{"id":3020,"date":"2024-04-16T10:28:10","date_gmt":"2024-04-16T13:28:10","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3020"},"modified":"2024-04-16T10:28:10","modified_gmt":"2024-04-16T13:28:10","slug":"ubuntu-notas-sobre-um-coloquio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/04\/16\/ubuntu-notas-sobre-um-coloquio\/","title":{"rendered":"Ubuntu &#8211; notas sobre um col\u00f3quio"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Ubuntu <\/strong><strong>\u2013 <\/strong><strong>notas sobre um col<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>quio<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>por Maria de F<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>tima Vicente<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 encontros que abrem mundos.<\/p>\n<p>Voltava de uma festa e a amiga que me dava carona disse que iria a BH para o Col\u00f3quio Ubuntu e perguntou, a mim e a outra amiga tamb\u00e9m presente, se quer\u00edamos ir. Aquela ponderou que talvez n\u00e3o lhe fosse poss\u00edvel devido a compromissos familiares a confirmar para aquelas datas. Quanto a mim, me decidi inopinadamente e disse \u201ceu topo\u201d. At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o sabia desse col\u00f3quio, mas a proposta me pareceu instigante \u2013 <em>Ubuntu <\/em>\u2013 o que poderia ser um col\u00f3quio de Psican\u00e1lise com esse nome?<\/p>\n<p>A \u00fanica refer\u00eancia que eu tinha sobre <em>Ubuntu<\/em> era a refer\u00eancia hist\u00f3rica \u00e0 Comiss\u00e3o de Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o, na \u00c1frica do Sul p\u00f3s <em>apartheid,<\/em> em que esse princ\u00edpio havia sido norteador das pr\u00e1ticas daquela Comiss\u00e3o em um pa\u00eds fraturado por d\u00e9cadas daquele regime. Se procurarmos na Wikipedia, encontraremos que a palavra Ubuntu \u00e9 considerada \u201cconceito da filosofia africana\u201d e referida como sem equivalente em nossas l\u00ednguas ocidentais (talvez por n\u00e3o termos o equivalente dessa experi\u00eancia?) e dela se diz que pode significar algo como \u201ceu sou porque voc\u00ea \u00e9\u201d.\u00a0 Sob essas evoca\u00e7\u00f5es, me decido a ir de pronto ao Col\u00f3quio e fico tamb\u00e9m surpresa por saber que j\u00e1 era um segundo col\u00f3quio desses e que eu o desconhecia, o que fortalecer\u00e1 ainda mais a percep\u00e7\u00e3o difusa, mas persistente, que j\u00e1 me acompanhava, de que o protagonismo das produ\u00e7\u00f5es do eixo Rio-S\u00e3o Paulo tende a acomodar e enrijecer o pensamento. O desejo de mudar isso em mim me impulsionou ainda mais a ir. Tempos depois da volta, passado o Col\u00f3quio, comentei no Conselho de Dire\u00e7\u00e3o do qual participava \u00e0 \u00e9poca, algo do que vinha pensando sobre o que tinha experienciado por l\u00e1 e que tinha vontade de escrever sobre isso. S\u00edlvia, articuladora \u00e1rea de Publica\u00e7\u00f5es e membro do Boletim, me sugeriu que escrevesse um relato de minha experi\u00eancia com o Col\u00f3quio, para um dos n\u00fameros do Boletim nos in\u00edcios do ano de 2024. \u00c9 o que segue.<\/p>\n<p>Esse foi o segundo Col\u00f3quio Internacional de Decoloniza\u00e7\u00e3o e Psican\u00e1lise, e se intitulou <em>Ubuntu <\/em><em>\u2013 <\/em><em>o mal-estar colonial: nossas terras, l<\/em><em>\u00ed<\/em><em>nguas, corpos, mem<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rias e horizontes de transforma<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o<\/em>; realizou-se na Universidade Federal de Minas Gerais \u2013 UFMG, em Belo Horizonte durante os dias 13, 14 e 15 de novembro. Sua proposta foi a de recolher, produzir, articular e compartilhar de um pensamento e das pr\u00e1xis decoloniais, a partir do conhecimento cient\u00edfico produzido no contexto universit\u00e1rio, da cl\u00ednica psicanal\u00edtica em intens\u00e3o e extens\u00e3o e a partir dos saberes tradicionais que se efetivam por meio de outras formas de vida \u2013 outros modos de produ\u00e7\u00e3o e de reprodu\u00e7\u00e3o da vida, por exemplo, os quilombos, e outros modos de sua celebra\u00e7\u00e3o, o das artes populares e\/ou tradicionais. Pretendeu-se discutir como a \u201cheran\u00e7a hist\u00f3rica e geopol\u00edtica dos processos de coloniza\u00e7\u00e3o afeta o inconsciente, o discurso, a mem\u00f3ria e as rela\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas\u201d tendo por refer\u00eancia o eixo Sul-Sul e por perspectiva abrir \u201cespa\u00e7os para uma teoria e pr\u00e1tica migrantes\u201d.<\/p>\n<p>Para realizar essas finalidades t\u00e3o significativas, as atividades foram intensas, iniciando-se pela manh\u00e3, por volta das 8h30\/9h e se estendendo at\u00e9 a noite, frequentemente ultrapassando o teto mais ou menos estabelecido das 19h. Teria sido muito exaustivo se as atividades n\u00e3o fossem todas muito atrativas e se n\u00e3o fossem entremeadas pelos cantos e pelas dan\u00e7as de in\u00fameros grupos tradicionais mineiros, em que as artes dos historicamente postos \u00e0s margens ganharam destaque e vigor. Contribuiu ainda para o clima de uma certa energia juvenil e esperan\u00e7a revividas o ambiente amig\u00e1vel da universidade, seus estudantes e o onipresente almo\u00e7o no bandej\u00e3o universit\u00e1rio, ao qual acorr\u00edamos porque o tempo era escasso e os encontros eram alegres; e ainda, a singeleza do caf\u00e9 da tarde, caf\u00e9 de garrafa t\u00e9rmica, p\u00e3o de queijo mineiro e bolo caseiro, tudo feito pelos organizadores e partilhado com todas e todos.<\/p>\n<p>As palestras das convidadas e convidados locais e estrangeiras e estrangeiros ocorriam no audit\u00f3rio, no primeiro hor\u00e1rio da manh\u00e3 e no \u00faltimo hor\u00e1rio da tarde, o que permitia a presen\u00e7a de todos que quisessem, assim como a eventual prioriza\u00e7\u00e3o desses hor\u00e1rios, caso se desejasse descansar ou passear em Belo Horizonte no entremeio. Eu preferi ficar todo o tempo!<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de uma grande diversidade de brancos e n\u00e3o-brancos de variadas proced\u00eancias \u2013 chineses, indianos, ingleses nascidos na Am\u00e9rica do Sul, canadenses, africanos da \u00c1frica do Sul&#8230; era sedutora e suas falas foram impactantes. Eram, em sua maioria, professores e pesquisadores universit\u00e1rios, mas eram tamb\u00e9m militantes e ativistas de suas causas locais, que se articulavam \u00e0 grande causa decolonial do Col\u00f3quio. Grande parte deles era tamb\u00e9m psicanalista. Dos estrangeiros, retive a apresenta\u00e7\u00e3o desenvolvida pelo \u00fanico latino-americano nascido em uma possess\u00e3o inglesa \u2013 a Guiana; e dos locais, a de um padre, cuja presen\u00e7a no programa do Col\u00f3quio me havia intrigado.<\/p>\n<p>George, o cidad\u00e3o sul-americano do Reino Unido, apresentou um estudo sobre a constru\u00e7\u00e3o social do monstro e da cren\u00e7a genu\u00edna no monstro por parte daquele que do monstro se defende e o mata, amparado por seu direito leg\u00edtimo de \u00fanico a poder usar da viol\u00eancia. Ele tratou dessa tem\u00e1tica a partir dos testemunhos do julgamento de um policial norte-americano, branco, que havia matado um adolescente negro, cara a cara, quando o jovem estava a levantar as m\u00e3os sobre a cabe\u00e7a conforme ordenado pelo policial. A narrativa do r\u00e9u \u00e9 genu\u00edna e traduz todo o resultado de um treinamento espec\u00edfico direto e indireto, mas principalmente, o enraizamento subjetivo no registro inconsciente dos significantes que configuram as fei\u00e7\u00f5es do garoto \u2013 a import\u00e2ncia do cara a cara nessa situa\u00e7\u00e3o \u2013 como algo demon\u00edaco do qual o policial tem n\u00e3o s\u00f3 a obriga\u00e7\u00e3o de se defender como a de proteger a sociedade. O palestrante especifica a instaura\u00e7\u00e3o dos elementos que ir\u00e3o compor o discurso do \u00f3dio, as a\u00e7\u00f5es segregacionistas e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a pol\u00edtica de morte que orienta os que t\u00eam a prerrogativa do uso da viol\u00eancia armada. Trata-se da constru\u00e7\u00e3o de uma f\u00e9, uma f\u00e9 laica que separa os que t\u00eam direito \u00e0 vida dos que n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p>Por outro lado, uma outra dimens\u00e3o da f\u00e9 \u00e9 apresentada pelo padre crist\u00e3o, a f\u00e9 na busca da verdade, f\u00e9 que professa e a que o pertencimento \u00e0 institui\u00e7\u00e3o que o sustenta serve. Ele os utiliza como elementos a servi\u00e7o da recupera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria hist\u00f3rica sobre a exist\u00eancia de uma extensa popula\u00e7\u00e3o negra na Belo Horizonte hist\u00f3rica; ele o faz por meio dos documentos que atestam a concess\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de uma capela cat\u00f3lica para a popula\u00e7\u00e3o de negros que a haviam requisitado e, por meio desse e de outros documentos da Igreja, desvela os caminhos do apagamento da mem\u00f3ria dessa exist\u00eancia, por parte do Estado, quando do planejamento da urbaniza\u00e7\u00e3o de Belo Horizonte. Apagamento realizado por meio da afirma\u00e7\u00e3o, por parte dos agentes do Estado, que ningu\u00e9m habita aquelas terras, que s\u00e3o terras sem povo, repetindo e perpetuando invas\u00f5es e exterm\u00ednio dos povos origin\u00e1rios como marca colonialista e antecipando a continuidade da nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de povos em uma dada terra que se tornou cobi\u00e7\u00e1vel, apagamento que se reproduz no neocolonialismo e neoimperialismo contempor\u00e2neos. Curiosamente, temos nesse caso a Igreja como ve\u00edculo de recupera\u00e7\u00e3o da historicidade que o Estado apagou, prolongando momentos hist\u00f3ricos recentes da Igreja no Brasil, em que esta esteve predominantemente ao lado dos oprimidos. Uma pesquisadora mexicana, radicada no Canad\u00e1, parece poder sintetizar o teor da maioria das apresenta\u00e7\u00f5es dos palestrantes; ela considera que o significante que especifica esta d\u00e9cada \u00e9 o significante \u201cirrespir\u00e1vel\u201d. O que as palestras de certo modo confirmam, uma vez que, nelas, o predom\u00ednio da reflex\u00e3o, \u00e0s vezes, intensifica a dimens\u00e3o angustiante das quest\u00f5es, uma vez que se referem a casos paradigm\u00e1ticos que marcam como a viol\u00eancia se consolida e se reproduz.<\/p>\n<p>Entretanto, as pesquisas dos alunos universit\u00e1rios de gradua\u00e7\u00e3o e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, assim como apresenta\u00e7\u00f5es das Cl\u00ednicas P\u00fablicas fazem um contraponto ao irrespir\u00e1vel e apontam para as perspectivas de abrir espa\u00e7os para uma teoria e pr\u00e1tica migrantes. No primeiro dos casos, pelo predom\u00ednio da investiga\u00e7\u00e3o, no segundo, pelo predom\u00ednio da interven\u00e7\u00e3o em extens\u00e3o, em condi\u00e7\u00f5es ainda pouco familiares \u00e0 Psican\u00e1lise. Em ambos os casos, o futuro tamb\u00e9m fica anunciado pela presen\u00e7a majoritariamente de estudantes e profissionais jovens.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito das pesquisas acad\u00eamicas, apresentadas \u00e0 discuss\u00e3o em salas cujo n\u00famero de presentes, assim como a coordena\u00e7\u00e3o cuidadosa, possibilitavam as conversas, a participa\u00e7\u00e3o era muito estimulante. Ressaltava, para mim, n\u00e3o apenas e n\u00e3o principalmente o conte\u00fado das apresenta\u00e7\u00f5es, que eram bastante significativos e importantes, mas, especialmente, o fato que seus agentes eram, em n\u00famero expressivo, jovens mulheres e homens, pardos, pardas, negras e negros, trazendo n\u00e3o s\u00f3 sangue novo ao pensamento, mas vozes jovens para lutas ancestrais. Fortemente impressionante reconhecer o acerto das pol\u00edticas de cotas, que, neste momento, j\u00e1 resulta na forma\u00e7\u00e3o de muitos mestres e doutores forjados nas problem\u00e1ticas essenciais desta sociedade sob a perspectiva decolonial e atentos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 sua efetiva\u00e7\u00e3o resolutiva.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito das cl\u00ednicas que atuam junto a grupos espec\u00edficos, territ\u00f3rios espec\u00edficos e\/ou perif\u00e9ricos, institui\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, cl\u00ednicas cuja nomea\u00e7\u00e3o abrangente e congregativa se consolidou sob a denomina\u00e7\u00e3o Cl\u00ednicas P\u00fablicas, as apresenta\u00e7\u00f5es foram diversificadas e, de certa forma, um pouco ex\u00edguas para situa\u00e7\u00f5es que envolviam problem\u00e1ticas muito complexas. Tratava-se de um col\u00f3quio dentro de outro, ou seja, as apresenta\u00e7\u00f5es das Cl\u00ednicas P\u00fablicas estavam organizadas como um encontro bienal entre elas, ao qual o grande p\u00fablico presente em Ubuntu p\u00f4de ter acesso.<\/p>\n<p>Foi bastante interessante ouvir a exposi\u00e7\u00e3o, ainda que geral, de muitas interven\u00e7\u00f5es desafiadoras, o modo como cada grupo lidava com seus desafios, e o desafio comum, relacionado a (n\u00e3o) ter dinheiro, ou seja, quando se tem a possibilidade de subven\u00e7\u00f5es que \u00e0 primeira vista poderiam facilitar a continuidade do trabalho, mas que, frequentemente, introduzem uma dimens\u00e3o de hierarquiza\u00e7\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o de lugares a qual havia podido ser ignorada at\u00e9 ent\u00e3o. A mim chamou a aten\u00e7\u00e3o que grande parte daqueles trabalhos havia se iniciado por volta de 2016, ano ao qual associei a ascens\u00e3o pol\u00edtica da direita no \u00e2mbito do governo federal, efetivado pelo governo Temer, ap\u00f3s o golpe contra Dilma Rousseff e que haviam continuado durante todo o per\u00edodo bolsonarista. O que as caracterizaria tamb\u00e9m como respostas de resist\u00eancia pol\u00edtica \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o. Tor\u00e7o pela continuidade dos trabalhos, mas fiquei preocupada pelas condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o de projetos t\u00e3o exigentes, embora muito vivificantes. Apostei silenciosamente na for\u00e7a da juventude! Apenas assisti \u00e0s discuss\u00f5es, n\u00e3o me vi em condi\u00e7\u00f5es de participar, mas apenas de ouvir e aprender.<\/p>\n<p>Minha angustiosa apreens\u00e3o quanto ao futuro imediato daquelas a\u00e7\u00f5es de interven\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica se dissipou um pouco com o renovado frescor das vozes ancestrais atualizadas, que trouxeram sua experi\u00eancia de persist\u00eancia e de luta historicamente cont\u00ednua, ainda que silenciadas, ainda que em risco constante de apagamento&#8230; As vozes das mulheres quilombolas do quilombo citadino em que se deu a finaliza\u00e7\u00e3o do Col\u00f3quio.<\/p>\n<p>No primeiro momento, meu estranhamento quanto ao que poderia ser um quilombo no interior de uma metr\u00f3pole. Grande percurso de <em>Uber<\/em> e chegamos a uma rua inclinada, em um bairro mais ou menos distante dos bairros por onde eu havia circulado, mais ou menos com apar\u00eancia de popula\u00e7\u00e3o de classe m\u00e9dia baixa e um ar de cidade do interior com crian\u00e7as nas ruas. Ou\u00e7o ent\u00e3o as falas das mulheres, que historizam a luta pela reivindica\u00e7\u00e3o daquelas terras, pertencentes a seus ancestrais escravizados e posteriormente libertos \u2013 novamente a quest\u00e3o da terra e do territ\u00f3rio. Me dou conta que se trata de dom\u00ednio e de pertencimento como posi\u00e7\u00f5es em confronto, a propriedade da terra versus o pertencimento ao territ\u00f3rio e o manejo de seus usos e de sua ocupa\u00e7\u00e3o. Penso entender que <em>quilombo<\/em> \u00e9 como <em>ubuntu<\/em>, uma palavra que n\u00e3o tem equivalente em nossas l\u00ednguas ocidentais, porque n\u00e3o temos delas a experi\u00eancia que lhes d\u00e1 lastro. Compreendo que essas experi\u00eancias nos s\u00e3o inacess\u00edveis, pois n\u00e3o s\u00e3o nossas, mas que essas palavras nos franqueiam passagens a esses outros mundos, passagens que nos cabe assegurar com novas e permanentemente renovadas trilhas. Criando os lastros de nossas experi\u00eancias para, talvez, por fim, atingirmos essas palavras e criarmos outras, novas, junto com aqueles que as criaram anteriormente.<\/p>\n<p>\u00c9 dessa forma que entendo o sentido da \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o que encerrou o Col\u00f3quio, a cria\u00e7\u00e3o de trilhas de acesso. Tratou-se de uma conversa com um convidado estrangeiro, o incans\u00e1vel, poliglota e fecundo psicanalista Thamy Ayouch que apresentou seu trabalho ainda em estado embrion\u00e1rio, de elabora\u00e7\u00e3o. Trabalho por meio do qual realiza um certo modo de retorno a Freud: \u00e0 luz da interseccionalidade de ra\u00e7a, g\u00eanero e classe, na perspectiva decolonial de produzir a teoria e pr\u00e1tica migrantes. O autor ter\u00e1 por objeto a sexualidade infantil, conforme discutida por Freud no texto \u201cTr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade\u201d, de 1905. \u00c9 cedo para saber as conclus\u00f5es, mas a not\u00edcia de que h\u00e1 um processo como esse em curso \u00e9 em si muito entusiasmante.<\/p>\n<p>Como, ali\u00e1s, foi todo o Col\u00f3quio.<\/p>\n<p>Recomendo a todas e todos um poss\u00edvel terceiro col\u00f3quio.<\/p>\n<p>Eu estarei l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">S\u00e3o Paulo, 24 de mar\u00e7o de 2024.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a> Psicanalista. Membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Me chama que eu vou! Um relato breve e pessoal de Fatima Vicente.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[90],"tags":[96],"edicao":[249],"autor":[204],"class_list":["post-3020","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-campo-psicanalitico","tag-congressos","edicao-boletim-70","autor-maria-de-fatima-vicente","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3020","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3020"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3020\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3021,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3020\/revisions\/3021"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3020"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3020"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}