{"id":3041,"date":"2024-04-16T15:08:27","date_gmt":"2024-04-16T18:08:27","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3041"},"modified":"2024-04-16T15:19:30","modified_gmt":"2024-04-16T18:19:30","slug":"historia-justica-reparacao-o-golpe-civil-militar-e-a-violencia-nao-dita-no-mundo-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/04\/16\/historia-justica-reparacao-o-golpe-civil-militar-e-a-violencia-nao-dita-no-mundo-do-trabalho\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria. Justi\u00e7a. Repara\u00e7\u00e3o. O golpe civil-militar e a viol\u00eancia n\u00e3o dita no mundo do trabalho"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Hist<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>ria. Justi<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>a. Repara\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o.<br \/>\n<\/strong><strong>O golpe civil-militar no Brasil e a viol<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncia n\u00e3o dita no mundo do trabalho<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Maria Laurinda Ribeiro de Sousa<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O lugar do Sedes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Vai passar\/Nessa avenida um samba popular<br \/>\n<\/em><em>Cada paralelep<\/em><em>\u00ed<\/em><em>pedo da velha cidade<br \/>\n<\/em><em>Essa noite vai se arrepiar&#8230;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muito se falou, durante o m\u00eas de mar\u00e7o, sobre os 60 anos do golpe civil- militar, apesar da fala t\u00edmida do governo apontando para o sil\u00eancio, com o argumento de que \u201cisso \u00e9 hist\u00f3ria\u201d. Sabemos que h\u00e1 a\u00ed um equ\u00edvoco, pois a hist\u00f3ria, para que assim seja nomeada, precisa ser falada, reconhecida e comentada. Marcelo Rubens Paiva na Folha de S\u00e3o Paulo em 29\/3\/2024, em protesto \u00e0s medidas de sil\u00eancio, argumentou: \u201cA tentativa de 08\/01 n\u00e3o teria acontecido se n\u00e3o varr\u00eassemos para debaixo do tapete a trag\u00e9dia brasileira. N\u00e3o \u00e9 apenas por conta de militares legalistas que o Brasil tem uma democracia resguardada, \u00e9 pelo passado de que ainda n\u00e3o nos esquecemos, inclusive a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, mas que futuras gera\u00e7\u00f5es poder\u00e3o achar que \u00e9 hist\u00f3ria. O Estado \u00e9 constru\u00eddo pelos traumas e tem o dever de relembrar suas mazelas, n\u00e3o temer (que elas sejam reveladas)\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aqui no Sedes aconteceu, no dia 01\/04, o evento sobre os 60 anos do golpe militar no Brasil: O papel do Instituto na luta pela democracia, organizado pelo N\u00facleo de funcion\u00e1rios. Participaram da mesa Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes (Dodora), Marta Cerruti e Anderson Luis Pedrini. O tema de hoje tem uma linha de continuidade com o que foi dito naquele momento, abrindo-se, no entanto, para outros olhares.<\/p>\n<p>Aos movimentos de resist\u00eancia e luta pela Democracia e pela Justi\u00e7a que aconteceram no Sedes e j\u00e1 enunciados no encontro anterior do dia 01\/04 e no comunicado feito pela diretoria \u00e0 Comunidade Sedes, quero relembrar outras a\u00e7\u00f5es importantes daquele momento inicial: a Comiss\u00e3o Pr\u00f3-Indio que teve acolhida neste espa\u00e7o, no final dos anos 70. Um movimento de luta pela garantia dos direitos territoriais, culturais e pol\u00edticos dos povos ind\u00edgenas e quilombolas. Uma luta que se juntou, depois,\u00a0 ao projeto da Uni\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas, fundada em 1980, por Ailton Krenak, e cuja causa continuamos, no N\u00facleo Semente, apoiando e defendendo. Tamb\u00e9m no in\u00edcio do Instituto, Madre Cristina, que fazia parte da diretoria, ofereceu acolhida \u00e0s Comiss\u00f5es de familiares dos presos, desaparecidos e perseguidos pelo regime ditatorial e \u00e0 Comiss\u00e3o Pr\u00f3-Anistia. Outro movimento que preciso destacar e que tem uma liga\u00e7\u00e3o direta com o mundo do trabalho foi a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, ligada \u00e0 CNBB; uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o vivida pelos trabalhadores rurais, explorados em seu trabalho, expulsos da terra que ocupavam e submetidos a situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas ao trabalho escravo. Anterior a essa organiza\u00e7\u00e3o, as Ligas Camponesas, extintas em 1964, h\u00e1 muito lutavam pelos direitos do povo da terra e pela efetiva\u00e7\u00e3o da Reforma Agr\u00e1ria. A Comiss\u00e3o Pastoral da Terra abriu o caminho para o MST &#8211; Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra. Para al\u00e9m dos espa\u00e7os que foram se formalizando, o que importa destacar \u00e9 a abertura desta institui\u00e7\u00e3o para a hospitalidade. Hospitalidade pura ou de visita, como a nomeia Derrida; portas abertas aos que precisam de acolhida.<\/p>\n<p>Juli\u00e1n Fuks escreveu recentemente sobre os 60 anos da ditadura, retomando em seu in\u00edcio a pergunta de Maria Rita Kehl: \u201cQuantos anos ou d\u00e9cadas s\u00e3o necess\u00e1rios para que um fato traum\u00e1tico se incorpore \u00e0 mem\u00f3ria nacional sem machucar nem se banalizar?\u201d Sem banalizar \u00e9 fundamental, sem machucar n\u00e3o sei se ser\u00e1 poss\u00edvel, pois, mesmo tornando-se passado, n\u00e3o pode ser lembrado sem o sofrimento decorrente do\u00a0 acontecido. Assim o afirmou Em\u00edlio Ivo Ulrich, em mar\u00e7o deste ano, quando de uma visita dos sequestrados pol\u00edticos ao laborat\u00f3rio de Arqueologia P\u00fablica da Unicamp, que possui a guarda provis\u00f3ria de cerca de 350 objetos encontrados durante as escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas nos pr\u00e9dios que comp\u00f5em o antigo DOI-C0Di em SP. \u201cFiz a Cl\u00ednica do Testemunho, disse Em\u00edlio,\u00a0 para poder parar de chorar; poder contar o que vivi. Escrevi um livro: <em>Tortura n\u00e3o tem fim<\/em>. As sequelas f\u00edsicas foram de certa forma tratadas, mas as sequelas psicol\u00f3gicas permanecem at\u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<p>As Cl\u00ednicas do Testemunho, citadas por ele, tinham como proposta a \u201crepara\u00e7\u00e3o ps\u00edquica\u201d aos afetados pela viol\u00eancia de Estado durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Organizaram-se diversos N\u00facleos pelo pa\u00eds; um deles aconteceu no Sedes, no per\u00edodo de 2012 a 2017, com a coordena\u00e7\u00e3o de Maria Cristina Ocariz.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Esse projeto fez parte das a\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Poder relembrar, reconhecer o que aconteceu, tornar p\u00fablico o acontecido, testemunhar, \u00e9 um passo fundamental e necess\u00e1rio para que n\u00e3o mais aconte\u00e7a. \u201cO sil\u00eancio \u00e9 o verdadeiro crime contra a humanidade\u201d. <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Winnicott, psicanalista ingl\u00eas que sempre se preocupou com o que acontecia no ambiente, escreveu sobre os eventos traum\u00e1ticos que permanecem congelados porque n\u00e3o puderam ser experienciados, est\u00e3o \u00e0 espera de que em algum momento possam ser vividos, reconhecidos e partilhados. E, dessa forma, se possa liberar o psiquismo para novas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Falo disso com o impacto do que vivi quando tive a ideia, ao iniciar o escrito para esta fala, de perguntar ao meu grupo da faculdade sobre as lembran\u00e7as que tinham do que vivemos durante nossa gradua\u00e7\u00e3o na Faculdade de Ci\u00eancias e Letras Sedes Sapientiae. Fazemos, neste ano, 50 anos de formatura. Entramos na faculdade 6 anos depois do in\u00edcio do golpe. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer um recorte estrito e linear desse momento de nossa gradua\u00e7\u00e3o. Esse tempo est\u00e1 permeado por muitos outros acontecimentos. Certos fatos posteriores infiltram-se no passado e pareceu-me necess\u00e1rio deixar que o texto fizesse volteios, idas e vindas. Imposs\u00edvel falar do Sedes sem mencionar o que acontecia no entorno. Voc\u00eas poder\u00e3o ter a sensa\u00e7\u00e3o de que me estendo, de que fujo do tema, mas n\u00e3o pude evitar as sobreposi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o havia muros eletrificados; as not\u00edcias do que ocorria em outros lugares invadiam os espa\u00e7os e as mentes. A neblina da lembran\u00e7a det\u00e9m-se em um objeto e s\u00f3 depois percebe que seu lugar est\u00e1 deslocado; \u00e9 preciso reajustar novamente as lentes, mas j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais como recome\u00e7ar. Em muitos momentos destas falas se vislumbrar\u00e1 o vai e vem, a sobreposi\u00e7\u00e3o de cenas, o v\u00e9u do que permaneceu encoberto, o imposs\u00edvel de significar, o vazio da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Caminhando e cantando<br \/>\n<\/em><em>E seguindo a can\u00e7\u00e3<\/em><em>o.<br \/>\n<\/em><em>Vem. Vamos embora. Que esperar n\u00e3<\/em><em>o <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>saber<br \/>\n<\/em><em>Quem sabe faz a hora n\u00e3<\/em><em>o espera<\/em> <em>acontecer&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Alguns de n\u00f3s, antes da entrada na faculdade, participaram do movimento estudantil dos secundaristas, movimento importante na luta pela resist\u00eancia \u00e0 arbitrariedade e a favor da legalidade, com greves espalhadas por todo o pa\u00eds para garantir a posse de Jango, ap\u00f3s a ren\u00fancia de J\u00e2nio. Aqueles momentos, que antecederam o golpe de 64, foram marcados pela persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es estudantis e pelo cerco \u00e0s escolas onde elas aconteciam. O fantasma do comunismo surgia como justificativa para o ataque por parte dos militares e da cavalaria. Continuou presente \u201cno dia que durou 21 anos\u201d como \u00e1libi para persegui\u00e7\u00f5es, torturas e desaparecimentos de estudantes, professores e militantes, apontados em cartazes como terroristas.<\/p>\n<p>A proibi\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es e de organiza\u00e7\u00f5es coletivas tornou-se uma norma. O medo, um afeto constante. O horror se manifestava no esvaziamento das ruas, nos toques de recolher, nos companheiros desaparecidos, nas cenas televisivas de jovens tendo que publicamente assumir sua participa\u00e7\u00e3o na resist\u00eancia e seu arrependimento. A Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes que existia desde 1937 e tinha como finalidade defender a qualidade do ensino e a justi\u00e7a social foi, logo ap\u00f3s o golpe, colocada na ilegalidade. \u00c9 conhecido o resultado do XXX Congresso, em outubro de 1968, realizado em Ibi\u00fana, de forma clandestina, por cerca de mil estudantes. Foram todos presos pelos soldados da For\u00e7a P\u00fablica e por policiais do DOPS. Mais tarde, em 1977, outra invas\u00e3o violenta, agora na PUC. Os estudantes tentavam reorganizar a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes e tomar medidas contra o cerco policial da USP, da PUC e da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas. O espa\u00e7o foi invadido por policiais militares, investigadores civis e tropas de choque chefiadas pelo Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado de SP \u2013 Erasmo Dias. D. Paulo Evaristo Arns, ao saber do ocorrido, voltou de Roma e reagiu: \u201cNa PUC s\u00f3 se entra prestando exame vestibular. E s\u00f3 se entra na PUC para ajudar o povo, n\u00e3o para destruir as coisas\u201d.<\/p>\n<p>O resultado do regime que autorizou persegui\u00e7\u00f5es, torturas e assassinatos \u00e9 conhecido: 457 mortos e desaparecidos, mais de 8.300 ind\u00edgenas mortos, institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas fechadas, controle das informa\u00e7\u00f5es, censura \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es culturais, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0s reuni\u00f5es de trabalho, interven\u00e7\u00e3o nos sindicatos, cassa\u00e7\u00e3o e ex\u00edlio dos opositores do regime.<\/p>\n<p>Em setembro de 1990 revelou-se a exist\u00eancia de um cemit\u00e9rio clandestino em Perus, S\u00e3o Paulo, com 1049 sacos contendo pessoas enterradas numa vala comum durante esse per\u00edodo tr\u00e1gico. A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, criada oficialmente em 2012, registrou mais de 50 mil pris\u00f5es no primeiro ano da ditadura.<\/p>\n<p>O golpe n\u00e3o foi s\u00f3 militar; teve apoio de uma ala da igreja, do Ex\u00e9rcito, de industriais, da imprensa oficial, dos senhores da terra. Na retaguarda desta hist\u00f3ria, estava o governo americano tentando combater a amea\u00e7a da esquerda na Am\u00e9rica Latina. O fantasma da revolu\u00e7\u00e3o cubana e seu alinhamento com o bloco socialista exigia controle.<\/p>\n<p>Essa viol\u00eancia se perpetua de v\u00e1rias formas e insiste. Insiste no genoc\u00eddio ind\u00edgena, na demora na demarca\u00e7\u00e3o de suas terras, na elimina\u00e7\u00e3o de ambientalistas, nas mortes dos pretos, pobres e perif\u00e9ricos, nas chacinas virulentas como as que t\u00eam acontecido na baixada santista, na privatiza\u00e7\u00e3o abusiva dos bens p\u00fablicos, nos rios e vales transformados em lama por a\u00e7\u00e3o criminosa de mineradoras, aumento da popula\u00e7\u00e3o de rua e da fome, no ataque constante aos direitos fundamentais e ao que surge como diversidade: racismo, xenofobia, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e da vida. Insiste e nos demanda uma posi\u00e7\u00e3o constante de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tornar poss\u00edvel a coletiviza\u00e7\u00e3o dessas mem\u00f3rias \u00e9 um ato pol\u00edtico. \u00c9 dar sentido a aus\u00eancias e vazios inexplic\u00e1veis e deslocar o risco de uma letargia alienante e da melancoliza\u00e7\u00e3o, para o reconhecimento necess\u00e1rio dos efeitos de uma invas\u00e3o violenta ao pensamento e \u00e0 cr\u00edtica, provocada pelo regime ditatorial. \u201cQuando est\u00e1 realmente viva, a mem\u00f3ria n\u00e3o contempla a hist\u00f3ria, mas convida a faz\u00ea-la\u201d. <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Uma forma potente de rompimento do sil\u00eancio aconteceu no dia 31\/03: a IV caminhada do sil\u00eancio. Um ato pol\u00edtico de resist\u00eancia; manter presente a mem\u00f3ria dos desaparecidos e exigir a devida apura\u00e7\u00e3o desses crimes; contestar a anistia sancionada em 1979 que favoreceu os militares e os respons\u00e1veis por esses crimes. Atos necess\u00e1rios para que seja poss\u00edvel a desidentifica\u00e7\u00e3o com o lugar de corpo mat\u00e1vel a que muitos est\u00e3o submetidos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em oposi\u00e7\u00e3o ao sil\u00eancio sobre o golpe de 64 \u00e9 necess\u00e1rio registrar o acontecimento do dia 02\/04. Pela primeira vez, o Estado brasileiro se manifestou publicamente e reconheceu, de forma oficial, os crimes da ditadura contra os\u00a0 povos Krenak e Guarani Kaiow\u00e1. A presidente da Comiss\u00e3o da Anistia, Ene\u00e1 de Stutz, de joelhos, pediu perd\u00e3o por essas viola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Atravessada por esses atos recentes que reacendem os atos passados, retomo, no volteio de meu texto, o impacto que sofri ao escutar as mensagens dos que partilharam comigo o in\u00edcio da faculdade no Sedes \u2013 ent\u00e3o, na Caio Prado, no in\u00edcio de 1970, estando na Presid\u00eancia do pa\u00eds o ditador Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici. Fazemos parte de uma gera\u00e7\u00e3o fortemente marcada pela viol\u00eancia da ditadura, mas tamb\u00e9m por muitos movimentos que gritavam pela liberdade e encontravam espa\u00e7os de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Ressoavam, entre n\u00f3s, as not\u00edcias e cenas de v\u00e1rios protestos acontecidos fora do pa\u00eds; eles adensavam o que j\u00e1 viv\u00edamos aqui: maio de 68 na Fran\u00e7a, passeatas contra a guerra do Vietn\u00e3 nos EUA , os movimentos a favor da popula\u00e7\u00e3o negra, os protestos contra os atos imperialistas dos pa\u00edses desenvolvidos sobre os pa\u00edses do terceiro mundo. Entre eles, a tentativa americana de interfer\u00eancia autorit\u00e1ria nos planos educacionais desses pa\u00edses.<\/p>\n<p>No Brasil, essa interfer\u00eancia se concretizou no acordo MEC-USAID (Minist\u00e9rio da Cultura e Ag\u00eancia Americana para o Desenvolvimento Internacional) \u2013 um conv\u00eanio de assist\u00eancia t\u00e9cnica e coopera\u00e7\u00e3o financeira, negociado secretamente e s\u00f3 tornado p\u00fablico em 1966. O acordo impunha ao Brasil o assessoramento norte-americano e a obrigatoriedade de ensino do ingl\u00eas desde a primeira s\u00e9rie. Mat\u00e9rias como hist\u00f3ria, filosofia, educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tiveram sua carga diminu\u00edda ou extinta. Instituiu-se, ao inv\u00e9s de discuss\u00f5es cr\u00edticas sobre a realidade brasileira, o ensino moral e c\u00edvico. O acento era para uma forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que respondesse \u00e0s demandas industriais. Um ataque \u00e0s escolas p\u00fablicas e a defesa da privatiza\u00e7\u00e3o. Isso gerou uma grande oposi\u00e7\u00e3o em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em mar\u00e7o de 68, no Rio de Janeiro, a morte de Edson Luis, estudante secundarista, baleado pelos policiais militares no restaurante Calabou\u00e7o, base do movimento estudantil, provocou imensos protestos. Em outubro do mesmo ano, a batalha entre os estudantes do Mackenzie (base do Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas) e os da faculdade de filosofia da Maria Antonia que lutavam contra a ditadura e defendiam mudan\u00e7as nos projetos educacionais, terminou com o inc\u00eandio do pr\u00e9dio da USP, in\u00fameros feridos e uma morte com um tiro disparado por um membro do CCC. No fim daquele ano, deu-se o golpe dentro do golpe: a promulga\u00e7\u00e3o do AI5 \u2013 uma carta branca para todas as a\u00e7\u00f5es repressivas e todos os atos de tortura. Iniciaram-se os anos de Terror de Estado com a cria\u00e7\u00e3o, em 1969,\u00a0 da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes e do DOI-CODI. Nesses locais os ditos \u201cinimigos do poder\u201d eram encarcerados, torturados e mortos.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o dessas medidas, as a\u00e7\u00f5es estudantis passaram a se concentrar na organiza\u00e7\u00e3o dos Centros e Diret\u00f3rios Acad\u00eamicos e no desenvolvimento de encontros art\u00edsticos e culturais onde se discutia a realidade pol\u00edtica e as propostas de mudan\u00e7as na Educa\u00e7\u00e3o. Foi nesse contexto que se realizou no Sedes, em 1971, o primeiro encontro dos estudantes de Psicologia: SEDES-USP-PUC.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>E que as crian<\/em><em>\u00e7<\/em><em>as cantem livres sobre os muros<br \/>\n<\/em><em>E ensinem sonho ao que n\u00e3o pode amar sem dor<br \/>\n<\/em><em>E que o passado abra os presentes pro futuro<\/em><\/p>\n<p>Os festivais de m\u00fasica tornaram-se espa\u00e7os de encontro, de reivindica\u00e7\u00f5es e protestos pol\u00edticos. Certas can\u00e7\u00f5es foram incorporadas como manifestos e s\u00e3o lembradas at\u00e9 hoje: Pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei das flores, de Geraldo Vandr\u00e9, que foi exilado no final de 68; Apesar de voc\u00ea, de Chico Buarque; C\u00e1lice, uma parceria com Gilberto Gil; \u00c9 proibido proibir, do Caetano Veloso; Tiro ao \u00c1lvaro, de Adoniran Barbosa; Mosca na sopa, de Raul Seixas; Que as crian\u00e7as cantem livres, de Taiguara; O b\u00eabado e a equilibrista, de Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc; Opini\u00e3o, de Z\u00e9 Keti; Hoje \u00e9 dia de El Rey, de Milton Nascimento.<\/p>\n<p>Numa certa manh\u00e3 de 1971, nosso Centro Acad\u00eamico foi invadido. Todo o material espalhado pelo ch\u00e3o e o mime\u00f3grafo levado pelo DOPS. Esse mime\u00f3grafo havia sido presente de um dos professores que acompanhava e valorizava os atos de panfletagem e protesto que se originavam nesse espa\u00e7o. O argumento dos policiais era p\u00edfio: encontraram em nossa biblioteca <em>A revolu\u00e7\u00e3o dos bichos<\/em>. Muitos se lembram da invas\u00e3o do Centro Acad\u00eamico, mas lembram tamb\u00e9m dos namoros que aconteciam dentro dele. A vida n\u00e3o era s\u00f3 terror e medo.<\/p>\n<p>Nesse mesmo clima pol\u00edtico, o Sedes deixara de ser uma faculdade com Madre Cristina tendo se negado a assinar e implantar o acordo MEC-USAID. Fomos, ent\u00e3o, a \u00faltima turma dessa faculdade e ela, como diretora, ousou na proposta pedag\u00f3gica. Sugeriu que mont\u00e1ssemos o curr\u00edculo com o que julg\u00e1ssemos importante para nossa gradua\u00e7\u00e3o. Tarefa pioneira e instigante: ela nos mostrava que as institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e, portanto, pass\u00edveis de mudan\u00e7as. E que a universidade pode ser um espa\u00e7o livre e criativo. A abertura para o trabalho na Comunidade, nos anos de 1973 e 1975, no Centro Comunit\u00e1rio de Parelheiros, proposto por Edith Seligmann Silva, com pr\u00e1ticas inovadoras no campo da Sa\u00fade Mental, marcou a forma\u00e7\u00e3o dos que passaram por essa experi\u00eancia. Muitas dessas propostas foram depois aplicadas \u00e0 rede p\u00fablica nos anos 80. Esse trabalho tamb\u00e9m sofreu press\u00f5es por parte de um psiquiatra militar que coordenava a Sa\u00fade Mental naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Contar a hist\u00f3ria do Sedes faculdade e do Sedes Instituto \u00e9 tamb\u00e9m contar a hist\u00f3ria de Madre Cristina, que sempre esteve \u00e0 frente dessas propostas. Para ela, o trabalho cl\u00ednico, a educa\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica eram a\u00e7\u00f5es insepar\u00e1veis. Seu Jo\u00e3o, figura marcante do barzinho da Caio Prado, estava sempre atento ao que se passava. Um dia a Madre lhe pediu que juntasse todas as tampas de garrafa. Perguntou o porqu\u00ea disso. Ela respondeu: \u201cPara jogar no ch\u00e3o durante as manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para que os cavalos derrapem e caiam no ch\u00e3o\u201d. Suas falas, durante a campanha pelas \u201cDiretas J\u00e1&#8221;, em 1984, diante de uma multid\u00e3o, s\u00e3o memor\u00e1veis: \u201cFala Brasil, fala pelas urnas, dizendo que 1984 encerra e enterra 1964\u201d. Apesar de todo o entusiasmo e dos gritos de apoio, n\u00e3o enterrou!<\/p>\n<p>A cl\u00ednica psicol\u00f3gica do Sedes, implantada por ela, teve sua origem em 1940, antes mesmo da psicologia ser regulamentada e pautou-se, desde o in\u00edcio, por ser um espa\u00e7o pol\u00edtico, de acolhimento aos menos favorecidos, de ref\u00fagio para os que escapavam da pris\u00e3o e de atendimento aos perseguidos pol\u00edticos. Essas marcas se fizeram presentes na faculdade e no Instituto.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por entre fotos e nomes\/Sem livros e sem fuzil<br \/>\n<\/em><em>Sem fome sem telefone\/No cora\u00e7\u00e3o do Brasil<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Leio, enfim, alguns dos depoimentos feitos para este encontro. Eles t\u00eam o sentido de <em>testemunho<\/em>. Foram, como j\u00e1 disse, respostas ao meu pedido para que me contassem as lembran\u00e7as que cada um tem sobre esse per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cDepois do golpe, meus pais recomendavam imensos cuidados e aten\u00e7\u00e3o. Ir de Santo Andr\u00e9 para o Sedes, numa situa\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o acintosa, com policiamento nas ruas, era muito arriscado para os estudantes. Eu n\u00e3o era muito de arriscar; andava meio disfar\u00e7ada no meio de outros jovens\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cEu ainda estava no cursinho, Rita Lee estava comigo e nos vimos no meio de uma manifesta\u00e7\u00e3o. Paramos na casa de Vandr\u00e9, que j\u00e1 estava perseguido, ficamos preparando cartazes para uma manifesta\u00e7\u00e3o, sa\u00edmos em passeata pela Consola\u00e7\u00e3o. Veio a cavalaria e quase fui pega\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cEm outro momento, j\u00e1 na faculdade, com v\u00e1rios colegas presos e desaparecidos, Florestan Fernandes veio fazer uma fala no Sedes e Madre Cristina prop\u00f4s que fic\u00e1ssemos numa fila com um apertando a m\u00e3o do outro cercando todo o pr\u00e9dio e desta forma avis\u00e1ssemos com um aperto mais forte se a pol\u00edcia chegasse. Madre Cristina era a primeira dessa fila de \u201cum telefone sem fio\u201d. A palestra logo foi interrompida e todos se dispersaram. Madre Cristina desapareceu. Ela aparecia e desaparecia com certa frequ\u00eancia. E nos inquietava n\u00e3o saber o que acontecia\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cMorava perto do cursinho do Equipe. Em 69, um fusquinha explodiu de madrugada. Nele estavam duas pessoas da secretaria do cursinho\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Um dos que morreram nessa explos\u00e3o foi Ishiro Nagami, diretor tesoureiro do Equipe, militante da ANL. A informa\u00e7\u00e3o nos chegou, neste momento dos depoimentos, por um de nossos colegas que tinha com Ishiro uma rela\u00e7\u00e3o de gratid\u00e3o pela bolsa de estudos de 50% para o semi-extensivo do Equipe.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cFui envolvida na guerra da Maria Antonia. Estava no colegial. Fui at\u00e9 l\u00e1 encontrar minha cunhada e de repente est\u00e1vamos no meio do quebra-quebra. Fomos\u00a0 empurradas para dentro de uma livraria que fechou as portas\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cMeu irm\u00e3o era estudante de F\u00edsica na USP. Foi exilado para a Fran\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cHavia muita tens\u00e3o com o que cada um falava. Entrei numa c\u00e9lula, em 68. Ningu\u00e9m sabia o nome de ningu\u00e9m e fomos alfabetizar oper\u00e1rios da f\u00e1brica Fiat-Lux; era uma realidade muito diferente. N\u00e3o pod\u00edamos nos reunir porque se houvesse mais de dois, a pol\u00edcia parava, prendia&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cO sentimento nessa \u00e9poca era de orgulho por estar participando de um evento. Por ouvir Florestan Fernandes e a Madre Cristina, mas ao mesmo tempo tinha muito medo. O medo estava no ar\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cL\u00edamos juntos <em>O Pasquim<\/em> e havia uma for\u00e7a coletiva de transformar o mundo. Havia professores que mais do que transmitir conte\u00fados, queriam ajudar a desenvolver o pensamento cr\u00edtico sobre os acontecimentos\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cT\u00ednhamos\u00a0 suspeitas sobre um aluno; desconfi\u00e1vamos que era informante. Quando fizemos dez anos de formados e esse aluno foi pressionado, confirmou nossas suspeitas e afirmou que recebia 800 d\u00f3lares para nos vigiar\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cNo entanto, nos garantiu que, apesar de bem remunerado para nos vigiar, nunca nos delatou. De uma forma curiosa todos nos incomod\u00e1vamos com sua presen\u00e7a: seu terno preto, seus sapatos brilhantes, seus \u00f3culos de aros grandes\u201d.<\/p>\n<p>Saber da exist\u00eancia de alunos infiltrados para denunciar o que acontecia nas salas de aula n\u00e3o era apenas temer as den\u00fancias, era tamb\u00e9m dar cr\u00e9dito \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de um inimigo interno \u2013 ideia propalada pela lei de Seguran\u00e7a Nacional &#8211; e tornar qualquer um alvo de desconfian\u00e7as e, portanto, alimentar o sil\u00eancio mort\u00edfero e fomentar a quebra dos la\u00e7os coletivos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cPra chegar no Sedes atravessava a cidade no meio de brucutus, cavalaria e policiais. N\u00e3o era um caminho f\u00e1cil de se fazer\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cMadre Cristina tinha um c\u00f3digo conosco; dizia: &#8216;Estou com gripe e vou para o hospital&#8217;. E desaparecia. Uma vez nos contou que D. Paulo Evaristo Arns a visitava para ver se estava viva\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Um dos alunos do col\u00e9gio de aplica\u00e7\u00e3o, jovem, amigo da minha fam\u00edlia, foi preso e torturado. Tinha asma e usava bombinha. Uma das torturas consistia em prometer a entrega da bombinha que ajudava a respirar, se ele delatasse o que era suposto saber\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cDois sujeitos de terno e engravatados estavam sempre no espa\u00e7o do barzinho e tentando saber dos alunos o que acontecia nas salas de aula\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cEsses mesmos sujeitos apareceram na minha casa e foram perguntar o que Madre Cristina falava nas aulas. Que medo, que pavor. Eu dizia: &#8216;Sou muito distra\u00edda, n\u00e3o presto aten\u00e7\u00e3o nas aulas e n\u00e3o me lembro de nada&#8217;. Fico mais assustada porque eles foram s\u00f3 na minha casa\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cLembro de entrar na classe e na carteira encontrar um bilhetinho pedindo que n\u00e3o fal\u00e1ssemos com nenhum estranho\u201d.<\/p>\n<p>Os trabalhos em grupo eram proibidos, mas, apesar disso, nos reun\u00edamos no p\u00e1tio do Sedes, nos finais de semana, no centrinho. O espa\u00e7o sempre esteve dispon\u00edvel para isso.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cAtendi um paciente que me disse ter participado de uma das pris\u00f5es de Madre Cristina. A orienta\u00e7\u00e3o era de que n\u00e3o a deixassem falar pois havia o risco de serem convencidos a mudar de posi\u00e7\u00e3o. Foi dific\u00edlimo ouvi-lo\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Nesse momento, surgem outras falas, de que tamb\u00e9m suas casas foram invadidas por esses mesmos sujeitos que circulavam pela faculdade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cForam perguntar o que eu dizia sobre a faculdade e sobre o que Madre Cristina conversava conosco\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cNossa. Deviam ser os mesmos. Alivia um pouco saber que n\u00e3o foi s\u00f3 comigo\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cPor que voc\u00eas nunca falaram disso? \u201c<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cNunca ningu\u00e9m perguntou&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cMeus pais n\u00e3o queriam que eu chegasse perto de nenhum movimento&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Parece que uma cis\u00e3o de fala e de escuta se estabeleceu; n\u00e3o sab\u00edamos com quem falar. Alguns de n\u00f3s pens\u00e1vamos que poucos sabiam o que estava acontecendo. Viv\u00edamos com medo. Ou, que apenas um tinha essa viv\u00eancia em fun\u00e7\u00e3o do que vivia em seu entorno \u00edntimo \u2013 como o fato de ter um irm\u00e3o exilado em 1973 ou viver as persegui\u00e7\u00f5es em outros locais altamente visados pela ditadura.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cAcho que era uma esp\u00e9cie de autoprote\u00e7\u00e3o, nunca termos falado sobre isso\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cEu sabia o que acontecia. Meu pai era feirante e contou, em casa, de um amigo que foi preso e torturado dentro de um po\u00e7o de \u00e1gua e teve consequ\u00eancias s\u00e9rias de sa\u00fade em fun\u00e7\u00e3o dessa tortura\u201d.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias circulavam apesar das proibi\u00e7\u00f5es. Uma das alunas que retomou o curso depois da pris\u00e3o e tortura fez o relato, instigada pela professora, do que sofreu durante a pris\u00e3o; n\u00e3o suportou permanecer depois do relato. O testemunho n\u00e3o \u00e9 algo &#8211; aprendemos depois &#8211; que se partilha sem que haja um preparo para isso. Outras alunas chegavam depois de come\u00e7ado o ano e Madre Cristina pedia que as receb\u00eassemos porque precisavam ser protegidas, ou precisavam retomar a forma\u00e7\u00e3o depois da pris\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cEstava nas escadas da cl\u00ednica e surgiram policiais atirando. Madre Cristina gritava dizendo que n\u00e3o eram bandidos e que os bandidos nos roubavam sem armas. Sa\u00edmos de l\u00e1 e na Consola\u00e7\u00e3o o tiroteio continuou. Foi assustador.\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cSe apareciam policiais no entorno do pr\u00e9dio, ela gritava: Voc\u00eas n\u00e3o entrem aqui. Voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o mexer com os alunos. Em uma de suas aulas escreveu na lousa: Educar \u00e9 subverter! Numa \u00e9poca em que subverter era sin\u00f4nimo de pris\u00e3o. Isso marcou meu percurso de vida\u201d<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cEstudar Paulo Freire era proibido; considerado traidor da p\u00e1tria pela ditadura, foi exilado depois de uma pris\u00e3o de 70 dias. Ent\u00e3o, isso era feito \u00e0s escondidas em outro local\u201d.<\/p>\n<p>Durante o ex\u00edlio no Chile, Paulo Freire escreveu: &#8220;Educa\u00e7\u00e3o como pr\u00e1tica da liberdade\u201d. Alguns participaram de grupos de alfabetiza\u00e7\u00e3o na periferia, utilizando o m\u00e9todo Paulo Freire.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cNunca foi ningu\u00e9m na minha casa. Mas minha casa era suspeita. Minha m\u00e3e trabalhava na USP. E eu era do Sedes. Ela deixou a panela de arroz no fogo e a fuma\u00e7a fez com que a pol\u00edcia invadisse a casa e a porta fosse derrubada. Uma confus\u00e3o. Por que n\u00e3o chamaram os bombeiros? Meu irm\u00e3o guardava os livros de um militante que havia deixado o pa\u00eds. Por sorte, n\u00e3o foram encontrados. Meu irm\u00e3o era muito pr\u00f3ximo de M\u00e1rio Schenberg e convivia com v\u00e1rias pessoas que combatiam a ditadura; o que ele fazia n\u00e3o se sabia em casa. Mas, fez parte de um grupo de alunos que foi estudar fora do pa\u00eds, com a ajuda de M\u00e1rio Schenberg \u2013 uma forma de proteg\u00ea-los dos riscos que estavam vivendo\u201d.<\/p>\n<p>M\u00e1rio Schenberg foi considerado o maior f\u00edsico te\u00f3rico do Brasil. Foi professor da USP, eleito deputado estadual por S\u00e3o Paulo, duas vezes. Preso mais de uma vez e aposentado compulsoriamente pelo AI-5.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Madre Cristina, outros professores desapareciam e voltavam. Muitos, de outras escolas ou faculdades, n\u00e3o voltaram. Um professor de sociologia desapareceu quando ia come\u00e7ar a discutir o ano de 1969, reapareceu 15 dias depois, machucado. Reaparecimento que funcionava como um aviso, um alerta de perigo. Maria Nilde Mascellani, ficou tr\u00eas meses presa. O projeto educacional que ela coordenava \u2013 os gin\u00e1sios vocacionais; uma proposta inovadora para a Educa\u00e7\u00e3o &#8211; foi extinto pela ditadura. Assim como outras propostas importantes \u2013 as de Paulo Freire, as de An\u00edsio Teixeira, propostas que conhecemos e discutimos com a orienta\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n<p>Depois de muitas falas, algo da mem\u00f3ria ganha visibilidade:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cFui condicionada por meu pai, desde o in\u00edcio da ditadura em 1964, a n\u00e3o me envolver com nada, teria que ir e voltar inteira. Essa era a ordem dele. Um pai zeloso por seus 5 filhos, mas tamb\u00e9m medroso\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cEm 1973, quando da morte de Alexandre Vannucchi,\u00a0 sa\u00edmos do Sedes para distribuir os cartazes sobre a missa que se realizaria na S\u00e9. Fomos surpreendidos pela negativa de algumas institui\u00e7\u00f5es educacionais que julg\u00e1vamos abertas a essas manifesta\u00e7\u00f5es. Os choques com a realidade eram sempre impactantes. Em um dos lugares n\u00e3o foi s\u00f3 o peso da proibi\u00e7\u00e3o, mas a pergunta desqualificadora: Voc\u00ea sabe o que est\u00e1 fazendo? Uma pergunta que invertia a quem devia ser endere\u00e7ada: aos que cometeram o crime que se denunciava\u201d<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1973, D. Paulo Evaristo Arns celebrou a missa na catedral da S\u00e9, com cerca de 5.000 pessoas presentes.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cEstou agora relendo e escutando as importantes passagens pela mem\u00f3ria de nosso passado universit\u00e1rio. Talvez resgatando o peso e import\u00e2ncia desse tempo. Agrade\u00e7o a voc\u00eas que me fizeram trazer \u00e0 tona meus medos da \u00e9poca. Eu consegui lembrar vagamente dos tiroteios na Caio Prado e de ficarmos presas no carro. Lembrei tamb\u00e9m de Madre Cristina orientando a evacua\u00e7\u00e3o do nosso pr\u00e9dio quando fomos em fila \u00e0 palestra do Florestan Fernandes. Lembro do aluno infiltrado e da apreens\u00e3o e tristeza quando no caf\u00e9 do Seu Jo\u00e3o sab\u00edamos de outro sumi\u00e7o da Madre. Me lembro tamb\u00e9m das gostosas horas no centrinho, de jogarmos, das serestas, cantorias e momentos de m\u00fasica.\u201d<\/p>\n<p>O resgate da mem\u00f3ria congelada, traz, como lhes disse no in\u00edcio, a possibilidade er\u00f3tica da vida. Foram necess\u00e1rios 50 anos e um clima de afeto e confian\u00e7a para que essas lembran\u00e7as sa\u00edssem das sombras. Sou grata \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o que este evento me fez e grata \u00e0 pergunta que ousei lan\u00e7ar ao meu grupo: &#8220;Do que voc\u00eas se lembram?&#8221; Afinal, quando lhes perguntei: &#8220;Mas por que nunca falamos disso?\u201d, Celina me disse: &#8220;Porque nunca ningu\u00e9m perguntou.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que haja perguntas e tamb\u00e9m que haja quem queira escutar as respostas.<\/p>\n<p>O t\u00e9rmino da faculdade e o in\u00edcio do Instituto continuou marcado pelas propostas em defesa da democracia, da justi\u00e7a social e dos Direitos Humanos. \u00c9 por eles que lutamos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Meu desejo \u00e9 de que existam sempre lugares de hospitalidade. Lugares necess\u00e1rios e urgentes nestes tempos de tantas guerras e de tantas mortes.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto originalmente apresentado no evento<em> Hist\u00f3ria, justi\u00e7a, repara\u00e7\u00e3o: o golpe civil-militar no Brasil e a viol\u00eancia n\u00e3o dita no mundo do trabalho<\/em>, realizado pelo N\u00facleo Semente no audit\u00f3rio Madre Cristina. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2M9fff-74to&amp;t=2575s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2M9fff-74to&amp;t=2575s<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psican\u00e1lise e coordenadora do N\u00facleo Semente: Sa\u00fade Mental e Direitos Humanos relacionados ao Trabalho.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Dois livros publicados pela Editora Escuta, organizados por M. Cristina Ocariz, apresentam o hist\u00f3rico desse importante projeto e os trabalhos cl\u00ednicos realizados: <em>Viol\u00eancia de Estado na ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Efeitos ps\u00edquicos e testemunhos cl\u00ednicos <\/em>(2015) e <em>Psican\u00e1lise e viol\u00eancia social <\/em>(2018).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Essa afirma\u00e7\u00e3o, foi dita por Nadejda Mandelstam, escritora e educadora russa, em decorr\u00eancia de sua luta para resgatar a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de seu marido Osip Mandelstam, assassinado nos campos de trabalhos for\u00e7ados da Sib\u00e9ria, em 1938, e para testemunhar e denunciar as viol\u00eancias de seu tempo, tornou-se um manifesto contra o ocultamento das injusti\u00e7as e dos atos de terror. Eu decidi, ela afirmou, que \u00e9 melhor gritar. O sil\u00eancio \u00e9 o verdadeiro crime contra a humanidade!<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0 Galeano, <em>De pernas para o ar: a escola do mundo ao avesso, <\/em>L&amp;PM, 2011, p. 187.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Colheita de testemunhos da faculdade Sedes realiza outra volta na permanente constru\u00e7\u00e3o de nossa mem\u00f3ria. Por Maria Laurinda Ribeiro de Sousa.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[166,188],"edicao":[249],"autor":[189],"class_list":["post-3041","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-mundo-hoje","tag-democracia","tag-noticias-do-sedes","edicao-boletim-70","autor-maria-laurinda-ribeiro-de-sousa","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3041","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3041"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3041\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3048,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3041\/revisions\/3048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3041"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3041"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3041"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3041"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}