{"id":3167,"date":"2024-06-15T15:07:09","date_gmt":"2024-06-15T18:07:09","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3167"},"modified":"2024-06-15T15:07:09","modified_gmt":"2024-06-15T18:07:09","slug":"transmissao-da-teoria-psicanalitica-no-curso-conflito-e-sintoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/06\/15\/transmissao-da-teoria-psicanalitica-no-curso-conflito-e-sintoma\/","title":{"rendered":"Transmiss\u00e3o da teoria psicanal\u00edtica no curso Conflito e Sintoma"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Transmiss\u00e3o da teoria psicanal\u00edtica no curso Conflito e Sintoma<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Maria Sigal<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vamos falar de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Quero ter o prazer de apresentar para voc\u00eas algumas quest\u00f5es que caracterizam o curso de Conflito e Sintoma e me parecem importantes para marcar uma posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 transmiss\u00e3o de conceitos psicanal\u00edticos. Esta comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um resumo da aula inaugural que apresentei neste ano de 2023, fazendo um recorte de algumas formula\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que a aula tinha 26 p\u00e1ginas. A ideia \u00e9 situar nosso curso para o conjunto do Departamento.<\/p>\n<p>Este curso foi criado com m\u00faltiplos prop\u00f3sitos; h\u00e1 26 anos, foi pensado fundamentalmente como um curso que permitisse oferecer ferramentas novas para profissionais de diversas \u00e1reas que queriam ampliar seu conhecimento e poder delas dispor para alargar a pot\u00eancia de suas especialidades. Naquele momento vimos a necessidade de pensar num curso de transmiss\u00e3o dos conceitos psicanal\u00edticos que fosse oferecido a todos aqueles que vinham se interessando cada vez mais pela psican\u00e1lise como um saber que podia ampliar sua compreens\u00e3o de certos fen\u00f4menos que implicavam a subjetividade. Pensamos num curso que oferecesse aberturas para entender a subjetividade e alguns fen\u00f4menos do mundo, um mundo que cada vez se mostrava mais complexo e, ao mesmo tempo, como um curso que oferecesse uma perna do trip\u00e9 necess\u00e1rio para aqueles que queriam come\u00e7ar num futuro uma forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim foi que pensamos um programa que percorresse uma espinha dorsal m\u00ednima que nos ajudaria, desde a psican\u00e1lise, a compreender situa\u00e7\u00f5es sociais e subjetivas que estavam ao nosso redor. \u00c9 a partir destas premissas que entendemos que nosso curso \u00e9 um curso de transmiss\u00e3o dos conceitos psicanal\u00edticos e n\u00e3o um curso de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 10 anos, grande quantidade de cursos, alguns muito pouco confi\u00e1veis, se oferecem para dar forma\u00e7\u00e3o. S\u00e3o oferecidos cursos de fim de semana, pacotes de tr\u00eas aulas para aprender o manejo cl\u00ednico, assim como cursos que prometem titula\u00e7\u00e3o e at\u00e9 trabalho remunerado; aceitam-se inclusive pessoas que n\u00e3o t\u00eam forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria \u2013 condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima que Freud propunha para uma forma\u00e7\u00e3o de analista, em seu texto <em>A quest<\/em><em>\u00e3o da an\u00e1lise leiga <\/em>(1926).<\/p>\n<p>A demanda e a oferta indiscriminadas t\u00eam banalizado a complexidade que implica conhecer uma teoria ou exercer uma pr\u00e1tica que demanda muito tempo de estudo e uma forma\u00e7\u00e3o permanente e intermin\u00e1vel. A justificativa de se ter percorrido muitos anos de an\u00e1lise cria a ilus\u00e3o que se pode exercer este of\u00edcio sem mais considera\u00e7\u00f5es. Ainda que a psican\u00e1lise n\u00e3o seja uma <em>Weltanschauung<\/em>, ou esquema totalizante de mundo \u2013 como pretendia Jung \u2013, ela se oferece como <em>Weltanschauung <\/em>cient\u00edfica. Freud nos diz em sua Confer\u00eancia XXXV<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> que a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o intelectual que soluciona todos os problemas de nossa exist\u00eancia, pois o progresso no trabalho cient\u00edfico se consuma exatamente como numa an\u00e1lise. Aportam-se certas expectativas, mas por meio da pesquisa elas v\u00e3o se corroborando ou descartando, o que requer muita paci\u00eancia e uma atitude livre de preconceitos para descartar hip\u00f3teses e considerar outras novas. A teoria se apresenta como um corpo que tem fundamentos e cujas articula\u00e7\u00f5es se encontram no processo de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento. Isto delimita seu poder totalizante, por n\u00e3o pretender dar conta de um todo sem faltas, e sim de um conjunto de ideias que deixa aberturas a serem investigadas, fendas, brechas, vazios e buracos. Um conjunto de ideias que devem ser repensadas, postas \u00e0 prova e reformuladas \u00e0 medida que se modifica o entorno, se percorre a hist\u00f3ria e as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o social e de subjetividades v\u00e3o se modificando. Todas estas condi\u00e7\u00f5es criam novas problem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise se apresenta portanto como um saber incompleto, deixando espa\u00e7o para o conceito de desamparo e, desde Freud, tem muito o que somar \u00e0 ci\u00eancia para a compreens\u00e3o do homem e de seu funcionamento ps\u00edquico. Vale lembrar que hoje em dia tem se levantado uma pol\u00eamica sobre o car\u00e1ter cient\u00edfico da psican\u00e1lise, pol\u00eamica marqueteira que foi muito bem respondida por muitos colegas. De fato, Freud revia suas formula\u00e7\u00f5es \u00e0 medida que descobria novos fatores e sempre se questionou sobre o car\u00e1ter cient\u00edfico deste saber. A pergunta seria: Quando se fala de ci\u00eancia, a que ci\u00eancia nos referimos? Interessa verdadeiramente \u00e0 psican\u00e1lise ser qualificada nesse campo epist\u00eamico, se por ci\u00eancia se caracterizam as ci\u00eancias duras e experimentais, a ci\u00eancia como evid\u00eancia reveladora da realidade?<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 uma filosofia ou uma religi\u00e3o; ela se situa em um lugar que responde a v\u00e1rios imagin\u00e1rios, e sua possibilidade de ocupar um espa\u00e7o extramuros como saber de refer\u00eancia para outras pr\u00e1ticas a descola da ideia de ser simplesmente uma psicoterapia. \u00c9 interessante refor\u00e7ar a ideia de que o fato de poder ampliar a leitura de outros saberes, assim como de ser por eles afetada, n\u00e3o a transforma numa cosmovis\u00e3o, e sim diz respeito a uma abordagem \u00e9tica sobre a problem\u00e1tica que envolve o sujeito e suas rela\u00e7\u00f5es sociais, assim como em sua rela\u00e7\u00e3o com sua incompletude.<\/p>\n<p>Entendemos que nosso saber abre novos horizontes para entender o sujeito e o mundo, porque se oferece como ferramenta que, em sua forma ampliada, se engaja com a psicologia social, a antropologia, a pol\u00edtica, a hist\u00f3ria e oferece elementos que desvendam quest\u00f5es para a compreens\u00e3o das artes. Esta posi\u00e7\u00e3o de ampla circula\u00e7\u00e3o beneficia, mas tamb\u00e9m coloca em risco a teoria, expondo-a a uma banaliza\u00e7\u00e3o do conhecimento que a transformasse em um conhecimento superficial e nos tornasse simples sujeitos de consumo. A quest\u00e3o que se coloca \u00e9 como democratizar a\u00a0 transmiss\u00e3o e o uso da psican\u00e1lise sem que se perca o eixo que caracteriza este saber como tal. Quando permanecemos dentro do campo psicanal\u00edtico ou quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas que se reconhecem pr\u00f3prias deste campo?<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise como pr\u00e1tica tamb\u00e9m virou novo objeto de desejo; assim, em 2023 fomos procurados por um grande n\u00famero de alunos, o que nos obrigou a fazer um corte mais restrito do que esper\u00e1vamos nas aprova\u00e7\u00f5es \u2013 corte necess\u00e1rio para manter a profundidade e a natureza de nosso trabalho.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a pens\u00e1-lo como uma primeira via de aprofundamento de conhecimento para quem estava pensando em percorrer, no futuro, uma forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, tamb\u00e9m tivemos surpresas! Nos \u00faltimos anos, constatamos que muitos dos alunos que nos procuravam estavam buscando o caminho para iniciar uma nova profiss\u00e3o, seja porque j\u00e1 estavam encerrando uma vida profissional exitosa e queriam uma nova atividade para uma fase mais avan\u00e7ada da vida, seja porque se encontravam insatisfeitos com a profiss\u00e3o que tinham escolhido e tentavam fazer uma mudan\u00e7a sem precisar cursar uma nova faculdade. Aqui aparece um equ\u00edvoco, pois o fato de a psican\u00e1lise n\u00e3o ser uma profiss\u00e3o regulamentada n\u00e3o implica que seja um percurso mais curto ou menos exigente; pelo contr\u00e1rio, implica mais dedica\u00e7\u00e3o e trabalho, j\u00e1 que o reconhecimento vir\u00e1 dos pares e dos pacientes e n\u00e3o da obten\u00e7\u00e3o de um certificado.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de um psicanalista requer muitos anos de estudo, muito tempo de an\u00e1lise e o exerc\u00edcio da pr\u00e1tica cl\u00ednica com uma supervis\u00e3o que permita entender a densidade da transfer\u00eancia e a dificuldade que implica trabalhar e sustentar a dor alheia, para que seja poss\u00edvel que o sujeito se confronte com seu desejo, antes recalcado ou renegado por conta de sua hist\u00f3ria pessoal. Um tratamento psicanal\u00edtico implica a grande responsabilidade do analista de entender que seu trabalho n\u00e3o trata de conduzir a vida do outro ou de lhe impor seus pr\u00f3prios desejos. Eis o sentido do conceito de abstin\u00eancia em psican\u00e1lise: n\u00e3o se refere a uma neutralidade pol\u00edtica do sujeito psicanalista, nem de eximi-lo do papel que lhe toca jogar na hist\u00f3ria; n\u00e3o se trata de se abster da vida, mas de ser capaz de suportar n\u00e3o se transformar em mestre nem se colocar como modelo. Trata-se, por fim, de poder renunciar ao narcisismo de acreditar que a falta s\u00f3 est\u00e1 no outro e n\u00e3o em si mesmo.<\/p>\n<p>Nenhuma produ\u00e7\u00e3o que se rege pelo desejo pode ser neutra; estamos sempre implicados, mas \u00e9 a partir da possibilidade que nos oferece nossa pr\u00f3pria an\u00e1lise\u00a0 pessoal que podemos nos colocar no lugar de suposto saber que o outro nos atribui, sem acreditarmos que de fato sabemos ou que ocupamos efetivo lugar do saber.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico em psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma decis\u00e3o t\u00e9cnica, cl\u00ednica ou cient\u00edfica: o diagn\u00f3stico \u00e9 tamb\u00e9m uma decis\u00e3o pol\u00edtica, j\u00e1 que implica o sujeito nos processos de emancipa\u00e7\u00e3o social de modo cr\u00edtico. A psican\u00e1lise \u00e9 um processo de desaliena\u00e7\u00e3o, um encontro do sujeito com a sua verdade. A teoria psicanal\u00edtica se refere \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de ideias e conceitos que se articulam tanto em processos individuais como de socializa\u00e7\u00e3o. Aborda o indiv\u00edduo mas tamb\u00e9m o la\u00e7o social, e esta \u00e9 uma raz\u00e3o expressiva para o papel importante que t\u00eam as institui\u00e7\u00f5es na forma\u00e7\u00e3o. A psican\u00e1lise se pensa levando em conta as institui\u00e7\u00f5es que sustentam sua transmiss\u00e3o. Pol\u00edtica institucional, pol\u00edtica na teoria e pol\u00edtica na cidadania. O m\u00e9todo psicanal\u00edtico imbrica indiv\u00edduo e sociedade e os textos sociais de Freud tamb\u00e9m nos mostram os processos incipientes do que ser\u00e1 a psicologia individual.<\/p>\n<p>A modo de exemplo, em <em>Totem e tabu <\/em>(1913) identificamos os prim\u00f3rdios e a nascen\u00e7a do que ser\u00e1 metapsicologicamente o superego; em <em>O mal-estar na cultura <\/em>encontramos elementos que nos falam do indiv\u00edduo e sua interioridade, tocando os temas da repress\u00e3o e do recalque; assim como podemos encontrar, nos textos francamente metapsicol\u00f3gicos, elementos que nos falam do la\u00e7o social, do papel da alteridade na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva. Sem d\u00favida aprender psican\u00e1lise em nossa institui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o de responsabilidade, e \u00e9 necess\u00e1rio conhecer alguns dos alicerces em que nos apoiamos.<\/p>\n<p>A teoria n\u00e3o \u00e9 neutra: as leituras se fazem desde algum lugar. O Sedes \u00e9 um espa\u00e7o comprometido com a justi\u00e7a social, com a diversidade em todos os seus aspectos e, na atualidade, com o combate ao racismo estrutural que atravessa nossa sociedade neocolonialista. Atravessada pelo momento atual e por nossa hist\u00f3ria, no final de 2020 foi fundada a Pol\u00edtica de Repara\u00e7\u00e3o e A\u00e7\u00f5es Afirmativas em nosso Departamento e come\u00e7ou em 2022 a implanta\u00e7\u00e3o de cotas raciais em todo o Instituto Sedes. Como expressa um comunicado do Departamento de Psican\u00e1lise, \u201cPara o conjunto do Departamento de Psican\u00e1lise, as cotas raciais s\u00e3o parte de uma pol\u00edtica de a\u00e7\u00f5es afirmativas, que visa \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o do racismo estrutural\u201d. A implanta\u00e7\u00e3o das cotas definidas pela Diretoria do Instituto confere a cada curso de especializa\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento possibilidades de receber cotistas pretos, pardos e ind\u00edgenas isentos do pagamento de suas mensalidades ao longo da dura\u00e7\u00e3o do curso, passo fundamental para reiterar nosso compromisso com a repara\u00e7\u00e3o das desigualdades que colonialmente tocam negros e ind\u00edgenas em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quem se disp\u00f5e a estudar psican\u00e1lise no Sedes precisa saber que vai faz\u00ea-lo num instituto que tem hist\u00f3ria, que sempre se comprometeu com a justi\u00e7a social, que lutou contra a ditadura e que hoje em seu <em>aggiornamento <\/em>enfrenta a repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a que foram submetidos os povos escravizados. Este processo \u00e9 complexo e est\u00e1 em desenvolvimento. O Departamento de Psican\u00e1lise, em sua assembleia do final de 2021, criou um fundo de reserva para poder apoiar outras a\u00e7\u00f5es afirmativas, tais como construir dispositivos que viabilizem an\u00e1lise pessoal e supervis\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o dos analistas cotistas. Foi criada uma Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o e A\u00e7\u00f5es Afirmativas para elaborar e viabilizar estas a\u00e7\u00f5es, que obteve a aprova\u00e7\u00e3o da Assembleia do final de 2022 para a cria\u00e7\u00e3o de um aux\u00edlio forma\u00e7\u00e3o para nossos cotistas.<\/p>\n<p>No tocante ao sofrimento ps\u00edquico da popula\u00e7\u00e3o negra provocado pelo racismo, temos que implementar pol\u00edticas efetivas de repara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m desde nosso saber. Temos que estar atentos, repensar nosso fazer e rever a teoria \u2013 pois o que era tratado anteriormente como falta de autoestima em pacientes negros ou pardos, em uma compreens\u00e3o leviana, hoje tem que ser entendido como sofrimento ps\u00edquico causado em negros e negras devido ao preconceito e \u00e0s discrimina\u00e7\u00f5es raciais: \u00e9 necess\u00e1rio legitimar esse sofrimento e \u00e9 neste sentido que dizemos que o diagn\u00f3stico tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtico. Se n\u00e3o houv\u00e9ssemos deslegitimado as falas destes indiv\u00edduos, nossa escuta poderia ter sido outra. Sabemos que este \u00e9 um come\u00e7o, que muito temos a aprender e que toda esta luta afeta tamb\u00e9m a psican\u00e1lise e a n\u00f3s como psicanalistas. Esta \u00e9 a psican\u00e1lise que queremos transmitir.<\/p>\n<p>Muito tem se estudado hoje em dia sobre estas quest\u00f5es e numerosos autores desenvolvem pesquisas nesta dire\u00e7\u00e3o. Os psicanalistas negros t\u00eam impulsionado para que este caminho seja feito. Diz Neusa Santos Souza em seu excelente livro <em>Tornar-se <\/em><em>negro <\/em>(p. 16): \u201cO racismo ronda sua exist\u00eancia na condi\u00e7\u00e3o de um fantasma desde o seu nascimento, ningu\u00e9m o v\u00ea, mas ele existe, embora presente na mem\u00f3ria social e atualizado atrav\u00e9s do preconceito e da discrimina\u00e7\u00e3o racial ele \u00e9 sistematicamente negado, se constituindo num problema social com efeitos dr\u00e1sticos sobre o indiv\u00edduo\u201d.<\/p>\n<p>Os tempos tamb\u00e9m nos levaram a pensar sobre o lugar diferente que ocupou a mulher ao longo da hist\u00f3ria, lugar que foi de submiss\u00e3o e de menos valia, e nos exigem uma compreens\u00e3o depurada de alguns artigos de Freud relativos ao conceito de pervers\u00e3o e ao car\u00e1ter perverso polimorfo da puls\u00e3o, assim como uma revis\u00e3o cr\u00edtica do conceito de falicidade, enquanto derivado causal de uma teoria patriarcalista que primava na \u00e9poca em que Freud elaborava suas teorias. Aprofundando na sua conceitualiza\u00e7\u00e3o, vemos a possibilidade de desligar o conceito de uma simples dualidade de g\u00eanero. Hoje em dia podemos tirar grande proveito das formula\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, por isto a necessidade de nos mantermos atentos ao estudo do que Freud nos ensina, trabalhando-o e pensando-o \u00e0 luz das mudan\u00e7as que a sociedade apresenta quanto \u00e0 diversidade sexual e \u00e0s numerosas formas pelas quais esta sexualidade se manifesta como formas de estar no mundo. Em s\u00edntese, n\u00e3o se trata de desqualificar o que a teoria nos oferece, se trata de conhec\u00ea-la com profundidade e de retrabalh\u00e1-la \u00e0 luz de novos aprendizados. Esta \u00e9 nossa tarefa.<\/p>\n<p>Quanto ao percurso dos conceitos abordados daremos um pequeno panorama de alguns eixos que permanecem como linhas mestras. Na \u00e9poca em que Freud elaborou o arcabou\u00e7o cient\u00edfico sobre o qual desenvolveria seu modelo metapsicol\u00f3gico, as ci\u00eancias estavam impregnadas pelos modelos da termodin\u00e2mica e pelos modelos deterministas de causa-efeito. Hoje os novos paradigmas cient\u00edficos nos permitem pensar de um modo diferente, oferecem-nos postulados que abrem novos modos de entender os fen\u00f4menos dos quais teremos que dar conta. A partir do s\u00e9culo XVI foram surgindo grandes transforma\u00e7\u00f5es nos processos de legitima\u00e7\u00e3o do conhecimento. As cis\u00f5es da Igreja e o advento do protestantismo ocorreram pela negativa de alguns grupos em aceitar que existisse uma \u00fanica leitura poss\u00edvel das escrituras. De uma subvers\u00e3o religiosa decorreu, naturalmente, uma subvers\u00e3o no campo social e da ci\u00eancia, a partir da qual n\u00e3o mais se pode falar de verdades \u00fanicas. Estas quest\u00f5es nos levam permanentemente a avaliar se interessa \u00e0 psican\u00e1lise se denominar como uma ci\u00eancia, ou se preferimos nos referir a ela como um saber que se formula atrav\u00e9s dos pr\u00f3prios enunciados, que correspondem a uma \u00e9tica.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Freud se questionou permanentemente sobre como se formula e se transmite a psican\u00e1lise. Hoje n\u00e3o interessa promover o conceito de univocidade como se procurava nos sistemas galileanos e newtonianos. At\u00e9 mesmo no campo das ci\u00eancias exatas, a pluralidade de hip\u00f3teses \u00e9 admitida. Dizia Poincar\u00e9 (1902) que a cren\u00e7a de que as verdades das ci\u00eancias duras s\u00e3o certezas s\u00f3 pode ser admitida numa mente ing\u00eanua. O m\u00e9todo cl\u00ednico, que \u00e9 o m\u00e9todo cient\u00edfico por excel\u00eancia no campo da psican\u00e1lise, guarda pouca conex\u00e3o com a ci\u00eancia \u201cfisicista\u201d do s\u00e9culo XIX. A verdade do paciente \u00e9 sempre conjectural. Inclusive no campo da medicina, podemos dizer que n\u00e3o h\u00e1 enfermidades, mas, sim, enfermos, partindo-se da impossibilidade de assumir qualquer tipo de certeza. Conservar a singularidade se faz fundamental na pesquisa psicanal\u00edtica. \u00c0 revolu\u00e7\u00e3o copernicana, que desloca a Terra do lugar de privil\u00e9gio, une-se a ferida narc\u00edsica que promove a psican\u00e1lise, ao reconhecer que a consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o elemento central que se deve analisar para entender as determina\u00e7\u00f5es que impulsionam os caminhos ps\u00edquicos do homem. Hoje em dia se faz necess\u00e1rio, portanto, repensar o modo como operavam na psican\u00e1lise os postulados cient\u00edficos da \u00e9poca, na forma como aparecem, por exemplo, na constru\u00e7\u00e3o do <em>Projeto para uma psicologia cient\u00ed<\/em><em>fica<\/em> (1895) que acompanha um modelo mais hipot\u00e9tico-dedutivo. Valeria incorporar novos modelos cient\u00edficos para pensar a psican\u00e1lise: a teoria do Caos, as teorias da complexidade, a teoria das estruturas dissipativas que t\u00eam como ponto de partida o n\u00e3o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>O programa de nosso curso foi pensado para um primeiro ano e logo adicionamos um segundo ano optativo, que aprofunda e amplia o visto no primeiro.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos pela Autobiografia, situamos Freud e sua \u00e9poca, falamos da Viena de 1890 e aproveitamos para nos situar no nosso momento atual, conforme exposto. No primeiro ano temos tr\u00eas eixos: o conceito de inconsciente; o conceito de puls\u00e3o e o estudo da sexualidade infantil como caminho a percorrer para compreender a forma\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Um primeiro pilar que nos permite manter nossa especificidade te\u00f3rica \u00e9, portanto, considerar a constru\u00e7\u00e3o do conceito de <em>Inconsciente <\/em>como espa\u00e7o estrangeiro, que deixa o sujeito \u00e0 merc\u00ea de um desconhecido de si. \u00c9 necess\u00e1rio considerar o deslocamento que faz a psican\u00e1lise, de uma concep\u00e7\u00e3o ptolomaica de um Eu possuidor da verdade ao recentramento do lugar do Inconsciente. Freud nos diz que \u00e9 a partir deste conceito que ele estrutura uma nova forma de conhecer e entender os fen\u00f4menos da alma. Para permitir que se apropriem deste conceito, fazemos um percurso que vai desde os trabalhos chamados pr\u00e9-psicanal\u00edticos, oferecendo a leitura fragment\u00e1ria de dois casos cl\u00ednicos para acompanhar o processo atrav\u00e9s do qual Freud se aproxima do conceito de inconsciente. Vamos assim, a partir de seu trabalho com as hist\u00e9ricas, abordando os primeiros estudos de sintomas que n\u00e3o tinham compreens\u00e3o exitosa no campo da medicina. Incluindo seus conhecimentos como neurologista, Freud descobre que alguns sintomas n\u00e3o correspondiam \u00e0s vias neurol\u00f3gicas que lhes dariam sentido na medicina. Assim, a partir dos casos cl\u00ednicos, ele estuda como \u00e9 poss\u00edvel ter um comprometimento motor ou neurol\u00f3gico que inexplicavelmente produzia dorm\u00eancia ou dor nas m\u00e3os, sem que se registrassem os mesmos sintomas na parte anterior do bra\u00e7o. Assim come\u00e7a a pensar que estes sintomas teriam outra origem que n\u00e3o relativa a uma doen\u00e7a org\u00e2nica.<\/p>\n<p>Ao acompanhar o caso de Elizabeth von R., que se encontra na passagem ao m\u00e9todo psicanal\u00edtico, fazemos uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 forma pela qual Freud vai fazendo suas descobertas. As no\u00e7\u00f5es de recalque, deslocamento, trauma, conflito e resist\u00eancia fazem suas primeiras apari\u00e7\u00f5es. Esbo\u00e7a-se a ideia de que existe uma temporalidade diferente na express\u00e3o de sintomas, enunciam-se os dois tempos do trauma e a ideia de ressignifica\u00e7\u00e3o ou posterioridade, que desenvolve no caso Emma, no qual relata a instaura\u00e7\u00e3o dos dois tempos do trauma. Introduzir o conceito de ressignifica\u00e7\u00e3o nos permite entender como alguns fatos ganham sentido a partir de uma concep\u00e7\u00e3o de temporalidade que \u00e9 pr\u00f3pria \u00e0 psican\u00e1lise. O conceito de <em>apr\u00e8<\/em><em>s-coup<\/em>, retomado e desenvolvido a partir do caso Emma, publicado no <em>Projeto para uma psicologia cient\u00edfica<\/em>, nos interessa fundamentalmente para mostrar como na psican\u00e1lise h\u00e1 um descentramento do sujeito e um tempo que n\u00e3o \u00e9 linear. A partir daqui retornamos \u00e0 leitura das <em>Cinco li\u00e7\u00f5<\/em><em>es de psican<\/em><em>\u00e1lise<\/em> que nos abrem o caminho para trabalhar o sentido simb\u00f3lico das produ\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas, parte das quais est\u00e3o ocultas ao pr\u00f3prio sujeito.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Abordamos assim a constru\u00e7\u00e3o do conceito de inconsciente, para depois mostrar, a partir da <em>Carta 69<\/em>, o fundante de realidade ps\u00edquica, na qual fantasia e realidade adquirem um relevo particular e produzem um giro importante na teoria. Mergulhamos na ideia de \u201cporque Freud n\u00e3o acredita mais na sua neur\u00f3tica\u201d.<\/p>\n<p>Outro elemento central para pensar a psican\u00e1lise \u00e9 o deslocamento que Freud produz nos <em>Tr\u00eas ensaios<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> (1905) ao demolir o preconceito de uma sexualidade pr\u00e9-orientada instintualmente no homem, em benef\u00edcio de uma <em>puls<\/em><em>\u00e3o<\/em> que s\u00f3 encontraria seu objeto de maneira totalmente aleat\u00f3ria na sua hist\u00f3ria individual, objeto esse essencialmente vicariante e contingente<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Essa substitui\u00e7\u00e3o tira o sujeito do campo da pura biologia e o constitui na sua pr\u00f3pria diferen\u00e7a, fora do determinismo biol\u00f3gico, a partir da valoriza\u00e7\u00e3o da fantasia e da linguagem. Abordamos aqui a diferen\u00e7a entre instinto e puls\u00e3o.<\/p>\n<p>O terceiro eixo central \u00e9 o que re-situa a <em>sexualidade infantil<\/em> como trilha pela qual transita a forma\u00e7\u00e3o da subjetividade. Estes dois \u00faltimos enfoques j\u00e1 come\u00e7am a ser vislumbrados nos casos cl\u00ednicos que Freud nos apresenta, mas s\u00e3o temas aprofundados no segundo ano de nosso curso, ao estudarmos a puls\u00e3o e a sexualidade infantil de forma central na forma\u00e7\u00e3o de sintomas.<\/p>\n<p>Neste primeiro ano trabalhamos ainda com o esquema da primeira t\u00f3pica, uma primeira formula\u00e7\u00e3o de Freud para abordar o sistema ps\u00edquico. O conceito de inconsciente que transmitimos se refere a esta conceitualiza\u00e7\u00e3o, com a qual apreendemos uma nova perspectiva de exist\u00eancia de um inconsciente, que difere da forma pela qual o inconsciente era percebido pela filosofia e pela psicologia da \u00e9poca. Este conceito sofre grandes modifica\u00e7\u00f5es na obra freudiana. A primeira t\u00f3pica \u00e9 formulada de uma forma mais completa no cap. VII de <em>A Interpreta<\/em><em>\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em> (1900) e vai se modificando visivelmente na obra at\u00e9 que Freud formula a segunda t\u00f3pica, que ser\u00e1 estudada no segundo ano do curso, introduzindo o tema do narcisismo a a segunda teoria pulsional. Estes esquemas pertencem ao que chamamos de <em>metapsicologia<\/em>. A metapsicologia elabora um conjunto de elementos conceituais, mais ou menos distantes da experi\u00eancia, e descreve processos ps\u00edquicos nas suas rela\u00e7\u00f5es din\u00e2micas, t\u00f3picas e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Trabalhando as <em>cartas 69 e 71<\/em> de Freud a Fliess, nos detemos nos conceitos de trauma e fantasia. O texto do <em>Bloco m\u00e1<\/em><em>gico<\/em> nos serve como uma preciosa descri\u00e7\u00e3o das inscri\u00e7\u00f5es inconscientes. Atrav\u00e9s das <em>Cinco li\u00e7\u00f5<\/em><em>es de psican<\/em><em>\u00e1lise<\/em> abordamos tamb\u00e9m as quest\u00f5es que diferenciam a forma pela qual um sintoma \u00e9 lido pela medicina e pela psican\u00e1lise. Elas s\u00e3o complementadas com trechos escolhidos de <em>Psicopatologia da vida cotidiana<\/em> (1901) e de <em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> (1900). Ao trabalharmos fundamentalmente o conceito de sintoma a partir da primeira t\u00f3pica, consideramos a coloca\u00e7\u00e3o freudiana de que \u201cnossos enfermos sofrem de reminisc\u00eancias\u201d e que os sintomas s\u00e3o restos e s\u00edmbolos mn\u00eamicos de certas viv\u00eancias traum\u00e1ticas, viv\u00eancias dolorosas \u00e0s quais os neur\u00f3ticos permanecem fixados, desenhando o conceito de neurose, que nos mostra que \u00e0s vezes os sujeitos se descuidam da realidade por conta destas viv\u00eancias recalcadas.<\/p>\n<p>O percurso te\u00f3rico vai sendo acompanhado por relatos de situa\u00e7\u00f5es que v\u00eam de outros campos de atua\u00e7\u00e3o profissional, assim como casos cl\u00ednicos tanto de Freud como dos pr\u00f3prios alunos ou introduzidos pelos professores para encarnar a teoria. Tamb\u00e9m os exemplos vindos de outras \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o de nossos alunos instigam, confrontam e p\u00f5em \u00e0 prova os conceitos, criando-se um clima de trabalho que nos p\u00f5e em contato com uma psican\u00e1lise ampliada. Recorrendo \u00e0s diversas elabora\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao sintoma, destaca-se que em todas estas viv\u00eancias estava em jogo o surgimento de uma mo\u00e7\u00e3o de desejo que se encontrava em aguda oposi\u00e7\u00e3o com os demais interesses do indiv\u00edduo, e que parecia ser inconcili\u00e1vel com as exig\u00eancias \u00e9ticas e est\u00e9ticas da personalidade deste sujeito. A partir do conflito sobrevive uma representa\u00e7\u00e3o que devia ser recalcada e esquecida. Ao adentrarmos toda a complexidade dos conceitos de <em>conflito<\/em> e de <em>sintoma<\/em>, desenvolvemos a teoria do recalque, destacando componentes como dissocia\u00e7\u00e3o, fixa\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o substitutiva, sobredetermina\u00e7\u00e3o e sexualidade infantil \u2013 conceito que, junto a puls\u00e3o, sexua\u00e7\u00e3o e sexualidade, ser\u00e1 a base do programa do segundo ano, no qual insistimos em situar os conceitos \u00e0 luz das problem\u00e1ticas da \u00e9poca, podendo repens\u00e1-las nas novas posi\u00e7\u00f5es que ocupa a mulher e a necessidade de sublinhar a ideia que a puls\u00e3o n\u00e3o tem um objeto fixo\u2026 com o qual se faz uma abertura \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Terminamos o programa de primeiro ano com as <em>Confer<\/em><em>\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 <\/em><em>psican<\/em><em>\u00e1lise<\/em>, de 1916-17, da confer\u00eancia 17 a 23, nas quais Freud nos introduz no sentido dos sintomas, desenvolvimento libidinal e organiza\u00e7\u00f5es sexuais e aprofunda os conceitos esbo\u00e7ados nas <em>Cinco li\u00e7\u00f5es<\/em>. No decorrer dos anos temos substitu\u00eddo ou adicionado alguns escritos, porque as diferentes turmas nos v\u00e3o conduzindo a aprofundar ou discutir certos temas. O programa tem uma espinha dorsal, mas cada professor vai complementando com elementos que decorrem da sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com a teoria e do grupo com o qual trabalha.<\/p>\n<p>No segundo ano o tema central \u00e9 a sexualidade infantil e o narcisismo como constitutivos da subjetividade, apresentados em seu jogo dial\u00e9tico. O destaque \u00e0 sexualidade tem como base a erogeneidade do corpo; n\u00e3o se trata de inscri\u00e7\u00f5es instintuais e sim da recoloca\u00e7\u00e3o da fonte da puls\u00e3o, inscrita a partir da presen\u00e7a da alteridade. Fundamental neste devir subjetivo, se coloca o narcisismo e se trabalha o complexo de \u00c9dipo numa releitura que permite rever conceitos \u00e0 luz dos movimentos da sociedade em nossos dias. O \u00c9dipo como triangula\u00e7\u00e3o independente dos g\u00eaneros dos progenitores nos abre ao estudo das novas identifica\u00e7\u00f5es, na distin\u00e7\u00e3o entre os conceitos de g\u00eanero e sexo.<\/p>\n<p>No desenlace dessas quest\u00f5es chegamos a uma primeira apresenta\u00e7\u00e3o da segunda t\u00f3pica do aparelho ps\u00edquico, com primeiras pinceladas sobre a constitui\u00e7\u00e3o do Supereu, como Ideal do Eu e Ju\u00edzo moral. Assim mergulhamos em cheio no papel do la\u00e7o social que permeia estas forma\u00e7\u00f5es. Tomamos a tarefa de estudar Freud no decorrer do curso e conhecer o que ele diz para, a partir disso, rever e redefinir novos usos conceituais da teoria em fun\u00e7\u00e3o do momento atravessado pela sociedade hoje. Isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a partir do letramento que n\u00f3s, professores, devemos fazer para romper preconceitos arraigados em nossa constitui\u00e7\u00e3o subjetiva. Como psicanalistas nos interessa rever aportes te\u00f3ricos tomando em considera\u00e7\u00e3o o racismo estrutural que nos atravessa e as novas generidades que constituem nosso mundo.<\/p>\n<p>Nossa escolha program\u00e1tica tem se mostrado muito afortunada, incita os alunos que j\u00e1 vinham com algum conhecimento a descobrir e fundamentalmente aprofundar conceitos cruciais para entender o complexo edif\u00edcio da teoria psicanal\u00edtica e suas liga\u00e7\u00f5es com a cl\u00ednica e, para os que n\u00e3o tinham um trajeto anterior, se apresenta como uma descoberta e um desafio que os convida \u00e0 leitura e lhes permite fazer v\u00ednculos com as tem\u00e1ticas que s\u00e3o de interesse na \u00e1rea espec\u00edfica de exerc\u00edcio profissional a que pertencem.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Originalmente apresentado no evento Entretantos 3, C\u00e1 entre n\u00f3s, realizado pelo Departamento de Psican\u00e1lise nos dias 29 e 30 de setembro de 2023 nas depend\u00eancias do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psican\u00e1lise e coordenadora do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma desde 1997.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> in <em>Novas confer\u00eancias introdut\u00f3rias<\/em>, 1932.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Freud, S. (1905) Tres ensayos de teor\u00eda sexual, <em>Obras completas<\/em>, Buenos Aires, Amorrortu, 1988, v. 7.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Laplanche, J. (1987). O inconsciente e o ello. <em>Problematicas 1<\/em>. Buenos Aires, Amorrortu, p. 117.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Freud, S. (1900) <em>Obras<\/em> <em>completas<\/em>, v. 4 \u2013 A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (Primeira parte).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Maria Sigal descreve os eixos norteadores da psican\u00e1lise transmitida em Conflito e Sintoma no contexto do Instituto Sedes, com suas marcas singulares e origin\u00e1rias. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[262],"tags":[53,181],"edicao":[263],"autor":[148],"class_list":["post-3167","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-conflito-e-sintoma","tag-conflito-e-sintoma","tag-entretantos","edicao-boletim-71","autor-ana-maria-sigal","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3167","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3167"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3167\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3168,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3167\/revisions\/3168"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3167"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3167"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3167"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3167"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3167"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}