{"id":3031,"date":"2024-04-16T14:50:22","date_gmt":"2024-04-16T17:50:22","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3031"},"modified":"2024-04-16T14:51:57","modified_gmt":"2024-04-16T17:51:57","slug":"o-que-imagino-como-formacao-dos-psicanalistas-adequada-para-o-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/04\/16\/o-que-imagino-como-formacao-dos-psicanalistas-adequada-para-o-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"O que imagino como forma\u00e7\u00e3o  dos psicanalistas adequada para o s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O que imagino como forma\u00e7\u00e3o dos psicanalistas adequada para o s\u00e9culo XXI<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Paulina Schmidtbauer Rocha<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar essa fala de hoje preciso contar a hist\u00f3ria do acontecimento do ano 2001. Trata-se do <em>I <\/em><em>F\u00f3rum <\/em>Social <em>Mundial<\/em><em>, <\/em>cujo <em>slogan<\/em> era <em>Sim<\/em><em>, <\/em><em>um outro <\/em><em>mundo <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>poss<\/em><em>\u00edvel<\/em>. Organizado e iniciado a partir de um apelo, quase individual,, de um pequeno n\u00famero de pessoas que acreditaram, que convocaram, que articularam e assim tornaram poss\u00edvel um encontro in\u00e9dito, do qual participaram mais de cem pa\u00edses com suas delega\u00e7\u00f5es da sociedade civil organizada. Centenas de organiza\u00e7\u00f5es presentes em quatrocentas oficinas organizadas para pensar um outro mundo: um movimento n\u00e3o s\u00f3 de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem financeira globalizante mundial, mas principalmente como uma proposta de novas solu\u00e7\u00f5es e alternativas visando pr\u00e1ticas que recuperassem, preservassem e criassem modos de rela\u00e7\u00e3o mais humanos, solid\u00e1rios, menos desiguais; que abrissem para o que \u00e9 de direito do ser humano:: criar sua realidade pelo dom da\u00a0a\u00e7\u00e3o e da liberdade.. A pedra da cidadania est\u00e1 em Porto Alegre, constru\u00edda com as pedras trazidas\u00a0do mundo inteiro, constru\u00e7\u00e3o da cidadania mundial feita pelos pares, pela <em>fratria<\/em><em>,<\/em> na diversidade\u00a0e na diferen\u00e7a. O que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a for\u00e7a que essa ideia teve: <em>Um <\/em><em>outro <\/em><em>mundo <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>poss<\/em><em>\u00edvel<\/em> \u2014 e os desdobramentos que provocou.<\/p>\n<p>As pedras do CPPL \u2014 Centro de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Linguagem \u2014 e do CPP\u00a0 \u2014 C\u00edrculo Psicanal\u00edtico de Pernambuco \u2014 fazem parte da pedra da cidadania e assinam um compromisso de estar presente com a psican\u00e1lise no mundo, extramuros.. Mas n\u00e3o est\u00e1vamos s\u00f3s. Ao saber, atrav\u00e9s de Andrea Loparic, do Forum e da provoca\u00e7\u00e3o: &#8220;E o CPPL?&#8221;, olhei o programa e decidi de imediato que isso n\u00e3o podia ser sem a psican\u00e1lise: precis\u00e1vamos estar l\u00e1. Assegurei o tempo para organizar a participa\u00e7\u00e3o e chegando em Bras\u00edlia junto com Regina Orth ligamos para os colegas no Rio de Janeiro que, em meio a uma reuni\u00e3o, nos apoiaram na hora. Convocat\u00f3ria pronta, o CPPL como institui\u00e7\u00e3o assumiu levar a proposta. Esse foi o contexto da oficina <em>Psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise <\/em>e o <em>m<\/em><em>al<\/em><em>&#8211;<\/em><em>estar <\/em><em>na globaliza\u00e7\u00e3o <\/em>em janeiro de 2001, em Porto Alegre, contexto este t\u00e3o diferente de nossa pr\u00e1tica psicanal\u00edtica cotidiana.,\u00a0Uma fala de Masud Khan ilustra a situa\u00e7\u00e3o em que os psicanalistas se viram na ocasi\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Quando <\/em><em>nos <\/em>vemos <em>diante <\/em><em>da <\/em><em>exig\u00ea<\/em><em>ncia <\/em>de comunicar e <em>partilhar <\/em>nossas <em>experi<\/em><em>\u00eancias <\/em><em>afetivas <\/em>e <em>conceituais<\/em> <em>com <\/em><em>um grande <\/em><em>grupo<\/em><em>, <\/em><em>inclinamo<\/em>-nos a <em>assumir <\/em>a mesma <em>atitude que\u00a0<\/em><em>temos <\/em><em>diante <\/em><em>dos <\/em>nossos <em>pacientes<\/em><em>,<\/em> <em>sempre <\/em><em>excessivamente <\/em><em>propensos <\/em>a <em>interpretar<\/em><em>&#8211;<\/em><em>lhes\u00a0<\/em><em>resist<\/em><em>\u00eancias<\/em><em>. <\/em>S\u00f3 <em>que <\/em><em>isso<\/em> <em>simplesmente n\u00e3o funciona <\/em><em>na<\/em> <em>nova <\/em><em>situa\u00e7\u00e3o <\/em>social. <em>O <\/em><em>p\u00fa<\/em><em>blico <\/em>tem menos <em>necessidade <\/em>de <em>nos <\/em><em>ouvir <\/em>do <em>que <\/em>n\u00f3s <em>temos <\/em>de <em>falar<\/em><em>&#8211;<\/em><em>lhe.<\/em><em>. <\/em><em>Por <\/em><em>conseguinte <\/em><em>cabe <\/em><em>a <\/em><em>n\u00f3s<\/em> <em>enfrentar <\/em><em>essa <\/em><em>&#8220;<\/em><em>resist<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia<\/em><em>&#8221; <\/em><em>no <\/em><em>processo <\/em><em>da<\/em> <em>cristaliza\u00e7\u00e3o <\/em>do <em>nosso <\/em><em>pensamento <\/em>e na <em>escrita<\/em> (KHAN, M. 1977).<\/p>\n<p>Foi esse o desafio que os psicanalistas presentes no <em>F\u00f3rum Social Mundial <\/em>tiveram que enfrentar: a extraterritorialidade (atuar fora do territ\u00f3rio da psican\u00e1lise).<\/p>\n<p>As perguntas se repetiam com certa dose de ang\u00fastia: &#8220;Somos escutados? O que acham? O que entendem? Pode ser \u00fatil o que falamos?&#8221; A dificuldade de sair de nossos modos de pensar e falar me fez refletir novamente: sobre como somos presos a um sistema de pensamento..<\/p>\n<p>O que acabei de contar transformou-se numa preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 psican\u00e1lise, ao nosso trabalho, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, ao futuro, aos destinos do mundo. Tornou-se de certo modo imperativo procurar sa\u00eddas, tentar me desvencilhar, no m\u00ednimo, daquilo que j\u00e1 era poss\u00edvel formular como impedimento ao exerc\u00edcio de liberdade de\u00a0pensamento.<\/p>\n<p>O momento era, por outro lado, cheio de promessas de uma democracia, de um estado de direito.. Parecia que se abriam os campos verdes para avan\u00e7armos tanto no nosso campo da psican\u00e1lise como na sociedade como um todo. E como disse um colega psicanalista: &#8220;Sim, e n\u00f3s nos deixamos distrair&#8221;. Vejam como fala Jess\u00e9 Souza no seu livro <em>Como <\/em><em>o <\/em><em>racismo <\/em><em>criou <\/em><em>o Brasil:<\/em>: &#8220;\u00c9 preciso ir al\u00e9m da mera comprova\u00e7\u00e3o de que ele, o racismo, existe. \u00c9 necess\u00e1rio compreender sua g\u00eanese hist\u00f3rica e seu papel nas rela\u00e7\u00f5es sociais. \u00c9 porque o racismo \u00e9 um grande mist\u00e9rio que existe todo tipo de confus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a ele&#8230;.A \u00fanica maneira de verdadeiramente explicar o racismo \u00e9 compreendermos o que ele destr\u00f3i nas pessoas&#8221;.\u00a0E continua: &#8220;Como n\u00e3o sabemos muita coisa sobre ele mas qualquer um que ame a verdade pode perceber sua exist\u00eancia, a luta antirracista se presta a todo tipo de manipula\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica. Seguindo ainda com Jess\u00e9, no cap\u00edtulo sobre o sequestro da linguagem da emancipa\u00e7\u00e3o ele evidencia esse processo: &#8220;Saem da cena os partidos que representavam correntes de opini\u00e3o e vis\u00f5es da realidade e entram as pr\u00f3prias empresas vendendo ecologia,\u00a0sa\u00fade alternativa, inclus\u00e3o de minorias, bandeiras antirracistas, emancipa\u00e7\u00e3o e liberdade, tudo\u00a0etiquetado com c\u00f3digo de barra embalado e entregue em casa com todo o conforto pela Amazon.\u00a0Lideran\u00e7as perform\u00e1ticas e mais talentosas das minorias oprimidas, j\u00e1 devidamente compradas\u00a0pelo mesmo capital financeiro. Modelos negros e negras como prova irrefut\u00e1vel de seu\u00a0comprometimento social com a causa da emancipa\u00e7\u00e3o. Pode-se ganhar dinheiro, \u00e0s vezes muito dinheiro &#8211; posando de representante n\u00e3o autorizado do sofrimento alheio\u201d..<\/p>\n<p>Essas formas de recupera\u00e7\u00e3o do antirracismo pelo capital financeiro, que atualmente est\u00e1 na origem da sustenta\u00e7\u00e3o subliminar do racismo, em muito se assemelha \u00e0s formas e\u00a0subterf\u00fagios do outro mal vindo do s\u00e9culo XX: o totalitarismo.\u00a0Deste, muito j\u00e1 se falou e escreveu.. N\u00e3o resisto a citar um trecho do \u00faltimo livro de Marcos Nobre: <em>Limites <\/em><em>da <\/em><em>democracia &#8211; <\/em><em>de <\/em><em>junho <\/em><em>de <\/em><em>2013 <\/em><em>ao <\/em><em>governo <\/em><em>Bolsonaro<\/em>:<\/p>\n<p><em>&#8220;<\/em><em>O c<\/em><em>ampo <\/em><em>democr\u00e1<\/em><em>tico <\/em><em>continua <\/em><em>jogando <\/em><em>amarelinha <\/em><em>eleitoral <\/em><em>enquanto <\/em><em>Bolsonaro monta <\/em><em>oct<\/em><em>\u00f3<\/em><em>gono <\/em><em>de <\/em><em>MMA <\/em><em>do <\/em><em>golpe.<\/em><em>. <\/em><em>Que <\/em><em>dar\u00e1 <\/em><em>como <\/em><em>for <\/em><em>poss<\/em><em>\u00edvel.<\/em><em>. <\/em><em>Conseguindo <\/em><em>a <\/em><em>reelei<\/em><em>\u00e7\u00e3o <\/em><em>e <\/em><em>fechando <\/em><em>o <\/em><em>regime <\/em><em>desde <\/em><em>dentro,<\/em> <em>produzindo <\/em><em>um <\/em><em>caos <\/em><em>social <\/em><em>duradouro,<\/em><em>, <\/em><em>aguardando <\/em><em>o <\/em><em>fracasso <\/em><em>de <\/em><em>seu <\/em><em>sucessor <\/em><em>e <\/em><em>as <\/em><em>elei<\/em><em>\u00e7\u00f5<\/em><em>es <\/em><em>de <\/em><em>2026<\/em><em>, <\/em><em>dando <\/em><em>um golpe <\/em><em>em <\/em><em>moldes <\/em><em>mais <\/em><em>cl\u00e1ssicos<\/em><em>. <\/em><em>Perdendo <\/em><em>ou <\/em><em>ganhando <\/em><em>a <\/em><em>elei<\/em><em>\u00e7\u00e3o <\/em><em>em <\/em><em>2022<\/em><em>, <\/em><em>o <\/em><em>bolsonarismo <\/em><em>j\u00e1 <\/em><em>ganhou.<\/em> <em>Derrot<\/em><em>\u00e1-<\/em><em>lo <\/em><em>ser\u00e1 <\/em><em>tarefa <\/em><em>para muitos <\/em><em>anos<\/em><em>.<\/em><em>\u201d<\/em> (Nobre, 2022, p. 216).<\/p>\n<p>Citei esses dois autores com os trechos que me parecem emblem\u00e1ticos, a fim de sublinhar e de evidenciar a nossa situa\u00e7\u00e3o atual a qual todo psicanalista n\u00e3o pode perder de vista.\u00a0S\u00f3 estamos vivos e humanos pela capacidade de intera\u00e7\u00e3o entre v\u00e1rios. Estamos em movimento,, em constantes mudan\u00e7as, em processos complexos e paradoxos. Como Freud, que em seu livro <em>O m<\/em><em>al-e<\/em><em>star na cultura, <\/em>questionou se o nosso habitual esquecimento significa uma destrui\u00e7\u00e3o do tra\u00e7o mnem\u00f4nico, tento acompanh\u00e1-lo enquanto se questiona se na vida ps\u00edquica aquilo o que uma vez se formou, pode acabar, ou pode de alguma maneira ser preservado. Ent\u00e3o pode ser recuperado? Como?<\/p>\n<p>Freud se vale da arqueologia e, como exemplo, de Roma, cidade eterna, para examinar essa possibilidade: A Roma <em>quadrata, <\/em>povoado no monte Palatino inicia e segue como \u00a0<em>Septimontium<\/em> &#8211; federa\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias sobre respectivos montes, depois esse conjunto est\u00e1 cercado pelo muro de S\u00e9rvio T\u00falio e avan\u00e7ando no tempo, a cidade que cresceu, o imperador Aureliano arrodeou com seus muros.<\/p>\n<p>A Roma de hoje s\u00f3 \u00e9 assim, diz Freud, porque teve Roma <em>quadrata<\/em>. N\u00e3o foi arrasada, ela se transformou, integrou e segue seu caminho <em>eterno<\/em>. Os restos das v\u00e1rias fases do seu desenvolvimento descobertos por arque\u00f3logos, historiadores e outros s\u00e3o de grande valia para a humanidade, mas s\u00e3o os restos n\u00e3o transformados.\u00a0Se o nosso psiquismo funciona a vida toda em transforma\u00e7\u00f5es, os restos que ficaram e incomodam est\u00e3o aos cuidados dos psicanalistas. Mas, assim tamb\u00e9m, como n\u00f3s, os racismos e totalitarismos seguem com suas transforma\u00e7\u00f5es e adapta\u00e7\u00f5es, afinal est\u00e3o criados por n\u00f3s. Sempre com novas roupagens e formas criativas. O psicanalista do s\u00e9culo XXI n\u00e3o pode se distrair..\u00a0Nesse contexto, coloco em pauta a forma\u00e7\u00e3o do psicanalista para o s\u00e9culo XXI..<\/p>\n<p>Agora devemos, tamb\u00e9m, incluir um pequeno detalhe sobre o qual os dois autores citados concordam: estamos num momento em que o nosso planeta,, o nosso \u00fanico bem comum,, est\u00e1 em risco. N\u00e3o penso que a solu\u00e7\u00e3o seria morar em Marte ou qualquer lua por a\u00ed no Universo.<\/p>\n<p>Afinal, completando: somos no m\u00e1ximo 300.000 psicanalistas no mundo todo.. E temos (8.000.000.000 &#8211; 300.000) 7.999.700.000 de seres humanos como companheiros.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios tempos da hist\u00f3ria do movimento psicanal\u00edtico, desde as primeiras reflex\u00f5es do pr\u00f3prio Freud expostas durante o 5\u00ba Congresso Psicanal\u00edtico Internacional\u00a0 em Budapeste, em setembro de 1918, as cl\u00ednicas populares se tornaram um dos dispositivos propostos para atingir maior n\u00famero de benefici\u00e1rios e em v\u00e1rios lugares, com ou sem apoio do Estado ou de funda\u00e7\u00f5es particulares.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Anna Freud, que ainda em Viena e depois, durante a 2a guerra, em Londres, fundou v\u00e1rias creches para as crian\u00e7as desfavorecidas e v\u00edtimas da guerra, interessou vivamente Serge Lebovici. Ren\u00e9 Diatkine chegou do Hospital Henri-Rousselle onde trabalhava com Julian de Ajuriaguerra e sua equipe interessada em reeduca\u00e7\u00e3o dos dist\u00farbios da psicomotricidade e da linguagem. Suas pesquisas falavam sobre \u201co dialogo t\u00f4nico entre m\u00e3e e o beb\u00ea\u201d. Mira Stambak pesquisava as capacidades r\u00edtmicas na primeira inf\u00e2ncia. S\u00e3o \u00e9pocas de efervesc\u00eancia de cria\u00e7\u00f5es nos encontros dos v\u00e1rios diferentes campos de conhecimento e suas discuss\u00f5es contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es onde a psican\u00e1lise teria seu lugar privilegiado, no entanto compartilhado. A <em>p<\/em><em>siquiatria <\/em><em>de setor<\/em><em>.<\/em> foi implantada nos anos cinquenta por Philippe Paumelle e, entre tantos outros, por Serge Lebovici e Ren\u00e9 Diatkine, psiquiatras e psicanalistas ligados \u00e0 psican\u00e1lise com crian\u00e7a. Era um projeto amplo, o da cria\u00e7\u00e3o de um centro de ajuda \u00e0 sa\u00fade mental do XIII bairro de Paris, do qual o Centro Alfred Binet fazia parte. Era firme o prop\u00f3sito de sempre trabalhar com a crian\u00e7a e sua fam\u00edlia. Era importante, apontava Diatkine, criar as equipes de consultas regulares e est\u00e1veis,\u00a0 sobremaneira facilmente acess\u00edveis aos pacientes. As equipes eram interdisciplinares e cada uma respons\u00e1vel pelo atendimento das crian\u00e7as ou adolescentes; havia ainda a equipe correspondente para adultos no mesmo territ\u00f3rio, definido pela abrang\u00eancia territorial da escola publica. Com certeza era uma cobertura na sa\u00fade mental mais ampla poss\u00edvel e integrada com o sistema p\u00fablico de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Lugar de efervesc\u00eancia, uma colmeia de ideias. O que diferencia o Centro Binet s\u00e3o \u00a0seus aprendizes-feiticeiros, estagi\u00e1rios que v\u00eam de todo lado do mundo. Participavam de todas as atividades: reuni\u00f5es, apresenta\u00e7\u00f5es, atendimentos e discuss\u00f5es cl\u00ednicas, sempre ligados a uma das equipes. Passavam, se quisessem, o dia no centro. Acompanhavam os mais velhos, numa transmiss\u00e3o direta, verdadeiro banho de psican\u00e1lise: cl\u00ednica, cl\u00ednica e mais cl\u00ednica. Primeiras entrevistas, diagn\u00f3sticos e encaminhamentos feitos em equipe. O projeto coletivo desses entusiastas do atendimento e da transmiss\u00e3o institucional da pr\u00e1tica e da teoria psicanal\u00edticas era sustentado por anos a fio. Inova\u00e7\u00f5es, constru\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, e produ\u00e7\u00f5es de pesquisas estavam no prato do dia.\u00a0Uma cl\u00ednica interdisciplinar e de base psicanal\u00edtica. N\u00e3o existia pretens\u00e3o de formar psicanalistas, apenas desejo de transmitir o conhecimento e possibilitar que os que passassem por l\u00e1 continuassem o trabalho onde quer que fosse o destino deles.<\/p>\n<p>O Centro de Pesquisa em Psican\u00e1lise e Linguagem \u2014 CPPL se inscreve nessa continuidade, por\u00e9m as diferen\u00e7as est\u00e3o na montagem do projeto. Todos s\u00e3o s\u00f3cios e todos passam por todas as fun\u00e7\u00f5es administrativas. Algumas regras foram colocadas e receberam o nome de <em>enquadramento <\/em><em>institucional<\/em>. A terapia Intensiva organizada para atendimento das crian\u00e7as com autismo tinha seu enquadramento espec\u00edfico. \u00c9ramos obrigados a pensar o tempo todo sobre n\u00f3s mesmos, criar e depois denominar nossos achados cl\u00ednicos. O reconhecimento vinha das equipes interdisciplinares com a \u201cm\u00e3o na massa\u201d e \u00e9ramos\u00a0chamados para falar nos encontros e prestar ajuda na forma\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es. Sempre \u00edamos em dupla no m\u00ednimo e, no in\u00edcio, muitas vezes\u00a0todos.. Rapidamente fomos chamados pelas equipes do setor p\u00fablico como Casa do\u00a0Menor, Febem, prefeituras etc. para dar apoio, supervis\u00e3o \u2014 o que s\u00f3 aceit\u00e1vamos se,\u00a0tamb\u00e9m, pod\u00edamos refletir com as equipes sobre o funcionamento da organiza\u00e7\u00e3o, seu\u00a0gerenciamento.<\/p>\n<p>Ach\u00e1vamos que o funcionamento da institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia estar em contradi\u00e7\u00e3o com o atendimento cl\u00ednico psicanal\u00edtico. Pluralidade, autonomia, acordos constru\u00eddos juntos, respeitados, trocas de fun\u00e7\u00f5es, etc. Nunca dependemos de ningu\u00e9m. Mas, tamb\u00e9m, tent\u00e1vamos n\u00e3o tomar decis\u00f5es precipitadas..Tudo tinha que ser acordado entre todos, eram acordos, n\u00e3o o consenso. Tampouco vot\u00e1vamos: era preciso chegar a acordos aceitos por todos para que a tarefa, projeto, mudan\u00e7a fosse realizada. Sem acordos m\u00ednimos para sua realiza\u00e7\u00e3o, a proposta era abandonada.<\/p>\n<p>Depois da participa\u00e7\u00e3o no F\u00f3rum Social Mundial, abrimos novo modo de participa\u00e7\u00e3o na vida institucional para os novatos, fundamos o treinamento em <em>modus <\/em><em>operandi <\/em>cepepeliano. Entre 1985 e 2003, a entrada na institui\u00e7\u00e3o acontecia\u00a0 atrav\u00e9s de est\u00e1gios: a forma\u00e7\u00e3o em psicoterapia psicanal\u00edtica interdisciplinar era a posi\u00e7\u00e3o de base do CPPL. De certo modo e com as devidas mudan\u00e7as, levando em conta nossas circunst\u00e2ncias, somos descend\u00eancia das pessoas ilustres que sabiam do \u201cdi\u00e1logo t\u00f4nico m\u00e3e-filho\u201d, da constitui\u00e7\u00e3o da linguagem, do corpo que fala e que est\u00e1 na escuta.<\/p>\n<p>Para concluir, sigo Andr\u00e9 Green e Ren\u00e9 Diatkine na insist\u00eancia de que\u00a0 \u201c\u00e9 preciso urgente colocar \u00e0 psican\u00e1lise quest\u00f5es para o amanh\u00e3\u201d. O psicanalista do amanh\u00e3 deveria iniciar seu trabalho de transmiss\u00e3o nessas cl\u00ednicas, sempre interdisciplinares, sempre em equipes. Abrir o espa\u00e7o para que a psican\u00e1lise seja experimentada, compartilhada. No futuro, alguns optar\u00e3o por exercer a psican\u00e1lise, outros ter\u00e3o aproveitado o exerc\u00edcio escolhido. A democratiza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, de que tanto se fala, passa a meu ver pela forma\u00e7\u00e3o de psicanalistas capazes de se comunicar com suas equipes interdisciplinares, trabalhando junto para comunica\u00e7\u00e3o do que podem entender sobre seu entorno&#8230; Tornar a psican\u00e1lise um dispositivo de questionamento da cultura e da civiliza\u00e7\u00e3o, atentos ao nosso entorno. Sem se distrair.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Originalmente apresentado no evento Entretantos C\u00e1 entre N\u00f3s, setembro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, s\u00f3cia do CPPL e psicanalista do CPP.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entretantos, ainda: sem distrativos. 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