{"id":3049,"date":"2024-04-16T15:25:25","date_gmt":"2024-04-16T18:25:25","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3049"},"modified":"2024-04-19T10:03:13","modified_gmt":"2024-04-19T13:03:13","slug":"a-ilusao-do-corpo-negro-e-o-desejo-da-cor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/04\/16\/a-ilusao-do-corpo-negro-e-o-desejo-da-cor\/","title":{"rendered":"A ilus\u00e3o do corpo negro e o desejo da cor"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>A ilus<\/strong><strong>\u00e3<\/strong><strong>o do corpo negro e o desejo da cor<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0por Fl<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>via Muniz Roque<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Come\u00e7o este trabalho narrando um curioso epis\u00f3dio da minha inf\u00e2ncia, que de tempos em tempos era relembrado por mim e pela minha m\u00e3e em conversas com familiares e amigos, como habitualmente algumas hist\u00f3rias s\u00e3o. Depois de muito pensar em como introduzir o tema deste trabalho e as reflex\u00f5es sobre a pesquisa que fiz, decidi que a melhor maneira seria atrav\u00e9s do pr\u00f3prio relato dessa hist\u00f3ria, j\u00e1 que ela foi disparadora da quest\u00e3o que me levou \u00e0 produ\u00e7\u00e3o deste texto.<\/p>\n<p><em>Por volta dos meus 5 anos de idade, meus pais decidiram mudar de casa. Sa<\/em><em>\u00ed<\/em><em>mos do pequeno apartamento em que mor<\/em><em>\u00e1<\/em><em>vamos at<\/em><em>\u00e9 ent\u00e3<\/em><em>o para um sobrado. Era um momento financeiramente est<\/em><em>\u00e1<\/em><em>vel para a minha fam<\/em><em>\u00ed<\/em><em>lia, que possibilitou a mudan<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a. Recordo-me como fiquei deslumbrada com o espa<\/em><em>\u00e7<\/em><em>o dispon<\/em><em>\u00ed<\/em><em>vel para correr e brincar, comparado ao espa<\/em><em>\u00e7<\/em><em>o que me era refer<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia. A casa nova parecia ser bem maior e mais bonita. A cozinha, em particular, foi o c<\/em><em>\u00f4<\/em><em>modo que mais me marcou. Al<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m de ser espa<\/em><em>\u00e7<\/em><em>osa, ter p<\/em><em>\u00e9 <\/em><em>direito alto, paredes e arm<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rios brancos para todos os lados, era bem diferente da pequena cozinha-corredor com azulejos bege e marrom, t<\/em><em>\u00ed<\/em><em>picos dos anos 90 do apartamento anterior. E a raz<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o da cozinha ganhar este lugar de destaque na minha mem<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria tem a ver com um acontecimento que, na <\/em><em>\u00e9<\/em><em>poca, muito me intrigou. A protagonista desse acontecimento <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>uma geladeira que <\/em><em>\u201c<\/em><em>magicamente<\/em><em>\u201d <\/em><em>mudou de cor <\/em><em>\u2013 bom, \u201c<\/em><em>magicamente<\/em><em>\u201d <\/em><em>para a capacidade de compreens<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o de uma crian<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a de 5 anos. O fato <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>que a geladeira que sempre foi marrom, dias depois, apareceu branca na nova cozinha. Minha m<\/em><em>\u00e3<\/em><em>e havia mandado pintar a antiga geladeira de branco, para que, segundo ela, combinasse com a cozinha nova. A mudan<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a de cor da geladeira virou um enigma para mim. Eu queria entender como ela mudou de cor e se o mesmo poderia ser feito comigo. Ent<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o perguntei <\/em><em>\u00e0 <\/em><em>minha m<\/em><em>\u00e3<\/em><em>e o que tinha acontecido com a geladeira e fiz um pedido: se ela poderia pedir ao <\/em><em>\u201c<\/em><em>papai do c<\/em><em>\u00e9u\u201d <\/em><em>para que ele me levasse no mesmo lugar que ela levou a geladeira, porque eu, assim como a geladeira, tamb<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m queria deixar de ser marrom e virar branca. O pedido pegou minha m<\/em><em>\u00e3<\/em><em>e de surpresa, ela me explicou que n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o tinha como o <\/em><em>\u201c<\/em><em>papai do c<\/em><em>\u00e9<\/em><em>u<\/em><em>\u201d <\/em><em>trocar a nossa cor, que assim como eu era marrom, meu pai e ela tamb<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m eram e isso n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o mudaria. Ela finalizou dizendo: <\/em><em>\u201c<\/em><em>A gente vai sempre ser assim e vamos ter que lidar com isso<\/em><em>\u201d<\/em><em>.<\/em><\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria ilustra, em um pedido de uma crian\u00e7a negra para sua m\u00e3e negra, uma das consequ\u00eancias mais perversas e destrutivas do racismo, resultante das marcas ps\u00edquicas impostas pela realidade sociocultural racista <em>estruturante<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> em que ainda vivemos. Creio que ver a geladeira branquear me deu um fio de esperan\u00e7a, a de que eu pudesse realizar o meu desejo, o desejo de ser branca. Posteriormente, pude entender que tal desejo n\u00e3o diz do corpo branco em si, diz da <em>brancura<\/em>.<\/p>\n<p>No texto &#8220;Da cor ao corpo: a viol\u00eancia do racismo<em>&#8221; <\/em>Jurandir Freire Costa descreve a brancura como um modelo de identifica\u00e7\u00e3o normativo-estruturante, que \u00e9 o fetiche do branco. Segundo o autor, este fetichismo se apoia na ideologia racial do \u201csujeito universal e essencial\u201d:<\/p>\n<p>&#8220;O belo, o bom, o justo e o verdadeiro s\u00e3o brancos. O branco \u00e9, foi e continua sendo a manifesta\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, da Ideia, da Raz\u00e3o. O branco e a brancura s\u00e3o os \u00fanicos art\u00edfices e leg\u00edtimos herdeiros do progresso e desenvolvimento do homem. Eles s\u00e3o a cultura, a civiliza\u00e7\u00e3o; em uma palavra, a &#8216;humanidade&#8217;\u201d. (p. 28)<\/p>\n<p>Entende-se a <em>brancura<\/em> como ideal, refer\u00eancia da moralidade, pureza, capacidade intelectual, perfei\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, detentora da excel\u00eancia, representante sublime da ess\u00eancia do ser humano \u201c&#8230; a brancura transcende o branco.\u201d (p. 28) E costuma ser vivenciada como um pr\u00e9-dado, como se estivesse no cerne do que antecede a exist\u00eancia do homem. Ser branco \u00e9 ser o neutro da humanidade, e n\u00e3o ser branco \u00e9 ser o outro do neutro.<\/p>\n<p>Particularmente para o sujeito negro, a brancura \u201cse apresenta simetricamente inversa ao mito negro.\u201d (p. 27) Para compreender o mito negro, vale salientar a significa\u00e7\u00e3o social do corpo negro na nossa cultura, que \u00e9 herdeira de uma sociedade escravista, que tornou africanos em escravos, e consequentemente, em mercadoria e propriedade; instituiu a categoria negro como <em>ra<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e delimitou o seu lugar diante da classe dominante numa posi\u00e7\u00e3o social inferior. (Ianni <em>apud <\/em>Souza, p. 48) A inferioridade social est\u00e1 diretamente associada \u00e0 cor negra e ao corpo do negro.<\/p>\n<p>No livro <em>A cor do inconsciente<\/em>, Isildinha Baptista Nogueira traz reflex\u00f5es sobre a trama de significa\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas ao corpo negro. Para a autora, \u00e9 conferido ao corpo negro \u201ca signific\u00e2ncia daquilo que \u00e9 o indesej\u00e1vel, inaceit\u00e1vel, por contraste com o corpo branco, par\u00e2metro de autorrepresenta\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos\u201d (p. 66); tais atribui\u00e7\u00f5es inscreveriam os negros no que ela chama de paradigma de inferioridade em rela\u00e7\u00e3o aos brancos. Este paradigma \u00e9 muito bem representado pela contraposi\u00e7\u00e3o da brancura e do mito negro.<\/p>\n<p>O mito negro deve ser entendido como um discurso, mas n\u00e3o qualquer discurso. \u00c9 intencionado e dissimulado, respons\u00e1vel por produzir e perpetuar uma ilus\u00e3o que se imp\u00f5e \u00e0 realidade, visando deturp\u00e1-la. Neusa Santos Souza, na sua obra <em>Tornar-se negro<\/em>, explica o mito como um efeito social que seria resultante da converg\u00eancia de determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas e ps\u00edquicas. \u00c9 uma fala carregada de representa\u00e7\u00f5es, que escamoteia uma l\u00f3gica de domina\u00e7\u00e3o por v\u00e1rias frentes, qual a ideologia do racismo encontra sua forma de express\u00e3o.<\/p>\n<p>O mito se alicer\u00e7a na imposi\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, ou seja, apostando na quebra da identifica\u00e7\u00e3o. Quando ou\u00e7o: \u201cvoc\u00ea tem uma beleza negra diferente\u201d, diferente a partir de que refer\u00eancia? Da est\u00e9tica do branco, detentor exclusivo do lugar de refer\u00eancia. A associa\u00e7\u00e3o ao \u201cprimitivismo\u201d, como se os negros fossem despossu\u00eddos de civilidade e humanidade. N\u00e3o raro, a sexualidade e a agressividade s\u00e3o consideradas exacerbadas, ou sem controle, nos negros.<\/p>\n<p>A espontaneidade do negro lhe \u00e9 constantemente negada, como se n\u00e3o houvesse o direito de expressar-se como \u00e9 de fato. Recordo-me de uma analisanda negra que ouvia de sua professora que \u201cprecisava ser mais contida, n\u00e3o podia ser muito expansiva e simp\u00e1tica\u201d. A percep\u00e7\u00e3o do negro estar \u201cfora de lugar\u201d, como se certos ambientes, certas profiss\u00f5es, certos espa\u00e7os sociais n\u00e3o coubessem aos negros, e a sua presen\u00e7a \u00e9 notada com estranheza. Em uma ocasi\u00e3o, ouvi um familiar negro, que ocupava um alto cargo executivo, dizer nunca usar gravata preta com terno escuro no trabalho, sen\u00e3o era confundido com manobrista ou seguran\u00e7a nas depend\u00eancias da empresa.<\/p>\n<p>Considerar o negro como feio por ter: \u201cbei\u00e7o grosso\u201d, \u201cnariz largo e chato\u201d e \u201ccabelo ruim\u201d, s\u00f3 o ver como belo se tiver fei\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0 est\u00e9tica branca. O sujo e fedido relacionados ao corpo negro, como nas express\u00f5es: \u201cnegro tem cheiro forte\u201d ou \u201climpar o sangue\u201d para se referir ao embranquecimento da fam\u00edlia negra. E o \u201cburro de carga\u201d, a ideia de que o negro possuiria uma resist\u00eancia f\u00edsica equipar\u00e1vel \u00e0 de um animal e, portanto, serviria para servi\u00e7os bra\u00e7ais, mas n\u00e3o para trabalhos que requerem racionalidade e refinamento.<\/p>\n<p>Percebe-se que \u201co mito negro constr\u00f3i-se \u00e0s expensas de uma desvaloriza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos atributos f\u00edsicos do sujeito negro\u201d (Costa, p. 29), se ancora na deprecia\u00e7\u00e3o do corpo negro, levando o sujeito negro a desprezar drasticamente \u00e0 si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Depois da substitui\u00e7\u00e3o da sociedade escravocrata pela capitalista e da dissolu\u00e7\u00e3o da antiga ordem social e econ\u00f4mica, houve um novo rearranjo social, viabilizado pela normaliza\u00e7\u00e3o do mito negro. O mito assume o papel de dispositivo garantidor da delimita\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de participa\u00e7\u00e3o social do negro na sociedade, dentro dos mesmos estreitos limites da ordem social escravocrata. Souza explica que, nas sociedades de classes <em>multirraciais <\/em>e racistas como o Brasil, a <em>ra<\/em><em>\u00e7<\/em><em>a<\/em> cumpre fun\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, tanto valorativas quanto estratificadoras, e, por conseguinte, acaba por ser a categoria \u00e9tnico-racial que possibilita a distribui\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos em diferentes posi\u00e7\u00f5es na estrutura de classes sociais. (p. 48)<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, o racismo encontrou na marginaliza\u00e7\u00e3o de grupos \u00e9tnico-raciais o seu lugar. E o negro liberto, na pr\u00e1tica, n\u00e3o foi tratado como um cidad\u00e3o digno, respeitado e integrado \u00e0 sociedade, este status se restringia aos brancos. Uma longa trajet\u00f3ria teve de ser percorrida, com muita luta dos movimentos sociais para que cada direito civil e pol\u00edtico fosse conquistado aos negros. E apesar dos avan\u00e7os da luta contra \u00e0 desigualdade \u00e9tnico-racial no Brasil, a popula\u00e7\u00e3o negra ainda \u00e9 marcada pelo acesso restrito a uma s\u00e9rie de direitos.<\/p>\n<p>\u00c0 vista disso, para o negro ser bem tratado e ser reconhecido como pessoa \u00edntegra, respeitado como cidad\u00e3o, integrado \u00e0 sociedade, tem de ser tratado e reconhecido como branco, conforme Souza esclarece na seguinte cita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;Foi com a disposi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de ser gente que o negro organizou-se para a ascens\u00e3o, o que equivale a dizer: foi com a principal determina\u00e7\u00e3o de assemelhar-se ao branco \u2013 ainda que tendo que deixar de ser negro \u2013 que o negro buscou, via ascens\u00e3o social, tornar-se gente.\u201d (p. 50)<\/p>\n<p>O sujeito negro brasileiro suprime a sua identidade negra, e assimila a via do embranquecimento como a \u00fanica possibilidade de constituir-se gente.<\/p>\n<p>Costa afirma que \u201cser negro \u00e9 ser violentado de forma constante e cont\u00ednua e cruel, sem pausa ou repouso, por uma dupla injun\u00e7\u00e3o: a de encarnar o corpo e os ideais de eu do sujeito branco e a recusar, negar e anular a presen\u00e7a do corpo negro\u201d. A viol\u00eancia do racismo \u00e9 tamanha, que o negro, ao se dar conta da sua identidade negra destru\u00edda e impossibilitada de existir, encontra na internaliza\u00e7\u00e3o de um ideal de eu branco a \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel. No intuito de entender melhor essa injun\u00e7\u00e3o proposta pelo autor, recorro ao processo pelo qual o funcionamento do ideal do eu se d\u00e1 para o sujeito.<\/p>\n<p>Para a psican\u00e1lise, todo sujeito se constitui a partir de um modelo. E este modelo carrega um ideal de perfei\u00e7\u00e3o, herdeiro de um momento arcaico em que o Eu bastava a si mesmo. Tal modelo \u00e9 resultante do deslocamento do narcisismo para o eu ideal, fase onipotente e regida pelo imagin\u00e1rio \u2013 que se perdeu ap\u00f3s a castra\u00e7\u00e3o, mas tenta se restabelecer por interm\u00e9dio das identifica\u00e7\u00f5es com os pais, seus substitutos e os ideais coletivos e culturais. (Laplanche,\u00a0 p. 222)<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 o processo que viabiliza a constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, que \u201cse empenha em configurar o pr\u00f3prio Eu \u00e0 semelhan\u00e7a daquele tomado por modelo\u201d (Freud, 1921, p. 62). O modelo que estou falando \u00e9 o ideal de eu.<\/p>\n<p>No texto <em>O Eu e o Id, <\/em>Freud descreve o ideal de eu como uma inst\u00e2ncia diferenciada do Eu, que desempenha o importante papel de mediar o sujeito ps\u00edquico e os ideais culturais, vinculando o sujeito \u00e0 lei e \u00e0 ordem. O ideal de eu adentra no campo do simb\u00f3lico. E o supereu<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, heran\u00e7a do complexo de \u00c9dipo, imp\u00f5e ao Eu a exig\u00eancia de se aproximar deste modelo ideal.<\/p>\n<p>Abro aqui um par\u00eantese para esclarecer que todos n\u00f3s, brancos e n\u00e3o brancos, temos a brancura como modelo ideal. Entretanto, o sujeito negro tem seu corpo como obst\u00e1culo, tornando, consequentemente, imposs\u00edvel a concilia\u00e7\u00e3o entre o Eu e o ideal de eu branco. A constante tens\u00e3o entre estas inst\u00e2ncias n\u00e3o \u00e9 exclusiva do sujeito negro, est\u00e1 posta para o sujeito neur\u00f3tico, contudo, como Souza argumenta, as incessantes exig\u00eancias de alcan\u00e7ar um ideal que \u00e9 humanamente irrealiz\u00e1vel para o negro, faz sua insatisfa\u00e7\u00e3o atingir elevados graus de intensidade. (p. 70)<\/p>\n<p>&#8220;Este, atrav\u00e9s da internaliza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria e brutal de um ideal de eu branco, \u00e9 obrigado a formular para si um projeto identificat\u00f3rio incompat\u00edvel com as propriedades biol\u00f3gicas do seu corpo. Entre o Eu e seu ideal cria-se, ent\u00e3o, um fosso que o sujeito negro tenta transpor \u00e0s custas de sua possibilidade de felicidade, quando n\u00e3o de seu equil\u00edbrio ps\u00edquico&#8221;. (Costa, p. 25)<\/p>\n<p>Entendo que, aqui, n\u00e3o se trata de circunst\u00e2ncias t\u00edpicas dos conflitos ps\u00edquicos, estamos falando de um conflito singular \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de negro, como consequ\u00eancia da viv\u00eancia do sujeito negro em uma sociedade sistematizada por uma ideologia que lhe obriga a brancura como ideal a ser atingido.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da identidade do sujeito, processo que se inicia nos prim\u00f3rdios do desenvolvimento ps\u00edquico, l\u00e1 no narcisismo prim\u00e1rio, se organiza sob uma dupla perspectiva, como Costa destaca: \u201cA perspectiva do olhar e do desejo do agente que ocupa a fun\u00e7\u00e3o materna e a perspectiva da imagem corporal produzida pelo imaturo aparelho perceptivo da crian\u00e7a\u201d (p. 26)<\/p>\n<p>Recorro a Lacan, no texto &#8220;O est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do Eu&#8221; (1966), para fundamentar o que nos importa aqui sobre o narcisismo prim\u00e1rio. O autor o descreve como a fun\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que cobrir\u00e1 ou encapar\u00e1 o corpo do beb\u00ea, ainda fragmentado e insuficiente fisicamente na sua motricidade, na sua compet\u00eancia e at\u00e9 na sua sustenta\u00e7\u00e3o, mas que se constitui pelo desejo antecipat\u00f3rio do outro, atrav\u00e9s do j\u00fabilo do outro. Uma imagem \u00e9 assumida pelo beb\u00ea por meio do olhar do outro primordial que o sup\u00f5e como sujeito.<\/p>\n<p>O est\u00e1dio do espelho descrito acima caracteriza uma aliena\u00e7\u00e3o, estabelecida atrav\u00e9s da imagem oferecida pelo outro primordial na qual o beb\u00ea se reconhece. Esta fase \u00e9 fundante do psiquismo e no futuro, deve ocorrer o reconhecimento de um outro nesta imagem, abrindo espa\u00e7o para a alteridade. Isso ser\u00e1 poss\u00edvel a partir do momento em que a crian\u00e7a come\u00e7a a ser introduzida ao mundo da linguagem e da cultura, e passa a sofrer influ\u00eancia de um outro al\u00e9m do primordial ,encarnado na fun\u00e7\u00e3o paterna, seja o pai ou qualquer outro familiar e seus substitutos.<\/p>\n<p>Por meio destas experi\u00eancias e destas rela\u00e7\u00f5es, o sujeito se depara com o que lhe \u00e9 permitido ser ou n\u00e3o ser, para assegurar sua exist\u00eancia e a exist\u00eancia do seu grupo em dado corpo social, pela media\u00e7\u00e3o das \u201cidentifica\u00e7\u00f5es normativo-estruturantes\u201d. (Costa, p. 26) Funcionalmente, o ideal do eu auxiliaria na constru\u00e7\u00e3o de uma identidade do sujeito compat\u00edvel com o investimento er\u00f3tico do seu corpo e de seu pensamento, possibilitando rela\u00e7\u00f5es harmoniosas com o social. S\u00f3 que, para o sujeito negro, geralmente essa possibilidade lhe \u00e9 tolhida.<\/p>\n<p>Se a identidade do sujeito depende da imagem corporal eroticamente investida, em outras palavras, depende da rela\u00e7\u00e3o com o corpo, come\u00e7a a fazer sentido \u201ca rela\u00e7\u00e3o persecut\u00f3ria entre o sujeito negro e o seu corpo\u201d apresentada por Costa como efeito do racismo. O sujeito negro, tomado pelo ideal do embranquecimento, acaba por repudiar seu pr\u00f3prio corpo e ter vergonha de si, por estar condicionado a olhar para sua pr\u00f3pria imagem pelo prisma da inferioridade.<\/p>\n<p>Nogueira questiona se o fen\u00f4meno que o racismo inflige ao sujeito negro, qualificado por Jurandir Freire Costa como dupla injun\u00e7\u00e3o, n\u00e3o seria, na verdade, uma sobreposi\u00e7\u00e3o. A autora argumenta que a experi\u00eancia da discrimina\u00e7\u00e3o racial se sobreporia a um real de recusa do corpo negro, referente a uma lembran\u00e7a arcaica de um encontro anterior, que precede o encontro com a dimens\u00e3o social mais ampla qual o racismo se manifesta. Este seria o encontro do beb\u00ea com o desejo inconsciente do outro primordial.<\/p>\n<p>De certo, o beb\u00ea negro \u00e9 desejado pela sua m\u00e3e, tanto quanto o beb\u00ea branco \u00e9 desejado. Todavia, n\u00e3o podemos desconsiderar o desejo inconsciente da m\u00e3e, e a proje\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que a m\u00e3e faz da crian\u00e7a, por vezes muito antes dela ser concebida, sobretudo quando se sabe da import\u00e2ncia do desejo antecipat\u00f3rio do outro primordial na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito.<\/p>\n<p>Para Nogueira, seguramente, o desejo da m\u00e3e e a crian\u00e7a do projeto n\u00e3o est\u00e3o representados no pequeno corpo negro. A autora afirma que \u201ca m\u00e3e negra deseja o beb\u00ea branco, como deseja, para si, a brancura.\u201d (p. 121) S\u00f3 que a brancura n\u00e3o est\u00e1 nem para a m\u00e3e negra e nem para o seu beb\u00ea negro, e a nega\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de negro j\u00e1 estaria presente no espelho que o outro primordial oferece ao sujeito negro para que ele se constitua.<\/p>\n<p>Essa proposi\u00e7\u00e3o me fez pensar no desejo de brancura da m\u00e3e, que se articula pelo que falta nela, a \u201cfalta\u201d expressa no desejo de ser <em>branca<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Para a psican\u00e1lise, o sujeito \u00e9 marcado pela falta, pela incompletude. A falta \u00e9 constitutiva do psiquismo, inaugura o sujeito desejante que almeja encontrar no objeto representante daquilo que falta, a completude.<\/p>\n<p>Partindo deste racioc\u00ednio, pensando na condi\u00e7\u00e3o de negro como falta \u2013 falta da brancura, passei a desconfiar de uma poss\u00edvel correspond\u00eancia com a castra\u00e7\u00e3o, at\u00e9 arrisquei cogitar a ideia de uma dupla castra\u00e7\u00e3o para o sujeito negro. Isto \u00e9, uma castra\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da fantasia de castra\u00e7\u00e3o posta pelo enigma da diferen\u00e7a anat\u00f4mica entre os sexos, s\u00f3 que neste caso, seria posta pela diferen\u00e7a de cor de pele. Dado que a condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia do negro se delineia a partir da no\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ser branco, e que \u201cser branco, e tudo quanto possa representar esta condi\u00e7\u00e3o, \u00e9, portanto, o objeto do desejo: aquilo que falta.\u201d (Nogueira, p. 148).<\/p>\n<p>Recordando que para Freud (1923) a castra\u00e7\u00e3o seria uma concep\u00e7\u00e3o da ordem f\u00e1lica, e n\u00e3o do corpo anat\u00f4mico, porque, uma vez constatada a falta do p\u00eanis, a crian\u00e7a \u00e9 levada a imaginar a sua aus\u00eancia como castra\u00e7\u00e3o, para ent\u00e3o, posteriormente a crian\u00e7a se defrontar com a tarefa de \u201cchegar a um acordo com a castra\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a si pr\u00f3pria.\u201d (p. 173) Isso significa que, na castra\u00e7\u00e3o, estamos diante de uma falta simb\u00f3lica de um objeto que \u00e9 do campo do imagin\u00e1rio. A falta na castra\u00e7\u00e3o \u00e9 do falo, que representaria a completude e poder, por\u00e9m, sublinha-se que ningu\u00e9m \u00e9 detentor do falo, j\u00e1 que trata-se de um objeto imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nogueira argumenta que a condi\u00e7\u00e3o de negro como falta se daria pela ordem da priva\u00e7\u00e3o e n\u00e3o da castra\u00e7\u00e3o. A autora se apoia na distin\u00e7\u00e3o que Lacan prop\u00f5e da no\u00e7\u00e3o de falta, sob tr\u00eas formas espec\u00edficas: a castra\u00e7\u00e3o, a frustra\u00e7\u00e3o e a priva\u00e7\u00e3o. As tr\u00eas se diferenciam quanto \u00e0 natureza da falta e ao car\u00e1ter do objeto. (Dor, p. 83 <em>apud<\/em> Nogueira, p. 145).<\/p>\n<p>Pois bem, para o negro, que j\u00e1 tem de lidar com a falta como qualquer outro sujeito, tem um acr\u00e9scimo: a viv\u00eancia da sua condi\u00e7\u00e3o de negro como falta. Nogueira explicita que ser branco \u00e9 ter a condi\u00e7\u00e3o que viabiliza a possibilidade de ser visto e ser reconhecido como igual, e, por consequ\u00eancia, \u00e9 ter a promessa de n\u00e3o ser rejeitado pelo olhar do outro. S\u00f3 que ser branco \u00e9 uma caracter\u00edstica do corpo, \u00e9 representado pela cor da pele. Estamos falando de um objeto real, concreto, palp\u00e1vel.<\/p>\n<p>A pele branca, assim como a pele negra, \u00e9 um significante, representam valores e significados atribu\u00eddos a eles. O objeto que falta, para o negro, \u00e9 um objeto simb\u00f3lico, a brancura, mas a sua falta \u00e9 real porque se inscreve como algo que falta no pr\u00f3prio corpo. Por isso, Nogueira sup\u00f5e que a brancura \u00e9 um objeto buscado pelos negros em seu processo de priva\u00e7\u00e3o, o objeto \u00e9 simb\u00f3lico, n\u00e3o \u00e9 imagin\u00e1rio. (p. 149) Em suma, n\u00e3o se trata de uma experi\u00eancia an\u00e1loga \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, mas sim de uma experi\u00eancia de priva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o sujeito negro se depara com o limite imposto pelo seu pr\u00f3prio corpo de alcan\u00e7ar a brancura, a sa\u00edda mais comum seria a tentativa de embranquecimento deste corpo. O pedido relatado no epis\u00f3dio da minha inf\u00e2ncia exemplifica bem essa sa\u00edda que busca atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o da cor da pele alcan\u00e7ar a brancura desejada.<\/p>\n<p>&#8220;Imaginariamente o negro se v\u00ea e deseja ser o branco que jamais ser\u00e1, pois, onde essa brancura poderia se fazer visualizar, est\u00e1 a cor negra, uma pele negra, marcada por tudo que ela representa, um significante que recorta e inscreve (&#8230;) ser negro \u00e9 a n\u00e3o condi\u00e7\u00e3o de toda ordem, um real marcado pela falta do objeto simb\u00f3lico&#8221;. (Nogueira, p. 150)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CONSIDERA<\/strong><strong>\u00c7\u00d5<\/strong><strong>ES FINAIS<\/strong><\/p>\n<p>Depois de realizar esta pesquisa, n\u00e3o consegui olhar para o trecho da minha hist\u00f3ria e para mim mesma, do mesmo jeito. Abordar a quest\u00e3o do desejo da brancura para entender a condi\u00e7\u00e3o ps\u00edquica do sujeito negro submetido \u00e0 viol\u00eancia do racismo, e ter a oportunidade, como mulher negra e psicanalista em forma\u00e7\u00e3o, de me apropriar deste conhecimento atrav\u00e9s da minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria foi uma jornada inquietante e transformadora. Os impactos que competem \u00e0 minha singularidade reservarei ao div\u00e3, mas tudo aquilo que me parecia relevante como psicanalista em forma\u00e7\u00e3o, expus no texto e concluo a seguir:<\/p>\n<p>Primeiramente, esta pesquisa mostra que h\u00e1 uma importante consequ\u00eancia do racismo que merece nossa aten\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m de todas as outras. A luta contra o racismo n\u00e3o pode deixar de abranger a dimens\u00e3o ps\u00edquica e cabe a n\u00f3s, psicanalistas, estarmos atentos e afinar a escuta anal\u00edtica para conseguir sustentar a an\u00e1lise do sujeito negro que \u201csofre o seu pr\u00f3prio corpo\u201d (Nogueira, p. 68). E por mais que reconhe\u00e7amos os diversos avan\u00e7os contra a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial, que s\u00e3o de grande m\u00e9rito, n\u00e3o podemos subestimar as inscri\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas que o racismo estrutural inflige ao sujeito negro e suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Na cena da minha inf\u00e2ncia, o desfrute da estabilidade econ\u00f4mica da minha fam\u00edlia e a mudan\u00e7a de casa declarava uma contradi\u00e7\u00e3o diante da norma estabelecida pelo paradoxo do mito do negro e o da brancura. O corpo negro, marcado historicamente pela inferioridade, \u00e9 estranho \u00e0 ascens\u00e3o social e o sujeito negro dificilmente se v\u00ea pertencente e merecedor de certas conquistas. Entendo que o meu desejo de branquear expressava naquele momento mais que uma tentativa de alcan\u00e7ar um ideal, expressava tamb\u00e9m o desejo de ter um corpo \u201ccondizente\u201d com aquela nova realidade.<\/p>\n<p>A surpresa da minha m\u00e3e diante do meu pedido, e sua resposta a ele, exp\u00f5e de forma muito clara o que foi elaborado ao longo do texto. Minha m\u00e3e n\u00e3o s\u00f3 se viu impossibilitada de realizar o desejo de sua filha, mas se deparou com aquilo que ela n\u00e3o conseguiu realizar para si pr\u00f3pria. E eu, enquanto crian\u00e7a, j\u00e1 entendia que ela n\u00e3o tinha esse poder, por isso o mediador \u201cpapai do c\u00e9u\u201d aparece no pedido. Em sua resposta, fica entendido que compartilhamos essa falta, o fato \u00e9 que meus pais n\u00e3o tinham a brancura para me dar e n\u00f3s todos ter\u00edamos que lidar com essa falta.<\/p>\n<p>Devo admitir que esta pesquisa ampliou o meu entendimento do que significa ser negra no contexto sociocultural brasileiro. E por mais doloroso que seja reconhecer a condi\u00e7\u00e3o de negra que me foi imposta, fui levada a compreender que \u201clidar com a falta\u201d come\u00e7a com o combate \u00e0 ignor\u00e2ncia acerca do que originou a condi\u00e7\u00e3o de negro como falta para que se criem caminhos para a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade negra, assim como Souza prop\u00f4s.<\/p>\n<p>Estes caminhos n\u00e3o ser\u00e3o poss\u00edveis sem a desmistifica\u00e7\u00e3o do mito negro, sem a constata\u00e7\u00e3o de que o ideal de brancura diz de um universal que n\u00e3o nos abrange, que n\u00e3o nos contempla e precisa ser desmantelado. \u00c9 necess\u00e1rio que, tanto os negros quanto os brancos, reconhe\u00e7am a viol\u00eancia \u00e0 qual o sujeito negro foi, e continua sendo, submetido. Sem a consci\u00eancia e valida\u00e7\u00e3o dos efeitos dessa viol\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para ressignifica\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso sair do desmentido.<\/p>\n<p>Quando as circunst\u00e2ncias favorecem ao sujeito negro conscientizar-se da sua condi\u00e7\u00e3o de negro como resultante de um discurso m\u00edtico, alienante, que visa a desumanizar o seu corpo para assegurar um arranjo social que privilegia um determinado grupo social dominante, \u00e9 poss\u00edvel reconstituir a sua identidade negra at\u00e9 ent\u00e3o impossibilitada de ser e existir, atrav\u00e9s do resgate de suas potencialidades, da reconex\u00e3o com o seu passado e sua ancestralidade, para, assim, o sujeito ressignificar a rela\u00e7\u00e3o com o seu corpo e se reposicionar diante da sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201c<\/em><em>Ser negro <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>tomar consci<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia do processo ideol<\/em><em>\u00f3<\/em><em>gico que, atrav<\/em><em>\u00e9<\/em><em>s de um discurso m<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tico acerca de si, engendra uma estrutura de desconhecimento que o aprisiona numa imagem alienada, na qual se reconhece. Ser negro <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>tomar posse dessa consci<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia e criar uma nova consci<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia que reassegure o respeito <\/em><em>\u00e0<\/em><em>s diferen<\/em><em>\u00e7<\/em><em>as e que reafirme uma dignidade alheia a qualquer n<\/em><em>\u00ed<\/em><em>vel de explora<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o. (&#8230;) Ser negro n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>uma condi<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o dada, a priori. <\/em><em>\u00c9 <\/em><em>um vir a ser. Ser negro <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>tornar-se negro<\/em><em>\u201d<br \/>\n<\/em>(Neusa Santos Souza, p. 115)<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>REFER<\/strong><strong>\u00ca<\/strong><strong>NCIAS BIBLIOGR<\/strong><strong>\u00c1<\/strong><strong>FICAS<\/strong><\/p>\n<p>COSTA, J. F. (1983) Da cor ao corpo: a viol\u00eancia do racismo in Souza, N. S. <em>Tornar-se negro<\/em> <em>ou as vicissitudes da identidade do negro em ascens<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o social.<\/em> 1\u00aa ed. \u2013 Rio de Janeiro: Zahar, 2021.<\/p>\n<p>FREUD, S. (1923) <em>O Eu e o Id<\/em> in Sigmund Freud Obras Completas. Vol. 16, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/p>\n<p>FREUD, S. (1921) <em>Psicologia das Massas e An<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise do Eu <\/em>in Sigmund Freud Obras Completas. Vol. 15, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/p>\n<p>FREUD, S. (1923)<em>\u00a0 A organiza<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o genital infantil <\/em>in Sigmund Freud Obras Completas. Vol. 16, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/p>\n<p>LACAN, J. (1949) <em>O est<\/em><em>\u00e1<\/em><em>gio do espelho como formador da fun<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o do Eu <\/em>in Escritos \u2013 Rio de janeiro, Jorge Zahar, 1998.<\/p>\n<p>LAPLANCHE, J. &amp; PONTALIS, J.-B. (1987) Verbete \u2013 ideal de eu ou ideal de ego in <em>Vocabul<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rio da psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise <\/em>(1982). S\u00e3o Paulo, Martins Fontes, 2001.<\/p>\n<p>NOGUEIRA, I. B. (1998) <em>A cor do Inconsciente: Significa<\/em><em>\u00e7\u00f5<\/em><em>es do corpo negro<\/em>. 1ed. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2021.<\/p>\n<p>SOUZA, N. S. (1983) <em>Tornar-se negro ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascens<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o social.<\/em> 1\u00aa ed. \u2013 Rio de Janeiro: Zahar, 2021.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Artigo originalmente apresentado como monografia do 2o ano do Curso de Psican\u00e1lise no semin\u00e1rio Sexualidade infantil e complexo de \u00c9dipo, coordenado pela professora Soraia Bento em 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista em forma\u00e7\u00e3o, aluna do 3o ano do Curso de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Uso o termo estruturante n\u00e3o s\u00f3 com o intuito de me referir ao estruturante no \u00e2mbito social e pol\u00edtico, mas estruturante tamb\u00e9m do ponto de vista ps\u00edquico.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> O termo ra\u00e7a aqui est\u00e1 empregado como um conceito ideol\u00f3gico, que est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 estrutura de classes sociais.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Na obra freudiana, por vezes, o termo ideal de eu e o termo supereu s\u00e3o tratados como sin\u00f4nimos, outras vezes, s\u00e3o apresentados com clara distin\u00e7\u00e3o um do outro. Na literatura psicanal\u00edtica, a maior parte dos autores n\u00e3o utilizam um pelo outro. Segundo Laplanche, muitos autores marcam a \u00edntima liga\u00e7\u00e3o entre os dois, mas entendem que o ideal de eu diz do ideal e o supereu diz da autoridade e da interdi\u00e7\u00e3o. (p. 223)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> O termo <em>branca<\/em> est\u00e1 como um corpo que carrega em si a brancura representada pela pele branca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3 as vozes pretas podiam, dentro de nossas orelhas frias, dizer segredos de branquitude. 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