{"id":3169,"date":"2024-06-15T15:13:35","date_gmt":"2024-06-15T18:13:35","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3169"},"modified":"2024-06-18T12:05:06","modified_gmt":"2024-06-18T15:05:06","slug":"desalienacao-transmissao-e-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/06\/15\/desalienacao-transmissao-e-psicanalise\/","title":{"rendered":"Desaliena\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Desaliena\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e psican\u00e1lise<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>Alessandra Sapoznik, Ana Maria Sigal, Christiana Freire, Daniela Danesi, Iso Ghertman, Luc\u00eda Barbero Fuks, Marta Azzolini, Natalia Gola, Noemi Moritz Kon, S\u00edlvia Nogueira de Carvalho, Soraia Bento<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nesta comunica<\/em>\u00e7\u00e3<em>o nos propomos pensar a transmiss<\/em>\u00e3<em>o da psicana\u0301lise como um processo de desaliena<\/em>\u00e7\u00e3<em>o sempre em dia\u0301logo com a obra freudiana, que coloca o sujeito diante de um lugar de questionamento sobre o pro\u0301prio saber. Esse saber, que n\u00e3o esta<\/em><em>\u0301 pronto e nem fechado, que n<\/em>\u00e3<em>o pertence a ningue\u0301m, e\u0301 <\/em><em>construi<\/em><em>\u0301do na experi<\/em>\u00ea<em>ncia do trabalho de grupo \u2013 marcado pela heterogeneidade e pelas singularidades de percurso.<\/em><\/p>\n<p><strong>Genealogia<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Aquilo que marca a nossa maneira de transmitir a psicana\u0301lise esta\u0301 atravessado por mu\u0301ltiplas dimens\u00f5es, pore\u0301m nos parece fundamental retomar uma breve genealogia que de\u0302 conta de resgatar quais s\u00e3o os tra\u00e7os de identifica\u00e7\u00e3o que possibilitaram que o curso Cli\u0301nica Psicanali\u0301tica: Conflito e Sintoma tenha as caracteri\u0301sticas que tem e esteja inserido neste Departamento. Dito de outra maneira, se faz necessa\u0301rio localizar quais s\u00e3o nossas coordenadas geogra\u0301ficas, qual e\u0301 nossa filia\u00e7\u00e3o poli\u0301tica. Filia\u00e7\u00e3o esta que possibilita uma forma particular de transmitir a psicana\u0301lise. A psicana\u0301lise, como saber que desaliena o sujeito e abre perspectivas de liberdade, toma parte dos saberes aqui transmitidos.<\/p>\n<p>A proposta do curso esta\u0301 referida \u00e0s poli\u0301ticas que estiveram presentes tanto na funda\u00e7\u00e3o do Instituto Sedes quanto do nosso Departamento e que seguem em vigor. A origem do Departamento de Psicana\u0301lise se da\u0301 a partir da conflu\u00eancia entre 4 fatores:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">a concep\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00e3o da Madre Cristina, que afirmou em uma entrevista que o Sedes \u201cn\u00e3o e\u0301 fundamentalmente uma escola\u201d, mas \u201cum espa\u00e7o poli\u0301tico para as pessoas que quiserem refletir e encontrar um novo modelo de sociedade\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">a abordagem cultural da psicana\u0301lise de Regina Schnaiderman<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, inserida nas grandes discuss\u00f5es filoso\u0301ficas e nos estudos litera\u0301rios, mas tambe\u0301m nas quest\u00f5es sociais e poli\u0301ticas e nas problema\u0301ticas do dia-a-dia;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">a chegada dos argentinos exilados da ditadura militar, que traziam consigo o referencial teo\u0301rico-poli\u0301tico de pra\u0301tica social, de uma &#8220;psicana\u0301lise militante e engajada&#8221;<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> \u2013 referencial apoiado na experi\u00eancia com trabalhos comunita\u0301rios<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">os profissionais da Sau\u0301de Mental que, empenhados em seus projetos, chegavam ao Sedes em busca de um contorno, um enquadre teo\u0301rico, te\u0301cnico e poli\u0301tico.<\/p>\n<p>Lugar certo, na hora certa! Histo\u0301ria, marca e viv\u00eancias, encontro com a alteridade, fazem parte da pro\u0301pria constitui\u00e7\u00e3o do sujeito e tambe\u0301m do espa\u00e7o que ocupamos como cidad\u00e3os<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>Ensinar psicanaliticamente em uma equipe de professores psicanalistas<\/strong><\/p>\n<p>Em seu livro <em>Por que a <\/em><em>p<\/em><em>sicana<\/em><em>\u0301<\/em><em>lise?<\/em>, Roudinesco nos lembra que \u201ca morte, as paix\u00f5es, a sexualidade, a loucura, o inconsciente e a rela\u00e7\u00e3o com o outro moldam a subjetividade\u201c e reitera ali a import\u00e2ncia de refletir sobre esse campo para sustentar &#8220;o avan\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o sobre a barba\u0301rie&#8221;. Aponta tambe\u0301m o poder transgressivo da psicana\u0301lise ao reconhecer os conflitos como inerentes ao campo do humano e diz que, com sua e\u0301tica, ela certamente pode contribuir para &#8220;a emancipa\u00e7\u00e3o das minorias oprimidas e para a inven\u00e7\u00e3o de novas formas de liberdade\u201d.<\/p>\n<p>Vemos assim o quanto a psicana\u0301lise e a poli\u0301tica esta\u0303o entrela\u00e7adas, pois e\u0301 nesse campo que a singularidade e o la\u00e7o com o outro s\u00e3o pensados como sustentadores da possibilidade de acolher as diferen\u00e7as e manter os la\u00e7os sociais.<\/p>\n<p>Na concep\u00e7\u00e3o psicanali\u0301tica temos um sujeito dividido, portador de um <em>pathos <\/em>singular, resultado de conflitos para os quais tece solu\u00e7\u00f5es sempre preca\u0301rias e parciais. Eternamente na corda bamba de um equili\u0301brio iluso\u0301rio, e\u0301 a partir dos seus passos em falso que se v\u00ea atravessado por um desconhecido em si: campo do enigma\u0301tico que pulsa incessantemente instigando-o a\u0300 cria\u00e7\u00e3o de sentidos possi\u0301veis, proviso\u0301rios e deslizantes.<\/p>\n<p>Certamente estudar psicana\u0301lise tambe\u0301m e\u0301 caminhar nessa corda bamba ou conforme uma aluna enunciou de forma bem humorada: \u201cse estudar psicana\u0301lise, n\u00e3o dirija!\u201d. Podemos tomar emprestado dela esse mote, brincando com a polissemia da palavra, para nos alertar: &#8220;Se transmitir psicana\u0301lise, n\u00e3o dirija!\u201d.<\/p>\n<p>No curso, a aposta na heterogeneidade de forma\u00e7\u00f5es profissionais de nossos alunos permite a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de reflex\u00e3o em que a diversidade e o olhar estrangeiro fazem o texto freudiano trabalhar a partir de sua pro\u0301pria lo\u0301gica interna, de suas contradi\u00e7\u00f5es e dos interrogantes que outros campos de saber fazem a\u0300 psicana\u0301lise.<\/p>\n<p>Quanto ao coordenador do grupo, trata-se de considerar a diferen\u00e7a de conhecimento existente entre ele e o aluno em rela\u00e7\u00e3o a esse objeto de estudo. Sabemos que essas situa\u00e7\u00f5es de assimetria constituem sempre rela\u00e7\u00f5es de alta voltagem em que um circuito transferencial se estabelece. Nesse circuito o risco do coordenador se identificar e ser identificado com o ideal de saber esta\u0301 sempre presente. Risco inevita\u0301vel pois instituinte de todo processo de constru\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n<p>Pensamos que e\u0301 nessa busca de um saber sempre idealmente depositado no outro que cada membro do grupo podera\u0301 realizar a passagem, ao longo do curso, da idealiza\u00e7\u00e3o de uma teoria fixa e acabada a ser apreendida para a possibilidade do exerci\u0301cio de uma liberdade de pensamento.<\/p>\n<p>Ainda que Freud n\u00e3o tenha sido contempor\u00e2neo do pensamento de Derrida, podemos dizer que sua escrita se valeu de uma metodologia de ana\u0301lise na qual a desconstru\u00e7\u00e3o se apresenta como ferramenta fundamental de abordagem. Nossa proposta de leitura nos semina\u0301rios se vale da mesma metodologia: opera desmontando e decompondo os elementos que o texto freudiano nos apresenta. Fazemos leituras possi\u0301veis, sem tomar alguma delas como a que seria necessariamente verdadeira ou considerar que transmitimos o correto. Trabalhamos desmembrando as estruturas de significados, para expor as premissas que est\u00e3o nelas contidas. O que lemos e\u0301 vivido sempre como algo incompleto e, a cada encontro, nos defrontamos com um conhecimento que desliza, que n\u00e3o se pode aprisionar nem estagnar, num gesto e\u0301tico-poli\u0301tico que se abre \u00e0 diversidade, cri\u0301tico a todo submetimento dogma\u0301tico.<\/p>\n<p>E\u0301 portanto na escolha da leitura do texto freudiano, portador de tais idas e vindas, retic\u00eancias, afirma\u00e7\u00f5es tempora\u0301rias, desconstru\u00e7\u00f5es, de seu me\u0301todo de fantasiar cientificamente<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>, que nos surpreendemos com um saber sempre aberto a novas significa\u00e7\u00f5es. Saber que se constro\u0301i na intersec\u00e7\u00e3o daquilo que pode ser pensado como universal permanentemente atravessado pelos avatares do histo\u0301rico-vivencial. Teoria que faz um movimento pendular entre a constitui\u00e7\u00e3o psi\u0301quica de cada um \u2013 apontando para o campo da singularidade \u2013 e as determina\u00e7\u00f5es do campo histo\u0301rico-social.<\/p>\n<p>A cada come\u00e7o de ano nos perguntamos: o que nos faz continuar a transmitir psicana\u0301lise a partir dos mesmos textos? De fato, cada um dos grupos realiza aproximadamente a mesma sequ\u00eancia de leituras. Mas cabe problematizar se e\u0301 o mesmo curso que eles realizam.<\/p>\n<p>Propomos pensar aqui a bibliografia comum usada nos grupos, ou seja, nosso roteiro de estudo desse recorte da obra freudiana, como o enquadre a partir do qual cada grupo vai desenvolver o seu percurso singular nesse encontro u\u0301nico que se da\u0301 entre o texto freudiano, esse grupo e esse coordenador. No modelo de semina\u0301rio, a palavra circula e se escutam polissemia e polissonia do texto: a produ\u00e7\u00e3o parte do esti\u0301mulo do texto, como o sonho se alimenta dos indi\u0301cios da realidade, para reordenar os elementos numa nova narrativa moldada pelo desejo do grupo. A produ\u00e7\u00e3o construi\u0301da no campo associativo abre espa\u00e7o para o imaginativo e cada grupo fabrica o seu sonho.<\/p>\n<p>Em seu livro <em>A tina<\/em>, Laplanche diz que o trabalho anali\u0301tico e\u0301 um trabalho de \u201cdesligamento e liga\u00e7\u00e3o, soltura e amarra\u00e7\u00e3o, decomposi\u00e7\u00e3o e recomposi\u00e7\u00e3o\u201d e cita essa bela meta\u0301fora retirada de um texto de Montaigne que poderia muito bem resumir a nossa ideia de transmiss\u00e3o: \u201cas abelhas sugam daqui e dali o po\u0301len das flores, com ele fazem o mel que e\u0301 todo delas, que n\u00e3o e\u0301 tomilho nem manjerona\u2026\u201d.<\/p>\n<p>E\u0301 a escuta dessas resson\u00e2ncias que permite ao coordenador n\u00e3o ocupar um lugar de mestria em que correria o risco de se fixar em uma posi\u00e7\u00e3o de um saber este\u0301ril, congelado e burocra\u0301tico. Nada mais contra\u0301rio ao pensamento freudiano, tanto em suas formula\u00e7\u00f5es teo\u0301ricas, quanto em seu me\u0301todo cli\u0301nico, em que encontramos a proposi\u00e7\u00e3o da psicana\u0301lise como um processo que se da\u0301 a partir do encontro do analista com o analisando, encontro que inaugura o objeto anali\u0301tico, que n\u00e3o pertence nem a um e nem ao outro e, sim, se constitui entre eles.<\/p>\n<p>Um entre que tambe\u0301m esta\u0301 referido a algo que esta\u0301 ausente (mas internalizado pelo analista) e que, justamente por essa aus\u00eancia, faz com que a dupla analista\/analisando n\u00e3o fique aprisionada numa fascina\u00e7\u00e3o imagina\u0301ria, ao permitir que se movam naquilo que Green denominou como o campo do tercia\u0301rio, campo de constru\u00e7\u00e3o dos processos simbo\u0301licos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, mais do que a busca de respostas fechadas, dogma\u0301ticas e conclusivas, a obra freudiana se mante\u0301m aberta a novas interroga\u00e7\u00f5es a partir do reconhecimento da complexidade de seu objeto de estudo.<\/p>\n<p>Pensamos a transmiss\u00e3o em psicana\u0301lise como a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o potencial em que a leitura do texto e o encontro das reflex\u00f5es surgidas no trabalho grupal estabelece um espa\u00e7o, tal qual a folha de papel no jogo dos rabiscos de Winnicott, que acolhe os tra\u00e7os de cada aluno, impulsionados pela transfer\u00eancia com o texto, com o coordenador e com os demais membros do grupo. Esses rabiscos s\u00e3o transformados pela escuta do coordenador \u2013 a partir de seu enquadre interno \u2013 e, por sua vez, s\u00e3o tambe\u0301m transformadores de seu entendimento da psicana\u0301lise ao lhe permitirem novos deslocamentos e elabora\u00e7\u00f5es em seu percurso teo\u0301rico-cli\u0301nico.<\/p>\n<p>Assim, como oportunidade para a reflex\u00e3o sobre nossos Cursos, tema bastante caro a todos que est\u00e3o envolvidos de alguma forma com o processo da transmiss\u00e3o, acompanhamos tambe\u0301m os desenvolvimentos propostos por Catherine Millot em seu livro <em>Freud antipedagogo<\/em>, a fim de lembrar que, assim como o analista, o coordenador n\u00e3o e\u0301 o li\u0301der do grupo \u2013 ainda que tais rela\u00e7\u00f5es tambe\u0301m se de\u0302em \u201csob a base do amor, favorecedora das constru\u00e7\u00f5es identificato\u0301rias\u201d. Posi\u00e7\u00e3o essa do ideal do eu que caberia problematizar, uma vez que a utiliza\u00e7\u00e3o do poder identificato\u0301rio poderia manter os alunos dependentes, fixados numa posi\u00e7\u00e3o infantil. Estariam os problemas e\u0301ticos, tanto no campo da transmiss\u00e3o, quanto no campo da cli\u0301nica, circunscritos a essa quest\u00e3o? O problema parece se estabelecer quando o suposto saber se transforma em saber suposto.<\/p>\n<p>O lugar de alto valor do professor, propiciador da constru\u00e7\u00e3o do grupo pelos processos identificato\u0301rios, poderia promover tanto um movimento de autonomia como o de aprisionamento, a depender da posi\u00e7\u00e3o tomada pelo professor e do grau de maleabilidade apresentado pelo grupo. Dai\u0301 a import\u00e2ncia da realiza\u00e7\u00e3o de um trabalho que se faz junto \u2013 em nossas reuni\u00f5es quinzenais, nos encontros semanais que antecedem nossas aulas, na vivaz comunica\u00e7\u00e3o digital de uma equipe de 12 participantes ativos em nosso Departamento.<\/p>\n<p><strong>Destinos de um percurso<\/strong><\/p>\n<p>Desde a cria\u00e7\u00e3o da Sociedade Psicolo\u0301gica das Quartas-Feiras, na aurora do se\u0301culo XX, Freud considerou que a psicana\u0301lise n\u00e3o seria propriedade de uma corpora\u00e7\u00e3o de praticantes. E\u0301 a\u0300 pulsa\u00e7\u00e3o de tal refer\u00eancia comum que Roudinesco e Derrida se voltaram no &#8220;Elogio da psicana\u0301lise&#8221; com o qual concluem o dia\u0301logo <em>De que amanha<\/em>\u0303<em>\u2026<\/em><\/p>\n<p>Ao afirmar seu apre\u00e7o pela express\u00e3o <em>amigo da psicana\u0301lise<\/em>, o filo\u0301sofo nos convida a pensar nas alian\u00e7as possi\u0301veis entre psicanalistas e outros participantes cri\u0301ticos da cultura, lembrando que os la\u00e7os de irreversi\u0301vel aprova\u00e7\u00e3o que constituem a amizade tambe\u0301m s\u00e3o marcados por reci\u0301procos questionamentos \u2013 por vezes radicais.<\/p>\n<p>Em Conflito e Sintoma, nossa atividade de transmiss\u00e3o inclui os conhecimentos histo\u0301ricos, poli\u0301ticos e arti\u0301sticos necessa\u0301rios para abordar o nascimento da psicana\u0301lise e contextualizar a obra freudiana em suas muta\u0301veis condi\u00e7\u00f5es so\u0301cio-culturais de exist\u00eancia. Mas tambe\u0301m para considerar o que subjaz de inegocia\u0301vel em nosso saber: o reconhecimento da centralidade do inconsciente e de suas forma\u00e7\u00f5es; a refer\u00eancia ao me\u0301todo que possibilita sua emerg\u00eancia por meio da associa\u00e7\u00e3o livre; o conceito de puls\u00e3o que busca objetos a partir das trilhas da sexualidade infantil, pelas quais transita a constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade; o valor dado a\u0300 transfer\u00eancia e a ana\u0301lise pessoal como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade para tornar-se psicanalista<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Como procuramos indicar ao longo desta comunica\u00e7\u00e3o, trata-se de considerar o trabalho do inconsciente em sala de aula \u2013 naquilo que e\u0301 desejo de saber mas tambe\u0301m desejo de n\u00e3o saber \u2013, assim como de sustentar a entrada transferencial do professor na economia psi\u0301quica dos sujeitos no grupo. Diante do desafio de se abrir para pensar, trata-se tambe\u0301m de nossa disposi\u00e7\u00e3o para manejar as dificuldades derivadas da dist\u00e2ncia entre as formas de pensar que a psicana\u0301lise prop\u00f5e e os pre\u0301-conceitos intelectuais, este\u0301ticos e morais de cada participante dessa aventura. Trata-se, por fim, de fazer funcionar a transmiss\u00e3o de um saber que, desde Freud, a rigor, n\u00e3o possui\u0301mos.<\/p>\n<p>Desta forma, ao longo de nossos 20 anos de curso, fizemos amigos que permaneceriam fora da perten\u00e7a institucional a\u0300 nossa associa\u00e7\u00e3o de analistas, mas em suas proximidades: educadores, operadores do direito, profissionais das artes e das comunica\u00e7\u00f5es, agentes da sau\u0301de que conosco aprenderam algo de psicana\u0301lise em si mesmos, na leitura de uma obra que incessantemente aponta para a subjetividade do leitor<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Dentre aqueles nos quais a posteriori nossa transmiss\u00e3o da teoria psicanali\u0301tica se consolidou como um momento de sua forma\u00e7\u00e3o em psicana\u0301lise, o vi\u0301nculo inaugurado com o Sedes e com o nosso Departamento por vezes adentrou o espa\u00e7o de supervisa\u0303o que e\u0301 oferecido por nossa equipe ao aprimoramento de profissionais na Cli\u0301nica Psicolo\u0301gica do Sedes e, de forma expressiva, derivou em boas participa\u00e7\u00f5es no Curso de Psicana\u0301lise e\/ou de Psicopatologia Psicanali\u0301tica e Cli\u0301nica Contempor\u00e2nea. S\u00e3o hoje, eventualmente, nossos colegas no Departamento.<\/p>\n<p>Em todos os casos, a escrita de pequenas monografias se constitui num destino elaborativo da experi\u00eancia partilhada, tanto ao final do 1o quanto do 2o ano do curso. Assim como o processo de sublima\u00e7\u00e3o se desenvolve lentamente no trabalho anali\u0301tico, o encontro de uma interpreta\u00e7\u00e3o pro\u0301pria para o percurso vivido e sua cria\u00e7\u00e3o discursiva requerem os tempos longos que s\u00e3o necessa\u0301rios ao encadeamento das impress\u00f5es colhidas. Se ent\u00e3o oferecemos aos nossos grupos um pouquinho mais do que eventualmente podem aproveitar num determinado momento, e\u0301 porque com Freud<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> sabemos que o narcisismo de cada um ajustara\u0301, abreviara\u0301 e simplificara\u0301 o que foi apresentado, dando forma a\u0300 parte que lhe couber recolher para guardar, em resposta pro\u0301pria aos seus ideais. E porque guardar uma coisa n\u00e3o e\u0301 esconde\u0302-la ou tranca\u0301-la, mas estar por ela ou ser por ela<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>, e\u0301 que seguimos apostando que nosso curso contribua politicamente aos necessa\u0301rios reinvestimentos desalienantes de nossas realidades educacionais, juri\u0301dicas, da sau\u0301de e das comunica\u00e7\u00f5es, particularmente no complexo contexto que a atualidade nos demanda viver. Pois, nas palavras do poeta Paulo Leminski:<\/p>\n<p>Haja hoje para tanto ontem<\/p>\n<p><strong>Refer\u00ea<\/strong><strong>ncias bibliogra<\/strong><strong>\u0301ficas:<\/strong><\/p>\n<p>BARBERO FUKS, L. A sublima\u00e7\u00e3o. Cadernos de Psican\u00e1lise \u2013 SPCRJ, v. 32, n. 1, p. 25-29, 2016.<\/p>\n<p>BERGER, E. E BENTO, S. Conflito e sintoma: uma abordagem da teoria psicanali\u0301tica. <em>Boletim online 71<\/em>, junho de 2024.<\/p>\n<p>CI\u0301CERO, A. Guardar In <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1B-skA5-Ad0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1B-skA5-Ad0<\/a><\/p>\n<p>DEPARTAMENTO DE PSICANA\u0301LISE DO INSTITUTO SEDES SAPIENTIAE. <em>Histo\u0301ria do Departamento de Psicana\u0301lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: Narrativa Um, 2006.<\/p>\n<p>DERRIDA, J. &amp; ROUDINESCO, E. <em>De que amanh<\/em>\u00e3<em>&#8230; dia\u0301logo<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.<\/p>\n<p>FREUD, S. (1916-1917). Confer\u00eancia 18: A fixa\u00e7\u00e3o no trauma, o inconsciente In <em>Confer<\/em>\u00ea<em>ncias introduto\u0301rias <\/em>\u00e0 <em>psicana<\/em><em>\u0301lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2014.<\/p>\n<p>GREEN, A. <em>Sobre a loucura pessoal<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, 1988.<\/p>\n<p>________. El pensamiento cli\u0301nico &#8211; Renovar los fundamentos de la te\u0301cnica: El enquadre externo y el enquadre interno. Entrevista apresentada no semina\u0301rio de Andre\u0301 Green, na SPP, em 6 de fevereiro de 2002.<\/p>\n<p>LAPLANCHE, J. <em>Problema<\/em><em>\u0301ticas V: A t<\/em><em>ina: a transcend<\/em>\u00ea<em>ncia da transfer<\/em>\u00ea<em>ncia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1993.<\/p>\n<p>LEMINSKI, P. <em>Toda poesia<\/em>. Sa\u0303o Paulo: Companhia das Letras, 2013.<\/p>\n<p>MILLOT, C. <em>Freud antipedagogo<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.<\/p>\n<p>MONZANI, L. R. <em>Freud: o movimento de um pensamento<\/em>. Campinas: Unicamp, 1989.<\/p>\n<p>PEETERS, Benoit. <em>Derrida<\/em>. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econo\u0301mica, 2013.<\/p>\n<p>ROUDINESCO, E. <em>Por que a psicana<\/em><em>\u0301<\/em><em>lise?<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 1999.<\/p>\n<p>SIGAL, A. M. Abertura da Aula inaugural do curso Cli\u0301nica Psicanali\u0301tica: Conflito e Sintoma In Boletim online \u2013 jornal digital de membros, alunos, ex-alunos e amigos do Departamento de Psicana\u0301lise. Edi\u00e7\u00e3o 37, abril de 2016. Disponi\u0301vel em http:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=37&amp;or dem=13<\/p>\n<p>___________ O Departamento de Psicana\u0301lise do Instituto Sedes Sapientiae e a forma\u00e7\u00e3o de psicanalistas. In <em>Escritos metapsicolo\u0301gicos e cli\u0301nicos. <\/em>S\u00e3o Paulo: Casa do Psico\u0301logo, 2009.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Originalmente apresentado no evento Entretantos 2: 30 anos de Psicana\u0301lise e Poli\u0301tica, do Departamento de Psicana\u0301lise do Instituto Sedes Sapientiae, outubro de 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalistas, membros do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrantes da equipe do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma quando da apresenta\u00e7\u00e3o deste trabalho em 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Departamento de Psicana\u0301lise do Instituto Sedes Sapientiae, 2006, p. 63.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Idem pp. 52-53.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Idem, p. 83.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Idem p. 80.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Sigal 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Para Monzani (1989), Freud desenvolve um me\u0301todo de fantasiar cientificamente.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Ana Sigal (2016) vem propondo pensar tais inegocia\u0301veis como pontos de ancoragem da permanente interlocu\u00e7\u00e3o no Movimento Articula\u00e7\u00e3o das Entidades Psicanali\u0301ticas Brasileiras.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Notamos, por exemplo, que o estudo da teoria psicanali\u0301tica por vezes dotou profissionais da educa\u00e7\u00e3o e do direito de uma escuta permea\u0301vel \u00e0 responsabilidade social nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Freud, 1916-1917.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> &#8220;Guardar&#8221;, Antonio Ci\u0301cero.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Breve genealogia da experi\u00eancia de uma forma particular de transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise. 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