a esta quest\u00e3o surgiu referida \u00e0 escolha do supervisor do grupo, mas me parecia que falava de algo mais, que s\u00f3 foi se esclarecendo ao final do encontro. Vale ressaltar as duas tarefas constru\u00eddas pelo grupo: &#8220;Lidar com a dor de forma a abrir mais espa\u00e7os de vida e esperan\u00e7a&#8221; descrita pelo Faces como um solu\u00e7\u00e3o de compromisso entre duas tend\u00eancias do grupo e, posteriormente, \u201cComo lidar com sentimentos ruins que a revolta trouxe de forma a poder lutar e continuar com a vida?\u201d.<\/p>\n<p>Foi interessante observar como, ao acompanhar os pontos neurais do relato, nossos questionamentos perpassaram aspectos angustiantes e sofridos da situa\u00e7\u00e3o, bem como os da condu\u00e7\u00e3o do grupo. A come\u00e7ar pelo sentimento de impunidade relativo \u00e0 absolvi\u00e7\u00e3o dos policiais pelo tribunal militar e \u00e0 viol\u00eancia advinda de distor\u00e7\u00f5es feitas pela grande m\u00eddia e opini\u00e3o p\u00fablica, que pintavam uma liga\u00e7\u00e3o preconceituosa entre os mortos e o crime. Seguido por todo o trabalho de reafirma\u00e7\u00e3o de que nenhum dos jovens tinha antecedentes, de rememorar e nomear a viol\u00eancia, a fim de tornar leg\u00edtima a dor dessas fam\u00edlias, significando-as tamb\u00e9m como uma dor pol\u00edtica que tem em seu seio a ina\u00e7\u00e3o e a cegueira das autoridades.<\/p>\n<p>Aspectos do atendimento grupal foram apresentados e muito foi trocado entre os tantos de nossa roda. Vale ressaltar mais um ponto: o posicionamento dos coordenadores do grupo em sustentar que havia algo importante proposto no acordo extrajudicial que o poder p\u00fablico ofereceu. Essa posi\u00e7\u00e3o, pass\u00edvel de ser lida em sua complexidade, tamb\u00e9m carregava a afirma\u00e7\u00e3o de um reconhecimento da culpa da pol\u00edcia pelos assassinatos ocorridos, abrindo assim um caminho ainda dif\u00edcil de mem\u00f3ria e repara\u00e7\u00e3o. Para que o acordo fosse v\u00e1lido seria necess\u00e1rio que todos os familiares o aceitassem. De forma que o consequente trabalho de juntar os documentos e rever a hist\u00f3ria das v\u00edtimas e suas fam\u00edlias fez com que din\u00e2micas e intensidades viessem \u00e0 tona. Muitas ideias e questionamentos circularam ao tentar discernir o que retraumatizava e o que elaborava nesses movimentos do grupo.<\/p>\n<p>Ao passo que discut\u00edamos isso em roda, a imagem daquela extremidade plana, onde os membros do Faces estavam, me remeteu a um tribunal &#8211; n\u00e3o ao tribunal militar parcial e tampouco \u00e0 justi\u00e7a civil, onde o processo foi aberto e se encerrou com o acordo. Era um tribunal onde a justi\u00e7a se fazia com a palavra e o reconhecimento. Outra imagem que me veio foi a de uma coletiva de imprensa, onde as reputa\u00e7\u00f5es dos jovens eram salvaguardadas pela narrativa e mem\u00f3ria de seus familiares recontada pelo grupo. Estas imagens tiveram for\u00e7a e ressoaram em mim, pois ainda que o princ\u00edpio de horizontalidade da roda de conversa tenha se mantido at\u00e9 o fim, a impress\u00e3o era a de que estas funcionaram como fantasias de repara\u00e7\u00e3o ou poderiam ser resqu\u00edcios de algo que ficou depositado no grupo terap\u00eautico, um anseio pela solu\u00e7\u00e3o absoluta de uma dor irremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>A \u00faltima parte da conversa foi permeada por perguntas do que teria sustentado esse grupo: o que o formou? A iniciativa de escuta? Ou ele j\u00e1 estava formado pela coletividade imposta pela trag\u00e9dia compartilhada? Qual era o papel dos psicanalistas frente a tanto descalabro e descaso das autoridades? O que \u00e9 testemunhar tudo isso?<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que pudemos retomar a ideia do grupo operativo e de como suas tarefas, de alguma forma, foram tecendo o contorno de uma maneira de compartilhar a dor em coletivo e de trabalhar estas quest\u00f5es com os psicanalistas que os escutavam. A tarefa pareceu servir de balizador e prote\u00e7\u00e3o ao grupo. A escolha do Faces por esse modelo de trabalho foi ao encontro do que foi formulado: lidar com a dor, achar lugar para a revolta e rever algum sinal de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>No final da discuss\u00e3o, algo muito curioso ocorreu. Por um pequeno momento, ficamos todos um pouco ansiosos e come\u00e7amos a falar um por cima do outro. A ordem de fala, quase org\u00e2nica da roda, se perdeu em um pequeno tumulto. N\u00e3o foi um grave mal-estar ou discord\u00e2ncia ampliada; pareceu mais o desejo de todos de participarem e estarem dentro da discuss\u00e3o. Isso rapidamente foi absorvido pelo Faces, que ordenou uma fila de falas apenas com gestos e olhares, garantindo o espa\u00e7o de manifesta\u00e7\u00e3o de cada um. N\u00e3o pude deixar de enxergar ou fantasiar no gesto daqueles que ocupavam a extremidade plana do c\u00edrculo a manuten\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o vivo e de intensidade, sem que nos pisote\u00e1ssemos uns aos outros.<\/p>\n<p>Que rodemos mais entre n\u00f3s e entre tantos!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O movimento Articula\u00e7\u00e3o no Entretantos<\/strong><strong> III &#8211; C<\/strong><strong>\u00e1 e<\/strong><strong>ntre N<\/strong><strong>\u00f3s<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Claudia Patitucci, Paulo Jeronymo Carvalho<\/strong><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><strong> e Ana Maria Sigal<\/strong><a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A roda de conversa proposta por n\u00f3s para o evento Entretantos III teve o objetivo de compartilharmos com o Departamento de Psican\u00e1lise as quest\u00f5es que ocupam (e preocupam), atualmente, o trabalho do movimento Articula\u00e7\u00e3o. O texto abaixo tamb\u00e9m segue com esse intuito.<\/p>\n<p>Ana Sigal, que fez parte do grupo que fundou o Articula\u00e7\u00e3o, nele atuou por 22 anos e segue sendo nossa articulanda, abriu a conversa para contar como se deu a hist\u00f3ria do movimento. Ela relatou que a participa\u00e7\u00e3o do Sedes abriu uma frente importante para nosso Departamento, por se incluir em um espa\u00e7o \u00fanico de interlocu\u00e7\u00e3o entre institui\u00e7\u00f5es e escolas de diversas origens do campo psicanal\u00edtico. Um primeiro e grande trabalho foi fazer com que o nosso Departamento fosse conhecido, j\u00e1 que poucas pessoas sabiam sobre nossa institui\u00e7\u00e3o e, al\u00e9m disso, que se pudesse entender por que haviam 3 representantes do Instituto Sedes, pois os departamentos Forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise e Psican\u00e1lise com crian\u00e7as (este ficou por pouco tempo) tamb\u00e9m estavam representados no Movimento.<\/p>\n<p>O movimento Articula\u00e7\u00e3o re\u00fane institui\u00e7\u00f5es de todas as escolas te\u00f3ricas que declarem em seu regulamento que fazem forma\u00e7\u00e3o de analistas. N\u00e3o aceita pessoas individuais. Al\u00e9m desses citados, o \u00fanico crit\u00e9rio necess\u00e1rio at\u00e9 hoje para fazer parte do Articula\u00e7\u00e3o \u00e9 que sejam institui\u00e7\u00f5es laicas, sem filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que n\u00e3o tenham pessoas f\u00edsicas como donos e cujo interesse de pertencimento seja a n\u00e3o regulamenta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. O pr\u00f3prio movimento se recusa a formar-se como institui\u00e7\u00e3o, pois se assim o fizesse seria, por si mesmo, um \u00f3rg\u00e3o regulador.<\/p>\n<p>O movimento Articula\u00e7\u00e3o se criou como rea\u00e7\u00e3o e resposta a uma tentativa de lei que delimitaria quais seriam as condi\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o e que definiria como um grupo poderia denominar-se como psicanal\u00edtico. Temos dois livros que falam desta hist\u00f3ria, e v\u00e1rios artigos publicados no <em>site<\/em> do Departamento e no Boletim online, que desenvolvem longamente esta posi\u00e7\u00e3o, motivo pelo qual n\u00e3o abordamos todos os percal\u00e7os de sua hist\u00f3ria, s\u00f3 ressaltamos que: \u201cSe a pr\u00e1tica anal\u00edtica sustenta, fundamentalmente, a desaliena\u00e7\u00e3o do sujeito faz sentido pensar, j\u00e1 de in\u00edcio, a forma\u00e7\u00e3o de um analista como n\u00e3o avalizado por um \u00f3rg\u00e3o oficial que submete o exerc\u00edcio do of\u00edcio do psicanalista a uma autoriza\u00e7\u00e3o exterior a sua \u00e9tica.\u201d<\/p>\n<p>No seu in\u00edcio, o Articula\u00e7\u00e3o teve que enfrentar duas frentes de trabalho, uma externa, contra a lei da regulamenta\u00e7\u00e3o e outra, interna, porque foi dif\u00edcil que se entendesse que nesse espa\u00e7o todas as institui\u00e7\u00f5es tinham o mesmo lugar. De alguma maneira, a Sociedade de Psican\u00e1lise, ligada \u00e0 IPA, entendia que era ela pr\u00f3pria a institui\u00e7\u00e3o que deveria ter mais espa\u00e7o na condu\u00e7\u00e3o do movimento, pela sua longa tradi\u00e7\u00e3o desde que Freud organizou um grupo de analistas que seriam os autorizadores.<\/p>\n<p>Atualmente, h\u00e1 dois processos em curso no Congresso Nacional: a Sug. 40, que ainda n\u00e3o se constituiu como Projeto de Lei, e que define a psicoterapia como uma pr\u00e1tica exclusiva de psic\u00f3logos. N\u00e3o cita a psican\u00e1lise, mas em outros pa\u00edses a consequ\u00eancia imediata de aprova\u00e7\u00e3o de uma lei como essa foi a aprova\u00e7\u00e3o da regulamenta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. E o PL 2386\/2023, proposto pelo Deputado Henderson Pinto \u2013 MDB Par\u00e1, que define que os cuidados com sa\u00fade mental sejam restritos aos psic\u00f3logos e psiquiatras e que a psican\u00e1lise deve ser praticada por psic\u00f3logos e psiquiatras. Para tentarmos barrar os processos em curso, alguns representantes do Articula\u00e7\u00e3o atuam junto aos pol\u00edticos sempre no sentido de inform\u00e1-los sobre a especificidade da psican\u00e1lise e a nossa posi\u00e7\u00e3o contra a regulamenta\u00e7\u00e3o desta pelo Estado.<\/p>\n<p>Em 2018, tramitou um PL que prop\u00f4s a profissionaliza\u00e7\u00e3o do psicanalista por meio da forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, com diploma reconhecido pelo MEC. Com o trabalho do Articula\u00e7\u00e3o, o PL n\u00e3o foi adiante e uma ideia como essa nos parecia distante. No final de 2021, recebemos entretanto a not\u00edcia do bacharelado de psican\u00e1lise<strong>,<\/strong> lan\u00e7ado pela UNINTER, Centro Universit\u00e1rio Internacional, um curso de 4 anos e online. Desde ent\u00e3o, foram feitas v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es, que incluem: o Manifesto do movimento Articula\u00e7\u00e3o contra o bacharelado, no qual assinam 104 institui\u00e7\u00f5es, do Brasil e exterior, e das quais 49 s\u00e3o participantes do movimento; envio de Nota t\u00e9cnica para o Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (<strong>CNE<\/strong>) e para a Coordena\u00e7\u00e3o Geral de Regula\u00e7\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o Superior (<strong>COREAD<\/strong>), na qual \u00e9 justificada a posi\u00e7\u00e3o contra a oferta de bacharelado pela UNINTER ou qualquer outra universidade; of\u00edcio para o Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, solicitando uma reuni\u00e3o para tratar dessa situa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m sem resposta. Em julho deste ano aconteceu uma reuni\u00e3o no MEC e no CNE, onde fomos informados de que o curso dever\u00e1 ser reconhecido, pois a universidade est\u00e1 cumprindo as formalidades necess\u00e1rias e tem autonomia para ministr\u00e1-lo. O prazo para o reconhecimento \u00e9 final de 2023.<\/p>\n<p>O reconhecimento do bacharelado de psican\u00e1lise \u00e9 preocupante, pois \u00e9 o primeiro passo para que seja institu\u00edda a profiss\u00e3o de psicanalista, que dever\u00e1, portanto, contar com um Conselho profissional e ser devidamente regulamentada. Nada mais exterior ao campo psicanal\u00edtico, da forma como foi explicitada por Freud no seu texto <em>A quest<\/em><em>\u00e3o da an\u00e1lise leiga<\/em>.<\/p>\n<p>Como sabemos, a discuss\u00e3o sobre a forma\u00e7\u00e3o do analista come\u00e7ou em 1924, quando um membro do Conselho Superior de Sa\u00fade, de Viena, solicitou a Freud um parecer sobre a an\u00e1lise ser praticada por n\u00e3o m\u00e9dicos. A quest\u00e3o envolvia uma queixa de um ex-paciente de Theodor Reik, queixa que se tornou um processo contra o analista por pr\u00e1tica ilegal da medicina e consequente proibi\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica psicanal\u00edtica, em 1925. Desse modo, forma\u00e7\u00e3o e regulamenta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise s\u00e3o quest\u00f5es interligadas, portanto, uma remete \u00e0 outra. O reconhecimento do bacharelado de psican\u00e1lise coloca muitas quest\u00f5es para nosso campo, dentre as quais podemos destacar: como democratizar a forma\u00e7\u00e3o do psicanalista sem que se percam as caracter\u00edsticas fundamentais dessa forma\u00e7\u00e3o, a \u00e9tica da psican\u00e1lise e, nesse sentido, quais s\u00e3o essas caracter\u00edsticas que se reconhecem pr\u00f3prias a esse campo? Porque o trip\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente se pensarmos que a UNINTER nele se justifica ao propor o bacharelado. Dessa forma, qual \u00e9 a especificidade da forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise que a coloca em um lugar pr\u00f3prio dentro do campo de conhecimento, dado que \u00e9 um campo de saber que \u00e9 irredut\u00edvel a qualquer outro, como a medicina ou a psicologia?<\/p>\n<p>Discutir essas quest\u00f5es com o conjunto de membros do Departamento seria enriquecedor para todos n\u00f3s, para os cursos que ministramos, e, talvez em breve, seja at\u00e9 mesmo necess\u00e1rio caso o reconhecimento do bacharelado for realizado.<\/p>\n<p><strong>_______________\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Mois\u00e9s Rodrigues da Silva Jr, Elisa Amaral, Gl\u00e1ucia Faria da Silva, Gustavo Battagliese, Gilberto Mariotti, Helena Lima, Juliana Scharff, Juliana Vidigal, Luciana Miranda Penna, Luciana Resende, Mariana Fresnot, Pedro Antunes, Silvia Collakis, Simone Pugin e Vima Lia de Rossi Martin.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista, integrante do grupo de trabalho Di\u00e1rios cl\u00ednicos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Delegados do Departamento de Psican\u00e1lise no movimento Articula\u00e7\u00e3o das entidades psicanal\u00edticas brasileiras.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Articulanda junto \u00e0 delega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos grupos Di\u00e1rios cl\u00ednicos e Faces do traum\u00e1tico; da representa\u00e7\u00e3o do Departamento no movimento Articula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[112],"tags":[181],"edicao":[226],"autor":[235,236],"class_list":["post-2843","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entretantos","tag-entretantos","edicao-boletim-69","autor-grupo-diarios-clinicos","autor-gustavo-battagliese","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2843","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2843"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2843\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2844,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2843\/revisions\/2844"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2843"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2843"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}