{"id":3053,"date":"2024-04-16T15:30:58","date_gmt":"2024-04-16T18:30:58","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3053"},"modified":"2024-04-16T15:31:12","modified_gmt":"2024-04-16T18:31:12","slug":"helio-pellegrino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/04\/16\/helio-pellegrino\/","title":{"rendered":"Helio Pellegrino"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>H<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>lio Pellegrino<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>por Heitor <\/strong><strong>O<\/strong><strong>\u2019<\/strong><strong>Dwyer de Macedo<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No meu consult\u00f3rio, a foto ao lado da de Freud \u00e9 de H\u00e9lio Pellegrino, psicanalista brasileiro. Para mim, o H\u00e9lio est\u00e1, de certa forma, na origem de tudo. De minha rela\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise, certamente, mas sobretudo de minha rela\u00e7\u00e3o comigo mesmo. Ele foi meu pai\u00a0simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Fiquei sabendo da morte do H\u00e9lio no dia do lan\u00e7amento do livro sobre o\u00a0<strong><em>Encontro Latino-Americano de Psican<\/em><\/strong><strong><em>\u00e1lise<\/em><\/strong>,\u00a0que organizei, em parte, em sua homenagem.\u00a0O t\u00edtulo do livro \u00e9 <strong><em>Le psychanalyste sous la terreur<\/em><\/strong>, 1986, Matrice-Rocinante, 364\u00a0pp. (<em>O psicanalista sob o<\/em><em>\u00a0<\/em><em>terror, <\/em>infelizmente<em>\u00a0<\/em>ainda in\u00e9dito no Brasil)<em>.<\/em><\/p>\n<p>Ele tinha morrido na v\u00e9spera. Foi sua esposa quem me telefonou para dar a not\u00edcia. Recebi a liga\u00e7\u00e3o imediatamente antes de sair para a coletiva de imprensa. Eu n\u00e3o conseguia parar de chorar.<\/p>\n<p>O relato de sua morte \u00e9 um desses &#8220;contos fant\u00e1sticos&#8221; da literatura latino-americana, de que ele tanto gostava. N\u00e3o sei quem inventou essa &#8220;denomina\u00e7\u00e3o&#8221;, se foi Cort\u00e1zar ou Carpentier. Para mim, ela condensa as alian\u00e7as dos contrastes excessivos do continente: a mis\u00e9ria com a generosidade absoluta, a dureza da realidade com uma confian\u00e7a a toda prova na vida, a intelig\u00eancia mais fina com a cren\u00e7a mais tola, as tradi\u00e7\u00f5es antigas com a t\u00e9cnica de ponta, a viol\u00eancia mais selvagem com a solidariedade, a ternura e o humor.<\/p>\n<p>H\u00e9lio tinha sido internado em car\u00e1ter de urg\u00eancia por causa de uma s\u00edndrome card\u00edaca de risco. Ele era o homem de todas as intensidades, de todas as lutas, de todas as generosidades, de todas as paix\u00f5es, de todas as intransig\u00eancias, de todas as festas. Mas como ele j\u00e1 tinha tido dois infartos \u2013 provavelmente por causa das tens\u00f5es vividas sob a ditadura militar \u2013, os amigos ficaram preocupados. Contudo, a cl\u00ednica era excelente, o m\u00e9dico, cardiologista de renome, um amigo de H\u00e9lio e ele tinha se internado aos primeiros sinais de risco. Com efeito, tr\u00eas dias depois, H\u00e9lio estava fora de perigo e todo o mundo aliviado. E ent\u00e3o tomaram a decis\u00e3o, v\u00e1 saber por qu\u00ea, de suspender, passada uma semana, a administra\u00e7\u00e3o intravenosa de medicamentos \u2013 decis\u00e3o contr\u00e1ria a todos os protocolos num quadro cl\u00ednico como o dele \u2013 e o H\u00e9lio tem uma parada card\u00edaca e morre. O absurdo, a idiotice da morte. Concordo com um amigo comum que diz que essa estupidez era a de todos n\u00f3s que, por ego\u00edsmo, t\u00ednhamos decidido que o H\u00e9lio jamais morreria, por ser totalmente insubstitu\u00edvel.<\/p>\n<p>Durante v\u00e1rias semanas fiquei profundamente deprimido. At\u00e9 o dia em que me ocorreu a ideia de que uma vida n\u00e3o era suficiente para transmitir tudo o que o H\u00e9lio tinha me dado, para honrar minha d\u00edvida. E esse pensamento me encheu de alegria e me devolveu o desejo. E me deu tanto mais alegria porque poderia ter sido um dos pensamentos dele.<\/p>\n<p>Estava, evidentemente, pensando na minha d\u00edvida pessoal, \u00edntima, para com ele. Mas ela se sobrepunha a outras. Com a de minha gera\u00e7\u00e3o, que foi a primeira gera\u00e7\u00e3o assassinada pela junta militar depois do golpe de Estado que ocorreu no Brasil em 31 de mar\u00e7o de 1964. Com a d\u00edvida de todos os intelectuais e artistas brasileiros da \u00e9poca, para quem o H\u00e9lio, pelo exemplo de sua coragem e de sua integridade, foi um apoio, uma refer\u00eancia. A todos n\u00f3s ele ensinou o m\u00e9todo de combate contra a ditadura com as \u00fanicas armas de que disp\u00fanhamos perante a brutalidade: o pensamento e a indigna\u00e7\u00e3o. Ele confrontava o poder militar com as leis que esse mesmo poder promulgava, propunha-lhe o desafio imposs\u00edvel de fazer coincidir com a verdade o que a propaganda oficial divulgava como sendo sua imagem.<\/p>\n<p>No momento do golpe de Estado, H\u00e9lio j\u00e1 era um pensamento de refer\u00eancia: psicanalista didata admirado por seus pares, poeta, ensa\u00edsta, editorialista em jornais nacionais. Visceralmente democrata, respeitoso de todas as liberdades e de todas as diferen\u00e7as, respeito arraigado numa pr\u00e1tica cl\u00ednica fecunda, ele teria feito sua a exclama\u00e7\u00e3o de Unamuno aos fascistas espanh\u00f3is: \u201cSou absolutamente contra o que voc\u00eas pensam, mas daria a vida para que tenham o direito de diz\u00ea-lo.\u201d<\/p>\n<p>Homem de esquerda e crist\u00e3o, gostava de alguns intelectuais de direita que o tratavam bem. Portanto, embora n\u00e3o fosse um intoc\u00e1vel \u2013 ningu\u00e9m o \u00e9 num regime totalit\u00e1rio \u2013, sua toler\u00e2ncia e sua liberdade de julgamento tinham feito dele algu\u00e9m indispens\u00e1vel. Ou melhor, com sua coragem e sua energia, ele soube utilizar os trunfos de que dispunha. E aconteceu a hist\u00f3ria do torturador.<\/p>\n<p>Num f\u00f3rum de reflex\u00e3o sobre a cl\u00ednica psicanal\u00edtica, organizado por H\u00e9lio e aberto ao p\u00fablico \u2013 o que significa que devia haver agentes da pol\u00edcia pol\u00edtica na plateia \u2013, H\u00e9lio est\u00e1 apresentando as atividades de sua Cl\u00ednica Social de Psican\u00e1lise quando um jovem o interpela: \u201cH\u00e9lio, o que voc\u00ea faria se soubesse que um dos seus colegas psicanalistas \u00e9 o m\u00e9dico de um centro militar de torturas?\u201d H\u00e9lio: \u201cFaria tudo o que estivesse ao meu alcance para que ele fosse punido.\u201d \u201cEnt\u00e3o eu o informo de\u00a0que um de seus colegas\u00a0esteve presente nas minhas sess\u00f5es de tortura, bem como na de meus camaradas.\u201d H\u00e9lio: \u201cVoc\u00ea acaba de fazer publicamente uma den\u00fancia de extrema gravidade.\u201d \u201cE voc\u00ea fez solenemente uma declara\u00e7\u00e3o que me enche de esperan\u00e7a.\u201d H\u00e9lio: \u201cEu a mantenho.\u201d Come\u00e7ava o caso Lobo.<\/p>\n<p>Am\u00edlcar Lobo, aluno psicanalista e torturador, estava em an\u00e1lise com o presidente da Sociedade do Rio de Janeiro, sociedade \u00e0 qual H\u00e9lio pertencia. Homem de direita e bom t\u00e1tico, esse presidente conseguiu que fosse votada a expuls\u00e3o de H\u00e9lio da Sociedade, sob pretexto de que suas declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e seus artigos prejudicavam a imagem do grupo.<\/p>\n<p>A maioria dos membros nada fez. Outros, pr\u00f3ximos de H\u00e9lio, embora permanecessem solid\u00e1rios com a sua batalha pol\u00edtica, tinham reservas quanto ao tom adotado e n\u00e3o estavam muito longe de pensar que antes de divulgar os fatos teria sido melhor tratar da quest\u00e3o no seio da Sociedade, entre psicanalistas. \u00c9 importante lembrar que a discuss\u00e3o dessas sutilezas se dava num contexto em que a den\u00fancia dos crimes do aparelho militar tornava voc\u00ea pass\u00edvel de ser morto. E, de fato, H\u00e9lio recebia amea\u00e7as de morte \u2013 contra ele e contra sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Como ele aguentou? Havia os amigos e os familiares \u2013 e H\u00e9lio tinha muitos amigos corajosos. Isso ajuda, mas n\u00e3o basta. Ent\u00e3o, como se faz para aguentar numa situa\u00e7\u00e3o dessas? A chave est\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o que se mant\u00e9m com a ambi\u00e7\u00e3o. Segundo Hannah Arendt, os alem\u00e3es que se opuseram ao nazismo fizeram-no simplesmente porque n\u00e3o desejavam viver o resto de suas vidas com um assassino no seu mundo interno. Creio que uma verdadeira ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o simples e essencial quanto isso. Atos considerados por vezes como extraordin\u00e1rios s\u00e3o, do ponto de vista de quem os realiza, geralmente uma necessidade subjetiva evidente, sem o que o sujeito j\u00e1 n\u00e3o poderia se amar ou se sentir digno diante dos filhos. Nessas circunst\u00e2ncias, a solid\u00e3o \u00e9 um dado tanto mais inevit\u00e1vel, um bom dado, quanto mais ela lan\u00e7a suas ra\u00edzes na for\u00e7a do que constitui o desejo que nos faz existir. Tamb\u00e9m a quest\u00e3o do risco deve ser considerada em fun\u00e7\u00e3o dessa necessidade subjetiva. Morrer, ficar sem trabalho ou isolado de um grupo de perten\u00e7a \u00e9 para algumas pessoas menos perigoso do que um compromisso que negasse o sentido de um engajamento vital, ou tra\u00edsse a fidelidade a uma comunidade. A experi\u00eancia mostra: quem tenta o compromisso imposs\u00edvel entre um pensamento \u00e9tico e a viol\u00eancia institucional nunca teve realmente um pensamento para defender.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o genial encontrada por H\u00e9lio foi encarregar a justi\u00e7a militar de julgar o caso. Sua argumenta\u00e7\u00e3o era simples: como n\u00e3o o acusavam de nenhuma falta na condu\u00e7\u00e3o de seus tratamentos, como, muito pelo contr\u00e1rio, os considerandos da exclus\u00e3o reafirmavam suas qualidades de cl\u00ednico e de formador, essa decis\u00e3o se fundava em motivos que n\u00e3o eram da compet\u00eancia de uma sociedade de profissionais. J\u00e1 que a lei fora\u00a0convocada,\u00a0j\u00e1 que as autoridades militares respons\u00e1veis estavam investigando a veracidade dos fatos, cuja extrema gravidade, se confirmada, afetaria a honra das for\u00e7as armadas, a sociedade profissional era obrigada a aguardar o resultado das investiga\u00e7\u00f5es, a suspender a decis\u00e3o de exclus\u00e3o e a reintegrar o membro em todas as suas fun\u00e7\u00f5es e em todos os seus direitos. H\u00e9lio obteve ganho de causa. Na \u00e9poca, raros eram aqueles que, apelando \u00e0 justi\u00e7a militar, n\u00e3o teriam se rebaixado para todo o sempre. Era preciso a autoridade moral de H\u00e9lio, mais todo o humor de que ele era sabidamente capaz, para que a decis\u00e3o da justi\u00e7a rebaixasse e cobrisse de rid\u00edculo todos aqueles que tinham tentado exclu\u00ed-lo. As acusa\u00e7\u00f5es contra Am\u00edlcar Lobo revelaram-se procedentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o era a primeira vez que H\u00e9lio se erguia vigorosamente contra o poder militar. Em 1966, houve, no Rio de Janeiro, que ainda era a capital cultural, uma gigantesca manifesta\u00e7\u00e3o que reuniu cem mil pessoas, a primeira no pa\u00eds depois do golpe de Estado.<\/p>\n<p>Esta manifesta\u00e7\u00e3o era um protesto:\u00a0O\u00a0ex\u00e9rcito tinha mandado suas tropas contra os estudantes que ocupavam um restaurante universit\u00e1rio para protestar contra as condi\u00e7\u00f5es de seu funcionamento. Os soldados atiraram e um estudante morreu, ele se chamava Edson.\u00a0A manifesta\u00e7\u00e3o exprimia a revolta contra tal bo\u00e7alidade.\u00a0A\u00a0indigna\u00e7\u00e3o\u00a0era imensa. O medo tamb\u00e9m. Medo de que a repress\u00e3o se tornasse ainda mais selvagem \u2013 o que de fato aconteceu, mas somente dois anos depois.\u00a0Temia-se que policiais civis infiltrados\u00a0na manifesta\u00e7\u00e3o\u00a0a fizessem degenerar em carnificina, que a tens\u00e3o em que todos viv\u00edamos encontrasse uma v\u00e1lvula de escape numa viol\u00eancia delinquente.<\/p>\n<p>Mas tudo transcorreu bem. Uma verdadeira aula de civismo. Em grande parte gra\u00e7as a Wladimir Palmeira, dirigente estudantil, calmo, firme, cheio de humor. Na metade do percurso, momento inesquec\u00edvel, Wladimir Palmeira para a multid\u00e3o: \u201cE agora, meus amigos, calmamente, sem precipita\u00e7\u00e3o, em honra e em mem\u00f3ria de Edson, vamos queimar a bandeira dos Estados Unidos.\u201d E, na calma, a bandeira dos Estados Unidos foi queimada \u2013 os Estados Unidos, cujo governo tinha apoiado o golpe de Estado militar e apoiava o regime, cujos sucessivos governos planejaram a derrubada e o assassinato do presidente Allende, a instala\u00e7\u00e3o do terror no Chile, na Argentina e no Uruguai.<\/p>\n<p>O trajeto da manifesta\u00e7\u00e3o terminava na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, que d\u00e1 para uma esplanada muito vasta. Diante da porta, no alto da escada, um palanque tinha sido instalado num equil\u00edbrio prec\u00e1rio. H\u00e9lio era o primeiro orador. Grande tribuno, encontrou as palavras simples, as palavras justas para falar da crian\u00e7a assassinada, para se dirigir \u00e0 crian\u00e7a assassinada.<\/p>\n<p>Hoje, mais de cinquenta anos depois, o que mais me espanta \u00e9 como, para mim \u2013 assim como para todos os intelectuais da \u00e9poca \u2013, n\u00e3o havia nada de excepcional em que aquele que era unanimemente reconhecido como o grande cl\u00ednico da psican\u00e1lise fosse o principal orador do primeiro ato de resist\u00eancia \u00e0 ditadura. Tamb\u00e9m n\u00e3o havia nada de surpreendente em ler, alguns dias depois, no jornal, um artigo de H\u00e9lio sobre Bergman, ou sobre uma pe\u00e7a de teatro, ou sobre um livro, ou sobre uma exposi\u00e7\u00e3o de pintura. Na \u00e9poca, na cidade latino-americana, n\u00e3o havia diferen\u00e7a entre a psican\u00e1lise, a coragem e a necessidade de pensar, a exig\u00eancia de criatividade m\u00e1xima e o engajamento permanente no mundo. N\u00e3o havia diferen\u00e7a entre a psican\u00e1lise e a vida. O psicanalista n\u00e3o era aquele que sabia tudo sobre tudo; muito pelo contr\u00e1rio, ele era simplesmente um int\u00e9rprete \u2013 como um m\u00fasico, um poeta, um pol\u00edtico, um pintor, um cineasta, um jornalista. N\u00e3o se esperava que sua interpreta\u00e7\u00e3o do mundo fosse mais importante que qualquer outra. Sua interpreta\u00e7\u00e3o era insubstitu\u00edvel, como todas as outras, porque testemunhava uma pr\u00e1tica de pensamento e uma pr\u00e1tica de paix\u00e3o precisas, que reconhece o inconsciente como um fato.<\/p>\n<p>H\u00e9lio foi o int\u00e9rprete psicanalista incans\u00e1vel do mundo em que viveu, do tempo que atravessou, da cidade em que morava. Se muitos artistas e psicanalistas latino-americanos dos anos 1960 foram dignos da defini\u00e7\u00e3o do intelectual sartriano, H\u00e9lio, sem d\u00favida nenhuma, o encarnou de maneira exemplar. Com uma disponibilidade que sempre conservou para mim sua dimens\u00e3o enigm\u00e1tica. Como \u00e9 que ele engendrava o tempo para acolher tantas demandas, solicita\u00e7\u00f5es, como a proposta rocambolesca de trabalho feita por aquele moleque de dezesseis anos que uma noite apareceu na casa dele. Proposta que ele aceitou, \u00e9 verdade, com uma condi\u00e7\u00e3o: \u201cQue voc\u00ea comece uma an\u00e1lise com algu\u00e9m que eu vou indicar para que a sua desmedida se mantenha do lado da vida.\u201d<\/p>\n<p>No seu modo de encontrar a pluralidade das pr\u00e1ticas de pensamento, havia em H\u00e9lio a paix\u00e3o do enamorado, a fulgur\u00e2ncia do poeta psicanalista e a mod\u00e9stia do artes\u00e3o que sabe o tempo que exige a inven\u00e7\u00e3o do detalhe, sem o que nada funciona.<\/p>\n<p>Como int\u00e9rprete da pol\u00edtica, ele inventar\u00e1, com Glauber Rocha\u00a0e seis outros intelectuais importantes do pa\u00eds, uma confer\u00eancia na porta do hotel Gloria, situado no centro do Rio, no exato momento em que se reuniam os ministros da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos \u2013 a OEA. Diante dos jornalistas nacionais e estrangeiros, durante quase uma hora e meia foram denunciados o atentado \u00e0s liberdades fundamentais, a pobreza, a falta de vis\u00e3o de curto e de longo prazo do regime. Evidentemente, eles foram todos presos pela pol\u00edcia pol\u00edtica e transferidos para um quartel durante oito dias, antes de serem libertados. O caso fez muito barulho no pa\u00eds \u2013 ainda havia uma imprensa corajosa \u2013 e teve uma grande repercuss\u00e3o internacional. Mas o mais importante era a li\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia: se um grupo de oito pessoas podia desestabilizar o regime, isso queria dizer que a organiza\u00e7\u00e3o de uma oposi\u00e7\u00e3o ativa n\u00e3o era uma quimera.<\/p>\n<p>A paci\u00eancia do artes\u00e3o, a fulgur\u00e2ncia do poeta e a paix\u00e3o do enamorado se condensaram no projeto da Cl\u00ednica Social de Psican\u00e1lise. Para H\u00e9lio, tratava-se de socializar o conhecimento do inconsciente, de lev\u00e1-lo para a cidade, ou seja, de integrar aquele conhecimento a uma pr\u00e1tica social. Escolheu instal\u00e1-la numa favela,\u00a0onde vivem aqueles que est\u00e3o nas bordas da sociedade e onde predominam a precariedade, a pobreza, a mis\u00e9ria, as viol\u00eancias, mas tamb\u00e9m o samba e grandes esperan\u00e7as. A equipe de analistas era composta de profissionais com boa experi\u00eancia cl\u00ednica. Cada analista trabalhava, se minha mem\u00f3ria n\u00e3o falha, quatro horas por semana. Ningu\u00e9m era pago. No come\u00e7o, a quest\u00e3o era ser aceito, determinar seu lugar\u00a0em rela\u00e7\u00e3o a outros agentes j\u00e1 presentes, como as curandeiras, com quem muito rapidamente se estabeleceu uma coopera\u00e7\u00e3o. Entre os psicanalistas havia alguns m\u00e9dicos e, como a pol\u00edtica de sa\u00fade nos pa\u00edses subdesenvolvidos era inexistente, foi preciso ser m\u00e9dico antes de ser psicanalista. Com o tempo, por\u00e9m, os lugares e as fun\u00e7\u00f5es ficaram bem definidos e reconhec\u00edveis pela popula\u00e7\u00e3o da favela: o lugar da curandeira, o lugar do m\u00e9dico, o lugar do psicanalista. Michel Foucault, que visitou a Cl\u00ednica Social, considerava-a a experi\u00eancia antropol\u00f3gica mais importante do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Quando decidi promover\u00a0a reuni\u00e3o\u00a0em Paris dos psicanalistas que tinham trabalhado durante os regimes de terror no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Chile, eu tinha dois motivos. O primeiro era que aquela reuni\u00e3o fosse uma homenagem a H\u00e9lio Pellegrino. \u00c0 bela pessoa\u00a0que\u00a0ele era, encarna\u00e7\u00e3o do psicanalista cidad\u00e3o, do resistente. E tamb\u00e9m ao criador da Cl\u00ednica Social, pioneira na tentativa de inscrever na cidade o fruto das pesquisas sobre o inconsciente e, assim fazendo, fornecer os meios para ampliar o campo do poss\u00edvel, para tornar o encontro com a realidade mais criativo, para transformar o encontro com o real numa experi\u00eancia humanizadora.<\/p>\n<p>O segundo motivo era inscrever num livro \u2013 a ideia do livro j\u00e1 existia desde o come\u00e7o \u2013 as bricolagens te\u00f3ricas por meio das quais esses psicanalistas puderam realizar seu trabalho, e inscrev\u00ea-las muito r\u00e1pido, antes que fossem recalcadas.<\/p>\n<p>H\u00e9lio ficou entusiasmado com a ideia desse projeto. Eu sonhava grande. Queria que esses psicanalistas fossem recebidos\u00a0em Paris como as pessoas excepcionais que eram. Que a viagem deles fosse paga, evidentemente, e que fossem acolhidos como pr\u00edncipes \u2013 o que foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 intelig\u00eancia da Sra. Dani\u00e8le Mitterrand, Presidente da Funda\u00e7\u00e3o Fran\u00e7a, que entendeu a import\u00e2ncia do evento.<\/p>\n<p>Juntos decidimos que, para cada pa\u00eds, escolher\u00edamos um psicanalista cujo trabalho conhec\u00edamos e que proporia os colegas\u00a0que considerava\u00a0exemplares.<\/p>\n<p>Para a Argentina,\u00a0Diego Garc\u00eda Reinoso e sua esposa, Gilou Garcia Reinoso, era uma obviedade.\u00a0Exilado no M\u00e9xico, voltou a Buenos Aires com a mulher, arriscando a pr\u00f3pria vida, para instalar uma\u00a0\u00a0equipe cl\u00ednica para o apoio terap\u00eautico para as m\u00e3es da Pra\u00e7a de Maio, as chamadas <em>Loucas.<\/em>\u00a0Diego, assim como H\u00e9lio, contribuiu muito para que a psican\u00e1lise se situe no cruzamento entre literatura e pol\u00edtica. Em ambos, a alian\u00e7a entre o pol\u00edtico e o psicanal\u00edtico n\u00e3o se dava a partir de um projeto pol\u00edtico, mas a partir da cl\u00ednica do tratamento. Na perspectiva deles, n\u00e3o se tratava de injetar o pol\u00edtico na pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, mas o sujeito no pensamento sobre o poder.\u00a0Que o\u00a0pol\u00edtico\u00a0reconhe\u00e7a\u00a0o singular poderia ser uma via de acesso, indireta mas eficaz, para que a quest\u00e3o do inconsciente fosse levada em conta na aplica\u00e7\u00e3o dos projetos sociais.<\/p>\n<p>Dois exemplos sobre os efeitos na cidade dessa concep\u00e7\u00e3o das coisas. Na Argentina, durante o terror, quando descobriam que um militante pol\u00edtico detido estava em an\u00e1lise, torturavam o analista para obter outros nomes. Um psicanalista que aceitava atender um militante certamente atendia outros. Em outras palavras, para o poder terrorista, um psicanalista que faz seu trabalho de psicanalista era t\u00e3o perigoso quanto o militante da luta armada.<\/p>\n<p>Segundo exemplo: na chamada manifesta\u00e7\u00e3o \u201cdos cem mil\u201d no Rio, que mencionei acima, um amigo dirigente estudantil falou de forma muito comovente. Ele sempre foi um grande orador, mas, naquele dia, suas palavras eram puro cristal. Ao descer do palanque, estava transtornado. Abracei-o e lhe disse que ele tinha sido magn\u00edfico. Ele me respondeu: \u201cEu sei, acabei de matar meu pai\u201d (que era um militar ligado \u00e0 repress\u00e3o). Do singular ao universal.<\/p>\n<p>A prepara\u00e7\u00e3o do Encontro Latino-Americano de Psican\u00e1lise demandou mais de tr\u00eas anos. Para mim, era uma necessidade absoluta. Eu festejava a ideia de que H\u00e9lio e Diego fossem se encontrar. Esse encontro nunca ocorreu. Dez dias antes do come\u00e7o do Encontro, recebi um telefonema do H\u00e9lio. Fatos graves na sua vida privada o impediam de sair do Rio.<\/p>\n<p>O Encontro Latino-Americano de Psican\u00e1lise foi como todos desejamos: uma festa do pensamento durante uma semana. Pouco tempo depois, Diego morreu. V\u00e1rios infartos seguidos, logo depois do governo Alfons\u00edn ter anistiado os generais assassinos.<\/p>\n<p>H\u00e9lio gostava do t\u00edtulo que dei ao livro que re\u00fane todos os textos apresentados e as discuss\u00f5es:\u00a0<em>O psicanalista sob o terror<\/em>. Concordou que fosse dedicado \u00e0 mem\u00f3ria de Diego.\u00a0\u00cdamos festejar a publica\u00e7\u00e3o com nossas mulheres e nossos amigos, em Paris e no Rio. Fazia vinte e oito anos que eu o amava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NOTA: Este texto foi originalmente publicado na Fran<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>a, no meu livro <\/strong><strong><em>Lettres <\/em><\/strong><strong><em>\u00e0 <\/em><\/strong><strong><em>une jeune<\/em><\/strong><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>psychanalyste<\/em><\/strong><strong>, em 2008, pela Editions STOCK. A<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong>tradu<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o do livro e,<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong>portanto, deste texto, excepcional, foi realizada por<\/strong><strong>\u00a0Cl\u00e1<\/strong><strong>udia<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong>Berliner e publicada pela Editora Perspectiva em 2012. Para a atual<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong>publica\u00e7\u00e3o, revi alguns<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong>detalhes e mudei a<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong>enuncia<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o. <\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista amigo do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, Heitor O\u2019Dwyer de Macedo vive em Paris.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Testemunho de uma pr\u00e1tica de pensamento e de paix\u00e3o que se manteve do lado da vida. Por Heitor O\u2019Dwyer de Macedo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[110],"tags":[92,128],"edicao":[249],"autor":[261],"class_list":["post-3053","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historia-da-psicanalise","tag-historia-da-psicanalise","tag-homenagem","edicao-boletim-70","autor-heitor-odwyer-de-macedo","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3053"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3055,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3053\/revisions\/3055"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3053"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3053"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}