{"id":2876,"date":"2023-11-17T16:42:07","date_gmt":"2023-11-17T19:42:07","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=2876"},"modified":"2023-11-17T16:42:07","modified_gmt":"2023-11-17T19:42:07","slug":"o-imprevisto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2023\/11\/17\/o-imprevisto\/","title":{"rendered":"O imprevisto"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O Imprevisto<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Rubia Delorenzo<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Manh\u00e3 de indol\u00eancia, fria, fim de inverno. O vapor do ch\u00e1 aquecendo o rosto, o jornal aberto sobre a mesa. M\u00e1s not\u00edcias no mundo. Grande imodera\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Fervura, ins\u00e2nia.<\/p>\n<p>Alta temperatura. Quebrou-se a paz.<\/p>\n<p>Ira em fluxo, para evocar o poeta.<\/p>\n<p>Tremi, de s\u00fabito.<\/p>\n<p>Num repente, meu cora\u00e7\u00e3o bate an\u00e1rquico. Acelerado, corre, vai chocar-se, a velocidade \u00e9 muita.<\/p>\n<p>E, sem disciplina, o bra\u00e7o, alterado em sua sensibilidade comum, alerta para o tumulto no corpo.<\/p>\n<p>A ladeira \u00edngreme pareceu plana.<\/p>\n<p>Era preciso venc\u00ea-la e chegar ao topo.<\/p>\n<p>Sem perceber o perigo da agita\u00e7\u00e3o na subida, toda a aten\u00e7\u00e3o gravou-se nas rebeldes estocadas que sovavam meu peito.<\/p>\n<p>Por fim, o t\u00e1xi. O motorista me acalma no caminho. Logo chegaria. Logo estaria entregue a pessoas experientes.<\/p>\n<p>Eu segurava meu cora\u00e7\u00e3o entre minhas m\u00e3os aflitas\u2026<\/p>\n<p>Queria obrig\u00e1-lo a conter-se, a diminuir sua marcha sem ju\u00edzo, a devolver-me alguma calma.<\/p>\n<p>Apesar da urg\u00eancia, da pressa toda, da emerg\u00eancia, da interna\u00e7\u00e3o, meu cora\u00e7\u00e3o ainda era meu, ainda era eu. Pertencia a meu corpo que me pertencia.<\/p>\n<p>Precisei, no entanto, encapsular-me. Tomar provid\u00eancias, obedecer sem argumentos, ficar quieta, serenar. Esperar por leitos, esperar por vagas, aguardar resultados de exames.<\/p>\n<p>Da UTI tenho uma mem\u00f3ria fria.<\/p>\n<p>O corpo que esteve l\u00e1 era um corpo desabitado de mim.<\/p>\n<p>A vida como tesouro, a morte como passagem, est\u00e3o ausentes no cotidiano de uma UTI.<\/p>\n<p>L\u00e1, nem mesmo se considera o pudor do desnudamento sem cerim\u00f4nia de nossos corpos. Enfiados em aventais sem talhe, apertados demais para uns, folgados demais para outros, parecemos sacos indistingu\u00edveis \u00e0 espera de procedimentos.<\/p>\n<p>Sim, as entranhas s\u00e3o reais. Mas suas disfun\u00e7\u00f5es, seus desarranjos n\u00e3o deveriam apagar em n\u00f3s, subitamente, o que nos torna t\u00e3o particulares. Um cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas corpo, \u00f3rg\u00e3o. Pertence \u00e0 l\u00edngua, \u00e9 objeto eloquente, alude \u00e0 letra. \u00c0s dores e encantos do amor.<\/p>\n<p>Como, ent\u00e3o, pensar um acontecimento assim que nos parte ao meio?<\/p>\n<p>N\u00e3o o esperamos, ele chega e nos inunda. Na sequ\u00eancia, nos divide.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma descontinuidade entre a vida ordin\u00e1ria de pouco antes &#8211; o ch\u00e1, o jornal, as not\u00edcias, o encontro marcado para as 2 da tarde &#8211; e o que se passa em seguida.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma marca, um divisor.<\/p>\n<p>Na experi\u00eancia do adoecimento, o cen\u00e1rio dos hospitais nos parece dist\u00f3pico. Capas de tecido est\u00e9ril, de cor branca e azulada, de algum brilho e transpar\u00eancia, vestem como v\u00e9us. A seguir, a desinfec\u00e7\u00e3o, o uso de m\u00e1scaras exclusivas de blindagem.<\/p>\n<p>Estamos num ambiente de fic\u00e7\u00e3o: o p\u00e9 direito alto do galp\u00e3o onde ter\u00e3o lugar os procedimentos de risco; as grandes telas suspensas por onde se monitora todo o interior do organismo. A maca estreita, as tiras de couro para conter movimentos, a diverg\u00eancia entre o corpo f\u00edsico que conhecemos em seus contornos e o corpo parcial, isolado pela aparelhagem da medicina. A pr\u00f3pria finura das veias, o \u00ednfimo di\u00e2metro de um cateter, a delicadeza de um <em>stent<\/em>, s\u00e3o pura inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Press\u00e1gios.<\/p>\n<p>Pode deslizar? Pode perfurar? Pode n\u00e3o caber?<\/p>\n<p>Uma picada e a tens\u00e3o come\u00e7a a se dissolver.<\/p>\n<p>De volta a mim mesma, olhei meu corpo flechado. Espetado, cheio de eletrodos e c\u00e2nulas, ardia na superf\u00edcie da pele.<\/p>\n<p>O que revelaria o avesso do corpo investigado, seus caminhos obscuros, o sil\u00eancio suposto dos \u00f3rg\u00e3os?<\/p>\n<p>A visita dos m\u00e9dicos era curta. S\u00e3o econ\u00f4micos nos afetos, s\u00f3brios nas explica\u00e7\u00f5es. Palavras apressadas desconcertam o ouvinte \u00e1vido em busca de esperan\u00e7a ou desengano.<\/p>\n<p>Depois desta intrus\u00e3o violenta, todo o meu corpo pedia sil\u00eancio, quietude, exausto da prospec\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Mas o livro estava ali, bem ao meu alcance na solid\u00e3o da UTI. Eu o trazia comigo quando tudo aconteceu. Sua leitura invadiu aquele ambiente protocolar e todo o ar se contaminou. Contagiou-se com a indigna\u00e7\u00e3o pelos massacres, pela viola\u00e7\u00e3o e infring\u00eancia, os acordos rompidos, a devasta\u00e7\u00e3o da natureza selvagem. Pela dura realidade de povos inteiros deste mundo, esquecida quando a biologia nos p\u00f5e a nocaute. Estremeci, despertei de meu corpo combalido, expectante.<\/p>\n<p>\u201cEnterrem meu cora\u00e7\u00e3o na curva do rio\u201d.<\/p>\n<p>Luto e condol\u00eancias.<\/p>\n<p>Com saudades da vida comum, queria muito falar. Saudades da mulherada l\u00e1 de casa, das cumplicidades femininas, das hist\u00f3rias partilhadas com humor e amor. Da cotidiana prosa corrida indo da experi\u00eancia \u00e0 novidade.<\/p>\n<p>Bons amigos vieram, ouvi suas vozes, escutei as not\u00edcias de fora, falamos do importante e do trivial. Falamos da grande melancolia que vem envolvendo o mundo, dando espa\u00e7o para o desatino.<\/p>\n<p>Depois de atravessada a turbul\u00eancia, seguiu-se um intervalo distra\u00eddo, um hiato incolor at\u00e9 que a import\u00e2ncia do risco sa\u00edsse da penumbra. Com isso, com essa apari\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o da morte \u00e0 espreita, fez surgir com for\u00e7a a experi\u00eancia do amor. Houve uma queda. Escorreguei do trap\u00e9zio. No entanto, havia uma malha tran\u00e7ada t\u00e3o firme para me acolher que, fora escoria\u00e7\u00f5es, por ora, nada de definitivo aconteceu.<\/p>\n<p>Na volta para casa, meu corpo ainda.<\/p>\n<p>Qualquer desequil\u00edbrio, qualquer baque, qualquer choque, provocam em meu corpo manchas escuras que demoram a empalidecer.<\/p>\n<p>Esse fato me constrange.<\/p>\n<p>Resisto a compartilhar a piscina ou a praia com outros corpos, morenos, que repousam nas espregui\u00e7adeiras ao sol. Corpos que se exibem lisos, homog\u00eaneos na pele, uniformes na cor. Revelo sem o querer uma fraqueza de sangue.<\/p>\n<p>Essa n\u00f3doa viol\u00e1cea, essa mancha desconcertante \u00e9 bem mais do que uma mancha no corpo.<\/p>\n<p>\u00c9 como se meu pr\u00f3prio eu estivesse visivelmente manchado, como se algo tivesse extravasado, se espalhado sem consentimento, para em seguida me descorar, me tornar l\u00edvida, esfuma\u00e7ada, transparente.<\/p>\n<p>A grande ang\u00fastia do desaparecimento \u00e9 pensar que as palavras emudecer\u00e3o. As da revolta e as do amor. As que tentam apreender o assombro, as que apunhalam, as que incendeiam.<\/p>\n<p>E todas as imagens se apagar\u00e3o: a minha pr\u00f3pria, a de outros dentro de mim, as do sonho e as do pesadelo da morte.<\/p>\n<p>E tudo ser\u00e1 sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Outubro &#8211; 2022<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No desatino do mundo, Rubia Delorenzo faz do tumulto do corpo letra viva. 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