{"id":3153,"date":"2024-06-15T14:45:35","date_gmt":"2024-06-15T17:45:35","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3153"},"modified":"2024-06-18T11:35:48","modified_gmt":"2024-06-18T14:35:48","slug":"o-grupo-como-envelope-psiquico-em-tempos-de-pandemia-e-de-barbarie-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/06\/15\/o-grupo-como-envelope-psiquico-em-tempos-de-pandemia-e-de-barbarie-no-brasil\/","title":{"rendered":"O grupo como envelope ps\u00edquico em tempos de pandemia e de barb\u00e1rie no Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>O grupo como envelope ps\u00edquico em tempos de pandemia e de barb\u00e1rie no Brasil<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Thais<\/strong><strong> R. G. Angelo, <\/strong><strong>Marcia E. Cerdeira, Ana Helena D\u2019\u00c2ngelo Seixas<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Introdu<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Quando trabalhamos com o traum\u00e1tico faz-se necess\u00e1rio lan\u00e7ar m\u00e3o de diversos recursos, dado que estamos diante do que e\u0301 irrepresent\u00e1vel. Comecemos, assim, com uma imagem: a de um naufr\u00e1gio. Em 2020, o Brasil atravessou uma situa\u00e7\u00e3o de profundo desespero que se tornou ainda mais alarmante, pois o capit\u00e3o e os seus tripulantes \u2013 esses que, num momento como aquele, deveriam orientar e auxiliar \u2013 estavam mais desorientados que os passageiros. Frente a esse caos, alguns passageiros decidiram construir uma plataforma que serviria de apoio a muitas pessoas que estavam ali no mar, \u00e0 deriva.<\/p>\n<p>Aqui come\u00e7a o relato sobre alguns n\u00e1ufragos sobreviventes. Em mar\u00e7o de 2020 foi criada uma plataforma na qual psic\u00f3logos de todo o Brasil poderiam se inscrever para realizar atendimentos <em>online<\/em> a profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade que estavam na linha de frente do combate \u00e0 Covid-19. 4.238 psic\u00f3logos se voluntariaram para participar. A esses psic\u00f3logos foi oferecido um servi\u00e7o <em>online<\/em> de suporte a seu trabalho. Esse suporte consistia em supervis\u00e3o individual, supervis\u00e3o grupal, grupo de discuss\u00e3o te\u00f3rica ou grupo de elabora\u00e7\u00e3o para quem desejasse participar.<\/p>\n<p>O que abordaremos neste artigo ser\u00e3o os grupos de elabora\u00e7\u00e3o. Trata-se de um estudo de caso \u00e0 luz do conceito de envelope ps\u00edquico, tal como desenvolvido por Anzieu, Houzel e Ciccone. Foram reunidas cenas de dois grupos, um co-coordenado por Angelo e Seixas, e outro coordenado por Cerdeira. A beleza do trabalho foi ver a constitui\u00e7\u00e3o do envelope ps\u00edquico, como apresentaremos nas pr\u00f3ximas p\u00e1ginas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bases te\u00f3ricas<\/strong><\/p>\n<p>Ciccone (2001) afirma que o envelope ps\u00edquico deve ser compreendido como uma met\u00e1fora da fun\u00e7\u00e3o de contin\u00eancia, consistindo em conter e transformar. Nos apoiaremos nessa vis\u00e3o para abordar a fun\u00e7\u00e3o de envelope ps\u00edquico do dispositivo de nossos grupos de elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Houzel (<em>apud <\/em>Ciccone, 2001) sustenta que o tratamento psicanal\u00edtico opera de forma conjunta ou simult\u00e2nea em tr\u00eas modelos:<\/p>\n<ul>\n<li>o de descarga, que evidencia o valor cat\u00e1rtico da representa\u00e7\u00e3o pela a\u00e7\u00e3o da palavra, ou seja, a descarga da tens\u00e3o por meio da palavra;<\/li>\n<li>o de \u201cdesvelamento\u201d, no qual o psicanalista desvela o conflito inconsciente, o \u201cfantasma\u201d;<\/li>\n<li>o de contin\u00eancia, na qual o analisando vivencia um espa\u00e7o em que suas emo\u00e7\u00f5es e seus pensamentos que seu Eu n\u00e3o consegue conter nem pensar sozinho s\u00e3o acolhidos e contidos. Segundo Ciccone, <em>&#8220;O espa\u00e7o da an\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>\u00e9 um espa\u00e7<\/em><em>o que cont<\/em><em>\u00e9m e transforma as emo\u00e7\u00f5es, as ang\u00fastias, os conflitos. Dito de outra forma, a dor ps\u00edquica. E a dor \u00e9 contida quando ela \u00e9 compreendida.\u201d<\/em> (2001, pp. 82-83, trecho traduzido pelas autoras).<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por meio desses tr\u00eas modelos, Houzel aponta a import\u00e2ncia da fun\u00e7\u00e3o de contin\u00eancia. Para ele, <em>\u201co analista, \u00e0 escuta da transfer\u00eancia de seu paciente e de sua pr\u00f3<\/em><em>pria contratransfer<\/em><em>\u00eancia, percebe o envelope ps\u00edquico como uma estrutura de grande complexidade, que n\u00e3o pode ser reduzida a um saco contendo os elementos do psiquismo.\u201d <\/em>(1987, p.39, trecho traduzido pelas autoras).<\/p>\n<p>O modelo de envelope ps\u00edquico nasce do conceito de <em>eu-pele,<\/em> que tamb\u00e9m \u00e9 pensado como met\u00e1fora. A pele \u00e0 qual Anzieu (1989\/1985) se refere \u00e9 a pele em que habitamos no sentido comumente usado de \u201csentir-se bem ou mal em sua pele&#8221;. Anzieu fala de uma dupla sustenta\u00e7\u00e3o do psiquismo baseada no corpo biol\u00f3gico e no corpo social, mas afirma tamb\u00e9m que a sobreviv\u00eancia destes corpos depende de um apoio no psiquismo individual.<\/p>\n<p>O envelope ps\u00edquico se constitui por meio da <em>ilus\u00e3o grupal<\/em>. Segundo Anzieu, <em>\u201cA ilus\u00e3o grupal \u00e9 a ilus\u00e3o \u2013 necess\u00e1ria a uma certa etapa do processo grupal \u2013 de que o grupo pode se constituir em um objeto total\u201d<\/em> (1998, p. 136, trecho traduzido pelas autoras). Anzieu (1993\/1975) coloca em evid\u00eancia tr\u00eas momentos da evolu\u00e7\u00e3o de um grupo.<\/p>\n<p>Em um primeiro momento, os membros que acabaram de chegar s\u00e3o dominados por uma ang\u00fastia persecut\u00f3ria. De modo reativo, surge um sentimento de euforia por ter sido liberado dessa ang\u00fastia. Trata-se de uma etapa alienante e fundadora do narcisismo grupal.<\/p>\n<p>Em um segundo momento, o estado de ilus\u00e3o grupal permite que o grupo se transforme em um objeto libidinal comum aos participantes e permite que o grupo seja interiorizado por cada um sob o modelo de primeiro objeto de amor do beb\u00ea. Esse estado \u201c<em>(&#8230;) \u00e9 espontaneamente verbalizado pelos membros da seguinte maneira: \u2018Estamos bem juntos, constitu\u00edmos um bom grupo, nosso chefe ou nosso monitor \u00e9 um bom chefe, um bom monitor\u2019\u201d<\/em> (ANZIEU, 1993\/1975, p.65).<\/p>\n<p>O terceiro momento \u00e9 o de desconex\u00e3o dos membros que, para acontecer, \u00e9 necess\u00e1rio que ocorra uma desilus\u00e3o grupal.<\/p>\n<p>Apesar do grupo de elabora\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter o intuito de tratamento psicanal\u00edtico, esse modelo de envelope ps\u00edquico permite-nos pensar na fun\u00e7\u00e3o do dispositivo psicanal\u00edtico grupal na elabora\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica do psic\u00f3logo em tempos de trauma coletivo, isto \u00e9, a fun\u00e7\u00e3o de conter e transformar a dor ps\u00edquica dos pacientes depositada nesses psic\u00f3logos, num contexto em que todos (paciente e psic\u00f3logo) est\u00e3o inseridos num cen\u00e1rio cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, poder-se-ia pensar que, no contexto em que se desenvolveu o presente trabalho, \u00e9 pertinente a seguinte coloca\u00e7\u00e3o de Anzieu\u00a0 (1989\/1985, p. 8):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">assim, uma tarefa urgente, psicol\u00f3gica e socialmente, parece ser a de reconstruir limites, refazer fronteiras, reconhecer territ\u00f3rios habit\u00e1veis e onde se possa viver \u2013 limites, fronteiras que ao mesmo tempo instituam diferen\u00e7as e permitem mudan\u00e7as entre as regi\u00f5es (do psiquismo, do saber, da sociedade, da humanidade) assim delimitadas.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Caracteriza\u00e7\u00e3o dos grupos<\/strong><\/p>\n<p>O objetivo principal do grupo de elabora\u00e7\u00e3o era constituir um espa\u00e7o de reflex\u00e3o sobre a experi\u00eancia cl\u00ednica dos psic\u00f3logos dentro do projeto. N\u00e3o consistia em atendimento psicoterap\u00eautico, nem em supervis\u00e3o. Tratava-se de um espa\u00e7o intermedi\u00e1rio entre o psic\u00f3logo e sua pr\u00e1tica cl\u00ednica. Os encontros eram semanais e duravam uma hora e meia. Participavam psic\u00f3logos de diferentes estados do pa\u00eds, de diferentes vertentes te\u00f3ricas e em diferentes etapas da carreira. No grupo de Seixas e Angelo notou-se que os participantes eram mais jovens e iniciantes na carreira; no grupo de Cerdeira, a maioria tinha anos de atendimento na \u00e1rea.<\/p>\n<p>N\u00f3s, coordenadoras, t\u00ednhamos um percurso pr\u00e9vio no trabalho psicanal\u00edtico de grupo com foco cl\u00ednico. Entretanto, a experi\u00eancia de um grupo com foco na pr\u00e1tica profissional era nova. Enquanto coordenadoras, particip\u00e1vamos de um grupo pr\u00f3prio aos coordenadores, que tinha como intuito criar um espa\u00e7o para discutir a condu\u00e7\u00e3o dos grupos de elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Relato de caso<\/strong><\/p>\n<p><em>Primeiro momento: contexto brasileiro e forma\u00e7\u00e3o dos grupos de elabora\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>O estado de desamparo acompanha o homem desde sua tenra inf\u00e2ncia. A impot\u00eancia original do beb\u00ea frente \u00e0s suas demandas cria a necessidade de sermos amados durante toda a nossa vida. Em &#8220;<em>O futuro de uma ilus\u00e3o<\/em>&#8221; Freud afirma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">(&#8230;) Mas permanece o desamparo do ser humano e, com isso, o anseio pelo pai, e os deuses. Esses conservam sua tr\u00edplice tarefa: afastar os terrores da natureza, conciliar os homens com a crueldade do destino, tal como ela se evidencia na morte, sobretudo, e compens\u00e1-los pelos sofrimentos e priva\u00e7\u00f5es que lhes s\u00e3o impostos pela vida civilizada que partilham (1927\/2014, pp. 249-250).<\/p>\n<p>Em 2020, o contexto vivido pela popula\u00e7\u00e3o brasileira era \u2013 e por muito tempo se manteve \u2013 de precariedade sanit\u00e1ria, bem como econ\u00f4mica e pol\u00edtica. N\u00e3o havia di\u00e1logo entre os governos federal, estadual e municipal sobre as quest\u00f5es fundamentais como a periculosidade do v\u00edrus e o momento de fazer confinamento. Dentro do governo central as medidas eram paradoxalmente divergentes: enquanto o presidente chamava o v\u00edrus de &#8220;gripezinha&#8221;, o ministro da sa\u00fade convocava profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade de todo o Brasil a \u201cse alistarem\u201d na linha de frente de assist\u00eancia, mas sem garantir equipamentos adequados de autoprote\u00e7\u00e3o. Podemos pensar que nossos pais e deuses, ou seja, nossos dirigentes romperam com o pacto, o que dificultou as liga\u00e7\u00f5es entre puls\u00f5es de morte e de vida dentro do tecido social.<\/p>\n<p>Entramos na quarentena com o horror que vinha das not\u00edcias da pandemia no ultramar e com a fantasia de que, dessa pandemia, sair\u00edamos rapidamente. No come\u00e7o, n\u00e3o havia nada definido. E as pessoas n\u00e3o sabiam trabalhar com esses elementos pand\u00eamicos. Al\u00e9m do medo da morte f\u00edsica, notamos nos grupos o medo da morte ps\u00edquica. Ang\u00fastias n\u00e3o faltavam e transpareciam atrav\u00e9s da ideia de que a plataforma receberia uma alt\u00edssima demanda de profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade, que chegariam psiquicamente desorganizados, \u00e0 beira do suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Desde sua constitui\u00e7\u00e3o, os grupos de elabora\u00e7\u00e3o confrontavam-se com diversas demandas, al\u00e9m daquela que propunha seu objetivo principal. Tratava-se de um espa\u00e7o importante para o apaziguamento das ang\u00fastias de morte, das ang\u00fastias persecut\u00f3rias e das ang\u00fastias depressivas, vividas pelos participantes no contexto da pandemia. Por meio desse espa\u00e7o de contin\u00eancia tentamos encontrar palavras para o inomin\u00e1vel e para o desamparo vivido. Anzieu (1993\/1975) afirma que a situa\u00e7\u00e3o grupal desperta as feridas narc\u00edsicas de seus membros, por\u00e9m consideramos que a regress\u00e3o inicialmente vista nos participantes parecia estar ligada tamb\u00e9m ao meta-enquadre social e n\u00e3o somente \u00e0 entrada em um grupo.<\/p>\n<p>Embora a pandemia n\u00e3o tenha trazido novos elementos referentes ao desamparo, ela catalisou e desvelou esse desamparo social e pol\u00edtico que os brasileiros j\u00e1 vivem h\u00e1 anos (Ferraz, 2016; Moritz Kon &amp; Majolo, 2020), ou at\u00e9 mesmo desde que nossos povos origin\u00e1rios foram colonizados e tratados como objeto de desejo dos seus colonizadores, instituindo no centro de nossa cultura uma rela\u00e7\u00e3o de uso e abuso dos corpos brasileiros, corpos negros, corpos ind\u00edgenas, corpos pobres. Essa l\u00f3gica perversa \u00e9, nesse momento, escancarada, uma vez que o uso ilimitado do corpo do outro \u00e9 estendido a todos, incluindo brancos e ricos. A ilus\u00e3o de uma &#8220;gripezinha&#8221; logo caiu por terra, quando mesmo os hospitais privados mais pr\u00f3speros estavam saturados, e profissionais tinham de escolher quem viveria e quem morreria. Como num naufr\u00e1gio \u2013 claro que parte da elite teria botes salva-vidas, mas esses n\u00e3o eram suficientes para se escapar nem da morte, nem da loucura. O l\u00edder dizia: &#8220;\u00c9 a vida. Todos n\u00f3s iremos morrer um dia\u201d; \u201cE eu com isso? Lamento!&#8221; \u2013 o que revelava seu desprezo pela vida dos brasileiros.<\/p>\n<p>K\u00e4es (2012) desenvolve a ideia de que vivemos manifesta\u00e7\u00f5es tang\u00edveis de uma clivagem da civiliza\u00e7\u00e3o, o que a psique traduz como <em>\u201cN<\/em><em>o future<\/em><em>\u201d<\/em>, <em>\u201co mundo \u00e9 perigoso dentro e fora\u201d<\/em> (p. 4, trecho traduzido pelas autoras). Para ele, <em>\u201c<\/em><em>esse mal-ser<\/em><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><em><sup><strong>[3]<\/strong><\/sup><\/em><\/a><em> (&#8230;) produz tanto essa impregna\u00e7\u00e3o sombria e melanc\u00f3lica que se apodera dos esp\u00edritos e dos corpos, quanto tamb\u00e9m v\u00ednculos intersubjetivos e estruturas sociais, e produz essa cultura do excesso man\u00ed<\/em><em>aco e onipotente<\/em><em>\u201d <\/em>(2012, p. 4, traduzido pelas autoras). Estamos falando do desamparo que coloca em xeque a capacidade mesmo de existir e de empatizar. Diz ele:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">O que produz o mal-ser ordin\u00e1rio \u00e9 o apagamento progressivo do sujeito; a aus\u00eancia de respondente \u00e0s nossas quest\u00f5es sobre aquilo que somos e nos tornamos; o desaparecimento do respondente humano \u00e0s demandas que n\u00f3s formulamos a aparelhos administrativos; os micro traumas da vida cotidiana que os sonhos n\u00e3o conseguem mais reparar (2012, p. 5, trecho traduzido pelas autoras).<\/p>\n<p>Os participantes chegavam como podiam. Ficavam os que conseguiam minimamente lidar com a amea\u00e7a que o outro representava. Alguns estavam em busca de um l\u00edder que lhes desse seguran\u00e7a e lhes mostrasse o caminho; outros estavam num excesso de atividade profissional que funcionava como descarga pulsional; outros buscavam um enquadre &#8220;pr\u00e9-fabricado&#8221; para poderem organizar seus atendimentos, mas frustravam-se devido a plataforma n\u00e3o lhes oferecer isso. Os sentimentos de invas\u00e3o e de transbordamento desses profissionais eram evidentes.<\/p>\n<p>Apesar das diferen\u00e7as entre os grupos, podemos afirmar que em ambos notamos uma manifesta\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia de desamparo. De imediato os participantes chegavam ao grupo como um beb\u00ea voraz, tentando se alimentar de algo que n\u00e3o tinham mais, ou \u2013 pior ainda \u2013 com a sensa\u00e7\u00e3o de nunca o terem tido. Alguns participantes tinham d\u00e9cadas de experi\u00eancia na \u00e1rea; mas estavam apavorados, com medo de errar, como se existisse o psic\u00f3logo ideal. Havia tentativas de criar, de cuidar e de trocar, mas inicialmente essas iniciativas eram desesperadas e r\u00edgidas.<\/p>\n<p>Cerdeira inicialmente havia se voluntariado para coordenar dois grupos. Ap\u00f3s quase um m\u00eas de abertura do segundo grupo, tendo somente uma psic\u00f3loga comparecido nesse segundo grupo, Cerdeira a convidou para participar do primeiro grupo. Essa psic\u00f3loga j\u00e1 havia se mostrado muito r\u00edgida com sua paciente do projeto, se lamentando que a demanda n\u00e3o parecia diretamente ligada ao seu trabalho com a Covid-19. Ela buscou o grupo de elabora\u00e7\u00e3o quando sua paciente come\u00e7ou a faltar, e ap\u00f3s duas ou tr\u00eas faltas, sua paciente lhe comunicou que fora infectada pelo v\u00edrus. Nesse momento a psic\u00f3loga imp\u00f5e a ela uma condi\u00e7\u00e3o: ir \u00e0 sess\u00e3o ou desligar-se do projeto. Sua incapacidade de acolher a paciente ou de perceber seu movimento contratransferencial (Puget &amp; Wender, 2005), pode ser compreendida como uma incapacidade de conter sua pr\u00f3pria destrutividade, assim como sua ang\u00fastia de se contaminar pelo desalento de sua paciente. Nesse momento, a psic\u00f3loga entra no segundo grupo que j\u00e1 estava em seu terceiro encontro. N\u00e3o aguentou ficar, de forma que rompeu com sua paciente e com o grupo. N\u00e3o soubemos se rompeu tamb\u00e9m com o projeto. Seu abandono ao grupo e \u00e0 sua paciente parece ter intensidade proporcional a seu sentimento de abandono.<\/p>\n<p>Segundo Anzieu (1993\/1975), do ponto de vista din\u00e2mico, para a forma\u00e7\u00e3o da ilus\u00e3o grupal \u00e9 necess\u00e1rio que a preserva\u00e7\u00e3o da identidade seja transferida por seus participantes do indiv\u00edduo ao grupo. Assim, \u00e9 necess\u00e1rio que os participantes resistam aos riscos de fragmenta\u00e7\u00e3o, e, diante da amea\u00e7a ao seu narcisismo individual, reajam com a instaura\u00e7\u00e3o de um narcisismo de grupo. Do ponto de vista econ\u00f4mico, para se passar \u00e0 ilus\u00e3o grupal, \u00e9 necess\u00e1rio que as ang\u00fastias persecut\u00f3rias sejam contidas pela clivagem da transfer\u00eancia. De um lado, o grupo deve representar o seio bom, com a fantasia de que todos os irm\u00e3os e irm\u00e3s s\u00e3o objetos bons e se amam dentro do ventre da m\u00e3e boa, tal como a m\u00e3e, que os ama, que os nutre e os protege. E, do outro lado, \u00e9 necess\u00e1rio que exista um objeto comum no qual seja projetado o seio mau. E, do ponto de vista t\u00f3pico, Anzieu retoma o conceito de Eu ideal<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> como <em>&#8220;constitu\u00eddo pela interioriza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o dual da crian\u00e7a com a m\u00e3e de quem depende e por quem \u00e9 <\/em><em>protegida&#8221;<\/em> (1993\/1975, p. 83). Segundo o autor, a forma\u00e7\u00e3o da ilus\u00e3o grupal depende de uma substitui\u00e7\u00e3o do Eu ideal individual por um Eu ideal comum.<\/p>\n<p>Para essa participante, que parece ter procurado o grupo quando j\u00e1 estava no limite de uma implos\u00e3o-explos\u00e3o, o grupo n\u00e3o foi um lugar de conten\u00e7\u00e3o, mas talvez catalisador. Se sua paciente j\u00e1 lhe causava um risco, a pluralidade do grupo era o oposto do que ela buscava. Talvez a entrada em um grupo com tantas irm\u00e3s impediu-lhe a ilus\u00e3o de que necessitava naquele momento: a de uma fus\u00e3o com o seio materno. N\u00f3s supomos que, no in\u00edcio, no momento que estava sozinha com a coordenadora, esta parecia-lhe um objeto parcial, sendo o seio mau depositado no projeto vivenciado como persecut\u00f3rio e perverso. Contudo, com a entrada num grupo com colegas, a coordenadora pareceu-lhe impotente, frente a tantos beb\u00eas vorazes, e submissa, ou at\u00e9 mesmo c\u00famplice do projeto, transformando-se assim no objeto mau. As demais participantes podem ter sido inconscientemente consideradas por ela como rivais, que, assim como os brasileiros hospitalizados, concorriam por um sopro de vida (oxig\u00eanio) e por uma figura materna incapaz de dar a aten\u00e7\u00e3o que ela necessitava.<\/p>\n<p>Quanto aos demais participantes dos diferentes grupos, questionamo-nos: o que os mantiveram l\u00e1? O que permitiu a constitui\u00e7\u00e3o da ilus\u00e3o grupal? Observamos uma regress\u00e3o pelo contexto do grupo e, tamb\u00e9m, pela situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica social. Quem chegava ao grupo, chegava com a esperan\u00e7a inconsciente de uma <em>\u201c(&#8230;) restaura\u00e7\u00e3o introjetiva de seu primeiro objeto \u2013 parcial \u2013 <\/em><em>de amor perdido<\/em><em>\u201d<\/em> (Anzieu, 1975, p. 163, trecho traduzido pelas autoras). Se a regress\u00e3o, que precedia o grupo, colocava em risco as possibilidades de v\u00ednculo para uns, para outros foi isso que lhes possibilitou formar rapidamente uma ilus\u00e3o grupal.<\/p>\n<p>Psic\u00f3logos de diversas teorias participaram do dispositivo de grupo. Este possibilitara algo que talvez h\u00e1 muito tempo n\u00e3o nos permit\u00edamos na psicologia: a toler\u00e2ncia te\u00f3rica e a diversidade da cl\u00ednica. A capacidade desenvolvida pelos grupos de acolher o que cada um tinha a dizer permitiu criar um la\u00e7o afetuoso entre os participantes. Logo, as d\u00favidas de como conduzir um caso deixaram de ser assustadoras e n\u00e3o colocavam em xeque nem a teoria do psic\u00f3logo, nem sua capacidade cl\u00ednica. Num momento em que nosso pa\u00eds era assolado pela intoler\u00e2ncia e pela rivalidade, dentro de nossos grupos as diferen\u00e7as foram compreendidas como for\u00e7as motrizes para um trabalho em conjunto; utilizavam da objetividade de uns e da subjetividade de outros para dar contorno ao processo reflexivo. Tudo isso foi sustentado pelas fun\u00e7\u00f5es parentais que os coordenadores asseguravam. Segundo Franch e Blum, \u201c<em>criar um lugar diferenciado para o outro e respeitar o lugar subjetivo dos outros significa garantir uma passagem para o dentro e para o fora, um meio de experimenta\u00e7\u00f5es, um grupo, uma continuidade da exist\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>\u201d (2014, p. 110).<\/p>\n<p>Se no grupo estava projetado o seio bom, o seio mau era depositado em outros objetos. E, no cen\u00e1rio em que est\u00e1vamos, estes objetos n\u00e3o faltavam: pol\u00edticos, conselho de \u00e9tica de psicologia, assim como o pr\u00f3prio projeto. Para os participantes a n\u00e3o oferta de diretrizes precisas por parte do projeto incumbia-lhes a cria\u00e7\u00e3o de um enquadre pr\u00f3prio, independente e acolhedor, como mostra a declara\u00e7\u00e3o seguinte. &#8220;O que o projeto quer de mim? Nada, aparentemente, somos n\u00f3s que devemos construir\u201d.<\/p>\n<p>N\u00f3s, coordenadoras, recebemos a proje\u00e7\u00e3o do fantasma do psic\u00f3logo ideal, sem, no entanto, responder a essa demanda. Sustentando a ang\u00fastia contratransferencial do n\u00e3o-saber, colaboramos com o grupo para que tomasse consci\u00eancia desse fantasma e o desconstru\u00edsse. No grupo de Cerdeira, isso ocorreu com o surgimento de uma imagem do s\u00e1bio da montanha. Esta imagem pl\u00e1stica foi deposit\u00e1ria da fantasia de um l\u00edder absoluto, tir\u00e2nico, onipotente e ausente, que abandona seus s\u00faditos, com os quais os participantes se relacionavam, ora como fi\u00e9is seguidores, ora como transgressores. Esta imagem permitiu que tomassem consci\u00eancia do desejo por um l\u00edder, construindo assim um caminho pr\u00f3prio. Como disse uma participante: \u201cEu me pergunto se esta n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o do grupo: o que o projeto quer de mim?\u201d; a quem outra participante lhe respondeu: \u201cVoc\u00ea levanta uma reflex\u00e3o muito dolorosa\u201d. Dolorosa, mas agora poss\u00edvel de ser enunciada e pensada.<\/p>\n<p><em>Segundo momento do grupo: o retorno \u00e0 <\/em><em>cultura<\/em><\/p>\n<p>Sa\u00edmos da paralisia da impot\u00eancia frente ao imprevis\u00edvel da pandemia e passamos ao reconhecimento da pot\u00eancia de cada um. Os participantes precisaram viver a dualidade entre onipot\u00eancia e impot\u00eancia dos primeiros encontros, para recuperarem a confian\u00e7a em si mesmos e poderem se nutrir da vitalidade dos encontros para, ent\u00e3o, confrontarem o desamparo.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, produziu-se uma mudan\u00e7a de posicionamento dos participantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demandas externas, na voracidade por conhecimento e nas atividades profissionais, que diminu\u00edram. Os participantes passaram a se questionar sobre os excessos de <em>lives<\/em> que assistiam e sobre o excesso de atividades que assumiram: reconheceram seus saberes e tamb\u00e9m seus limites. O grupo fez sua fun\u00e7\u00e3o de contin\u00eancia, como aponta Houzel, baseando-se em Bion \u2013 fun\u00e7\u00e3o na qual se opera <em>\u201cum processo de transforma\u00e7\u00e3o profunda que permite que sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es impens\u00e1veis passem a ser pens\u00e1veis, (&#8230;) em vez de serem puramente evacuadas em a\u00e7\u00f5es (&#8230;)\u201d<\/em> (1987, p. 29, trecho traduzido pelas autoras). Poder-se-ia pensar que a ang\u00fastia do grupo agora era de castra\u00e7\u00e3o: teriam de escolher.<\/p>\n<p>Assim que os grupos come\u00e7aram a constituir minimamente seu envelope, eles tamb\u00e9m foram recuperando alguns elementos culturais para sustenta\u0301-los no processo de reflex\u00e3o. Em meados de julho de 2020, no grupo de Seixas e Angelo, a literatura come\u00e7ou a fazer parte do processo. Todos davam indica\u00e7\u00f5es de leitura, o que foi um alento diante de tanto sofrimento. O livro <em>O filho de mil homens<\/em>, de Valter Hugo M\u00e3e, um escritor luso-angolano, foi o que mais reverberou. Ele \u00e9 dividido em vinte contos: cada um traz a vida de um personagem com sua fragilidade humana e precariedade social; no final, os personagens encontram-se numa hist\u00f3ria comum de amparo. Era a met\u00e1fora do que est\u00e1vamos passando e da tentativa de recuperar a esperan\u00e7a no porvir. Cada psic\u00f3logo via-se diante do horror inomin\u00e1vel trazido pelos pacientes, ou pela pr\u00f3pria experi\u00eancia. A escuta e a palavra que o grupo restitu\u00eda aos seus membros por meio da literatura davam-lhes a possibilidade de reconstruir seu envelope ps\u00edquico continente. Como diz Anzieu (1989\/1985, p. 270):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">a palavra do outro, se oportuna, viva e verdadeira, permite ao destinat\u00e1rio reconstituir seu envelope ps\u00edquico continente, e ela o faz na medida em que as palavras ouvidas te\u00e7am uma pele simb\u00f3lica que seja um equivalente, no plano fonol\u00f3gico e no plano sem\u00e2ntico, dos ecotactilismos origin\u00e1rios entre o beb\u00ea e seu meio materno e familial.<\/p>\n<p>A literatura, e este livro em particular, contribuiu para criar um repert\u00f3rio comum a esse grupo, que facilitou a nomea\u00e7\u00e3o e a representa\u00e7\u00e3o do que era vivido. Os livros trouxeram o l\u00fadico e potencializaram o espa\u00e7o transicional, permitindo a recupera\u00e7\u00e3o da capacidade de sonhar e de se relacionar com o mundo externo. N\u00e3o foi fortuito que esse livro foi comentado at\u00e9 o \u00faltimo encontro.<\/p>\n<p>O reconhecimento da import\u00e2ncia do encontro com o outro e o resgate das capacidades individuais geraram um retorno ao pacto social e permitiram a recupera\u00e7\u00e3o da cultura. Mesmo o Brasil estando \u00e0 deriva, recuperamos certa esperan\u00e7a na for\u00e7a da cultura. Notamos, assim, uma simultaneidade entre o individual, o grupal, o institucional e o social. Quando o social se esfacelou, aspectos individuais tamb\u00e9m se desorganizaram. Ao recuperar a possibilidade de intera\u00e7\u00e3o com o outro no ambiente grupal, tornou-se novamente poss\u00edvel acessar o fora, o social, a cultura.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de amor que se constitui um grupo. A puls\u00e3o de morte sempre esteve presente, ora velada, ora expl\u00edcita, mas consegu\u00edamos fazer as liga\u00e7\u00f5es pulsionais necess\u00e1rias. A co-coordena\u00e7\u00e3o de Angelo e Seixas contribu\u00eda com isso, pois permitia que o grupo n\u00e3o se paralisasse. Enquanto uma das co-coordenadoras era tomada pela contratransfer\u00eancia do traum\u00e1tico, a outra entrava em cena. A parceria fazia com que ambas conseguissem manter a vitalidade grupal. Na coordena\u00e7\u00e3o solo supomos que a pot\u00eancia de vida do grupo, a maturidade ps\u00edquica e profissional dos participantes tamb\u00e9m permitiu a manuten\u00e7\u00e3o das liga\u00e7\u00f5es pulsionais e a preserva\u00e7\u00e3o da coordenadora. Por\u00e9m, o an\u00fancio do fim do grupo trouxe \u00e0 tona os aspectos regressivos das personalidades. Por isso Cerdeira procurou uma supervis\u00e3o externa. Isso nos faz pensar que a rede de apoio que as coordenadoras criaram em torno de si possibilitou um envelope ps\u00edquico a si mesmas e, dessa maneira, uma extens\u00e3o ao grupo.<\/p>\n<p><em>Terceiro momento: o final do grupo<\/em><\/p>\n<p>A plataforma anunciou seu t\u00e9rmino no final de 2020. A discuss\u00e3o do que aconteceria com os grupos come\u00e7ou a fazer parte de todos os encontros. Os participantes temiam perder esse espa\u00e7o acolhedor, percebido como \u00fanico ou, ao menos, raro: <em>\u201cA gente tem tantas perdas, a gente vai perder este espa\u00e7o aqui?\u201d<\/em> (sic) \u2013 disse uma participante. Foi um desafio para a coordena\u00e7\u00e3o finalizar os grupos, uma vez que o cen\u00e1rio brasileiro era o seguinte: entrada em uma nova onda da pandemia no pa\u00eds; quase 200 mil mortos; quase dois milh\u00f5es e meio de desempregados a mais do que no ano precedente. O encerramento exigiria um cuidado maior diante da possibilidade de as puls\u00f5es destrutivas prevalecerem e da possibilidade de o processo associativo cessar, vindo a tomar um caminho retraumatizante. Cuidamos para evitar que a perda do grupo se transformasse numa ruptura, como havia sido a entrada na quarentena.<\/p>\n<p>Em um encontro do grupo de Cerdeira, no momento em que se falava sobre o t\u00e9rmino do projeto, sobre mortes, sobre luto e viol\u00eancia, fomos surpreendidas por uma das participantes que colocou sua filha de seis anos na reuni\u00e3o. As demais participantes se incomodaram. A coordenadora decide ent\u00e3o brincar com a crian\u00e7a, com o grupo e com a participante, pedindo que a nova participante se apresente. Todas riram e jubilaram-se com o encanto da crian\u00e7a. Em seguida, Cerdeira pede \u00e0 crian\u00e7a que se retire. Nesse momento, o que ela fez foi tra\u00e7ar os limites, protegendo a crian\u00e7a real ao distingui-la do lado mais arcaico do adulto, tirando-a do grupo, e acolhendo tanto a crian\u00e7a interna assustada da participante em quest\u00e3o como a crian\u00e7a interna do grupo. Assim constituiu-se um contorno estruturante por meio do desenvolvimento de uma pele flex\u00edvel, mas que tamb\u00e9m tem limites.<\/p>\n<p>O grupo de Angelo e Seixas precisou de dois encontros para seu encerramento. A utiliza\u00e7\u00e3o dos objetos transicionais foi fundamental para possibilitar o processo de desilus\u00e3o grupal. O primeiro momento ocorreu em dezembro de 2020 e o segundo em fevereiro de 2021, ap\u00f3s o per\u00edodo de f\u00e9rias. Antes das f\u00e9rias, utilizando o repert\u00f3rio grupal, decidiu-se realizar um amigo secreto de livros. Cada um dizia que livro gostaria de ler. E seu amigo secreto enviava-lhe o livro. Nesse momento de separa\u00e7\u00e3o, o grupo escolheu um objeto transicional comum a todos os participantes, o livro, mas que, ao mesmo tempo, representava o interesse e a individualidade de cada membro. Abrindo m\u00e3o da imagem de ideal grupal, ancorada no livro de Valter Hugo M\u00e3e, o grupo favoreceu a constitui\u00e7\u00e3o de um novo repert\u00f3rio. Com isso, iniciavam a possibilidade de criarem uma imagem de futuro que n\u00e3o era \u00fanica para todos. Havia j\u00e1 um envelope ps\u00edquico grupal constitu\u00eddo, que permitia defenderem-se contra excessos internos e externos provocados pelo traum\u00e1tico. Existiam, assim, os recursos necess\u00e1rios para suportar o distanciamento entre os membros. Ap\u00f3s as f\u00e9rias foram realizados mais tr\u00eas encontros. Ainda neste momento havia muita resist\u00eancia frente \u00e0s coordenadoras, que tiveram de sustentar o ataque contra a decis\u00e3o de se encerrar o grupo. Para o \u00faltimo encontro, todos os participantes foram convidados, mesmo os que j\u00e1\u0301 tinham sa\u00eddo. A grata surpresa foi que todos compareceram e participaram da din\u00e2mica de encerramento, na qual foi solicitado que trouxessem uma foto que representasse o que levavam do grupo para si e comentassem sobre ela. Usou-se mais uma vez de objetos mediadores para dar figurabilidade \u00e0s experi\u00eancias compartilhadas e \u00e0 possibilidade de se enfrentar o futuro.<\/p>\n<p>O encerramento do grupo serviu como um ritual do processo de luto \u2013 um luto necess\u00e1rio para a supera\u00e7\u00e3o do traum\u00e1tico, luto pelo projeto de vida que cada um tinha antes da pandemia. Mesmo tendo a pandemia continuado, os participantes puderam liberar sua libido para a constitui\u00e7\u00e3o de novos projetos de vida, pois puderam se sentir sustentados para lidar com o desmoronamento de um futuro. Sabemos que o processo de luto nunca se conclui completamente, mas ele fica mais pr\u00f3ximo disso quando conseguimos seguir nossas vidas.<\/p>\n<p>Apesar dos ataques, a toler\u00e2ncia dos grupos e o acolhimento ofereceram o que a nossa realidade brasileira n\u00e3o estava permitindo: diferente de um l\u00edder que n\u00e3o escutava, as coordenadoras estavam l\u00e1 e sobreviveram a cada ataque do grupo; diferente das mortes s\u00fabitas, o grupo terminava paulatinamente; diferente de uma morte sem rito de passagem e sem corpo, os grupos tiveram fim com uma cerim\u00f4nia de adeus, e com algo que pudesse dar corpo ao sentimento de seus participantes, atrav\u00e9s de objetos mediadores.<\/p>\n<p><strong>Conclus<\/strong><strong>\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Como coordenadoras, notamos como a dimens\u00e3o de quem era de fato o paciente da plataforma se perdia, dado que os psic\u00f3logos tamb\u00e9m estavam se apoiando na rede para lidar com suas ang\u00fastias. Os grupos cumpriram sua fun\u00e7\u00e3o de sustenta\u00e7\u00e3o, transformaram-se em um envelope que permitiu, por meio da intimidade entre seus membros, que se constitu\u00edsse um espa\u00e7o de sonhar e de criar. Durante o primeiro ano de isolamento, o grupo trouxe a continuidade, n\u00e3o como repeti\u00e7\u00e3o de uma rotina que tornava os dias indiferenciados, mas de uma continuidade de pot\u00eancia de vida: quebrando a rotina alienante e promotora de adoecimento e abrindo espa\u00e7o para a criatividade.<\/p>\n<p>Notamos o potencial desses grupos no trabalho com o traum\u00e1tico, por meio do testemunho. Carla Penna aponta a pot\u00eancia do trabalho grupal na elabora\u00e7\u00e3o de lutos coletivos e em sua capacidade de transformar &#8220;<em>dor e sil\u00eancio em narrativa e luto, de hist\u00f3rias encapsuladas em hist\u00f3rias compartilhadas pelo e no social<\/em>\u201d (2015, p. 25). Dentro da \u00e1rea da psicologia, os psic\u00f3logos est\u00e3o geralmente isolados e exp\u00f5e-se a um sofrimento do qual nem sempre est\u00e3o protegidos. A pandemia e este momento s\u00f3cio-pol\u00edtico n\u00e3o trouxeram algo de novo nesse sentido, mas exacerbaram a vulnerabilidade que esse isolamento causa. Esses grupos possibilitaram que seus membros deixassem cair a m\u00e1scara do psic\u00f3logo ideal e que integrassem seus limites humanos e profissionais.<\/p>\n<p>Nesse momento de conclus\u00e3o gostar\u00edamos de ressaltar que embora nosso grupo tenha sido nomeado \u201cgrupo de elabora\u00e7\u00e3o\u201d consideramos que ele se constituiu como um grupo de reflex\u00e3o. Metapsicologicamente o termo elabora\u00e7\u00e3o se refere a um processo muito mais profundo do que conseguimos fazer. No jogo intersubjetivo, as experi\u00eancias compartilhadas refletiam sobre o outro, espelhavam as ang\u00fastias, mas tamb\u00e9m a pot\u00eancia, fazendo liga\u00e7\u00f5es, reconstituindo a cadeia associativa e reanimando o psiquismo. Os grupos conseguiram criar um envelope ps\u00edquico suficientemente firme e el\u00e1stico para permitir um <em>quantum<\/em> de liga\u00e7\u00e3o pulsional necess\u00e1rio para sobreviver e sonhar. Contudo, ainda est\u00e1vamos elaborando os restos: restos de agressividade que pudemos <em>a posteriori<\/em> fazer liga\u00e7\u00e3o, nas diversas reuni\u00f5es que tivemos para a escrita deste trabalho, e restos que esperamos poder elaborar com trocas provindas deste artigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\n<p>Anzieu, D. (1975), <em>Le groupe et l<\/em><em>\u2019<\/em><em>inconscient<\/em>. Paris: Dunod.<\/p>\n<p>Anzieu, D. (1975), <em>O grupo e o inconsciente: o imagin\u00e1rio grupal<\/em>. 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Revista AEAPG, 30, 69\u201390.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> O presente texto foi publicado originalmente na Revista <em>In Analysis<\/em>, v.7, n.1, maio 2023, intitulado Le groupe comme enveloppe psychique en temps de pand\u00e9mie et de barbarie au Br\u00e9sil. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.inan.2022.100330\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.inan.2022.100330<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalistas, Angelo e Seixas s\u00e3o ex-alunas e Cerdeira \u00e9 aluna do Curso de Psican\u00e1lise do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> O conceito de <em>Mal\u00ea<\/em><em>tre<\/em>, de K\u00e4es, traduzido pelas autoras como \u201cmal-ser\u201d, trabalha com o conceito mal-estar (<em>Malaise<\/em>) de Freud, enfatizando o mal-estar da cultura na constitui\u00e7\u00e3o do Eu. Esse mal seria dur\u00e1vel e provocado, n\u00e3o apenas pela repress\u00e3o das puls\u00f5es destrutivas, mas sobretudo pela fragilidade do Eu.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Na tradu\u00e7\u00e3o de Anette Fuks e H\u00e9lio Gurovitz de <em>O grupo e o inconsciente: o imagin\u00e1rio grupal <\/em>foi traduzido como Ego Ideal. Optamos por utilizar o termo Eu Ideal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o traum\u00e1tico encontra, no espa\u00e7o grupal, a contin\u00eancia e a elasticidade necess\u00e1rias ao sobreviver e ao sonhar. Por Thais Angelo, Marcia Cerdeira e Ana Helena Seixas.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[89],"tags":[84,43],"edicao":[263],"autor":[266,265,264],"class_list":["post-3153","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-saude-mental","tag-pandemia","tag-saude-mental","edicao-boletim-71","autor-ana-helena-dangelo-seixas","autor-marcia-e-cerdeira","autor-thais-r-g-angelo","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3153","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3153"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3153\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3253,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3153\/revisions\/3253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3153"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3153"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3153"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3153"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3153"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}