{"id":2867,"date":"2023-11-17T16:29:03","date_gmt":"2023-11-17T19:29:03","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2867"},"modified":"2023-11-22T07:50:49","modified_gmt":"2023-11-22T10:50:49","slug":"a-cor-da-pele-do-corpo-que-eu-habito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/11\/17\/a-cor-da-pele-do-corpo-que-eu-habito\/","title":{"rendered":"A cor da pele do corpo que (eu) habito"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">a<strong> COR <\/strong>da<strong> PELE <\/strong>do<strong> CORPO <\/strong>que <strong>(Eu)habito<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Fernanda Almeida<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Ela quis ser chamada de morena<br \/>\n<\/em><em>Que isso camufla o abismo entre si e a humanidade plena<br \/>\n<\/em><em>A raiva insufla, pensa nesse esquema&#8217;<br \/>\n<\/em><em>A ideia imunda, tudo inunda<br \/>\n<\/em><em>A dor profunda \u00e9 <\/em><em>que todo mundo <\/em><em>\u00e9 meu tema<\/em><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><em>[3]<\/em><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Descida aos infernos: a motiva\u00e7\u00e3o da escrita<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em 2017 eu assisti \u00e0 pe\u00e7a de teatro \u201cOB\u00ccNRIN AL\u00c1GB\u00c1RA &#8211; MULHERES FORTES\u201d, da diretora Miriam Selma. Me recordo que sa\u00ed do teatro completamente atordoada. N\u00e3o sabia explicar exatamente o que eu sentia, a emo\u00e7\u00e3o era de uma for\u00e7a inexplic\u00e1vel. Confesso que ainda busco elabora\u00e7\u00e3o para os v\u00e1rios significados daquela sensa\u00e7\u00e3o t\u00e3o disruptiva, foi como se algo tivesse emergido naquele dia. O elenco da pe\u00e7a era composto, majoritariamente, por mulheres negras. Tambores e atabaques marcavam o compasso de c\u00e2nticos africanos. Em uma das cenas mais marcantes, uma das personagens entoava: <em>minha m\u00e3e foi uma mulher preta!<\/em> Ela repetia a frase entre um choro bramido e gemidos murmurantes: <em>minha m\u00e3e foi uma mulher preta<\/em>&#8230; Na cena, a filha denunciava a viol\u00eancia \u00e0 qual sua m\u00e3e \u2013 \u00c1frica \u2013 havia sido submetida, e com esse grito ela evocava toda a di\u00e1spora negra brasileira. Aquilo me arrebatou. Foi no div\u00e3, em minha an\u00e1lise pessoal, dias depois que eu escutei da minha analista: \u201c<em>Quando voc\u00ea vai falar sobre a cor preta da sua m\u00e3e, Fernanda!\u201d<\/em>. Desde ent\u00e3o, a quest\u00e3o da racialidade e do racismo que sempre foram para mim objetos de estudo e fen\u00f4menos antropol\u00f3gicos, sociol\u00f3gicos e pol\u00edticos, tornaram-se tamb\u00e9m uma quest\u00e3o mais profunda de an\u00e1lise, e que aos poucos tenho buscado nomear e analisar. Percebo que at\u00e9 ent\u00e3o, minha \u201cm\u00e1scara branca\u201d havia me \u201cprotegido\u201d de identificar um trauma inconsciente n\u00e3o reconhecido e, portanto, n\u00e3o nomeado e elaborado. Com o tempo, fui entendendo que o silenciamento da racialidade que origina a minha exist\u00eancia<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o individual \u2013 ainda que seja permeada por diversas singularidades \u2013 o \u201csil\u00eancio\u201d \u00e9 tamb\u00e9m, parte importante da engrenagem ideol\u00f3gica e pol\u00edtica que funda o mito da democracia racial brasileira, sem que a sua estrutura de poder e de domina\u00e7\u00e3o sejam questionadas e, dessa maneira, o racismo estrutural no Brasil se perpetua como projeto pol\u00edtico, econ\u00f4mico, ideol\u00f3gico e social at\u00e9 os dias de hoje<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>H\u00e1 momentos em que escolhemos um tema para escrever, em outras ocasi\u00f5es parece que o tema nos escolhe. Foi depois da leitura e imers\u00e3o nos textos de Frantz Fanon \u2013 especialmente em <em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em> e de Grada Kilomba \u2013 em <em>Mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o<\/em> \u2013 que percebi que existem \u201cassuntos\u201d dos quais n\u00e3o temos (ou n\u00e3o devemos) escapar. Nesse caso, o tema do racismo e seus desdobramentos \u2013 objetivos e subjetivos \u2013 me perseguem, me encurralam, me provocam e sobretudo me convocam. O pre\u00e2mbulo aqui \u00e9 para demonstrar as amarra\u00e7\u00f5es dos fios associativos que inauguram minha forma\u00e7\u00e3o como psicanalista, as quais coincidem (n\u00e3o por acaso, como busquei demonstrar) com meu processo mais intenso de me racializar. Ou ainda, como lembrou Paim Filho (2021), citando Freud (1910), no pref\u00e1cio do livro <em>Rela\u00e7\u00f5es raciais na escuta psicanal\u00ed<\/em><em>tica: <\/em><em>\u201cNenhum psicanalista avan\u00e7<\/em><em>a al<\/em><em>\u00e9m do quanto permitem seus pr\u00f3prios complexos e resist\u00eancias internas\u201d.<\/em> Neste caso, minha racializa\u00e7\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o direta com a constru\u00e7\u00e3o da minha cl\u00ednica, bem como com o meu percurso formativo.<\/p>\n<p>Em <em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em>, Fanon afirma que a vida humana \u00e9 ontologicamente conflitante e que cabe aos sujeitos empreender e encarar seus dilemas e conflitos, no entanto, ele lamenta que: <em>\u201co homem negro n\u00e3o goza da regalia de empreender essa descida ao verdadeiro inferno\u201d, <\/em>pois a coloniza\u00e7\u00e3o e a escraviza\u00e7\u00e3o dos corpos negros lhe retiraram as condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de humaniza\u00e7\u00e3o ao escravizar e dessubjetivar homens e mulheres. Davison Faustino, estudioso de Fanon, defende que a pr\u00f3pria leitura e apropria\u00e7\u00e3o do conte\u00fado da obra <em>Pele <\/em><em>n<\/em><em>egra, <\/em><em>m\u00e1scaras brancas<\/em> por sujeitos negros pode contribuir e oferecer as condi\u00e7\u00f5es para a dificultosa empreitada, pois: <em>\u201cN\u00e3o \u00e9 <\/em><em>poss<\/em><em>\u00edvel viver sem conflitos e somente aqueles que ousam encar\u00e1-los de frente, descendo aos verdadeiros infernos, podem assumir a responsabilidade pela pr\u00f3pria exist\u00ea<\/em><em>ncia<\/em><em>\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Me pareceu oportuno apresentar este trabalho no XII CONGRESSO FLAPPSIP em virtude da pergunta que convoca os psicanalistas ao congresso: <em>\u201c<\/em><em>Como se constr<\/em><em>\u00f3i a subjetividade nestes tempos de incertezas e imprevisibilidade? <\/em>Diante desta pergunta t\u00e3o sugestiva eu acrescentaria: <strong><em>A Psican<\/em><\/strong><strong><em>\u00e1<\/em><\/strong><strong><em>lise <\/em><\/strong><strong><em>e os psicanalistas latino-americanos est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de escutar as dores e os sofrimentos conscientes e inconscientes atravessados pelo racismo em tempos de resist\u00eancias e pactos narc\u00edsicos por parte da branquitude, e por outro lado, das insurg\u00eancias disruptivas por parte de sujeitos racializados?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em 1988, L\u00e9lia Gonz\u00e1lez, intelectual negra, escritora de diversas obras, atuante no movimento pol\u00edtico, professora, fil\u00f3sofa e antrop\u00f3loga brasileira cunhou o conceito Amefricanidade<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. Em uma interpreta\u00e7\u00e3o mais simplista poder\u00edamos limit\u00e1-lo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos povos negros nas Am\u00e9ricas. Contudo a conceitua\u00e7\u00e3o de Gonz\u00e1lez possui camadas mais densas e interessantes para o campo psicanal\u00edtico. Apoiada nos conceitos de Freud da denega\u00e7\u00e3o (<em>Verneinung<\/em>) e de objeto parcial (<em>Partialobjekt<\/em>) ela desnuda as formas de objetiva\u00e7\u00e3o do racismo em toda a Am\u00e9rica, seja nas sociedades de origem colonial latina e nas anglo-sax\u00f4nicas, diferenciando-as e nomeando que elas s\u00e3o muito mais amer\u00edndias e amefricanas do que europeias. No que tange ao Brasil, Gonz\u00e1lez afirma que o racismo \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica da neurose cultural brasileira, e o mito da democracia racial, que \u201cpermitiu\u201d a miscigena\u00e7\u00e3o entre negros e brancos (pol\u00edtica do branqueamento), seria a manifesta\u00e7\u00e3o daquilo que ela nomeou como <em>\u201c<\/em><em>racismo por denega<\/em><em>\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Sem qualquer pretens\u00e3o de esgotar (bem longe disso), tampouco abarcar todo amplo campo necess\u00e1rio ao letramento racial,\u00a0o objetivo deste texto, al\u00e9m da quest\u00e3o j\u00e1 exposta, \u00e9 sublinhar o momento vultuoso no interior da pr\u00f3pria psican\u00e1lise, sobretudo a brasileira, ao longo dos \u00faltimos anos, fundamentalmente ap\u00f3s 2020, no que tange \u00e0s quest\u00f5es raciais. O mal-estar faz emergir tensionamentos que explicitam a necessidade de identificar os sintomas. Ao mesmo tempo a \u201ccristaliza\u00e7\u00e3o\u201d e a \u201csedimenta\u00e7\u00e3o\u201d dos traumas decorrentes do processo de coloniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas em todos os pa\u00edses do continente americano, s\u00e3o seculares e moldam o tecido social; demover o terreno no qual est\u00e3o assentados n\u00e3o \u00e9 uma tarefa \u00fanica da psican\u00e1lise, mas de toda sociedade, contudo, n\u00e3o h\u00e1 abalo em terreno sedimentado sem que haja movimento.<\/p>\n<p>De sa\u00edda, \u00e9 importante apontar que j\u00e1 havia um pioneirismo negro na produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica no campo psicanal\u00edtico. A pr\u00f3pria Lelia Gonz\u00e1lez<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a> e, mais especificamente, as psicanalistas negras: as pioneiras Virg\u00ednia Leone Bicudo<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a> e Neusa Souza Santos, j\u00e1 falecidas. As mais contempor\u00e2neas, e que seguem em franca produ\u00e7\u00e3o: Isildinha Baptista Nogueira, Maria Lucia da Silva e Cida Bento, todas com constru\u00e7\u00f5es acerca das elabora\u00e7\u00f5es metapsicol\u00f3gicas e \u00e9tico-pol\u00edticas em torno do fen\u00f4meno do racismo, do seu impacto na constitui\u00e7\u00e3o dos sujeitos, e de como a psican\u00e1lise pode contribuir neste processo. Significativo ressaltar que outros autores psicanalistas, sobretudo negros, v\u00eam produzindo um rico referencial te\u00f3rico-clinico em torno das quest\u00f5es que circunscrevem os impactos do racismo na subjetividade n\u00e3o s\u00f3 de negros, mas tamb\u00e9m de brancos, pois os efeitos da coloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o recaem somente sobre o povo preto, mas asseguram, acima de tudo, um ideal de brancura que os psicanalista David, Villas-B\u00f4as e Moreira v\u00e3o problematizar a partir da imagem de que a psican\u00e1lise foi levada para uma encruzilhada.<\/p>\n<p><strong>V<\/strong><strong>idas negras importam<\/strong>?<\/p>\n<p>Em 25 de maio de 2020, em plena ascens\u00e3o da crise pand\u00eamica do coronav\u00edrus, enquanto a realidade impunha ao cotidiano a desoladora contabiliza\u00e7\u00e3o macabra de cad\u00e1veres humanos, na cidade de Minneapolis (EUA), George Perry Floyd Jr. \u00e9 estrangulado e morto publicamente por um policial branco que, durante 8 minutos e 46 segundos, permaneceu ajoelhado em seu pesco\u00e7o e nas suas costas. O crime foi filmado, e as imagens foram compartilhadas no mundo inteiro. Antes de morrer Floyd implorou ao seu algoz: <em>N\u00e3o consigo respirar! <\/em>A atrocidade do fato reincide tamb\u00e9m na \u201ccoincid\u00eancia\u201d de que certamente, naquele mesmo instante, em diversas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no mundo inteiro haviam pessoas morrendo por falta de ar, o principal sintoma das pessoas acometidas pelo v\u00edrus SARS-COV2. No entanto, a \u201cdispneia\u201d de Floyd foi ocasionada por um agente fardado do Estado que mesmo com os apelos para que interrompesse, uma vez que o \u201csuspeito\u201d estava imobilizado, n\u00e3o o fez. Floyd morreu antes mesmo de chegar ao hospital.<\/p>\n<p>Se Floyd estava imobilizado e n\u00e3o apresentava perigo, quais foram as motiva\u00e7\u00f5es para tamanho ato de crueldade por parte de Derek Chauvin<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, seu algoz? Aqui n\u00e3o se trata de construir especula\u00e7\u00f5es a respeito das motiva\u00e7\u00f5es singulares que levaram Chauvin ao ato, mas circunscrever a cena: Um homem negro \u00e9 estrangulado at\u00e9 a morte por um policial branco em plena pra\u00e7a p\u00fablica, \u00e0 luz do dia.<\/p>\n<p>A fil\u00f3sofa Butler (2021), em estudo sobre a viol\u00eancia, problematiza que algumas vidas n\u00e3o possuem valor, por isso precisam ser afirmadas como importantes \u2013 <em>vidas negras importam<\/em> \u2013 o que subjaz a tal fen\u00f4meno, e que tamb\u00e9m nos interessa enquanto psicanalistas, \u00e9 saber quais vidas s\u00e3o dignas de luto e quais n\u00e3o s\u00e3o enlut\u00e1veis. A desimport\u00e2ncia de uma vida, \u00e9, consequentemente, a nega\u00e7\u00e3o da dor e do sofrimento, incluindo a sua suspens\u00e3o, seja pela morte natural ou n\u00e3o. Disso decorre a indiferen\u00e7a de parcelas da sociedade para com as mortes e massacres dos povos negros e amer\u00edndios, ou seja, <em>os amefricanos<\/em>.\u00a0<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>COR, PELE, CORPO: A constitui\u00e7\u00e3o do Eu e o tornar-se negro <\/strong><\/p>\n<p>O ponto de partida para a reflex\u00e3o que busquei enfrentar na escrita deste texto foi o seguinte: Se at\u00e9 aqui as formula\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, pol\u00edticas e econ\u00f4micas nos deram elementos para compreender a determina\u00e7\u00e3o social do sofrimento produzido pelo racismo, assim como a reprodu\u00e7\u00e3o das profundas desigualdades resultantes destas rela\u00e7\u00f5es, fica em aberto compreender, dentre outros tantos elementos, quais s\u00e3o os impactos do racismo na constitui\u00e7\u00e3o dos sujeitos.<\/p>\n<p>Em <em>Tornar-se negro ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens\u00e3o social<\/em>, a autora Neusa Souza Santos, ao apresentar os conceitos de <em>ideal de ego<\/em> e <em>ego ideal<\/em> faz uma pergunta fundante sobre a constitui\u00e7\u00e3o narc\u00edsica do sujeito negro. Ao afirmar que \u201c<em>o ideal de ego <\/em><em>\u00e9 o dom\u00ednio do simb\u00f3<\/em><em>lico<\/em>\u201d e este simb\u00f3lico sendo institu\u00eddo pela cultura dominante, ela indaga: <em>Como se constr<\/em><em>\u00f3i o ideal do ego desse negro?<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Na mesma dire\u00e7\u00e3o, a psicanalista Isildinha Baptista Nogueira, no livro <em>A cor do inconsciente: significa\u00e7\u00f5es do corpo negro<\/em>, busca compreender como a realidade s\u00f3cio-hist\u00f3rico-cultural do racismo e da discrimina\u00e7\u00e3o se inscreve na psique do negro e produz marcas em seus corpos, ou seja, como se d\u00e1 o processo de constitui\u00e7\u00e3o do sujeito negro. Diz ela: <em>\u201cImportante destacar que a imagem do corpo \u00e9 \u00fanica e ligada \u00e0 sua hist\u00f3ria, bem como \u00e9 inconsciente e sustentada no narcisismo.\u201d <\/em>(p. 34)<\/p>\n<p>Damico, Ohnmacht e Souza (2021), no artigo <em>Antinarciso e o devir revolucion\u00e1<\/em><em>rio de Franz Fanon: di\u00e1logos entre psican\u00e1lise, pol\u00edtica e racismo, <\/em>fazem um mergulho nesta tese fanoniana que \u00e9 bastante caudalosa.<em> \u201cA leitura que estamos propondo \u00e9 a de apontar que, embora o narcisismo se efetue tanto para negros quanto para brancos, para Fanon s\u00e3o processos radicalmente assim\u00e9tricos e distintos.<\/em> (p. 161)<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0<\/em><strong>PELE NEGRA, M<\/strong><strong>\u00c1<\/strong><strong>SCARAS BRANCAS <\/strong><strong>\u2013 Frantz Fanon<br \/>\n<\/strong><em>O branco est\u00e1 encerrado em sua brancura. O negro, em sua negrura.<br \/>\nTentaremos delimitar as tend\u00eancias desse <strong>duplo narcisismo<\/strong> e<br \/>\nas motiva\u00e7\u00f5<\/em><em>es <\/em><em>\u00e0s quais ele remete.<\/em> (p. 23)<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, em minha experi\u00eancia pessoal, e tamb\u00e9m na escuta cl\u00ednica, tenho a impress\u00e3o de que, por vezes, tanto o corpo, a pele, como a cor, aparecem de formas dissociadas na fala das pessoas negras e afrodiasp\u00f3ricas. Qual o sentido e o que produz tal dissocia\u00e7\u00e3o? Certamente, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel atingir a resposta no \u00e2mbito deste escrito, dada a complexidade e o reconhecimento das minhas limita\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-conceituais, mas arrisco afirmar que o estudo e a pesquisa para elabora\u00e7\u00e3o deste escrito me deslocaram de maneira definitiva.<\/p>\n<p>Setores do movimento negro t\u00eam utilizado o termo <em>letramento<\/em> como processo de tomada de consci\u00eancia cr\u00edtica para a desaliena\u00e7\u00e3o dos efeitos do racismo, bem como da necessidade de reconhecimento do lugar de fala e da racialidade de sujeitos negros e brancos. Sem sombra de d\u00favidas este \u00e9 um processo complexo, sendo poss\u00edvel compar\u00e1-lo com aprender um outro idioma. Desconhecemos o vocabul\u00e1rio, ignoramos a gram\u00e1tica, estranhamos os sentidos. Tal como para apreender outro idioma \u00e9 necess\u00e1rio: adentrar na cultura, conviver com o diferente e admitir o desconhecimento, o letramento racial exige de quem sup\u00f5e deter o saber universal \u2013 os brancos e sua branquitude \u2013 a admiss\u00e3o dos seus privil\u00e9gios e da sua prepot\u00eancia e, por parte da negritude, no sentido oposto, \u00e9 essencial a desaliena\u00e7\u00e3o da sua subservi\u00eancia. Em ambos, \u00e9 necess\u00e1rio o desvelamento do inquietante ou estranho familiar. Ou, nos termos de Fanon, a verdadeira descida aos infernos.<\/p>\n<p>No pref\u00e1cio da primeira edi\u00e7\u00e3o da obra de Neusa Santos Souza, publicada originalmente em 1983, Jurandir Freire Costa \u00e9 certeiro ao demonstrar a brutal viol\u00eancia a que a pessoa negra \u00e9 subjugada. A desumanidade com que o corpo negro \u00e9 submetido produz impactos e danos sociais e materiais (o que j\u00e1 seria o bastante) mas n\u00e3o s\u00f3, ele sustenta que Souza exp\u00f5e uma formula\u00e7\u00e3o inaugural na psican\u00e1lise brasileira, qual seja, que o impacto do racismo faz marcas na din\u00e2mica intraps\u00edquica.<\/p>\n<p>Encerro esse escrito com a imagem de estu\u00e1rio, a for\u00e7a das \u00e1guas de quando o rio encontra o mar. Sinto-me, depois deste mergulho, navegando em mar aberto: j\u00e1 possuo uma b\u00fassola; tenho alguns mapas; carrego relativa experi\u00eancia de navega\u00e7\u00e3o e, o mais importante, perdi o temor do sacolejar das mar\u00e9s e dos ventos. Adentrar ao oceano da psican\u00e1lise em intersec\u00e7\u00e3o com as quest\u00f5es raciais \u00e9 meta para se cumprir pouco a pouco, \u00e9 mais do que aprender um caminho, \u00e9 acima de tudo experimentar e construir um percurso pr\u00f3prio. Assim, do encontro e dos desencontros entre concep\u00e7\u00f5es \u00e0s quais me confronto vou afinando a escuta que permita tecer novas subjetividades, compor uma interpreta\u00e7\u00e3o do mundo e dos sujeitos orientada sempre pela busca das singularidades que operam, estando ambas em conson\u00e2ncia com uma perspectiva cr\u00edtica do conhecimento e das pr\u00e1ticas que negam a humanidade dos sujeitos e os aprisiona na tirania de padr\u00f5es alheios aos seus desejos e sonhos.<\/p>\n<p><strong>R<\/strong><strong>efer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<br \/>\n<\/strong><em>*sinaliza\u00e7\u00e3o que indica autoras e autores negros nesta bibliografia <\/em><\/p>\n<p><strong>*ALMEIDA<\/strong>, Silvio. <em>Racismo estrutural<\/em>. S\u00e3o Paulo: P\u00f3len, 2019.<\/p>\n<p><strong>*BENTO<\/strong>, Cida. <em>O pacto narc\u00edsico da branquitude<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2022.<\/p>\n<p>BUTLER, Judith. <em>A for\u00e7a da n\u00e3o viol\u00eancia: um v\u00ednculo \u00e9tico-pol\u00edtico.<\/em> S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2021.<\/p>\n<p><strong>*DAVID<\/strong>, Emiliano de Camargo; <strong>Assuar<\/strong>, Gisele. <em>A <\/em><em>p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1lise na encruzilhada: Desafios e paradoxos perante o racismo no Brasil<\/em>. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 2021.<\/p>\n<p><strong>*FANON<\/strong>, Frantz. <em>Pele negra, m<\/em><em>\u00e1scaras brancas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2020.<\/p>\n<p><strong>*FAUSTINO, <\/strong>Deivison<strong>. <\/strong>Notas sobre a sociogenia, o racismo e o sofrimento psicossocial no pensamento de Frantz Fanon. Revista Eletr\u00f4nica Intera\u00e7\u00f5es Sociais \u2013 REIS. Rio Grande do Sul, v. 4, n. 2, jul.-dez. 2020, p. 10 &#8211; 21. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/periodicos.furg.br\/reis\/article\/view\/12211\/8585\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/periodicos.furg.br\/reis\/article\/view\/12211\/8585<\/a><\/p>\n<p><u><\/u><strong>*FAUSTINO, <\/strong>Deivison. <em>Frantz Fanon e as encruzilhadas: Teoria, pol\u00edtica e subjetividade. <\/em>S\u00e3o Paulo: Ubu, 2022.<\/p>\n<p><strong>FERNANDES<\/strong>, Florestan. <em>Significado do protesto negro<\/em>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o popular, 2017.<\/p>\n<p><strong>*GONZALEZ, <\/strong>L\u00e9lia. <em>Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, interven\u00e7\u00f5es e di\u00e1logos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.<\/p>\n<p><strong>*hooks<\/strong>, bell. <em>Tudo sobre o amor: novas perceptivas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2021.<\/p>\n<p><strong>IANNI<\/strong>, Octavio. A racializa\u00e7\u00e3o do mundo. Revista tempo social. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/ts\/a\/5BfDK86BdD6MthW9Hb9DwwL\/?lang=pt&amp;format=pdf\">https:\/\/www.scielo.br\/j\/ts\/a\/5BfDK86BdD6MthW9Hb9DwwL\/?lang=pt&amp;format=pdf<\/a><\/p>\n<p><strong>*KILOMBA, <\/strong>Grada. <em>Mem\u00f3rias da planta\u00e7\u00e3o \u2013 Epis\u00f3dios de racismo cotidiano<\/em>. Rio de Janeiro: Cobog\u00f3, 2019.<\/p>\n<p><strong>*MOURA<\/strong>, Clovis. <em>O negro, de bom escravo a mau cidad\u00e3<\/em><em>o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Dandara, 2021.<\/p>\n<p><strong>*MOURA<\/strong>, Clovis. <em>Os quilombos e a rebeli\u00e3o negra. <\/em>S\u00e3o Paulo: Dandara, 2022.<\/p>\n<p><strong>*NOGUEIRA<\/strong>, Isildinha Baptista. <em>A cor do inconsciente: Significa\u00e7\u00f5es do corpo negro<\/em>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2021.<\/p>\n<p><strong>*RAVEN, Leilani. <\/strong><em>Lux<\/em><em>\u00fa<\/em><em>ria<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2021.<\/p>\n<p><strong>SCHUCMAN<\/strong>, Lia Vainer. <em>Fam\u00edlias inter-raciais: tens\u00f5es entre cor e amor<\/em>. Salvador: EDUFBA, 2018.<\/p>\n<p><strong>SCHUCMAN<\/strong>, Lia Vainer. <em>Entre o encardido, o branco e o branqu\u00edssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de S\u00e3o Paulo. <\/em>S\u00e3o Paulo: Veneta, 2020.<\/p>\n<p><strong>*SOUZA<\/strong>, Neusa Santos. <em>Tornar-se negro ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens\u00e3o social.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 2021.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Trabalho apresentado como monografia do 3o ano do Curso de Psican\u00e1lise, no semin\u00e1rio sobre Narcisismo, coordenado por Soraia Bento. Vencedor do 3o lugar no concurso Jorge Rosa, FLAPPSIP, 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Assistente social. Psicanalista, aluna do 4o ano do Curso de Psican\u00e1lise, aspirante a membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, membro da equipe editorial deste boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line e da Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o e A\u00e7\u00f5es Afirmativas. Integrante do projeto <em>Territ\u00f3rios cl\u00ednicos<\/em> da Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Trecho da can\u00e7\u00e3o Ism\u00e1lia do rapper, cantor, compositor e apresentador brasileiro Emicida, no \u00e1lbum AmarElo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Sou filha de um casal interracial: pai branco e m\u00e3e negra retinta.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Compartilho das concep\u00e7\u00f5es de que o racismo n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno social epis\u00f3dico ou patol\u00f3gico, o racismo na sociedade moderna contempor\u00e2nea \u00e9 constitutivo do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Tomo como refer\u00eancia para tal afirma\u00e7\u00e3o dois autores cl\u00e1ssicos, Clovis Moura e Florestam Fernandes. Na mesma esteira, Silvio Almeida por meio de seus estudos tem popularizado o conceito de racismo estrutural.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> GONZALEZ, L\u00e9lia. A categoria pol\u00edtico-cultural de amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, N\u00ba. 92\/93 (jan.\/jun.). 1988b, p. 69-82.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Embora n\u00e3o seja psicanalista, Gonzalez tem seus trabalhos atravessados pelos conceitos de Freud e Lacan.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> <em>\u201c<\/em>Virg\u00ednia Leone Bicudo (1915 \u2013 2003) <em>\u00e9 reconhecida como a pioneira do debate do racismo na academia. Psicanalista negra, foi a primeira brasileira a ser credenciada pela Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Psican\u00e1lise. Em 1945, defendeu a tese \u201cEstudo das Atitudes Raciais de Pretos e Mulatos\u201d em S\u00e3o Paulo, na Escola Livre de Sociologia e Pol\u00edtica. Em 1953, redigiu o relat\u00f3rio \u201cAtitudes dos Alunos dos Grupos Escolares em Rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Cor de Seus Colegas\u201d, publicado na Revista Anhembi. Foi presidenta do Instituto de Psican\u00e1lise e uma das criadoras do Jornal da Psican\u00e1lise e da Revista Brasileira de Psican\u00e1lise. Reconhecida tamb\u00e9m como soci\u00f3loga, Virg\u00ednia foi essencial para a difus\u00e3o social da psican\u00e1lise no Brasil.\u201d<\/em> <a href=\"http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/10-psicologas-negras-que-lutam-por-um-mundo-livre-do-racismo\/\">http:\/\/www.sindypsipr.com.br\/site\/10-psicologas-negras-que-lutam-por-um-mundo-livre-do-racismo\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Todo processo de condena\u00e7\u00e3o foi amplamente divulgado nas redes sociais, sendo poss\u00edvel acessar um vasto material sobre todo processo jur\u00eddico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elabora\u00e7\u00f5es sobre o processo de racializa\u00e7\u00e3o de uma analista ao longo de sua forma\u00e7\u00e3o. Conhe\u00e7a o Escrito de Fernanda Almeida premiado com o 3o lugar do concurso Jorge Rosa. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[107],"tags":[54,49],"edicao":[226],"autor":[71],"class_list":["post-2867","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-decolonial","tag-decolonial","tag-flappsip","edicao-boletim-69","autor-fernanda-almeida","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2867","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2867"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2867\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2939,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2867\/revisions\/2939"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2867"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2867"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2867"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2867"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2867"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}