{"id":3173,"date":"2024-06-15T15:20:07","date_gmt":"2024-06-15T18:20:07","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3173"},"modified":"2024-06-15T15:20:07","modified_gmt":"2024-06-15T18:20:07","slug":"a-sublimacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/06\/15\/a-sublimacao\/","title":{"rendered":"A sublima\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>A sublima\u00e7\u00e3o<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Luc\u00ed<\/strong><strong>a Barbero Fuks<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A sublima\u00e7\u00e3o <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>um processo postulado por Freud pelo qual se explicam as atividades humanas que n\u00e3o t\u00eam, aparentemente, nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a sexualidade, mas que encontram sua mola propulsora na puls\u00e3o sexual. \u00c9 a \u00fa<\/em><em>nica no<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o psicanal<\/em><em>\u00edtica que permite explicar que as obras criadas pelo homem \u2013 tais como as realiza\u00e7\u00f5<\/em><em>es art<\/em><em>\u00ed<\/em><em>sticas, cient<\/em><em>\u00edficas e incluso as esportivas, distantes de toda refer\u00ea<\/em><em>ncia <\/em><em>\u00e0 vida sexual \u2013 sejam produzidas por uma for\u00e7a ou energia sexual que surge de uma fonte sexual. Quando se coloca a sublima\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es como o que possibilita o trabalho anal\u00edtico, o que est\u00e1 em pauta <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>o aparecimento do sexual na transfer\u00eancia, e n\u00e3o sua suspens\u00e3o \u2013 pois o que est\u00e1 suspenso <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>a descarga direta. Al<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m disso, sublinhamos que aqui se apresenta o aspecto da sublima\u00e7\u00e3o que propicia uma cria\u00e7\u00e3o, tal como podemos conceber que seja o trabalho anal\u00ed<\/em><em>tico. <\/em><\/p>\n<p>A sublima\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo postulado por Freud pelo qual se explicam as atividades humanas que n\u00e3o t\u00eam, aparentemente, nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a sexualidade, mas que encontram sua mola propulsora na puls\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Ainda que tenha sido muitas vezes citada por ele \u2013 a sublima\u00e7\u00e3o aparece na obra freudiana desde as cartas a Fliess (1892-1899) at\u00e9 <em>O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, de 1930 \u2013, n\u00e3o se trata de um conceito plenamente elaborado, n\u00e3o havendo uma conceitua\u00e7\u00e3o abrangente e desenvolvida do processo sublimat\u00f3rio. Vale lembrar que corresponderia a um dos doze artigos que comporiam os \u201cPreliminares a uma metapsicologia\u201d que foram perdidos ou destru\u00eddos pelo pr\u00f3prio Freud.<\/p>\n<p>H\u00e1 momentos diferentes na teoriza\u00e7\u00e3o freudiana do processo sublimat\u00f3rio; num primeiro momento a sublima\u00e7\u00e3o se caracterizaria pela dessexualiza\u00e7\u00e3o pulsional, na qual haveria uma modifica\u00e7\u00e3o da meta da puls\u00e3o, de tal modo que os objetivos passariam de sexuais a n\u00e3o sexuais.<\/p>\n<p>Em um segundo momento, em <em>Puls<\/em><em>\u00f5es e destinos da puls\u00e3o <\/em>(1915\/1996), Freud define a sublima\u00e7\u00e3o como um dos quatro destinos pulsionais, que s\u00e3o: o recalque (sintoma neur\u00f3tico), a invers\u00e3o no contr\u00e1rio, o retorno sobre a pr\u00f3pria pessoa (fantasia) e a sublima\u00e7\u00e3o. Freud (1932\/1991) postulou que, dentre esses destinos, a sublima\u00e7\u00e3o seria o mais evolu\u00eddo; mais tarde afirmaria, na 32a das <em>Novas confer\u00eancias de introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 <\/em><em>psican<\/em><em>\u00e1lise<\/em>, Ang\u00fastia e vida pulsional, que paralelamente \u00e0 mudan\u00e7a da meta na sublima\u00e7\u00e3o haveria tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a nos objetos.<\/p>\n<p>A primeira postula\u00e7\u00e3o de Freud sobre a sublima\u00e7\u00e3o implica impasses no que diz respeito \u00e0 sua caracteriza\u00e7\u00e3o, enquanto as outras duas permitem uma abertura maior do conceito, tanto no que diz respeito \u00e0 metapsicologia quanto no que diz respeito \u00e0 cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Entende-se que a primeira formula\u00e7\u00e3o freudiana tem como objetivo mostrar que a sexualidade est\u00e1 na origem das cria\u00e7\u00f5es humanas \u2013 muito mais do que definir a sublima\u00e7\u00e3o em si mesma \u2013, enquanto as duas \u00faltimas pretendem explicar mais detidamente o processo sublimat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Quando Freud formula a sublima\u00e7\u00e3o como um destino pulsional e quando fala da mudan\u00e7a do objeto na mesma, est\u00e1 em pauta um outro entendimento em torno da no\u00e7\u00e3o de sexualidade, possibilitando uma caracteriza\u00e7\u00e3o mais detalhada do processo sublimat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A sublima\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00fanica no\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica que permite explicar que as obras criadas pelo homem \u2013 tais como as realiza\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, cient\u00edficas e incluso as esportivas, distantes de toda refer\u00eancia \u00e0 vida sexual \u2013 sejam produzidas por uma for\u00e7a ou energia sexual que surge de uma fonte sexual. Isso quer dizer que sua origem \u00e9 pulsionalmente sexual (puls\u00f5es parciais pr\u00e9-genitais: orais, anais, f\u00e1licas) e, no entanto, o produto desse processo \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o sexual, conforme aos ideais de \u00e9poca. Podemos dizer ent\u00e3o que a sublima\u00e7\u00e3o d\u00e1 conta da origem sexual do impulso criativo do homem. Permite transformar e elevar a energia das puls\u00f5es sexuais, que se convertem assim em uma for\u00e7a positiva e criativa.<\/p>\n<p>Para Freud, a sublima\u00e7\u00e3o teria duas formas de ser vista: como a express\u00e3o mais positiva, mais elaborada e socializada da puls\u00e3o, e tamb\u00e9m como uma via de defesa suscept\u00edvel de diminuir os excessos e os transbordamentos da vida pulsional. A sede de conhecimento est\u00e1 relacionada \u00e0 curiosidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade, como Freud (1908\/1992) o descobre em <em>Teorias sexuais infantis<\/em>. Ele assinala que as crian\u00e7as constroem teorias a respeito dos enigmas da sexualidade, sendo que o tema a que mais se dedicam \u00e9 a origem dos beb\u00eas. A partir de seu trabalho, sabemos ainda do papel que tem o per\u00edodo de lat\u00eancia na aquisi\u00e7\u00e3o da capacidade de sublimar.<\/p>\n<p>A sublima\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m teria uma fun\u00e7\u00e3o de defesa que atenua e transforma o car\u00e1ter insuport\u00e1vel das lembran\u00e7as sexuais que o sujeito quer ignorar. A puls\u00e3o, nesse caso, opera um deslocamento de uma representa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica inconsciente ligada a um desejo incestuoso para outra representa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica aceit\u00e1vel para a consci\u00eancia, ainda que produza sintomas e gere certo sofrimento.<\/p>\n<p>Quando se coloca a sublima\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es como o que possibilita o trabalho anal\u00edtico, o que est\u00e1 em pauta \u00e9 o aparecimento do sexual na transfer\u00eancia, e n\u00e3o sua suspens\u00e3o \u2013 pois o que est\u00e1 suspenso \u00e9 a descarga direta. Al\u00e9m disso, sublinhamos que aqui se apresenta o aspecto da sublima\u00e7\u00e3o que propicia uma cria\u00e7\u00e3o, tal como podemos conceber que seja o trabalho anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sublima\u00e7\u00e3o na transfer\u00eancia, que o v\u00ednculo amoroso de car\u00e1ter passional, depois de um primeiro momento de investimento libidinal de um objeto er\u00f3geno \u2013 neste caso, o psicanalista \u2013, se desenvolve como processo sublimat\u00f3rio t\u00e3o lentamente como um trabalho de luto ou como o trabalho de elabora\u00e7\u00e3o que implica, para o paciente, integrar em si a interpreta\u00e7\u00e3o feita pelo psicanalista.<\/p>\n<p>A sublima\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o na transfer\u00eancia, do luto frente a uma perda de objeto e a elabora\u00e7\u00e3o consecutiva ou posterior a uma interpreta\u00e7\u00e3o requerem muito tempo, o tempo indispens\u00e1vel para permitir que as representa\u00e7\u00f5es do pensamento inconsciente se encadeiem.<\/p>\n<p>Consideramos que a puls\u00e3o \u00e9 sublimada quando sua for\u00e7a \u00e9 desviada de sua primeira finalidade, que seria obter uma satisfa\u00e7\u00e3o sexual, para se p\u00f4r a servi\u00e7o de uma finalidade social \u2013 sendo esta art\u00edstica, intelectual ou moral. Precisa para isto de um objeto n\u00e3o sexual. Resumindo: a sublima\u00e7\u00e3o consiste em substituir o objeto e a finalidade sexual da puls\u00e3o por um objeto e uma finalidade n\u00e3o sexuais.<\/p>\n<p>Finalmente, podemos dizer: uma puls\u00e3o sublimada ser\u00e1 considerada <em>sexual <\/em>por sua origem e pela natureza de sua energia libidinal, e ser\u00e1 considerada <em>n\u00e3o sexual <\/em>se pensarmos no tipo de satisfa\u00e7\u00e3o obtida e no objeto que a satisfaz.<\/p>\n<p>Se considerarmos a curiosidade sexual infantil como express\u00e3o da puls\u00e3o <em>voyeurista<\/em>, e sua transforma\u00e7\u00e3o posterior em sede de saber, teremos uma ideia desta substitui\u00e7\u00e3o de uma finalidade sexual por outra dessexualizada.<\/p>\n<p>A sublima\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o <em>voyeur<\/em><em>\u00ed<\/em><em>stica <\/em>consiste na passagem de uma satisfa\u00e7\u00e3o er\u00f3tica e parcial ligada a um objeto er\u00f3tico local (os genitais) por outra satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o sexual, mas igualmente parcial, ligada a um objeto mais global e dessexualizado (o corpo inteiro como objeto de conhecimento cient\u00edfico).<\/p>\n<p>A sublima\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria uma satisfa\u00e7\u00e3o, e sim a capacidade pl\u00e1stica da puls\u00e3o de mudar o objeto e achar novas satisfa\u00e7\u00f5es. Essa outra for\u00e7a, a de conhecer e produzir, \u00e9 a que leva o artista a realizar sua obra. A sublima\u00e7\u00e3o requer a interven\u00e7\u00e3o do eu narcisista para se produzir: primeiro o eu retira a libido do objeto sexual, depois retorna sobre si mesmo, e finalmente designa a esta libido um novo fim, n\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>O ideal do eu inicia e orienta a sublima\u00e7\u00e3o; esta n\u00e3o poderia acontecer intrapsiquicamente sem o suporte dos ideais simb\u00f3licos e dos valores sociais da \u00e9poca. Os objetos que facilitam a satisfa\u00e7\u00e3o sublimada s\u00e3o objetos dessexualizados e sociais, quer dizer, que respondem a ideais sociais que exaltam a cria\u00e7\u00e3o de novas formas significantes. O ideal do eu seria o desencadeante do processo, com a particularidade de que, uma vez iniciado o movimento de sublima\u00e7\u00e3o, o impulso criador da obra se separa do ideal do eu, que o tinha estimulado no come\u00e7o. O elemento que imp\u00f5e esse desvio, portanto, n\u00e3o \u00e9 a censura que leva ao recalque, sen\u00e3o o ideal do eu que exalta, guia e d\u00e1 marco \u00e0 capacidade pl\u00e1stica da puls\u00e3o. Trata-se de imagens e de formas significantes, delineadas na forma da imagem inconsciente de nosso corpo, ou, melhor, de nosso eu inconsciente narcisista. Essas obras produzem efeitos inconscientes no espectador, fascina\u00e7\u00e3o frente \u00e0 representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica e desejo de identifica\u00e7\u00e3o com o criador da obra.<\/p>\n<p>O objeto imagin\u00e1rio e narcisista \u00e9 o resultado da condensa\u00e7\u00e3o de tr\u00eas elementos: for\u00e7a pulsional, narcisismo do criador e forma acabada da obra, que produzem o impacto e a emo\u00e7\u00e3o intensa no espectador.<\/p>\n<p>O conceito de narcisismo reaparece em <em>Leonardo<\/em>, referido \u00e0 escolha narcisista de objeto nos homossexuais. Nesse tipo de escolha o menino n\u00e3o abandona o v\u00ednculo inicial com a m\u00e3e. Ao inv\u00e9s disso, identifica-se com ela e escolhe, como objeto de amor, jovens que o representam.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais <\/strong><\/p>\n<p>A sublima\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 para Freud uma mera express\u00e3o do conflito, mas sim um triunfo em oposi\u00e7\u00e3o aos renovados fracassos nos neur\u00f3ticos, j\u00e1 que as mesmas problem\u00e1ticas que o conduzem a um empobrecimento libidinal e narc\u00edsico o levam a ser capaz de obter sublima\u00e7\u00f5es, a transformar suas necessidades singulares em finalidades originais e a transformar suas fraquezas em for\u00e7as.<\/p>\n<p>A capacidade de transformar a viv\u00eancia interior em algo represent\u00e1vel e transmiss\u00edvel \u00e9 o que diferencia a transmiss\u00e3o cient\u00edfica ou art\u00edstica da produ\u00e7\u00e3o de sintomas. A cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 uma forma de retorno do recalcado e, em fun\u00e7\u00e3o disso, produz efeitos. O dialeto da arte, diferentemente da in\u00e9rcia do sintoma, \u00e9 comunic\u00e1vel em sentido amplo.<\/p>\n<p>Na sublima\u00e7\u00e3o a obra \u00e9 necess\u00e1ria, \u00e9 a possibilidade de responder aos ideais. O sofrimento do criador \u00e9 a express\u00e3o de uma grande tens\u00e3o determinada por um ideal de eu exigente.<\/p>\n<p>O processo de sublima\u00e7\u00e3o permite ao sujeito autoinvestir-se e reinvestir a realidade. H\u00e1 um esfor\u00e7o de representar o irrepresent\u00e1vel. Diferencia-se das atividades chamadas adaptativas, por sua dimens\u00e3o transgressiva e pelo compromisso subjetivo. Pode opor-se ao discurso social, e transformar-se em algo apenas comunic\u00e1vel em um tempo futuro.<\/p>\n<p>A sublima\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma coloca\u00e7\u00e3o em cena da fantasia, mas sim uma reelabora\u00e7\u00e3o desta. Nesse sentido, Freud assinalava que os criadores tentavam recuperar algo do recalcado, tanto pr\u00f3prio quanto coletivo.<\/p>\n<p>O estudo freudiano enfatiza a recria\u00e7\u00e3o do objeto perdido, ou uma representa\u00e7\u00e3o de uma realiza\u00e7\u00e3o de desejo vinculada a uma supera\u00e7\u00e3o da infelicidade da vida afetiva do artista. Se o trabalho criativo de um artista \u00e9 uma deriva\u00e7\u00e3o de seus desejos sexuais, podemos observar duas deriva\u00e7\u00f5es: a primeira se reporta \u00e0s fixa\u00e7\u00f5es edipianas \u2013 \u00e9, em <em>Leonardo<\/em>, a escolha objetal narc\u00edsica posterior, vinculada \u00e0 homossexualidade plat\u00f4nica que daria sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 sua atividade art\u00edstica; a segunda \u00e9 articulada \u00e0 sede de saber, fruto da transforma\u00e7\u00e3o da libido edipiana, explicitamente nomeada por Freud como sublima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os processos criativos dos sujeitos motivados por seu ideal de eu a criar sem a sublima\u00e7\u00e3o correspondente de suas puls\u00f5es n\u00e3o diferem quanto aos fins perseguidos. Em todos os casos, o ato criador \u00e9 promovido pelo desejo narcisista de recuperar a plenitude perdida e, por isso, tamb\u00e9m representa um meio de alcan\u00e7ar o reencontro do eu com seu ideal.<\/p>\n<p>As identifica\u00e7\u00f5es ed\u00edpicas e a instaura\u00e7\u00e3o do supereu ter\u00e3o um importante papel no processo de sublima\u00e7\u00e3o, e, em consequ\u00eancia, da cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe um grande homem \u2013 artista, cientista, escritor ou pensador \u2013 que n\u00e3o tenha tido modelos, mestres, figuras marcantes na sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Laplanche, ter\u00edamos que pensar na rela\u00e7\u00e3o <em>cria\u00e7\u00e3o \u2013 <\/em><em>pervers<\/em><em>\u00e3o<\/em>, dado que Freud insistiu que o que \u00e9 essencialmente sublimado s\u00e3o as tend\u00eancias perversas polimorfas agindo cada uma por sua pr\u00f3pria conta, ou seja, as chamadas tend\u00eancias pr\u00e9-genitais e n\u00e3o a sexualidade genital. Tamb\u00e9m, segundo esse autor, \u201cse for admitida a hip\u00f3tese de que a sublima\u00e7\u00e3o acompanha desde sua origem o nascimento da puls\u00e3o sexual, apresenta-se-nos como ligada ao pr\u00f3prio movimento de sedu\u00e7\u00e3o que caracteriza a neog\u00eanese da sexualidade, isto \u00e9, ao que nos vemos for\u00e7ados a denominar um desvio da autoconserva\u00e7\u00e3o\u201d (1989, p. 93).<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um segundo aspecto \u2013 e a\u00ed est\u00e1, talvez, o pr\u00f3prio paradoxo da pervers\u00e3o, a qual ora \u00e9 entendida no sentido da pervers\u00e3o infantil polimorfa, ora \u00e9 tomada na acep\u00e7\u00e3o de uma verdadeira elabora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia do complexo de \u00c9dipo e do complexo de castra\u00e7\u00e3o, nas pervers\u00f5es adultas: Freud n\u00e3o deixa de assinalar o v\u00ednculo existente entre certas atividades sublimadas e a pervers\u00e3o, tomada no sentido de estrutura psicopatol\u00f3gica diferenciada.<\/p>\n<p>Por exemplo, sobre a rela\u00e7\u00e3o de <em>Leonardo <\/em>com a homossexualidade, h\u00e1 algo a pensar como transposto quase diretamente para sua pintura, quando se considera o quadro <em>A Virgem e o Menino com Santa Ana <\/em>(1508-1513).<\/p>\n<p>Para concluir, se se fala do primado genital como forma de organiza\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es parciais nesta esp\u00e9cie de unidade que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o sexual adulta, se poderia tamb\u00e9m dizer que a atividade sublimada \u00e9 uma esp\u00e9cie de substituto do primado genital, um modo tamb\u00e9m de organizar as atividades pr\u00e9-genitais sob uma esp\u00e9cie de primado \u2013 o de uma obra, um trabalho ou um resultado a obter?<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p>FREUD, S. Nuevas conferencias de introducci\u00f3n al psicoan\u00e1lisis (1932). In: ______. <em>Sigmund Freud Obras Completas. <\/em>Buenos Aires: Amorrortu, 1991. v. XXII, p. 1-168.<\/p>\n<p>FREUD, S. Personajes psicop\u00e1ticos en el escen\u00e1rio (1905). In: ______. <em>Sigmund Freud Obras Completas. <\/em>Buenos Aires: Amorrortu, 1992. v. XII, p. 273-282.<\/p>\n<p>FREUD, S. Sobre las teor\u00edas sexuales infantiles (1908). In: ______. <em>Sigmund Freud Obras Completas. <\/em>Buenos Aires: Amorrortu, 1992. v. XIX, p. 183-202.<\/p>\n<p>FREUD, S. Um recuerdo infantil de Leonardo da Vinci (1910). In: ______. <em>Sigmund Freud Obras Completas. <\/em>Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v. XI, p. 53-128.<\/p>\n<p>FREUD, S. Pulsiones y destinos de pulsi\u00f3n (1915). In: ______. <em>Sigmund Freud Obras Completas. <\/em>Buenos Aires: Amorrortu, 1996. v. XIV, p. 113-134.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Originalmente publicado em Cadernos de Psican\u00e1lise \u2013 SPCRJ, v. 32, n. 1, p. 25-29, 2016.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psican\u00e1lise. Foi co-coordenadora do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma entre os anos 1997 e 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Luc\u00eda Barbero Fuks desenvolve um aspecto de suas aulas coletivas sobre as puls\u00f5es, seus destinos e possibilidades de transmuta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[109],"tags":[53,128],"edicao":[263],"autor":[274],"class_list":["post-3173","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-homenagem","tag-conflito-e-sintoma","tag-homenagem","edicao-boletim-71","autor-lucia-barbero-fuks","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3173"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3173\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3174,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3173\/revisions\/3174"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3173"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3173"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}