{"id":2865,"date":"2023-11-17T15:55:20","date_gmt":"2023-11-17T18:55:20","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2865"},"modified":"2023-11-17T15:55:20","modified_gmt":"2023-11-17T18:55:20","slug":"admiravel-mundo-ancestral-notas-de-uma-viagem-a-uma-aldeia-kayapo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/11\/17\/admiravel-mundo-ancestral-notas-de-uma-viagem-a-uma-aldeia-kayapo\/","title":{"rendered":"Admir\u00e1vel mundo ancestral &#8211; notas de uma viagem a uma aldeia Kayap\u00f3"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Admir\u00e1vel mundo ancestral \u2013 notas de uma viagem a uma aldeia Kayap\u00f3<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>por Daniela Athuil<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No meio de v\u00e1rios desenhos que tradicionalmente chegam da escola no fim do ano, olho mais atentamente um deles. Pergunto para meu filho o que aquele menino do desenho estava fazendo ao lado de uma \u00e1rvore. O artista tinha boas raz\u00f5es para me olhar com estranheza: <em>u\u00e9, um menino tentando ser uma \u00e1rvore<\/em>. Sinto-me interpelada pelo artista e seu desenho. N\u00e3o era \u00f3bvio para mim, mulher adulta, branca, da cidade, que um menino de bra\u00e7os abertos ao lado de uma \u00e1rvore pudesse estar tentando ser uma \u00e1rvore. A irm\u00e3 mais nova confere ainda mais surpresa \u00e0 minha pergunta: <em>assim, mam\u00e3e! voc\u00ea n\u00e3o sabe ser uma \u00e1rvore? <\/em>Alguns anos se passaram e aquela cena ainda me interroga.<\/p>\n<p>Estou suando, tenho na bolsa um calmante. Prometi a mim mesma s\u00f3 tomar em caso de p\u00e2nico. Meu medo de avi\u00e3o \u00e9 maior que a floresta monumental que estou prestes a sobrevoar num bimotor de 5 lugares. O piloto est\u00e1 animado com a miss\u00e3o, somos tamb\u00e9m um grupo piloto<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> rumo a uma aldeia Kayap\u00f3, no sul do Par\u00e1, numa regi\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o entre o cerrado e a floresta Amaz\u00f4nica. Mal consigo prestar aten\u00e7\u00e3o ao que ele fala, pois sigo tentando conter a adrenalina que faz meu cora\u00e7\u00e3o galopar.<\/p>\n<p>Por alguma raz\u00e3o que n\u00e3o sei bem explicar, o avi\u00e3o decola e sinto minha respira\u00e7\u00e3o se acalmar, estou tranquila. A floresta abaixo vira um grande tapete verde, amortecendo meu medo. Sinto paz, como se tivesse me tornado t\u00e3o \u00edntima dele que agora dan\u00e7amos sobre o tapete, numa esp\u00e9cie de voo on\u00edrico. Digo para mim mesma em voz calmante: <em>aqui em cima a morte n\u00e3o chega<\/em>. Lembro tamb\u00e9m do pequeno artista e ou\u00e7o ele me dizer: <em>\u00e9 um menino tentando ser uma \u00e1rvore.<\/em><\/p>\n<p>Estamos cruzando a floresta. A sensa\u00e7\u00e3o de paz \u00e9 inst\u00e1vel, aquela imensid\u00e3o toda tamb\u00e9m me faz rever outras cenas pouco on\u00edricas, e que, ao contr\u00e1rio, portam uma dose cavalar de realidade insuport\u00e1vel. S\u00e3o imagens do fot\u00f3grafo Araqu\u00e9m Alcantara denunciando o horror da maior seca na Amaz\u00f4nia em 121 anos. Rios Negro e Solim\u00f5es gritam. Sessenta cidades da Amaz\u00f4nia est\u00e3o em estado de emerg\u00eancia. Inc\u00eandios criminosos queimam milhares de hectares. Essa imensid\u00e3o maltratada, devastada, assassinada diariamente. Sou um gr\u00e3o, uma semente inocente ou uma amea\u00e7a, parte de um corpo de p\u00f3lvoras que carrega agrot\u00f3xico e merc\u00fario? Serei eu societ\u00e1ria dessa destrui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Pousamos na aldeia. Nossos anfitri\u00f5es nos recebem, mulheres e homens de corpos pintados, colares, cocares, cantando e nos conduzindo \u00e0s nossas acomoda\u00e7\u00f5es que ficam logo ao lado de suas casas. As crian\u00e7as se escondem e se deixam ver por entre as \u00e1rvores. Curiosas, sorridentes, aos poucos v\u00e3o chegando mais perto. Quero abra\u00e7\u00e1-las, retribuir-lhes a amorosa recep\u00e7\u00e3o, dizer que quero brincar com elas, mas tamb\u00e9m tenho medo da nossa interfer\u00eancia, c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas, protetores solares, repelentes, drones&#8230; Tenho vontade de recuar, tanto quanto de me aproximar. Que riscos estamos trazendo na mala? D\u00favidas, d\u00edvidas, tudo me divide. Pisar nesse ch\u00e3o devagarinho, ainda assim pode ser violento.<\/p>\n<p>Akatimej, Mejkumrej, as primeiras palavras que ouvimos. Estamos juntos, o povo Kubenkrankenh<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> e um grupo de 9 pessoas n\u00e3o ind\u00edgenas; n\u00e3o conhecia essa emo\u00e7\u00e3o. Desejo o encontro, temo a mistura. Sou uma Kuben (branca) agora sem medo de avi\u00e3o. Tentando ser uma \u00e1rvore&#8230; tentando ser uma \u00e1rvore&#8230; Essa frase me transpassa, deixo que ela me guie.<\/p>\n<p>Ainda impregnada da polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica e sonora de S\u00e3o Paulo, num gesto autom\u00e1tico, coloco o alarme para o dia seguinte. Primeira noite, amanh\u00e3 quero acordar cedo, mas os p\u00e1ssaros e a luz da manh\u00e3 tocam meu corpo antes dele. O p\u00e1ssaro da noite tem um canto melanc\u00f3lico, a \u00faltima estrofe \u00e9 longa e desaparece no horizonte. J\u00e1 o da manh\u00e3 rima inquieto, curtinho. Faz o corpo serpentear, mas aqui a rela\u00e7\u00e3o com o tempo \u00e9 outra. Quem dita a agenda \u00e9 a natureza. Combinamos uma atividade \u00e0s 7h na casa dos guerreiros. Em vez disso fomos \u00e0 cachoeira. Mover, redefinir, rotacionar as coordenadas de espa\u00e7o e tempo.<\/p>\n<p>Tenho desejo de conhecer os rituais, de entender cada gesto, cada palavra, de me afetar pelas experi\u00eancias. S\u00e3o muitas perguntas e olhares curiosos. Eles tamb\u00e9m nos olham e nos observam. Invasores, inimigos ou aliados? Ser\u00e1 que se perguntam isso? O fato \u00e9 que boa parte das minhas perguntas, referenciadas pelo meu modelo de pensamento brancoc\u00eantrico, n\u00e3o faz sentido para eles. Para a mesma pergunta, respostas diferentes. Uns dizem que o caminho at\u00e9 \u00e0 cachoeira leva 10 minutos, outros, meia hora. O mesmo acontece quando pergunto as idades: 10 ou 13 anos, 35 ou 50, o que importa?<\/p>\n<p>Um mundo que n\u00e3o cabe em nenhuma r\u00e9gua, calend\u00e1rio ou rel\u00f3gio. Essa obsess\u00e3o por medir, catalogar e separar faz parte da l\u00f3gica Kuben, da qual os povos ind\u00edgenas n\u00e3o comungam. A \u00fanica demarca\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e urgente para eles e para n\u00f3s, para estancar essa sangria e adiar o fim do mundo, \u00e9 a dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. \u00c9 preciso expandir, desmontar nossa estrutura linear e limitada para fazer caber outros mundos, outras exist\u00eancias, expor-se a outros fen\u00f4menos e corporeidades at\u00e9 confundir-se com elas.<\/p>\n<p>Pensar-se uma cobra, uma on\u00e7a, um jabuti, uma ave para n\u00e3o mat\u00e1-las. Fazer o exerc\u00edcio de olhar uma \u00e1rvore at\u00e9 que voc\u00ea se sinta uma \u00e1rvore, pense como ela. Para n\u00e3o derrub\u00e1-la. Exerc\u00edcio que tamb\u00e9m aprendi com meu amigo poeta Marcelo Ariel em <em>Como sair da frente do poema. <\/em>Pensar a floresta \u00e9 sair da ignor\u00e2ncia que a ideologia colonialista europeia nos deixou de heran\u00e7a, que invisibiliza e nega a exist\u00eancia de povos origin\u00e1rios, com sua falsa narrativa de que quando \u201cchegaram\u201d aqui n\u00e3o havia nada, uma terra desabitada e hostil. Assim se mant\u00e9m o estado brasileiro, alheio aos seus habitantes origin\u00e1rios, que lutam para continuarem vivos e assim manter a floresta em p\u00e9. Conhecer nossos ancestrais, reconhecer e honrar as culturas ind\u00edgenas. Por isso estou aqui, um desejo em ato de sair de mim para enxergar mais al\u00e9m.<\/p>\n<p>Um alfabeto cultural escrito\/inscrito na pele, diz meu corpo, enquanto Kokowa me pinta, ora com os dedos, ora com um palito feito da folha de palmeira de baba\u00e7u, que ela mergulha numa mistura de jenipapo com carv\u00e3o. Seus gestos coreografam no meu corpo uma textualidade, uma paisagem. Todo esse ritual de pintura corporal expressa uma mem\u00f3ria e faz parte do repert\u00f3rio de saberes ancestrais. Os desenhos e grafismos marcam a identidade dos povos origin\u00e1rios e representam uma simbologia pr\u00f3pria de cada etnia. Cobras, tartarugas, rios, peixes, pegadas, a tinta penetra na pele aos poucos, e no dia seguinte fica ainda mais viva. Nosso corpo\/tela agora se junta aos das mulheres da aldeia e com elas aprendemos suas dan\u00e7as e cantos. Comemos, banhamos nas cachoeiras, conversamos ao redor da fogueira, comungando com a natureza, desfrutando desse privil\u00e9gio que n\u00e3o muito longe poder\u00e1 desaparecer. <em>Sonhos para adiar o fim do mundo. <\/em><\/p>\n<p>Sonhos que dialogam com a leitura de <em>Performances do tempo espiralar,<\/em> da poeta, acad\u00eamica e dramaturga Leda Maria Martins, sobre a import\u00e2ncia desses saberes incorporados, processados e performados pelo corpo. Segundo ela, para as culturas africanas assim como para os povos da floresta, a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento se d\u00e1 fundamentalmente pelas performances corporais e se revelam como refinados modos de resist\u00eancia e sobreviv\u00eancia de suas heran\u00e7as e culturas. Leda \u00e9 uma refer\u00eancia no estudo das abordagens dos saberes incorporados, como campo multidisciplinar, lente metodol\u00f3gica que indica um processo, uma pr\u00e1tica, um modo de transmiss\u00e3o e de interven\u00e7\u00e3o no mundo.<\/p>\n<p>Hoje o dia amanheceu f\u00e9rtil, <em>bom para pescar<\/em>, anuncia um dos caciques. Homens e mulheres preparam a festa do timb\u00f3, ritual de pesca que consiste em juntar e amarrar um punhado dessa esp\u00e9cie de cip\u00f3 que solta veneno de suas extremidades. Juntos, os homens entram no rio e batem o timb\u00f3 na \u00e1gua enquanto entoam um canto em roda, esperando que os peixes fiquem tontos por conta do veneno espalhado. Ap\u00f3s algum tempo come\u00e7am a pescar. Crian\u00e7as pegam os peixes menores com as m\u00e3os. Mulheres preparam a brasa. Farinha de mandioca, arroz, abacaxi acompanham o tucunar\u00e9. Compartilhamos a refei\u00e7\u00e3o sentados no ch\u00e3o da floresta.<\/p>\n<p>O ar da aldeia tem m\u00faltiplos cheiros. Tenho tempo, procuro sentir a especificidade de cada um. \u00damido, c\u00edtrico, azedo, adocicado, cheiro de chuva, do calor do sol que toca o ch\u00e3o, da pedra molhada, de moiboronuib\u00e3, folha que Bepsakay esmaga nas m\u00e3os formando uma pasta mentolada que depois esfrega no corpo, para dar \u00e2nimo e energia. Seu irm\u00e3o, Bepunu, assume a responsabilidade de cuidar da sa\u00fade das pessoas da aldeia, junto com uma agente de sa\u00fade que os visita algumas vezes ao longo do ano. Me conta sobre o papel dos paj\u00e9s de salvaguardar o conhecimento dessa complexa rede de intera\u00e7\u00f5es entre os seres e elementos da floresta, que faz dela a maior e mais sofisticada farm\u00e1cia natural. N\u00e3o para ser apropriada por interesses econ\u00f4micos nefastos, mas para nos curar de nossa ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A floresta canta, comunica, cada som e cada cheiro diz algo sobre o que est\u00e1 acontecendo ou sobre o que vai acontecer. O c\u00e9u alerta. Aqui \u00e9 o come\u00e7o do mundo e o futuro dele. Lembro de Davi Kopenawa dizendo: <em>minha escola \u00e9 andar na floresta. A gente n\u00e3o usa caderno e l\u00e1pis, a gente escuta o rio, as \u00e1rvores, os sonhos.<\/em> Lembro de Eliane Brum e seu desejo de um futuro em que seja poss\u00edvel viver com <em>humanes e mais-que-humanes<\/em>. Anoto os pensamentos que me atravessam. Anoto tamb\u00e9m as palavras que vou aprendendo, construindo um pequeno dicion\u00e1rio Meb\u00eang\u00f4kre no desejo de conseguir me comunicar um pouco na l\u00edngua Kayap\u00f3. Ser\u00e3o oito dias, sete noites.<\/p>\n<p>B\u00e0 k\u00e3m pidj\u00f4 nh\u02dcidji jabeje, Nh\u02dcym m\u02dce ap\u02dcyj. O teclado n\u00e3o consegue acentuar algumas das palavras que tento escrever aqui, assim como, por mais que me esforce, n\u00e3o consigo falar algumas palavras em M\u02dceb\u00eang\u00f4kre. Fen\u00f4menos lingu\u00edsticos diferentes, encontros consonantais estranhos a n\u00f3s, mas que n\u00e3o impedem nosso entendimento por meio das trocas afetivas. Povo amoroso, as crian\u00e7as adoram colo, sobem t\u00e3o r\u00e1pido, escalam meu corpo do mesmo modo que sobem numa \u00e1rvore. <em>Filho, preciso te contar, quando chegar, que estou aprendendo a ser \u00e1rvore!<\/em><\/p>\n<p>As cores aqui s\u00e3o ancestrais, origin\u00e1rias. Antes do brasil verde e amarelo, esse que desde a invas\u00e3o desta terra se presta \u00e0 farra\/farsa cafona e perversa, antes das m\u00e1quinas, das f\u00e1bricas de tinta e suas paletas de cores, bem antes de serem vendidas como suvinil e coral. As cores de verdade vieram do arco-\u00edris, das araras, sa\u00edras, colibris, tucanos e borboletas&#8230; meus filhos devem aprender isso.<\/p>\n<p>Pereti e as crian\u00e7as tentam me ensinar a falar cobra, kang\u00e3, um som anasalado que n\u00e3o consigo fazer. Elas riem, eu tamb\u00e9m. Levei alguns livros infantis com imagens de bichos. Dara e Miriah olham atentas. Est\u00e3o no meu colo, olhamos as p\u00e1ginas daquela <em>pele de papel onde as palavras ficam presas<\/em>, livro dos brancos nas palavras livres de Davi Kopenawa. Elas apontam para os bichos: <em>m\u00e0t, tep, ropkrori, kuk\u00f4j, wewere, prupranti. <\/em>At\u00e9 que algu\u00e9m diz <em>ba djwa<\/em> e ent\u00e3o elas saltam do meu colo, correndo na mesma dire\u00e7\u00e3o das outras crian\u00e7as. \u00c9 um chamado para o banho de cachoeira que fica logo ali.<\/p>\n<p>Chegamos por cima da cachoeira, h\u00e1 uma trilha de acesso, mas as crian\u00e7as pulam l\u00e1 de cima de cabe\u00e7a, de cambalhota, do alto do penhasco em dire\u00e7\u00e3o a um grande po\u00e7o. Uma cena t\u00e3o linda quanto apavorante para n\u00f3s Kuben, criados com elevadores, escadas rolantes e corrim\u00e3os.<\/p>\n<p>Sim, somos n\u00f3s, e nosso modo de vida, uma cat\u00e1strofe para a Terra. Ecocidas. O constrangimento me atravessa em muitos momentos na aldeia. Olhar nos olhos de cada uma daquelas crian\u00e7as ind\u00edgenas muitas vezes me traz esse sentimento. Devo desculpas. Sinto raiva e vergonha da civiliza\u00e7\u00e3o, da tecnologia, da ind\u00fastria, do capitalismo, do poder, do dinheiro, das bolsas, dos cosm\u00e9ticos, das joias, dos calmantes, dos antidepressivos, das sacolas de pl\u00e1stico, da gasolina, dos shoppings, dos elevadores, das escadas rolantes. O que fizemos? O que estamos fazendo? A perspectiva do fim do mundo causada por n\u00f3s \u00e9 obscena.<\/p>\n<p>Mergulho uma \u00faltima vez na cachoeira, a \u00e1gua que escorre no corpo leva temporariamente a minha ang\u00fastia de ser Kuben. \u00c9 preciso tentar ser uma \u00e1rvore, como nos advertiu o pequeno artista. Ser como as crian\u00e7as e os povos origin\u00e1rios s\u00e3o: um sentir os corpos, um fluxo, um acontecer. Cultivar em n\u00f3s a paix\u00e3o por tudo o que vive e existe. Conseguiremos?<\/p>\n<p>\u00c9 hora de voltar para o aqu\u00e1rio. Meu apartamento \u00e9 um aqu\u00e1rio de concreto, onde o c\u00e9u \u00e9 pequeno demais e est\u00e1 caindo. \u00c9 hora de voltar a ter medo de dormir de porta aberta. Ou de voltar a nos acostumar com a absurda ideia de vivermos trancados dentro da pr\u00f3pria casa, em condom\u00ednios fechados ou em clubes segregadores. \u00c9 hora de voltar. Mas volto com a alma banhada pelas cachoeiras de Kubenkr\u00e3nkenh. Com o corpo bordado de jenipapo e urucum, marcado pelas hist\u00f3rias e cantorias em volta da fogueira, pelas dan\u00e7as de m\u00e3os dadas com as mulheres da aldeia, pelas brincadeiras, risadas e abra\u00e7os arb\u00f3reos com as crian\u00e7as kayap\u00f3s. Uma despedida linda e triste. Mejkumrej, obrigada por tanto, meus novos amigos antigos Bepunu, Bepx cineasta, Maria, Kokowa, Nhakdyre, Cacique Notk\u00e3 Man\u00e9, Bepsakay, Irakeiti, Kokodjam, Irekaro, Bepjare, Bekoro, Surunbim, Davi, Dara, Pereti e Pakire. Que o tempo espiralar me conceda o reencontro com todos voc\u00eas em algum sonho coletivo.<\/p>\n<p>Que da natureza e de seus habitantes ancestrais tiremos apenas a li\u00e7\u00e3o de construir mundos em comum, que aprendamos com eles as tecnologias de coopera\u00e7\u00e3o e conex\u00e3o com todas as formas de vida, que possamos sonhar coletivamente, afirmar cosmopol\u00edticas para aberturas de novas rotas de exist\u00eancia, novos territ\u00f3rios. Que nos ocupemos de sua prote\u00e7\u00e3o e tal como as abelhas, polinizemos a vida. Que a cidade possa ser tamb\u00e9m floresta, com hortas, viveiros, compostagens, parques, pra\u00e7as abertas sem muros, que a recupera\u00e7\u00e3o dos rios n\u00e3o seja s\u00f3 um sonho no imagin\u00e1rio de nossas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Que reflorestemos nossos corpos e mentes. Que sejamos, apesar de tudo, otimistas, afinal, como nos adverte Salles, <em>na medida em que o otimismo se contrap\u00f5e ao des\u00e2nimo, ao fim e ao cabo ele tamb\u00e9m se torna uma estrat\u00e9gia, quando n\u00e3o uma obriga\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<ul>\n<li>ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. <em>A queda do c\u00e9u: Palavras de um xam\u00e3 yanomami<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2015.<\/li>\n<li>BRUM, Eliane. <em>Banzeiro \u00f2k\u00f2t\u00f3: Uma viagem \u00e0 Amaz\u00f4nia Centro do Mundo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021.<\/li>\n<li>MARTINS, Leda Maria. <em>Performances do tempo espiralar, po\u00e9ticas do corpo-tela<\/em>. Rio de Janeiro: Cogob\u00f3, 2021.<\/li>\n<li>SALLES, Jo\u00e3o Moreira. <em>Arrabalde: Em busca da Amaz\u00f4nia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2022.<\/li>\n<\/ul>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> <a href=\"https:\/\/florestaprotegida.org.br\/projetos\/turismo-de-base-comunitaria\">https:\/\/florestaprotegida.org.br\/projetos\/turismo-de-base-comunitaria<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.amzprojects.com\/etnoturismo\">ETNOTURISMO KAYAP\u00d3<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.amzprojects.com\/etnoturismo\">amzprojects.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> No processo hist\u00f3rico de divis\u00e3o dos grupos Kayap\u00f3, quando estes migraram para a regi\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o entre a floresta e as plan\u00edcies, o subgrupo Gorotire se subdividiu, dando origem a Kubenkrankenh. Kubenkrankenh significa \u201cterra dos homens que caiu o cabelo\u201d, ou \u201cterra dos homens da cabe\u00e7a pelada\u201d. Essa denomina\u00e7\u00e3o vem de um fato curioso: Gorotire e Kubenkrankenh viviam em disputas constantes. Um paj\u00e9 da aldeia\u00a0 Gorotire, ent\u00e3o, preparou um veneno e deu aos moradores de Kubenkrankenh, visando matar a todos. Houve muitas v\u00edtimas desse envenenamento, e aqueles que sobreviveram perderam os cabelos, ficando carecas. Da\u00ed o nome da aldeia ter simbolizado o fato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De uma mulher tentando ser \u00e1rvore. Por Daniela Athuil.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[107],"tags":[54,248],"edicao":[226],"autor":[61],"class_list":["post-2865","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-decolonial","tag-decolonial","tag-viagem","edicao-boletim-69","autor-daniela-athuil","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2865","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2865"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2865\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2866,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2865\/revisions\/2866"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2865"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2865"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}