{"id":3024,"date":"2024-04-16T14:03:36","date_gmt":"2024-04-16T17:03:36","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3024"},"modified":"2024-04-19T10:11:17","modified_gmt":"2024-04-19T13:11:17","slug":"caos-caps-reflexoes-de-corpo-e-afeto-sobre-o-cotidiano-de-trabalho-com-jovens-usuarios-de-substancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/04\/16\/caos-caps-reflexoes-de-corpo-e-afeto-sobre-o-cotidiano-de-trabalho-com-jovens-usuarios-de-substancia\/","title":{"rendered":"CAOS-CAPS: Reflex\u00f5es de corpo e afeto sobre o cotidiano de trabalho com jovens usu\u00e1rios de subst\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>CAOS-CAPS <\/strong><strong>\u2013 <\/strong><strong>Reflex<\/strong><strong>\u00f5es de corpo e afeto sobre o cotidiano de trabalho com jovens usu\u00e1rios de subst\u00e2<\/strong><strong>ncia<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>Carolina Lanzoni Tambellini<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">a morte<br \/>\nsem fazer alarde<br \/>\nse esconde mais na vida do que na pr\u00f3pria morte<br \/>\nseria justo dizer<br \/>\ns\u00f3 morre quem um dia j\u00e1 viveu<br \/>\nmas a rec\u00edproca \u00e9 verdadeira<br \/>\ns\u00f3 vive quem um dia j\u00e1 morreu<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Mir<\/em><em>\u00ea<\/em><em> Barbosa<\/em>, 2023<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No autocorretor do celular, CAPS<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> muitas vezes \u00e9 trocado automaticamente pela palavra CAOS e com certa facilidade n\u00e3o corrijo o erro, mas apenas acrescento em seguida a palavra correta, formando assim a mensagem: caos caps. Um pequeno chiste a respeito do meu cotidiano em um servi\u00e7o de sa\u00fade mental. Nunca foi uma escolha desavisada a do combo caos-caps, sendo (re)feita com certa intencionalidade no dia-a-dia. Contudo, essa escolha tem sido permeada por d\u00favidas, ang\u00fastias e incertezas, sendo necess\u00e1rio ventil\u00e1-las de tempos em tempos.<\/p>\n<p>O CAPS \u00e9 um caos, seja por lidarmos com a loucura \u2013 em sua grande variedade de apresenta\u00e7\u00f5es e formas \u2013, seja pela din\u00e2mica do servi\u00e7o, pela abertura ao acaso e ao encontro; seja porque o territ\u00f3rio pode adentrar o espa\u00e7o de cuidado ou por sermos requisitados constantemente a sair da institui\u00e7\u00e3o, estar na rua; seja porque as din\u00e2micas da pobreza e da desigualdade s\u00e3o convidadas para dentro do servi\u00e7o, sendo escancaradas, passando a ter um espa\u00e7o, um contorno. As paredes do CAPS contornam os sofrimentos em sua forma mais crua, a forma n\u00e3o nomeada, n\u00e3o simbolizada, n\u00e3o fantasiada.<\/p>\n<p>Entre colegas, brincamos que alguns territ\u00f3rios \u2013 normalmente os mais complexos e vulner\u00e1veis \u2013 possuem um diferencial em como o sofrimento e os problemas se alastram: \u201cesse \u00e9 pela \u00e1gua\u201d, \u201cesse \u00e9 pelo ar\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio que seja algo corriqueiro, comum, compartilhado, que compreenda e se espalhe pelo territ\u00f3rio. H\u00e1 como existir sem o ar? Como sobreviver sem \u00e1gua? E por conseguinte: h\u00e1 como esse territ\u00f3rio existir sem sofrer com as marcas da realidade?<\/p>\n<p>O CAPS \u00e9 requisitado a estar em lugares distantes da \u2018civiliza\u00e7\u00e3o\u2019, nas periferias e margens da metr\u00f3pole. Requisitado a estar onde as pessoas vivem os efeitos da desigualdade e da desumaniza\u00e7\u00e3o de forma inimagin\u00e1veis, onde os sofrimentos ps\u00edquicos singulares s\u00e3o diretamente marcados pela condi\u00e7\u00e3o de vida, pelo contexto hist\u00f3rico-econ\u00f4mico-pol\u00edtico-social, pelas estruturas patriarcais, classistas, coloniais e racistas de exclus\u00e3o. Somos convocados enquanto SUS, junto aos seus princ\u00edpios de universalidade, equidade e integralidade. Enquanto luta antimanicomial e reforma psiqui\u00e1trica, questionando a l\u00f3gica capacitista de funcionalidade e normalidade, resgatando o direito \u00e0 cidade, circula\u00e7\u00e3o, autonomia e desejo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m sou convocada enquanto sujeito. Convocada a estar com o corpo, afeto, presen\u00e7a, palavra. E nessa convoca\u00e7\u00e3o, escolho estar por inteiro, implicada, eticamente comprometida \u2013 n\u00e3o s\u00f3 como profissional, mas enquanto pessoa, enquanto eu mesma. Dada esta escolha, n\u00e3o \u00e0 toa surgem ang\u00fastias, d\u00favidas, questionamentos. Estes s\u00e3o motores propulsores de meu trabalho, permitem que n\u00e3o me cristalize e assossegue no cotidiano ma\u00e7ante do servi\u00e7o p\u00fablico. Permitem que de fato encontre com o outro \u2013 do qual digo cuidar \u2013, na tentativa de reconhec\u00ea-lo enquanto sujeito singular, mas tamb\u00e9m de (re)conhecer as marcas hist\u00f3ricas coletivas que seus corpos, seus atos, sintomas e inconscientes carregam. Estar por inteiro tamb\u00e9m significa embarcar na experi\u00eancia, viver intensamente o cotidiano. Deposito energia, libido. Tiro de mim e coloco naquele momento. Quando me questiono \u00e9 como gente, n\u00e3o apenas trabalhadora. Se me permite a n\u00e3o-acomoda\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m me traz sofrimento na mobiliza\u00e7\u00e3o, me retira dos lugares de conforto, dos lugares recalcados onde se acobertam e escondem profundamente meus conflitos internos. Me comove e me move junto.<\/p>\n<p>Durante o curso <em>Conflito e Sintoma<\/em>, articulava mentalmente os conceitos apresentados com a realidade que vivia em meu trabalho, tecendo alguns pontos de encontro, mas principalmente, tentando assimilar e me contaminar pela \u00e9tica com a qual a psican\u00e1lise se sustenta. A postura de <em>escutar o estrangeiro<\/em> em cada um, daquilo que escapa entre as frestas da consci\u00eancia, apareceu como apaziguadora das ang\u00fastias do encontro com o diferente. Encontro este sempre conflituoso, afinal, s\u00e3o necess\u00e1rias concess\u00f5es para que estejamos em rela\u00e7\u00e3o com o outro. Um encontro que n\u00e3o capturo, n\u00e3o compreendo, que me foge, e que n\u00e3o deveria ser diferente. Poder sustentar a indaga\u00e7\u00e3o, o n\u00e3o saber, a minha pr\u00f3pria estranheza e ignor\u00e2ncia s\u00e3o ferramentas que preciso ser constantemente lembrada de fazer. Ao longo do curso, nos utilizamos da met\u00e1fora do p\u00eandulo entre o narcisismo e a alteridade, entre a libido do eu e a objetal, para adentrar e percorrer os conceitos apresentados por Freud em parte de sua obra. P\u00eandulo que pode ser usado das idas e vindas entre teoria e pr\u00e1tica, entre cl\u00ednica individual e CAPS, entre os encontros e os desencontros.<\/p>\n<p>Os textos comumente nomeados de \u201csociais\u201d, chamaram-me a aten\u00e7\u00e3o ao darem ferramentas para observar a realidade, possibilitando questionamentos a respeito de como as diferen\u00e7as, a alteridade, o enigm\u00e1tico e a rela\u00e7\u00e3o com o outro se d\u00e3o. Freud afirma, em <em>Psicologia das massas<\/em> (1921), que a psicologia individual \u00e9 uma psicologia social, j\u00e1 que o sujeito se encontra no coletivo, numa sociedade e em rela\u00e7\u00e3o com um outro, do qual depende para se constituir. Sendo assim, tudo que nos \u00e9 apresentado enquanto sintoma pelo sujeito, enquanto caminhos de satisfa\u00e7\u00e3o, enquanto amarra\u00e7\u00f5es de sentido tem conex\u00e3o com a sociedade na qual vivemos. No Brasil, isso significa fazer pontes com um passado colonial e escravagista que \u00e9, muitas vezes, propositalmente esquecido. Significa olhar para os atravessamentos que comp\u00f5em a hist\u00f3ria e os lugares discursivos que estruturam o la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Recentemente, uma das principais demandas que CAPS IJ tem se deparado \u00e9 a do uso de subst\u00e2ncias, especificamente da K2. Apesar de circular pelos territ\u00f3rios perif\u00e9ricos j\u00e1 h\u00e1 alguns anos, \u00e9 recente sua apari\u00e7\u00e3o para os servi\u00e7os de sa\u00fade. As \u201cdrogas K\u201d \u2013 K2 e K9 \u2013 s\u00e3o consideradas canabin\u00f3ides sint\u00e9ticos, pois tentam imitar o princ\u00edpio ativo da canabis (THC) e se ligam aos mesmos receptores que estas no nosso organismo (LEI, 2023). Contudo, \u00e9 uma subst\u00e2ncia distinta da maconha, possuindo uma grande varia\u00e7\u00e3o na sua composi\u00e7\u00e3o devido \u00e0 produ\u00e7\u00e3o ilegal e irregular. Isso torna seus efeitos diversos e imprevis\u00edveis, variando entre sensa\u00e7\u00f5es de: euforia, relaxamento, altera\u00e7\u00f5es motoras, seda\u00e7\u00e3o, ansiedade, hipersensibilidade corporal, risos, sintomas psic\u00f3ticos, alucinat\u00f3rios ou de paran\u00f3ia, altera\u00e7\u00f5es na mem\u00f3ria, aten\u00e7\u00e3o, confus\u00e3o mental, etc. (idem). Sua pot\u00eancia \u00e9 intensificada, o que \u00e9 constatado com unanimidade pelos jovens, que logo relatam abandonarem o uso de outras subst\u00e2ncias por n\u00e3o terem um efeito t\u00e3o r\u00e1pido ou forte quanto a K2.<\/p>\n<p>Desde o final de 2022, o n\u00famero de jovens que chegam ao CAPS tem aumentado de forma evidente. S\u00e3o, principalmente, trazidos pelos familiares devido ao uso importante, abusivo, prejudicial de K2, colocando-se constantemente em risco. Os usu\u00e1rios<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> t\u00eam estado mais presentes no servi\u00e7o \u2013 resultado de um movimento m\u00fatuo entre busca por esses jovens e abertura para sua chegada, e de dissemina\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o de que o CAPS \u00e9 um dos espa\u00e7os de cuidado para essa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, esta presen\u00e7a nem sempre \u00e9 bem-vinda por parte da equipe, evidenciando um conflito recorrente \u2013 mas nem sempre falado \u2013 entre os moralismos pessoais e o fato de estarem em um servi\u00e7o p\u00fablico, gratuito e de direito de todos. Ou seja, um servi\u00e7o que tem como premissa o direito ao acesso, acolhimento e cuidado, independentemente de quem seja a pessoa. Tem sido um movimento duro e lento o da equipe em olhar para estes corpos enquanto sujeitos &#8211; antes ocultos e escondidos nas margens das margens da sociedade, mas que v\u00eam se fazendo aparecer lentamente e de forma barulhenta.<\/p>\n<p>Sem me eximir, tenho me visto profundamente afetada pela chegada, perman\u00eancia e circula\u00e7\u00e3o destes usu\u00e1rios no CAPS. N\u00e3o \u00e0 toa a escolha de finalizar o curso com a produ\u00e7\u00e3o de um trabalho que pudesse, de forma incipiente, permitir a circula\u00e7\u00e3o destes afetos. Talvez nomeando-os e circunscrevendo-os entre os quatro cantos das folhas do papel, da mesma forma que as paredes do CAPS contornam os sofrimentos daqueles que atendemos.<\/p>\n<p>Rosana, Roberta, Luana, Manuela, Iara, Ivana, Yanna, Gabriela, Mariana, Carlos, Luiz, Henrique, Gustavo, Pedro, Victor, Rafael, Alberto, Rodrigo, Thomas.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o os nomes de alguns dos adolescentes que frequentam o CAPS IJ. Jovens que tem em comum n\u00e3o apenas o uso de subst\u00e2ncias K, mas tamb\u00e9m o territ\u00f3rio, a circula\u00e7\u00e3o, classe social e, em sua maioria, a mesma ra\u00e7a \u2013 negra. Suas hist\u00f3rias individuais possuem pontos em tramas diferentes, alguns t\u00eam m\u00e3es, outros t\u00eam o Estado, talvez vizinhos, irm\u00e3os, outros andam sozinhos. Alguns s\u00e3o trans, bis, outros s\u00e3o usados, as meninas exploradas, os meninos roubam. \u00c0s vezes, j\u00e1 avistaram uns aos outros pelo territ\u00f3rio. Outros nunca se viram, se conheceram ali. Todos diametralmente diferentes de mim, localizada em um extremo oposto de privil\u00e9gios: uma adulta, com forma\u00e7\u00e3o em ensino superior, branca, de classe m\u00e9dia alta, que mora na regi\u00e3o central de SP, com m\u00e3e-pai-irm\u00e3, com casa. Algu\u00e9m que vai embora desta realidade quando acaba o expediente.<\/p>\n<p>De alguma forma, nos encontramos no mesmo espa\u00e7o, trocamos olhares, palavras, ouvimos m\u00fasica, comemos e conversamos \u2013 convivemos. No encontro de singularidades, os nossos contextos se colidem, nossas hist\u00f3rias divergem e ainda assim, se tocam. Em alguns casos, elas se entrela\u00e7am, fazem n\u00f3s, fazem fissuras, fazem marcas. N\u00e3o tenho ci\u00eancia por completo das marcas neles, apenas daquelas que puderam nomear ou expressar em gestos e afetos \u2013 por mais tortos, cheios de \u00f3dio ou de ternura. \u00c9 um xingo de \u2018vagabunda\u2019, um tap\u00e3o na testa, um pedido de colo, uma m\u00e3o que n\u00e3o quer ser soltada. \u201cTia, quero falar com voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei exato quais as marcas em mim.<\/p>\n<p>Logo quando chegam ao CAPS, a din\u00e2mica do servi\u00e7o muda. A circula\u00e7\u00e3o pelos espa\u00e7os torna-se mais din\u00e2mica. Estes jovens n\u00e3o v\u00e3o \u00e0 recep\u00e7\u00e3o e esperam sentados como os demais, mas avisam de sua chegada e passam a andar pelos espa\u00e7os. Sobem para conviv\u00eancia, descem para o ateli\u00ea. N\u00e3o est\u00e3o dormindo nas camas de acolhimento integral<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[iv]<\/sup><\/a>, mas v\u00e3o direto aos quartos. Abrem portas, procuram. Nem mesmo quando encontram o que ou quem querem, param.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica ca\u00f3tica combina com a din\u00e2mica CAPS, mas ainda assim, a presen\u00e7a destes jovens pode ser desorganizadora. Estar com eles requer agilidade, saber os tempos r\u00e1pidos e inconstantes, famintos por algo que nem mesmo eles sabem. O compasso jovem, muitas vezes distante da nossa lentid\u00e3o adulta. Angustiados com a \u2018falta do que fazer\u2019, mesmo recusando nossas propostas. Estranhamente r\u00edgidos, insistentes em realizar seus desejos, desconsiderando possibilidades do servi\u00e7o. Estar com eles \u00e9 acompanhar o caminhar, o t\u00e9dio sem bordas \u2013 sendo n\u00f3s, os pr\u00f3prios contornos. Requer dar pausas, se afastar para depois retomar. A din\u00e2mica caos-caps se intensifica de forma espec\u00edfica, talvez pelas constru\u00e7\u00f5es internas que se externalizam na presen\u00e7a das paredes institucionais e dos corpos dos trabalhadores \u2013 j\u00e1 marchando junto \u00e0 l\u00f3gica vigente capitalista do trabalho, mas que nos organiza internamente, permitindo come\u00e7o-meio-fim de uma vida que para eles, permanece constante.<\/p>\n<p>Muitas vezes n\u00e3o sei, n\u00e3o acompanho, me perco. Respiro.<\/p>\n<p>\u00c9 comum o relato de um uso de subst\u00e2ncia solit\u00e1rio, de uma caminhada sozinha, sem amigos. Um desejo de esquecer tudo, de \u2018baixar\u2019 e n\u00e3o voltar mais. De quando acaba a brisa, voltar imediatamente para ela. Fugir dos problemas, tir\u00e1-los da cabe\u00e7a. Ter apenas <em>um<\/em> problema. Dormir enquanto se fala, sem terminar frases ou pensamentos. \u2018Apagar\u2019 enquanto se existe. Ser alheio ao seu redor. H\u00e1 um anestesiamento, um entorpecimento. Um vazio. Uma quase morte?<\/p>\n<p>De forma injusta por, \u00e0s vezes, n\u00e3o considerar os desamparos de diversas ordens aos quais estes jovens foram submetidos, solicito que me expliquem, que coloquem em palavras o que buscam. Como psic\u00f3loga, a fala, a palavra, a linguagem, a comunica\u00e7\u00e3o, me importa. Gosto e me revigoro na conversa, por mais rala e \u00e1rida. Cometo injusti\u00e7as pois solicito algo que nem eles mesmos sabem, e se sim, talvez n\u00e3o tenham recursos para se explicarem. Passar da sensa\u00e7\u00e3o para o pensamento, do pensamento \u00e0 palavra. Talvez lhes escape algo e, exatamente por isso, vivem nos corpos aquilo que n\u00e3o conseguem simbolizar. Corpos entorpecidos e anestesiados que permitem que continuem a existir, numa meia vida esquisita. Sem fazer uma amarra\u00e7\u00e3o de sentido.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que solicitar que falem \u00e9 revitimizar esses sujeitos j\u00e1 violentados ou \u00e9 possibilitar alguma subjetiva\u00e7\u00e3o onde n\u00e3o havia espa\u00e7o para surgir? \u00c9 abrir possibilidade para refletir? Assumir que tem algu\u00e9m ali que pensa, que existe, que vive? Ser\u00e1 justo devolver a eles seus pr\u00f3prios atos como escolha singular e individual, sem antes contextualizar e nomear as viol\u00eancias pelas quais est\u00e3o submetidos em n\u00edveis estruturais?<\/p>\n<p>Se o uso de K2 \u00e9 solit\u00e1rio, no CAPS h\u00e1 um encontro com o coletivo e compartilhado. \u00c9 premissa, pr\u00e9-requisito, proposta, plano e desejo: um encontro, qualquer que o seja. Pode acontecer entre os jovens ou com os profissionais, entre usu\u00e1rios e a pr\u00f3pria fam\u00edlia. Pode ser com as paredes do servi\u00e7o, com as camas onde dormem, com os brinquedos e jogos dispon\u00edveis, com a cama el\u00e1stica esgar\u00e7ada na parte externa, com a comida embalada em pl\u00e1stico na copa, com o jardim onde fumam seus cigarros. O encontro \u00e9 onde h\u00e1 alguma e qualquer troca: de presen\u00e7a, olhares, palavras, experi\u00eancias, diferen\u00e7as, semelhan\u00e7as.<\/p>\n<p>Em seu texto &#8220;Racismo e psican\u00e1lise: marcas coloniais na escuta cl\u00ednica<em>&#8220;<\/em> (2021), Cristina Dias toma o conceito de encruzilhada utilizado por Lu\u00eds Ant\u00f4nio Simas para problematizar o campo da escuta cl\u00ednica e do fazer anal\u00edtico, mas proponho estender tal questionamento para as pr\u00e1ticas de cuidado em sa\u00fade mental, principalmente aquelas onde h\u00e1 choque das realidades e das diferen\u00e7as brutais entre aquele que cuida e quem \u00e9 cuidado \u2013 ou seja, a minha pr\u00f3pria pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&#8220;Encruzilhada n\u00e3o \u00e9 labirinto, em que ficamos sem sa\u00edda; ela \u00e9, ao mesmo tempo, ponto de chegada, de encontro e conv\u00edvio das diferen\u00e7as e seus saberes, assim como um caminho de possibilidades em que esperamos o inesperado, pautado na dimens\u00e3o da imprevisibilidade, do inacabado, que se contrap\u00f5e ao projeto totalit\u00e1rio de dom\u00ednio colonial.&#8221; (DIAS, 2021, p. 70)<\/p>\n<p>No in\u00edcio do texto relato as ang\u00fastias de me colocar por inteiro em minha pr\u00e1tica profissional e aponto o efeito, inesperadamente apaziguador, da proposta psicanal\u00edtica de olhar para o estrangeiro em mim e no outro. Na figura \u2013 ou literalidade, no caso do CAPS IJ onde trabalho, localizado no cruzamento cont\u00ednuo entre duas ruas \u2013 da encruzilhada as movimenta\u00e7\u00f5es, err\u00e2ncias e afli\u00e7\u00f5es ganham intencionalidade e direcionamento, s\u00e3o impregnadas por sentidos. A \u00e1gua, o ar, a realidade podem confluir nos caminhos da rua. Os jovens permanecem em suas andan\u00e7as desorganizadoras, sem me descabelar por completo.<\/p>\n<p>Para a autora (2021), a encruzilhada se apresenta como lugar de impasse e de disponibilidade; do corpo dispon\u00edvel ao encontro com o outro nas suas pot\u00eancias e contradi\u00e7\u00f5es. Nela \u00e9 poss\u00edvel que este corpo seja experimentado como enigm\u00e1tico, possibilitando que estejamos abertos a suas andan\u00e7as, sua diversidade \u2013 \u00e0 vida e \u00e0 morte.\u00a0 Podemos tentar inventar frestas ao longo deste caminho, nos desafiando a identificar um \u2018comum\u2019 que permita a escuta do outro, quando falamos de uma posi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio. A autora coloca (2021): podemos escutar as marcas das desigualdades coloniais na medida em que genuinamente nos interessamos pelo campo da alteridade, fazendo da nossa posi\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia uma abertura.<\/p>\n<p>\u201cTia, \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o entende. Eu sei que voc\u00ea t\u00e1 se esfor\u00e7ando, mas voc\u00ea n\u00e3o entende\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 justo o pedido de que falem, mas \u00e9 <em>necess\u00e1rio<\/em> que de fato os escute. \u00c9 necess\u00e1rio estar aberto a n\u00e3o entender, n\u00e3o saber. N\u00e3o \u00e9 ouvir com intuito de apreender e capturar, mas de possibilitar uma circula\u00e7\u00e3o, uma ventila\u00e7\u00e3o. Apesar de contornar, n\u00e3o fechar ou circunscrever. \u00c9 poder estar diante do meu n\u00e3o saber e continuar n\u00e3o sabendo, mas sem deixar de \u201cinventar a vida nas miudezas do cotidiano\u201d (DIAS, 2021, p. 72).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA <\/strong><\/p>\n<p>LEI, Centro de Conviv\u00eancia \u00c9 de. O que voc\u00ea precisa saber sobre a droga K. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"https:\/\/edelei.org\/o-que-voce-precisa-saber-sobre-a-droga-k\/\">https:\/\/edelei.org\/o-que-voce-precisa-saber-sobre-a-droga-k\/<\/a>&gt;. 19 de junho de 2023. Acesso em: 07 de novembro de 2023.<\/p>\n<p>DIAS, Cristina. Cap\u00edtulo 3 \u2013 Racismo e psican\u00e1lise: marcas coloniais na escuta cl\u00ednica. In: DAVID, Emiliano; ASSUAR, Gisele. <em>A psican<\/em><em>\u00e1lise na encruzilhada, desafios e paradoxos perante o racismo no Brasil<\/em>. S\u00e3o Paulo : Hucitec; Porto Alegre: Grupo de pesquisa Egb\u00e9: Projeto Canela preta &amp; Sedes Sapientiae, 2021. pp. 59 a 73.<\/p>\n<p>LAURIDSEN-RIBEIRO, Edith; ARRIGONI, Rafaela; LEAL, Bianca. A chegada ao Centro de Atenc\u0327a\u0303o Psicossocial Infantojuvenil (Capsi). In: LAURIDSEN-RIBEIRO, Edith; LYKOUROPOULOS, Cristiana. Org. <em>O Capsi e o desafio<\/em><em> da gesta<\/em>\u0303<em>o em rede<\/em>. 1a Edi\u00e7\u00e3o. Sa\u0303o Paulo: Hucitec, 2016. p. 69-89.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psic\u00f3loga, aluna do 2o ano do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma em 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Os Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS) s\u00e3o servi\u00e7os de sa\u00fade mental do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) substitutivos as interna\u00e7\u00f5es em hospitais psiqui\u00e1tricos, que trabalham a partir da lo\u0301gica comunita\u0301ria, territorial e aberta, atendendo de forma psicossocial as pessoas em sofrimento psi\u0301quico severos e persistentes (LAURIDSEN-RIBEIRO; ARRIGONI; LEAL, 2016). Os CAPS existem nas modalidades: Adulto, A\u0301lcool e outras drogas (AD) e Infantojuvenil (IJ)<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Ao longo do texto, o uso da palavra usu\u00e1rio se refere ao \u2018usu\u00e1rio de um servi\u00e7o p\u00fablico\u2019, um sujeito que acessa o servi\u00e7o que \u00e9 seu por direito, e n\u00e3o ao \u2018usu\u00e1rio de subst\u00e2ncia\u2019.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> As camas de acolhimento integral s\u00e3o um dispositivo de cuidado intensivo para usu\u00e1rios que se encontram em momentos de crise ou sofrimento ps\u00edquico agudo, necessitando uma aproxima\u00e7\u00e3o com o CAPS. No servi\u00e7o em que trabalho, tem sido um recurso utilizado de imediato com os usu\u00e1rios de subst\u00e2ncia K, pois possibilita um in\u00edcio de vincula\u00e7\u00e3o com o usu\u00e1rio e um momento de pausa no uso intenso e abusivo. Quando o usu\u00e1rio permanece no acolhimento integral, ele se encontra 24h dentro do servi\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assimila\u00e7\u00f5es e afeta\u00e7\u00f5es de uma trabalhadora implicada. 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