{"id":3022,"date":"2024-04-16T10:36:24","date_gmt":"2024-04-16T13:36:24","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3022"},"modified":"2024-04-19T10:17:03","modified_gmt":"2024-04-19T13:17:03","slug":"sobre-o-concurso-de-estudantes-dr-jorge-rosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/04\/16\/sobre-o-concurso-de-estudantes-dr-jorge-rosa\/","title":{"rendered":"Sobre o concurso de estudantes Dr. Jorge Rosa"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Sobre o Concurso de Estudantes Dr. Jorge Rosa<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">XII CONGRESSO FLAPPSIP<br \/>\nPSICOAN\u00c1LISIS BORDES Y DESBORDES<br \/>\nTransformaciones em tempos de desmesura<br \/>\nSantiago, Chile 13, 14 e 15 de outubro de 2023<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>Elcio Gon<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>alves<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cSeria uma tolice tentar deter o furac\u00e3o ou a vertigem civilizat\u00f3ria em que vivemos. Trata-se de n\u00e3o ceder \u00e0 perplexidade e entender o que podemos\u201d (Marcelo Vi\u00f1ar, 2013)<\/p>\n<p>Foi com essa ep\u00edgrafe que o(a)s colegas da Sociedade Chilena de Psican\u00e1lise (ICHPA), integrante, como o nosso Departamento, da Federa\u00e7\u00e3o Latino Americana de Associa\u00e7\u00f5es de Psicoterapia Psicanal\u00edtica e Psican\u00e1lise (FLAPPSIP), enunciaram e convidaram, a todos os seus membros, a participar do Congresso de 2023, com apresenta\u00e7\u00e3o de trabalhos e <em>workshops <\/em>te\u00f3rico-cl\u00ednicos.<\/p>\n<p>Como ocorre em todos os congressos da associa\u00e7\u00e3o, os colegas em forma\u00e7\u00e3o, nos institutos e associa\u00e7\u00f5es filiadas, tamb\u00e9m foram convidados a participar do mesmo, enviando seus trabalhos, atrav\u00e9s dos quais concorreriam ao pr\u00eamio Dr. Jorge Rosa.<\/p>\n<p>O disparador em torno do qual o congresso foi organizado implicou em refletir sobre as \u201cnovas\u201d bordas e as transforma\u00e7\u00f5es requeridas, \u00e0 psican\u00e1lise e aos psicanalistas, na sua escuta e manejo cl\u00ednico, num momento de sens\u00edveis transforma\u00e7\u00f5es na Cultura e seus transbordamentos.<\/p>\n<p>Situando-nos sobre o que foi colocado em quest\u00e3o, sigamos a proposi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio conselho cient\u00edfico junto \u00e0 comiss\u00e3o organizadora:<\/p>\n<p>\u201cPoder\u00edamos nos perguntar nesta atual situa\u00e7\u00e3o globalizada, onde h\u00e1 pontos em comum, que atravessam diferentes pa\u00edses e formas culturais, se talvez estejamos passando por uma crise civilizat\u00f3ria. V\u00e1rios autores como Marcelo Vi\u00f1ar, Bifo Berardi, ou o pr\u00f3prio Freud, em 1933, em \u201cO porqu\u00ea da guerra\u201d, anunciavam esta possibilidade.<\/p>\n<p>Em 1919, um ano ap\u00f3s o fim da Primeira Guerra Mundial, Ferenczi referiu-se \u00e0 crise civilizat\u00f3ria, insinuando que a psican\u00e1lise n\u00e3o tinha rem\u00e9dio para as psicoses massivas.<\/p>\n<p><em>Pensamos nas bordas e transbordamentos como um processo<\/em>. Quando as bordas de uma civiliza\u00e7\u00e3o entram em crise, um desequil\u00edbrio irrompe, dando lugar aos transbordamentos necess\u00e1rios para o surgimento de outras ideias, experi\u00eancias protagonistas, \u00e9 o <em>tempo do in<\/em><em>\u00e9<\/em><em>dito.<\/em><\/p>\n<p>Os \u00faltimos fen\u00f4menos que nos t\u00eam afetado globalmente tornaram vis\u00edvel, al\u00e9m de uma enorme desigualdade, \u201cum desequil\u00edbrio de alt\u00edssima instabilidade que j\u00e1 existia, entre o humano e o mundo\u201d. (A. Stolkiner).<\/p>\n<p>Perguntamo-nos de que forma as bordas se deslocam, se opacam, as produ\u00e7\u00f5es humanas se desprendem de seus enquadramentos e de suas supostas certezas. <em>Podemos pensar em transbordamentos como processos situados, cujo futuro n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o conhecemos. Podem ser vitais ou mortais. <\/em><\/p>\n<p><em>Como se <\/em><em>constroi<\/em><em> a subjetividade nestes tempos de incertezas e imprevisibilidade?&#8221; <\/em><\/p>\n<p>A partir dessa complexa quest\u00e3o foram propostos os seguintes eixos tem\u00e1ticos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>TRANSFORMA\u00c7\u00d5ES S\u00d3CIO\u2013CULTURAIS<br \/>\nBORDAS E EXCESSOS DA CULTURA E DA VIDA COTIDIANA<br \/>\n. Psican\u00e1lise nas bordas.<br \/>\n. A desmesura do poder: perversidade \/ permissividade do poder.<br \/>\n. Os movimentos de reconstru\u00e7\u00e3o \u2013 restitui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e historiciza\u00e7\u00e3o em tempos de transforma\u00e7\u00f5es.<br \/>\n. O tempo do in\u00e9dito.<br \/>\n. Transbordamentos como processos situados vitais ou mortais.<\/p>\n<p>CIRCULA\u00c7\u00d5ES, MIGRA\u00c7\u00d5ES E TR\u00c2NSITOS<br \/>\n. O nomadismo do s\u00e9culo XXI. Causas e consequ\u00eancias.<br \/>\n. Tr\u00e1fico de pessoas, tr\u00e1fico de drogas, racismo, \u00f3dio.<br \/>\n. Movimentos migrat\u00f3rios. O fen\u00f4meno migrat\u00f3rio na Am\u00e9rica Latina.<br \/>\n. Psican\u00e1lise e movimentos sociais.<br \/>\n. Movimentos sociais e tecnologias digitais, novas pr\u00e1ticas de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>MODELOS PARA MONTAR. CULTURA E \u00c9TICA<br \/>\n. Viver Bem. Pol\u00edticas de Cuidado. Pol\u00edticas P\u00fablicas.<br \/>\n. Direitos Humanos. Novas formas de resist\u00eancia. Pr\u00e1ticas de cuidado como responsabilidade social.<br \/>\n. Qual o tratamento atual para crian\u00e7as e adolescentes?<br \/>\n. Seguran\u00e7a: inseguro quem?<br \/>\n. Consequ\u00eancias do individualismo. Que cultura diante da indiferen\u00e7a do semelhante?<\/p>\n<p>PSICAN\u00c1LISE NAS BORDAS<br \/>\nSOBRE A CL\u00cdNICA<br \/>\n. Desmesura dos diagn\u00f3sticos<br \/>\n. O mundo em que vivemos. Consumos problem\u00e1ticos.<br \/>\n. Transbordamentos no espa\u00e7o cl\u00ednico.<br \/>\n. Psican\u00e1lise. Interdisciplina. Incapacidade.<br \/>\n. Arte e psican\u00e1lise.<br \/>\n. Abordagem aos idosos perante a incerteza.<br \/>\n. Problemas das bordas na cl\u00ednica psicanal\u00edtica.<br \/>\n. O jogo e a desmesura no trabalho com crian\u00e7as.<br \/>\n. A forma\u00e7\u00e3o de analistas (imediatismo e velocidade)<\/p>\n<p>BORDAS E TRANSBORDAMENTOS COMO PROCESSO.<br \/>\nCONSTRU\u00c7\u00c3O DA SUBJETIVIDADE EM TEMPOS DE INCERTEZA<br \/>\n. Novas formas de comunica\u00e7\u00e3o. Excesso de informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n. Temporalidade. Tempo e velocidade.<br \/>\n. Tecnologias e processamento ps\u00edquico.<br \/>\n. Fortaleza do tempo sobre o espa\u00e7o e o tempo real.<br \/>\n. O n\u00e3o-lugar. O inabit\u00e1vel.<\/p>\n<p>MESURA E DESMESURA.<br \/>\nSOFRIMENTO PS\u00cdQUICO CONTEMPOR\u00c2NEO. O CORPO COMO UM PERGAMINHO DE HIST\u00d3RIAS.<br \/>\n. A diversidade de corpos e sexualidade.<br \/>\n. Corpos que falam.<br \/>\n. Psican\u00e1lise e diversidade.<br \/>\n. Diversidade e diferen\u00e7a.<br \/>\n. Psican\u00e1lise e g\u00eanero.<br \/>\n. Viol\u00eancia dom\u00e9stica.<br \/>\n. O v\u00edcio \u2013 figura da \u00e9poca?<br \/>\n. Os lutos e o Covid. Experi\u00eancias de desamparo.<\/p>\n<p>Como podemos verificar, a psican\u00e1lise e os psicanalistas, enquanto sujeitos singulares e cidad\u00e3os, independentemente de seu pa\u00eds de origem ou filia\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m padecem da sintomatologia coletiva e do \u201cesp\u00edrito do tempo\u201d pelos quais s\u00e3o atravessados.<\/p>\n<p>Parafraseando Martin Heiddegger: \u201c&#8230; <em>tudo o que <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>humano, n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o me <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>estranho<\/em>\u201d. Parece poss\u00edvel verificar que o volume de eixos e temas proposto para o nosso \u00faltimo congresso n\u00e3o foi capaz de evitar o que o pr\u00f3prio disparador p\u00f4s em quest\u00e3o: Tempos de excessos, com transforma\u00e7\u00f5es e transbordamentos, e suas consequ\u00eancias nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe, a FLAPPSIP foi criada no <em>Sal<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o dos passos perdidos<\/em> (um nome pr\u00f3prio sugestivo) no Pal\u00e1cio Legislativo, de Montevid\u00e9u \u2013 Uruguai em 21 de maio de 1998 e o discurso de abertura foi proferido pelo professor Dr. Jorge Rosa, reunindo naquele momento algumas institui\u00e7\u00f5es de pa\u00edses vizinhos que, al\u00e9m do Brasil, foram: Argentina, Chile, Peru e Uruguai.<\/p>\n<p>Num ponto de seu discurso fundador, Dr. Jorge Rosa frisou o que h\u00e1 ainda hoje de significante nessa proposta de associa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cJuntos trocamos ideias e juntos come\u00e7amos a cristalizar esse projeto. Consideramos que o interc\u00e2mbio enriquece, que as nossas institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o em parte semelhantes e diferentes, mas que nos encoraja ou deseja que partilhemos o progresso cient\u00edfico, ou o conhecimento m\u00fatuo e o desenvolvimento da teoria e da pr\u00e1tica da psican\u00e1lise nas suas diversas vertentes\u201d.<\/p>\n<p>Hoje sabemos que a \u201ccristaliza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 indicada num mundo em constante e permanente transforma\u00e7\u00e3o; por\u00e9m, segue sendo fundamental que alguns pilares se mantenham t\u00e3o est\u00e1veis quanto poss\u00edvel na psican\u00e1lise, fortalecendo dinamicamente a escuta cl\u00ednica e a \u00e9tica que lhe \u00e9 requerida, sem se deixar cair na tenta\u00e7\u00e3o de uma forma\u00e7\u00e3o inconsistente e imediatista, a exemplo da tentativa de profissionaliza\u00e7\u00e3o sindicalizada ou regulamentada pelos padr\u00f5es MEC de educa\u00e7\u00e3o, como t\u00eam ensejado alguns grupos.<\/p>\n<p>Essa longa introdu\u00e7\u00e3o visa nos aquecer e posicionar sobre o que foi o XII Congresso da FLAPPSIP, de 2023, cujos trabalhos apresentados por colegas do nosso Departamento foram bem acolhidos e dever\u00e3o ser novamente compartilhados, intramuros, no DIA FLAPPSIP, no nosso Departamento, a ocorrer nos dias 12 e 13 de abril pr\u00f3ximos; bem como a origem da FLAPPSIP e, consequentemente, do pr\u00eamio Dr. Jorge Rosa &#8211; que visa, entre outras coisas, estimular a troca entre colegas em forma\u00e7\u00e3o nas suas diferentes institui\u00e7\u00f5es filiadas.<\/p>\n<p>O concurso Dr. Jorge Rosa no ano de 2023 contou com a participa\u00e7\u00e3o de 22 trabalhos, com os seguintes pr\u00e9-requisitos:<br \/>\n. an\u00f4nimos (com identifica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de pseud\u00f4nimos)<br \/>\n. in\u00e9ditos<br \/>\n. com autoria individual ou grupal<br \/>\n. num formato m\u00e1ximo de seis p\u00e1ginas mais bibliografia<br \/>\n. formato A 4<br \/>\n. espa\u00e7o duplo<br \/>\n. letra: Arial 12<br \/>\n.cita\u00e7\u00f5es conforme normas da APA<\/p>\n<p>e crit\u00e9rios de:<br \/>\n. pertin\u00eancia tem\u00e1tica<br \/>\n. originalidade<br \/>\n. rigor conceitual<br \/>\n. inser\u00e7\u00e3o nas problem\u00e1ticas socioculturais latino-americanas<br \/>\n. contextualiza\u00e7\u00e3o<br \/>\n. aporte reflexivo \u00e0 psican\u00e1lise contempor\u00e2nea<br \/>\n.atualidade da problem\u00e1tica trabalhada.<\/p>\n<p>Tendo aceito o convite das colegas do grupo representante da FLAPPSIP no nosso Departamento, composto por:<br \/>\nSilvia Alonso (Secretaria Cient\u00edfica da Diretoria da FLAPPSIP bi\u00eanio 2024-2026)<br \/>\nDanielle Breyton (Delegada)<br \/>\nHelena Albuquerque (Delegada)<br \/>\ne grupo de apoio composto por:<br \/>\nMara Selaibe<br \/>\nMaria Aparecida Barbirato<br \/>\nMaria Beatriz Vannuchi<br \/>\nSilvia M Moraes Gon\u00e7alves<br \/>\nSilvia Ribes<\/p>\n<p>Tive o prazer de conhecer as colegas:<br \/>\nMarcela Marsenac (ASAPPIA \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Argentina de Psiquiatria e Psicologia da Inf\u00e2ncia e da Adolesc\u00eancia)<br \/>\nOlinda Serrano Dreifuss (APPPNA \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Peruana de Psicoterapia Psicanal\u00edtica de Crian\u00e7as e Adolescentes)<br \/>\ncom quem compus a comiss\u00e3o julgadora do pr\u00eamio, bem como o conte\u00fado dos trabalhos enviados que, na sua maioria, al\u00e9m de atender aos pr\u00e9-requisitos propostos, nos pareceram totalmente bem investidos e dedicados ao proposto, dificultando de certo modo a atribui\u00e7\u00e3o de valor na escala\u00e7\u00e3o dos \u201cmelhores\u201d. N\u00e3o por acaso, tivemos al\u00e9m dos tr\u00eas primeiros colocados o acr\u00e9scimo de duas men\u00e7\u00f5es honrosas:<br \/>\n. <strong>Primeiro lugar<br \/>\n<\/strong>Valentina Bravo Pelizzola,\u00a0&#8220;Reflexiones en torno a la cl\u00ednica psicoanal\u00edtica con adolescentes: Lugar, funci\u00f3n y posici\u00f3n del analista&#8221;. Chilena, Postgrado \u00a0ASAPPIA.<br \/>\n. <strong>Segundo lugar<br \/>\n<\/strong>Sergio Correa, \u201cEl trabajo ps\u00edquico de sobrevivir y las perturbaciones en el sentimiento de estar vivo: una modalidad del sufrimiento ps\u00edquico para las subjetividades latinoamericanas en riesgo de deshumanizaci\u00f3n\u201d Colombia, \u00a0ASAPPIA.<br \/>\n. <strong>Terceiro lugar<br \/>\n<\/strong>Fernanda Almeida,\u00a0&#8220;a COR da PELE do CORPO que (Eu)habito&#8221;, Brasil, Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto SEDES Sapientiae.<br \/>\ne duas men\u00e7\u00f5es honrosas:<br \/>\n<strong>. Primeira:<br \/>\n<\/strong>Rodrigo Civetta, &#8220;El dispositivo psicoanal\u00edtico interpelado: desbordes y neog\u00e9nesis&#8221;, Argentina, ASAPPIA.<br \/>\n<strong>. Segunda:<br \/>\n<\/strong>Gimena Abasto\u00a0\u201cPor un psicoan\u00e1lisis que pueda seguir escuchando\u201d, Argentina, AEAPG.<\/p>\n<p>Orientado pela ordem decrescente na hierarquia dos trabalhos classificados (conforme a m\u00e1xima: \u201cos \u00faltimos ser\u00e3o os primeiros\u201d) recorto um pequeno par\u00e1grafo do trabalho de Gimena Abasto, que condensa parte da atualidade de seu pensamento, num artigo que em breve poder\u00e1 ser acessado por completo, no pr\u00f3ximo n\u00famero da revista FLAPPSIP: \u201cPor um psicoan\u00e1lisis que pueda seguir escuchando\u201d (2\u00aa Men\u00e7\u00e3o honrosa).<\/p>\n<p>\u201c&#8230; <em>hoje a psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise deve poder sustentar sua abertura ao incerto, suportar as tens<\/em><em>\u00f5<\/em><em>es das revis<\/em><em>\u00f5<\/em><em>es intra<\/em><em>\u2013<\/em><em>te<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ricas e n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o deixar de apostar no gesto freudiano de escutar novos padecimentos subjetivos. Quando digo novos, n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o fa<\/em><em>\u00e7<\/em><em>o refer<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia <\/em><em>\u00e0<\/em><em>queles que antes n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o existiam, mas que gra<\/em><em>\u00e7<\/em><em>as a uma hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria de conquista de direitos em nosso pa<\/em><em>\u00ed<\/em><em>s (Argentina) hoje chegam ao consult<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rio subjetividades diferentes <\/em><em>\u00e0<\/em><em>s de um tempo anterior: pacientes pobres, pacientes trans travestis, pacientes de povos origin<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rios que t<\/em><em>\u00ea<\/em><em>m muito o que dizer; e do nosso lado fica a responsabilidade de poder escutar, ainda quando estes padecimentos atentem contra a coes<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o conceitual de nosso corpo te<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rico<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Recupero, da sua argumenta\u00e7\u00e3o, o momento atravessado pela Argentina e sua situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica p\u00f3s-pand\u00eamica e em crise pol\u00edtico-financeira, em que recorre \u00e0 distin\u00e7\u00e3o proposta por Silvia Bleichmar (1999) entre \u201c<em>constitui<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o ps<\/em><em>\u00ed<\/em><em>quica e produ<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o de subjetividade<\/em>\u201d, reafirmando que: a primeira faz refer\u00eancia a \u201c<em>vari<\/em><em>\u00e1<\/em><em>veis cuja perman<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia transcende certos modelos sociais e hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ricos<\/em>\u201d que podem ser mantidas no campo espec\u00edfico da psican\u00e1lise, enquanto a segunda inclui \u201c<em>aqueles aspectos que comp<\/em><em>\u00f5<\/em><em>em a constitui<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o social do sujeito, em termos de produ<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o e reprodu<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o ideol<\/em><em>\u00f3<\/em><em>gica e de articula<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o com as vari<\/em><em>\u00e1<\/em><em>veis sociais que o inscrevem num tempo e espa<\/em><em>\u00e7<\/em><em>o particulares do ponto de vista da hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria pol<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A 1\u00aa posi\u00e7\u00e3o de men\u00e7\u00e3o honrosa coube a Rodrigo Civetta, com o trabalho &#8220;El dispositivo psicoanal\u00edtico interpelado: desbordes y neog\u00e9nesis&#8221;, tamb\u00e9m da Argentina (ASAPPIA), pondo em quest\u00e3o as bordas, as leituras, conceitos e recursos cl\u00ednicos e o que pensamos a respeito dos modelos psicopatol\u00f3gicos atuais. O que dizer e como pensar as situa\u00e7\u00f5es de crise, os epis\u00f3dios de desorganiza\u00e7\u00e3o e de descargas massivas de afeto, mediante o discurso ou das atua\u00e7\u00f5es, que p\u00f5em \u00e0\u00a0 prova as capacidades de liga\u00e7\u00e3o entre as representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas do Eu, dos pacientes e dos analistas, impondo-se e desafiando a nossa escuta, teoriza\u00e7\u00f5es flutuantes e capacidades de simboliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Em outras palavras: como trabalhar com os transbordamentos impostos aos diagn\u00f3sticos e \u00e0s estruturas fundantes (neurose, psicose e pervers\u00e3o) que extrapolam as proposi\u00e7\u00f5es em torno do Nome do Pai, bem como, a n\u00edvel cl\u00ednico, de tudo aquilo que na escuta ultrapassa o desvelamento do inconsciente e seus sintomas mediante a aten\u00e7\u00e3o flutuante e a associa\u00e7\u00e3o livre, mais voltados \u00e0 cl\u00ednica das neuroses?<\/p>\n<p>Sobre o que o autor, tamb\u00e9m acompanhado pela teoriza\u00e7\u00e3o de Silvia Bleichmar (2006), prop\u00f5e um modelo de escuta dos <em>desbordes <\/em>do dispositivo anal\u00edtico, atrav\u00e9s de um trabalho de revis\u00e3o, recomposi\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de algo novo \u2013 uma <em>neog<\/em><em>\u00ea<\/em><em>nese<\/em> capaz de abarcar a nova e atual pluralidade de sofrimentos ps\u00edquicos, cuja express\u00e3o psicopatol\u00f3gica requer que pensemos outras conceitualiza\u00e7\u00f5es e ferramentas.<\/p>\n<p>Concluindo que \u00e9 urgente pensar numa pr\u00e1tica cl\u00ednica situada, arraigada e delimitada por um contexto sociocultural e hist\u00f3rico, na qual as trocas nos modos de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade, que teriam gerado grandes d\u00e9ficits de narciza\u00e7\u00e3o e simboliza\u00e7\u00e3o, possam dar lugar a uma nova qualifica\u00e7\u00e3o dos afetos, capacidade de liga\u00e7\u00e3o e de articula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, assim fazendo frente aos excessos intrusivos, provenientes \u201cde fora\u201d \u2013 promotores de rupturas nos la\u00e7os sociais e nas associa\u00e7\u00f5es de um sujeito.<\/p>\n<p>Sobre o 3\u00ba lugar no concurso Dr. Jorge Rosa (2023), ele foi atribu\u00eddo com m\u00e9rito \u00e0 Fernanda Almeida,\u00a0com o trabalho &#8220;a COR da PELE do CORPO que (Eu)habito&#8221;, aberto com um trecho da can\u00e7\u00e3o <em>Ism<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lia <\/em>do rapper, cantor, compositor e apresentador brasileiro Emicida:<\/p>\n<p>\u201cEla quis ser chamada de morena<br \/>\nQue isso camufla o abismo entre si e a humanidade plena<br \/>\nA raiva insufla, pensa nesse esquema<br \/>\nA ideia imunda, tudo inunda<br \/>\nA dor profunda \u00e9 que todo mundo \u00e9 meu tema.\u201d<\/p>\n<p>Partindo do impacto provocado por uma pe\u00e7a de teatro \u201cOB\u00cdNRIN AL\u00c1GB\u00c1RA \u2013 MULHERES FORTES\u201d e de seu conjunto musical de fundo, composto de tambores e atabaques, na qual, numa das cenas, uma das personagens entoava um canto: \u201cminha m\u00e3e foi uma mulher preta!\u201d e suas repercuss\u00f5es em an\u00e1lise, a psicanalista p\u00f5e em quest\u00e3o a sua \u201cm\u00e1scara branca\u201d e a prote\u00e7\u00e3o defensiva da qual havia se servido at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Da <em>Descida aos infernos: a motiva<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o da escrita<\/em>,\u00a0 passando por depoimentos pessoais e por sua concep\u00e7\u00e3o de racismo: \u201cn\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno social epis\u00f3dico ou patol\u00f3gico, o racismo na sociedade moderna contempor\u00e2nea \u00e9 constitutivo do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista\u201d tomando como refer\u00eancia Clovis Moura e Florestan Fernandes, na esteira de Silvio Almeida e do conceito de racismo estrutural, a colega discorre com muita apropria\u00e7\u00e3o sobre o racismo e seus desdobramentos, acrescentando \u00e0 quest\u00e3o proposta pela FLAPPSIP \u201c<em>Como se constr<\/em><em>\u00f3<\/em><em>i a subjetividade nestes tempos de incertezas e imprevisibilidade?<\/em>\u201d o seu acr\u00e9scimo pessoal:<\/p>\n<p>\u201c<em>A psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise e os psicanalistas latino-americanos est<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o em condi<\/em><em>\u00e7\u00f5<\/em><em>es de escutar as dores e os sofrimentos conscientes e inconscientes atravessados pelo racismo em tempos de resist<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncias e pactos narc<\/em><em>\u00ed<\/em><em>sicos por parte da branquitude, e por outro lado, das insurg<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncias disruptivas por parte de sujeitos racializados<\/em>?\u201d<\/p>\n<p>Entre Freud e Fanon, contando com a perspectiva de Paim Filho, Davison Faustino, L\u00e9lia Gonz\u00e1lez e seu conceito de <em>Amefricanidade<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><strong>, <\/strong>recupera a presen\u00e7a hist\u00f3rica de Virg\u00ednia Leone Bicudo (a pioneira, psicanalista negra, credenciada pela IPA nos anos 50) e Neusa Souza Santos, j\u00e1 falecidas, al\u00e9m de autoras contempor\u00e2neas como Izildinha Baptista Nogueira, Maria Lucia da Silva e Cida Bento com um conjunto de novas elabora\u00e7\u00f5es metapsicol\u00f3gicas e \u00e9tico-pol\u00edticas em torno do racismo. A autora passa por, e coloca o leitor em, uma reflex\u00e3o significativa sobre o tema, reunindo para al\u00e9m de seu depoimento pessoal, v\u00e1rias quest\u00f5es conceituais a serem apropriadas, atrav\u00e9s de um necess\u00e1rio letramento, culminando com eventos da contemporaneidade e a viol\u00eancia preconceituosa, recuperando a quest\u00e3o: VIDAS NEGRAS IMPORTAM? (Minneapolis, EUA \u2013 George Perry Floyd Jr., 2020) refletindo com Judith Butler (2021): quais as vidas que t\u00eam valor?<\/p>\n<p>Com destaque para COR, PELE, CORPO: A constitui\u00e7\u00e3o do Eu e o tornar-se negro a colega busca responder na conclus\u00e3o de seu texto, \u201cquais s\u00e3o os impactos do racismo na constitui\u00e7\u00e3o dos sujeitos?\u201d algo que vou deixar aqui em aberto, considerando a proximidade do nosso pr\u00f3ximo evento DIA FLAPPSIP onde a pr\u00f3pria autora nos dar\u00e1 o prazer de discorrer sobre o tema e conosco dialogar presencialmente.<\/p>\n<p>Sobre o segundo lugar na classifica\u00e7\u00e3o do concurso, foi eleito com destaque o texto de Sergio Correa, que concorreu com o artigo \u201cEl trabajo ps\u00edquico de sobrevivir y las perturbaciones en el sentimiento de estar vivo: una modalidad del sufrimiento ps\u00edquico para las subjetividades latinoamericanas en riesgo de deshumanizaci\u00f3n\u201d Colombia (ASAPPIA).<\/p>\n<p>Sua ep\u00edgrafe, tomada de empr\u00e9stimo de Piera Aulagnier<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>: \u201c<em>? A qu<\/em><em>\u00e9 <\/em><em>condiciones tiene que responder la organizaci<\/em><em>\u00f3<\/em><em>n del campo social para que el sujeto que toma lugar ahi no tenga que pagar esta entrada com um precio que pondria em peligro su funcionamento ps<\/em><em>\u00ed<\/em><em>quico?<\/em>\u201d, fala por si.<\/p>\n<p>Afirmando que as condi\u00e7\u00f5es sociais, hist\u00f3ricas, \u00e9tico-pol\u00edticas e econ\u00f4micas s\u00e3o as respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de sujeitos e de suas formas de express\u00e3o e sofrimentos, o autor nos interroga sobre o que fazer dos \u201crestos\u201d refletidos nas formas de sofrimento inconcili\u00e1veis entre a Europa e a Am\u00e9rica Latina, para refletir sobre os desafios \u00e0 psican\u00e1lise no nosso continente.<\/p>\n<p>Apoiado em Silvia Bleichmar, Freud, Castoriadis e Mbembe, dentre outros, Sergio \u00a0p\u00f5e em evid\u00eancia as formas de precariza\u00e7\u00e3o do Eu, como resultado de in\u00fameros atentados \u00e0 vida identit\u00e1ria na Am\u00e9rica Latina, face a procedimentos de poder e de mecanismos de modula\u00e7\u00e3o do desejo, a servi\u00e7o de necropol\u00edticas que incluem a desumaniza\u00e7\u00e3o como parte da gram\u00e1tica da vida cotidiana.<\/p>\n<p>Enumera processos desumanizantes, fruto da dessubjetiva\u00e7\u00e3o, com perda dos enunciados pr\u00f3prios \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o de sujeito, com base nos Ideais, que resultam em queda na organiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Eu, \u00e0 medida que grande parcela das popula\u00e7\u00f5es necessita deixar de ser quem \u00e9, para buscar um modo de inser\u00e7\u00e3o que lhe permita sobreviver.<\/p>\n<p>S\u00e3o processos, afirma o autor, de desmantelamento da subjetividade na Am\u00e9rica Latina, que t\u00eam em comum democracias fr\u00e1geis, edificadas sob uma l\u00f3gica extrativista, associadas a um capitalismo neoliberal tardio, que re\u00fane: marginalidade crescente e pobreza, economias do narcotr\u00e1fico, explora\u00e7\u00e3o do trabalho, injusti\u00e7a social, impunidade jur\u00eddica, corrup\u00e7\u00e3o estatal, viol\u00eancia social, dispositivos pol\u00edticos, individualismo dessubjetivante, decomposi\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com o semelhante, explora\u00e7\u00e3o infantil, criminaliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de protestos sociais, assassinato de l\u00edderes, al\u00e9m de estigmatiza\u00e7\u00e3o da juventude.<\/p>\n<p>O sentimento de estar vivo (Bleichmar S., 2002) \u00e9 recuperado como fundamental para a gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de bem-estar, como forma de combate aos processos de dessubjetiva\u00e7\u00e3o, desidentifica\u00e7\u00e3o e desfilia\u00e7\u00e3o. Neste contexto, a vitalidade subjetiva seria um ant\u00eddoto fundamental para a regula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do aparato ps\u00edquico, com base na preserva\u00e7\u00e3o narc\u00edsica da representa\u00e7\u00e3o do Eu e da apropria\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o de existir com suas simboliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Interrogando-nos sobre: com o que pode a psican\u00e1lise latino-americana contribuir na redu\u00e7\u00e3o dos sofrimentos relacionados \u00e0 subjetividades sob risco de desumaniza\u00e7\u00e3o?, afirma que, embora os sofrimentos narc\u00edsico-identit\u00e1rios sejam pr\u00f3prios das neuroses traum\u00e1ticas ou das neuroses atuais, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda individual.<\/p>\n<p>Conclui que, se a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica \u00e9 um dispositivo de subjetiva\u00e7\u00e3o e um recurso que transforma o conte\u00fado traum\u00e1tico em representa\u00e7\u00e3o simbolizada, somos convocados, pela via das simboliza\u00e7\u00f5es em tr\u00e2nsito (Bleichmar S., 2009), a nos colocar a servi\u00e7o de denunciar os modos em que o mal-estar \u00e9 produzido e cristalizado nos sujeitos, a partir de nossa pr\u00f3pria pr\u00e1tica e escuta cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Finalmente, chegamos ao primeiro colocado no concurso Dr. Jorge Rosa, com o delicado e precioso trabalho de Valentina Bravo Pelizzola, &#8220;Reflexiones en torno a la cl\u00ednica psicoanal\u00edtica con adolescentes: Lugar, funci\u00f3n y posici\u00f3n del analista&#8221; (Chile \u2013\u00a0ASAPPIA) que nos p\u00f5e frente a frente com a especificidade da cl\u00ednica da adolesc\u00eancia e com tudo o que com ela nos \u00e9 requerido nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o como: toler\u00e2ncia, paci\u00eancia, cria\u00e7\u00e3o, disposi\u00e7\u00e3o e disponibilidade subjetiva.<\/p>\n<p>Concebendo a cl\u00ednica como espa\u00e7o de recomposi\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e de resgate de inscri\u00e7\u00f5es n\u00e3o historicizadas pelo Eu, pergunta-se a autora: como pensar metapsicol\u00f3gica e clinicamente as interven\u00e7\u00f5es quando a palavra falta ou se ausenta? Quando os adolescentes s\u00e3o lan\u00e7ados a atuar mais do que a falar?<\/p>\n<p>Devemos abandonar, diz ela, a ideia de que a aus\u00eancia de associa\u00e7\u00f5es emergem necessariamente da repress\u00e3o, resist\u00eancia ou oposi\u00e7\u00e3o, sendo encontrada em seu lugar uma insufici\u00eancia na capacidade de estruturar um pensamento, devido \u00e0 fragilidade na constitui\u00e7\u00e3o temporal pr\u00f3pria \u00e0 t\u00f3pica do pr\u00e9-consciente e da massa de representa\u00e7\u00f5es do Eu, cruciais no processo de reorganiza\u00e7\u00e3o subjetiva, onde a rede subjetiva do Eu \u00e9 posta \u00e0 prova em sua fun\u00e7\u00e3o defensiva e na sua capacidade de liga\u00e7\u00e3o e simboliza\u00e7\u00e3o das excita\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas, iniciadas com os conflitos da puberdade.<\/p>\n<p>Apoiada em Silvia Bleichmar (2002), ela tamb\u00e9m, nos lembra que na sociedade ocidental existe uma ruptura nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o, uma coisifica\u00e7\u00e3o dos processos de inser\u00e7\u00e3o social, com o desaparecimento do reconhecimento do outro como outro. Assim, o sofrimento atual se daria mais por fragmentos, aos peda\u00e7os e com a perda de bordas; os sintomas, no sentido cl\u00e1ssico, parecendo n\u00e3o se apresentar.<\/p>\n<p>O que \u00e9 escutado?, pergunta-se.<\/p>\n<p>Prop\u00f5e-se a tratar de adolescentes invadidos por ansiedades de morte, impotentes frente \u00e0 aus\u00eancia de um adulto que os sustente, com sensa\u00e7\u00f5es de desintegra\u00e7\u00e3o, com pe\u00e7as que faltam ou sobram em seus corpos, rela\u00e7\u00f5es ou ao pr\u00f3prio psiquismo. Vivem sob a cren\u00e7a na insufici\u00eancia de recursos pr\u00f3prios para enfrentar a passagem \u00e0 vida adulta. Com sensa\u00e7\u00f5es de irrealidade e desentendimento frente ao espelho e \u00e0 pr\u00f3pria imagem, invis\u00edveis ou vis\u00edveis demais para os olhos sem corpo, que se d\u00e3o a ver ou cegam; ang\u00fastias de castra\u00e7\u00e3o e aniquilamento onde o Ser mais do que o Ter \u00e9 posto em jogo. E, ainda, sob quest\u00f5es prim\u00e1rias relativas \u00e0 origem da exist\u00eancia, vinculadas a imagens imposs\u00edveis de entrela\u00e7ar e ligar, associadas por vezes \u00e0 ang\u00fastia massiva ou a viv\u00eancias de confus\u00e3o, fragmenta\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o. Fragilidade nas representa\u00e7\u00f5es que envolvem o Eu e conduzem a epis\u00f3dios de sensa\u00e7\u00f5es massivas de vazio e estados de confus\u00e3o que, sem um continente e capacidade de estabelecer uma ponte simb\u00f3lica com a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do paciente, s\u00e3o de dif\u00edcil liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00f5es em que o desligamento entre representa\u00e7\u00f5es que ditam a fragilidade narc\u00edsica se evidencia, com frequ\u00eancia nos diagn\u00f3sticos de adi\u00e7\u00e3o, transtornos da imagem corporal, inibi\u00e7\u00f5es, somatiza\u00e7\u00f5es ou rela\u00e7\u00f5es interpessoais violentas, com dificuldades no v\u00ednculo amoroso, viv\u00eancias de desamparo e abandono, t\u00e9dio e atua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Partindo de um modelo cujo aparato ps\u00edquico est\u00e1 aberto ao Real, submetido ao traumatismo, num per\u00edodo espec\u00edfico da vida no qual o psiquismo est\u00e1 se reestruturando, identificando e recompondo, para al\u00e9m do que fora herdado da primeira inf\u00e2ncia e no qual faltam os recursos de representa\u00e7\u00e3o \u2013 palavra e figurabilidade, caber\u00e1 ao analista a sustenta\u00e7\u00e3o em busca de palavras poss\u00edveis que possam sustentar seu discurso durante a elabora\u00e7\u00e3o. O que requer n\u00e3o s\u00f3 a interpreta\u00e7\u00e3o entre o passado hist\u00f3rico e a experi\u00eancia transferencial, mas onde ser\u00e1 necess\u00e1rio ainda criar um espa\u00e7o de figurabilidade para o novo, tanto ps\u00edquica quanto somaticamente.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 necess\u00e1rio, diz a autora, ingressar com abertura para colher atrav\u00e9s do material, aparentemente n\u00e3o anal\u00edtico, tudo aquilo que possibilite conhecer a massa de representa\u00e7\u00f5es, identificando fantasias al\u00e9m de aspectos ligados, ou n\u00e3o ligados, que se prestem \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, requerendo n\u00e3o somente a palavra do analista, mas tamb\u00e9m seu corpo, paci\u00eancia e presen\u00e7a, do l\u00fadico e do singular \u2013 seu estilo pessoal.<\/p>\n<p>Cabe ao analista, ent\u00e3o, colocar-se como uma ponte, um terreno que n\u00e3o apenas recebe proje\u00e7\u00f5es e espera a apari\u00e7\u00e3o da palavra do outro, mas que favorece a palavra capaz de gerar um espa\u00e7o prop\u00edcio para que esta surja, sendo fundamental, neste ponto, a plasticidade do analista. A abstin\u00eancia nesse caso ser\u00e1 de ju\u00edzos ideol\u00f3gicos, moralizantes, pedag\u00f3gicos, por\u00e9m n\u00e3o da capacidade para criar formas, que mesmo parecendo pouco neutras, propiciam a gera\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo, um espa\u00e7o onde \u00e9 poss\u00edvel pensar-se e ser pensado \u2013 <em>metabolizar<\/em> em companhia.<\/p>\n<p>Fun\u00e7\u00e3o esta, necess\u00e1ria e, em boa parte das vezes, a ser ocupada tamb\u00e9m pelos pais, que nessa cl\u00ednica, requer a reconstru\u00e7\u00e3o de partes dessa fun\u00e7\u00e3o, principalmente quando, frente a v\u00ednculos marcados pela fragilidade e viol\u00eancia, foram, eles mesmos, pouco libidinizados e narcisados.<\/p>\n<p>\u00c9 frequente receber pais angustiados, com dificuldade para escutar o que poderia ser um chamado de ajuda ou socorro por parte de seus filhos, ansiosos e angustiados por ver mudan\u00e7as em seus comportamentos.<\/p>\n<p>Silvia Bleichmar (2000) j\u00e1 frisava ser frequente os filhos serem parasitados pelas ang\u00fastias catastr\u00f3ficas dos pais a respeito do futuro incerto, pois vendo-se despojados de certezas, encontravam-se sem propostas m\u00ednimas a oferecer.<\/p>\n<p>Concluindo, a autora prop\u00f5e que a interven\u00e7\u00e3o anal\u00edtica em tempos de recomposi\u00e7\u00e3o ps\u00edquica adolescente se transforma em interven\u00e7\u00e3o simbolizante, possibilitando a cria\u00e7\u00e3o de algo novo, como forma de resgate de inscri\u00e7\u00f5es n\u00e3o historicizadas pelo Eu. Sobretudo nesta etapa, que n\u00e3o s\u00f3 implica dor a respeito da inf\u00e2ncia, sen\u00e3o tamb\u00e9m num momento de profunda criatividade e progresso ps\u00edquico. Criamos pontes, diz ela, armamos um tecido para recompor os elos esgar\u00e7ados. Uma vez criados, podemos avan\u00e7ar em seu esgar\u00e7amento, para que advenham representa\u00e7\u00f5es e liga\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias ao paciente.<\/p>\n<p>Encerrando esse relato e sobrevoo, gra\u00e7as \u00e0 participa\u00e7\u00e3o como jurado desse importante momento de elabora\u00e7\u00e3o individual e coletiva, resta parabenizar a iniciativa da comiss\u00e3o organizadora do concurso e do congresso, bem como agradecer \u00e0s colegas do Departamento pelo convite a fazer parte dessa atividade, bem como ao grupo do Boletim online pela oportunidade de compartilhar a experi\u00eancia na atividade.<\/p>\n<p>Um forte abra\u00e7o e at\u00e9 breve!<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> \u201cEm uma interpreta\u00e7\u00e3o mais simplista poder\u00edamos limita-lo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos povos negros nas Am\u00e9ricas\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> ?qu\u00e9 es la realidade para el psicoanalista?, 1986.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito mais que um sobrevoo: um mergulho no concurso do XII congresso FLAPPSIP. Por Elcio Gon\u00e7alves.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[90],"tags":[49],"edicao":[249],"autor":[100],"class_list":["post-3022","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-campo-psicanalitico","tag-flappsip","edicao-boletim-70","autor-elcio-goncalves","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3022"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3022\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3114,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3022\/revisions\/3114"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3022"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3022"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}