{"id":2872,"date":"2023-11-17T16:36:37","date_gmt":"2023-11-17T19:36:37","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2872"},"modified":"2023-11-17T16:36:37","modified_gmt":"2023-11-17T19:36:37","slug":"a-lucidez-azul-e-a-ternura-risonha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/11\/17\/a-lucidez-azul-e-a-ternura-risonha\/","title":{"rendered":"A lucidez azul e a ternura risonha"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>A lucidez azul e a ternura risonha<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Miriam Chnaiderman<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cE no momento exato, na imin\u00eancia do fim, voc\u00ea me ensinou a sentir. Nossas fortes conversas finais estiveram muito carregadas de precis\u00e3o e racionalidade, voc\u00ea acusou, e ent\u00e3o naquela \u00faltima noite guardamos a raz\u00e3o e conversamos livres, francos, desprotegidos. Depois de muito que nos confessamos, foi voc\u00ea quem disse, com algum cansa\u00e7o, que tinha uma batalha dura pela frente, e eu questionei que batalha era aquela, e por que era preciso continuar a batalhar depois de tantas conquistas. Porque h\u00e1 tanta coisa que deixei incompleta, voc\u00ea disse, livros que n\u00e3o publiquei, textos que n\u00e3o escrevi. Eu lhe pedi que n\u00e3o se preocupasse tanto, e prometi com firmeza que publicaria seus livros e completaria seus textos, com as suas palavras ou com as minhas. E voc\u00ea abriu seu sorriso largo, e algo se acalmou em seus olhos mar\u00edtimos, e voc\u00ea se decidiu a dormir.\u201d<\/p>\n<p>Por isso Luc\u00eda e Juli\u00e1n decidiram publicar este livro. Que j\u00e1 estava para ser publicado dada a dedica\u00e7\u00e3o de Flavio Ferraz. \u00c9 Flavio que nos conta tudo isso e fala do trabalho cuidadoso de Cristina Barczinski e da produ\u00e7\u00e3o do livro com a colabora\u00e7\u00e3o de Cristina Parada Franch, M\u00e1rcia de Mello Franco e Soraia Bento. Fala do conhecimento precioso de S\u00edlvia Nogueira de Carvalho. Quis homenagear todo esse movimento de vida que gerou esse lindo livro com os ensaios que Mario gostaria de ver publicados.<\/p>\n<p>Antes, Juli\u00e1n falara de um \u00e1vido desejo de persistir que caracterizava seu pai. \u201cAt\u00e9 o limite voc\u00ea preservou sua clareza, sua coer\u00eancia, sua ateia certeza de que nada o aguardava depois da morte, ainda que isso lhe provocasse ang\u00fastia, medo, adiamento. E foi como parte desse mesmo pensamento que voc\u00ea aceitou para si, e pediu que aceit\u00e1ssemos, sua decis\u00e3o de ser enterrado em cemit\u00e9rio judaico, mesmo que h\u00e1 muitos anos tivesse rejeitado a religi\u00e3o, sua afirma\u00e7\u00e3o de que ainda assim pertencia a um povo, e ao povo\u201d. Povo judeu, povo. Povo \u00e9 povo. Sempre. Multid\u00e3o, Mario acataria, tal como foi pensada por Toni Negri e Michael Hardt. Encontros que respeitam a diversidade.<\/p>\n<p>Tomo aqui um trecho do discurso de Freud na Sociedade B\u2019Nai Brith em 6 de maio de 1926: \u201cO que me ligava \u00e0 condi\u00e7\u00e3o judaica n\u00e3o era -devo confess\u00e1-lo\u2013 a f\u00e9 e tampouco o orgulho nacional, pois sempre fui um descrente, tendo sido educado sem religi\u00e3o, embora n\u00e3o sem respeito pelas exig\u00eancias denominadas &#8216;\u00e9ticas&#8217; da cultura humana. Esforcei-me por suprimir o entusiasmo nacionalista como algo injusto e nefasto, assustado que sempre fui pelos exemplos admoestadores dos povos entre os quais n\u00f3s, judeus, vivemos. Mas restavam coisas bastantes que tornavam irresist\u00edvel a atra\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo e dos judeus, muitas for\u00e7as afetivas obscuras, tanto mais poderosas por mal admitirem a express\u00e3o em palavras\u2026 (\u2026) Por ser judeu, vi-me isento de muitos preconceitos\u2026&#8221; (p. 370, Cia. das Letras).<\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar aqui que Mario vinha, nos \u00faltimos anos, se responsabilizando pelo semin\u00e1rio do quarto ano de forma\u00e7\u00e3o sobre Mois\u00e9s e o monote\u00edsmo. Na entrevista \u00e0 Revista <em>Percurso,<\/em> que faz parte deste volume, Mario afirma: \u201cNo \u00faltimo dos seus escritos, Mois\u00e9s e o monote\u00edsmo, que tenho trabalhado em semin\u00e1rio h\u00e1 tr\u00eas anos, Freud explode o conceito de identidade judaica.\u00a0 Ele inicia apontando que n\u00e3o era tarefa f\u00e1cil despojar um povo de seu filho mais eminente mas que era isso o que pretendia fazer demonstrando que Mois\u00e9s, criador do povo judeu, n\u00e3o era ele mesmo judeu, era eg\u00edpcio. Isso \u00e9 uma verdadeira <em>chuzpe<\/em> como se diz em \u00eddiche, uma aud\u00e1cia, um atrevimento. Essa afirma\u00e7\u00e3o coloca tudo de ponta cabe\u00e7a e nos leva a uma hist\u00f3ria complexa sobre o n\u00facleo inicial que constituiu o povo judeu. Na realidade ele prov\u00e9m de diversos n\u00facleos, sendo que um deles passou pelo Egito. Haveria ent\u00e3o uma diversidade dentro do pr\u00f3prio juda\u00edsmo\u201d. A diversidade seria inerente ao juda\u00edsmo.<\/p>\n<p>Aqui Mario faz uma afirma\u00e7\u00e3o important\u00edssima e que n\u00e3o \u00e9 distante do que Peter Pelbart afirma em artigo publicado no \u00f3rg\u00e3o da CONIB em agosto deste ano, antes dos terr\u00edveis conflitos na faixa de Gaza. Citando Peter:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;.judeu como um n\u00f4made, que n\u00e3o carece de uma terra, j\u00e1 que faz do deslocamento incessante sua pr\u00f3pria morada. Por defini\u00e7\u00e3o, ele vive nas margens do Imp\u00e9rio, no deserto, na dispers\u00e3o, no ex\u00edlio, exposto a todos os ventos e acontecimentos. Alheio ao Estado e seus poderes, \u00e9 um tr\u00e2nsfuga, subverte os c\u00f3digos, embaralha as pertin\u00eancias, tra\u00e7a uma linha transversal ou de fuga. Da\u00ed a ideia de um &#8216;pensamento n\u00f4made&#8217;, como o designou Deleuze, que transp\u00f5e fronteiras, que faz do movimento seu territ\u00f3rio existencial \u2026\u201d.<\/p>\n<p>Nesse \u00faltimo sentido, uma defini\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de judeu seria: aquele capaz de devir-outra-coisa-que-n\u00e3o-judeu. (\u2026) certa pot\u00eancia de metamorfose, de reinven\u00e7\u00e3o de si na vizinhan\u00e7a com a alteridade.<\/p>\n<p>Mario Fuks radicaliza tudo isso. Em sua vida, v\u00e1rios templos de Jerusal\u00e9m foram destru\u00eddos. Seu pensamento sempre viveu desafios que fizeram que v\u00e1rios edif\u00edcios te\u00f3ricos justapostos fossem constru\u00eddos e reconstru\u00eddos.<\/p>\n<p>Carta que Freud escreve \u00e0 noiva em 1882: \u201cOs historiadores dizem que se Jerusal\u00e9m outros povos antes e depois de n\u00f3s. Foi somente depois da destrui\u00e7\u00e3o do Templo que o <em>edif<\/em><em>\u00ed<\/em><em>cio invis<\/em><em>\u00edvel<\/em> do juda\u00edsmo p\u00f4de ser constru\u00eddo\u201d.<\/p>\n<p>O ex\u00edlio, o desterro, o ser sempre outro, e outro de outro em um pensamento que brotava de um agir na busca de um mundo mais justo.<\/p>\n<p>Estranho igual a estrangeiro igual a profundamente enraizado no enigma humano.<\/p>\n<p>Betty Fuks, no livro <em>Freud e a judeidade <\/em>cita o \u201cEstudo autobiogr\u00e1fico\u201d de 1923: \u201cNasci em 6 de maio de 1836 em Freiberg, na Mor\u00e1via, um pequeno povoado do que hoje \u00e9 a Tchecoslov\u00e1quia. Meus pais eram judeus e eu segui sendo-o.\u00a0 Quanto \u00e0 minha fam\u00edlia paterna, acredito que viveu perto do Reno&#8221;. Algumas linhas adiante, Freud faz um pequeno invent\u00e1rio de algumas das desterritorializa\u00e7\u00f5es sofridas por esta parte de sua fam\u00edlia que, \u201cno s\u00e9culo XIV ou XV fugiu em virtude de uma persegui\u00e7\u00e3o de judeus&#8230;&#8221; e ao longo do s\u00e9culo XIX come\u00e7ou a migrar a partir do Leste, passando pela Gal\u00edcia at\u00e9 instalar-se na \u00c1ustria alem\u00e3.<\/p>\n<p>Freud ressalta a preced\u00eancia da experi\u00eancia de \u00eaxodo e de ex\u00edlio sobre a sedentariza\u00e7\u00e3o de sua fam\u00edlia. Tais experi\u00eancias davam prosseguimento \u00e0 perspectiva de err\u00e2ncia e nomadismo inscrita na hist\u00f3ria do povo judeu.<\/p>\n<p>Mario \u00e9 fruto de uma err\u00e2ncia que \u00e9 a do contempor\u00e2neo. Fugas de regimes desp\u00f3ticos, persegui\u00e7\u00f5es, desaparecimentos.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso o texto que abre essa colet\u00e2nea \u00e9 sobre o <em>unheimliche, \u201c<\/em>algo que estava oculto veio \u00e0 luz\u201d. Esse texto de Freud \u00e9 minuciosamente analisado e Mario aprofunda rela\u00e7\u00f5es riqu\u00edssimas com outros textos. Depois de falar da repeti\u00e7\u00e3o mort\u00edfera que trama os piores encontros, Mario consegue dar uma virada e consegue transformar o sinistro em impulso vital: \u201cN\u00e3o se trata de \u201cfamiliaridade\u201dcom o sinistro -modo de recusa que lembra os fen\u00f4menos de \u201ctoler\u00e2ncia\u201d social ou cultura identific\u00e1veis como \u201cbanaliza\u00e7\u00f5es\u201d. Trata-se de uma estranheza que p\u00f5e em marcha um movimento de indaga\u00e7\u00e3o a ser compartilhado com outros\u201d. (Fuks, 2023, p. 29).<\/p>\n<p>Afirmar o coletivo como \u00fanica possibilidade de driblar o emprecariado que domina nosso mundo &#8211;\u00a0 \u00e9 sempre a \u00fanica sa\u00edda.<\/p>\n<p>O cap\u00edtulo seguinte &#8211; &#8220;O estranho, a elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e a cria\u00e7\u00e3o cultural\u201d- explicita a prioris te\u00f3ricos que embasam seu pensamento. Descreve minuciosamente o contexto hist\u00f3rico em que o texto <em>Das Unheimliche<\/em> \u00e9 produzido, cita Rilke, Baudelaire. No texto seguinte fica claro que o fetichismo da mercadoria, conceito marxista, norteia suas reflex\u00f5es. Na psican\u00e1lise faz importantes pondera\u00e7\u00f5es sobre conceitos winnicottianos e mostra\u00a0 como \u201ca expans\u00e3o do mercado sob a \u00e9gide do neoliberalismo mostra uma capacidade invasiva homogeneizante e empobrecedora do espa\u00e7o potencial. O objeto de consumo e sua promessa de felicidade, indutora de admira\u00e7\u00e3o e de inveja, v\u00eam saturar o espa\u00e7o potencial&#8221;. Pensa em objetos psicof\u00e1rmacos remendando colapsos narc\u00edsicos. \u00c9 esse entrela\u00e7amento da subjetividade e o contexto pol\u00edtico e econ\u00f4mico que \u00e9 bordado por Mario em todo o livro. Sem nunca perder o rigor enquanto psicanalista. Assim \u00e9 que inova enquanto pensador e enquanto cl\u00ednico.<\/p>\n<p>&#8220;Se lembra do futuro que a gente combinou?<br \/>\nEu era t\u00e3o crian\u00e7a e ainda sou.<br \/>\nQuerendo acreditar que o dia vai raiar<br \/>\ns\u00f3 porque uma cantiga anunciou\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Cantiga de Chico Buarque que Mario utiliza para pensar a des(ilus\u00e3o) no cap\u00edtulo seguinte: \u201ca perda est\u00e1 sendo processada por uma combina\u00e7\u00e3o das diferentes inst\u00e2ncias incluindo um <em>companheiro de elabora\u00e7\u00e3o<\/em>, a &#8220;Maninha&#8221;. \u00c9 o trabalho de luto, fundamental para a preserva\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio ps\u00edquico e para a possibilidade de mudan\u00e7a individual e coletiva.<\/p>\n<p>A busca permanente de Mario pelo trabalho coletivo, sua inser\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de grupos, faziam, nele, condi\u00e7\u00e3o de vida em meio a lutos ancestrais.<\/p>\n<p>Todos os seus ensaios partem de uma an\u00e1lise hist\u00f3rica que vai nos situando e nos permite acompanhar de onde surge a quest\u00e3o que coloca. O mal-estar na contemporaneidade o leva a ter uma concep\u00e7\u00e3o original das patologias narc\u00edsicas de nosso mundo. Mario conta como \u201cno contexto do Curso de Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae iniciou uma s\u00e9rie de estudos destinados a compreender melhor certo tipo de sofrimentos ps\u00edquicos novos\u2026.\u201d. S\u00e3o sofrimentos dos nossos novos tempos\u00a0 atravessados pela solid\u00e3o e competitividade que o neoliberalismo imp\u00f4s. Dedica-se a entender a vida cotidiana das grandes cidades, as formas de habit\u00e1-las, de circular por elas ou de incluir-se nos espa\u00e7os dom\u00e9sticos, de relacionar-se ou n\u00e3o com os outros Que tipo de subjetividade pode acontecer numa esta\u00e7\u00e3o de trem? . O filme \u201cCentral do Brasil\u201d \u00e9 o foco nesse texto de Mario. Os n\u00e3o-lugares de Marc Auget: \u201cuma subjetividade que\u00a0 acontece em um posto de fronteira social em que a tens\u00e3o se aproxima frequentemente do limite do estouro da viol\u00eancia\u201d. Mario cita a confer\u00eancia de Marilena Chau\u00ed quando, na comemora\u00e7\u00e3o dos 20 anos do Sedes, mostrou como a rua foi inutilizada enquanto espa\u00e7o p\u00fablico. Em vez da intersubjetividade surge uma intimidade narc\u00edsica, modelada pelos mass m\u00eddia, levando a impossibilidade de simbolizar. Mario mostra como surge a ideologia individualista da competi\u00e7\u00e3o absoluta:<\/p>\n<p>\u201cO homem contempor\u00e2neo \u00e9 um narcisista, talvez dolorido, mas sem remorsos&#8221; (p. 60).<\/p>\n<p>\u00c9 linda a an\u00e1lise que Mario faz do encontro que acontece na esta\u00e7\u00e3o de trem e a busca de um pai &#8211;\u00a0 \u00e9 a busca exasperada de um n\u00e3o vivido. Afirma: \u201cTal rememora\u00e7\u00e3o historicizando-se possibilita a elabora\u00e7\u00e3o de algo vivido que, ao ser significativo volta para o outro, se ressignifica para o sujeito, desfazendo defesas que o deixavam esquecido ou anulado. O filme Central do Brasil \u00e9 muito mais um trabalho de hist\u00f3ria, com evoca\u00e7\u00f5es ou sem elas, que permita uma volta para o Brasil atual&#8221;.<\/p>\n<p>Mario elabora no decorrer do livro uma metapsicologia das neuroses narc\u00edsicas, processo de desestrutura\u00e7\u00e3o e reestrutura\u00e7\u00e3o do sistema Eu ideal\/Ideal do Eu com predom\u00ednio das fun\u00e7\u00f5es mais arcaicas, afetando o redirecionamento ps\u00edquico em torno de significa\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias de autoimagem e de autoestima, num regime que tem sido denominado com propriedade como totalit\u00e1rio. Fala em um imperativo de gozo consum\u00edstico que transforma os bens em suprimentos narc\u00edsicos. H\u00e1 ent\u00e3o a desestrutura\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os comunit\u00e1rios. Assim discorre sobre a melancolia, a anorexia,\u00a0 a adi\u00e7\u00e3o, a bulimia\u2026<\/p>\n<p>Nessa imensa riqueza do mergulho no contempor\u00e2neo chama a aten\u00e7\u00e3o o cap\u00edtulo \u201cFrente \u00e0 morte, frente ao mar\u201d. N\u00e3o conhecia esse texto do Mario sobre o livro confessional de Louis Althusser, <em>O futuro dura muito tempo<\/em>. N\u00e3o sei por que o t\u00edtulo desse cap\u00edtulo me lembrava do amor de Mario pelo mar e me lembrava o mar dos seus olhos sempre muito azuis. Como \u00e9 poss\u00edvel a morte nesse azul do mar?<\/p>\n<p>A an\u00e1lise que Mario vai fazendo do que \u00e9 descrito no livro nos fala de sua arg\u00facia e delicadeza na cl\u00ednica. Mario vai tecendo e mostrando a urdidura da morte que \u00e9 sutilmente tramada desde o encontro de Louis Althusser e Helena. \u00c9 um livro sobre o desaparecimento de pessoas e por isso fisga Mario, que vai tentando elaborar tantos desaparecidos de sua vida. Faz ent\u00e3o a an\u00e1lise que n\u00e3o p\u00f4de fazer&#8230; quantos desaparecidos n\u00e3o encontrados, n\u00e3o enterrados, carregamos em nossa alma? S\u00e3o marcos que nos tornam errantes, judeus ou n\u00e3o, pois esses desaparecimentos levam a uma falta de ancoragem no mundo e a um desejo de uma coletividade que transcenda qualquer nacionalismo.<\/p>\n<p>Peter nos mostrou como a funda\u00e7\u00e3o do Estado de Israel como o Lar nacional dos judeus, ao lhes oferecer um territ\u00f3rio, tamb\u00e9m os reterritorializou subjetivamente. O israelense devia ser duro, forte, vencedor, e se descolar ao m\u00e1ximo da imagem do judeu diasp\u00f3rico, fr\u00e1gil, vulner\u00e1vel, ap\u00e1trida.<\/p>\n<p>Em 2020, na entrevista \u00e0 revista Percurso, Mario nos alertara: \u201cH\u00e1 uma tentativa de homogeneizar e transformar a identidade judaica em uma identidade praticamente gen\u00e9rica. O que \u00e9 um verdadeiro contrassenso para um povo que se sustentou na luta contra o antissemitismo, o racismo e o conceito de ra\u00e7a, que foi t\u00e3o fundamental para o nazismo.<\/p>\n<p>Cito o texto de Peter:<\/p>\n<p>Talvez \u00e9 o que mais nos falte, no Brasil, entre as ditas minorias \u2013 que seja feito o que no universo ind\u00edgena \u00e9 incumb\u00eancia do xam\u00e3 \u2013 a negocia\u00e7\u00e3o entre mundos. Um xam\u00e3 se oferece como um diplomata \u201ccosmopol\u00edtico\u201d, entre vivos e mortos, animais e humanos, passado e presente. Guardadas todas as propor\u00e7\u00f5es, na imensa diversidade que comp\u00f5e este pa\u00eds, talvez o mais importante seja favorecer a coexist\u00eancia entre a pluralidade de mundos, sem que nenhum deles pretenda \u00e0 exclusividade. \u00c9 preciso que tais mundos possam afetar-se uns aos outros, contagiarem-se, sensibilizarem-se mutuamente. Por vezes, disso at\u00e9 podem nascer novos povos e outros modos de povoar o planeta.<\/p>\n<p>Mas como estar \u00e0 altura de um tal desafio? N\u00e3o poder\u00edamos sonhar com uma \u201cinternacional cosmopol\u00edtica\u201d?<\/p>\n<p>Mario Fuks aparece como esse xam\u00e3 que sempre interferiu no mundo surpreendendo, colocando vis\u00f5es inusitadas sobre o cotidiano de todes n\u00f3s.<\/p>\n<p>E, do lugar de permanente ex\u00edlio, soube construir mundos que proliferam como o\u00e1sis nesse mundo neoliberal, propondo desterros necess\u00e1rios para que o pensamento se mantenha vivo. Afinal a judeidade e o devir negro s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de um estar no mundo no contempor\u00e2neo que nos atinge a todos. Uno-me aqui a Mario Fuks, Peter P\u00e1l Pelbart, Mbembe e Betty Fuks, babalaorix\u00e1s de n\u00f3s todes.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um xam\u00e3 para chamar de nosso! Homenagem amorosa e convite vigoroso \u00e0 leitura dos ensaios de Mario Fuks. Por Miriam Chnaiderman.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[109],"tags":[179,83],"edicao":[226],"autor":[167],"class_list":["post-2872","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-homenagem","tag-in-memoriam","tag-leituras","edicao-boletim-69","autor-miriam-chnaiderman","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2872","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2872"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2872\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2873,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2872\/revisions\/2873"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2872"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=2872"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=2872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}