{"id":3179,"date":"2024-06-15T15:34:40","date_gmt":"2024-06-15T18:34:40","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3179"},"modified":"2024-06-17T15:08:13","modified_gmt":"2024-06-17T18:08:13","slug":"a-psicanalise-diante-da-violencia-notas-para-um-debate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/06\/15\/a-psicanalise-diante-da-violencia-notas-para-um-debate\/","title":{"rendered":"A psican\u00e1lise diante da viol\u00eancia: notas para um debate"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>A p<\/strong><strong>sican<\/strong><strong>\u00e1lise diante da viol\u00eancia: notas para um debate<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>Renato Mezan<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bom dia a todos. Gostaria de come\u00e7ar agradecendo ao Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae a indica\u00e7\u00e3o para o representar na mesa plen\u00e1ria \u201cTransforma\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-culturais\u201d, e aos organizadores do Congresso pela compreens\u00e3o com a demora &#8211; por motivos alheios \u00e0 minha vontade &#8211; em enviar as notas que vou submeter \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de voc\u00eas.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>No belo texto que apresentou ao Congresso de 2021, nossa colega Silvia Alonso se referiu \u00e0 viol\u00eancia de que s\u00e3o objeto as mulheres, tanto em pa\u00edses distantes, como o Afeganist\u00e3o dominado pelo Taleban, quanto no Brasil e na Am\u00e9rica Latina, \u201conde as mortes por feminic\u00eddio &#8211; uma verdadeira epidemia &#8211; n\u00e3o param de crescer.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Transcorridos dois anos, a observa\u00e7\u00e3o continua v\u00e1lida, e nos incita a refletir sobre as raz\u00f5es da sua sinistra atualidade.<\/p>\n<p>Partiremos de uma evid\u00eancia: as agress\u00f5es contra mulheres fazem parte de toda uma s\u00e9rie de atos violentos, que assumem m\u00faltiplas formas e visam diferentes setores da popula\u00e7\u00e3o. H\u00e1, portanto, que levar em conta os <em>tipos<\/em> e os <em>alvos<\/em> deles. Por outro lado, deve haver algum elemento presente em todas essas a\u00e7\u00f5es, que permita consider\u00e1-las como esp\u00e9cies de um mesmo g\u00eanero &#8211; <em>a <\/em>viol\u00eancia &#8211; pass\u00edvel de ser apreendido na forma de um conceito. Essa apreens\u00e3o n\u00e3o eliminar\u00e1 as diferen\u00e7as entre as variedades do fen\u00f4meno; apenas abrir\u00e1 caminho para tentarmos compreender, com o aux\u00edlio das nossas categorias psicanal\u00edticas, a quais aspectos da mente humana elas correspondem.<\/p>\n<p>Assim, organizei essa comunica\u00e7\u00e3o em torno de dois eixos: um factual, e outro conceitual. Metodologicamente, o primeiro \u00e9 indispens\u00e1vel para dispormos de um conjunto de dados compartilhados, capazes de servir como apoio para as hip\u00f3teses que viermos a construir sobre o tema em pauta. As informa\u00e7\u00f5es a seguir foram coletadas nas \u00faltimas semanas em jornais brasileiros, e obviamente n\u00e3o teriam como ser exaustivas. T\u00eam apenas a vantagem de ser recentes, e de provir de fontes respeitadas, como o instituto de pesquisas Datafolha e o <em>Anu\u00e1rio<\/em> do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p>Em seguida, o que surgir do estudo desses dados ser\u00e1 discutido com o aux\u00edlio de mat\u00e9rias publicadas na revista <em>Percurs<\/em>o sobre viol\u00eancias de v\u00e1rios tipos &#8211; de g\u00eanero, raciais, simb\u00f3licas, emocionais, jur\u00eddicas, pol\u00edticas, nas rela\u00e7\u00f5es pessoais &#8211; e de alguns outros textos, dos quais destaco um cl\u00e1ssico da literatura psicanal\u00edtica em portugu\u00eas, que desde j\u00e1 recomendo \u00e0 leitura de todos: <em>Viol\u00eancia e p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1lise<\/em>, de Jurandir Freire Costa<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p><strong>I. A naturaliza\u00e7\u00e3o da brutalidade: fatos<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Vamos a uma amostra do que se p\u00f4de ler na imprensa paulistana nos \u00faltimos tempos:<\/p>\n<p>1. \u201c<em>Viol\u00eancia se torna a maior preocupa\u00e7\u00e3o na cidade de S\u00e3o Paulo<\/em>\u201d (<em>FSP<\/em>, 03.09.23)<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>: segundo uma pesquisa do Datafolha, pela primeira vez desde 2011 ela supera o atendimento m\u00e9dico nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas como o maior problema na principal cidade do Brasil (22% dos entrevistados opinam assim, e 16% colocam a sa\u00fade no topo da lista, ante propor\u00e7\u00f5es aproximadamente inversas na consulta anterior, de 2021). O motivo \u00e9 a quantidade de roubos cometidos no centro da capital, h\u00e1 anos invadido por pessoas viciadas em drogas (a \u201cCracol\u00e2ndia\u201d, assim chamada por consumirem sobretudo <em>crack<\/em>), sem que as autoridades consigam oferecer solu\u00e7\u00f5es para essa situa\u00e7\u00e3o, calamitosa tanto para os desabrigados quanto para quem vive ou trabalha nas \u00e1reas em que eles acampam. \u00c9 o que ressalta na not\u00edcia a seguir:<\/p>\n<p>2. \u201c<em>S<\/em><em>\u00e9 <\/em><em>e Campos El\u00edsios, no centro de S\u00e3o Paulo, t\u00eam recorde de roubos<\/em>\u201d (<em>FSP<\/em>, 30.08.23): dados oficiais das respectivas delegacias informam que, somados os registros desses dois bairros, de janeiro a julho deste ano ocorreram 7.300 roubos (assaltos \u00e0 m\u00e3o armada e com amea\u00e7a de viol\u00eancia f\u00edsica) e 14.100 furtos (espantosamente descritos como \u201csem viol\u00eancia\u201d, porque o ladr\u00e3o simplesmente agarra o que pretende levar &#8211; bolsa, colar, sacola, pacote, telefone celular etc. &#8211; e foge sem machucar quem o portava \u00e0 vista). Como consequ\u00eancia, na mesma p\u00e1gina do jornal lemos que \u201cViol\u00eancia e Cracol\u00e2ndia fazem motoristas de \u00f4nibus desistirem de linhas na regi\u00e3o central\u201d (<em>FSP<\/em>, 30.08.23). Ataques com paus e pedras contra os ve\u00edculos que dirigiam levaram os condutores a apelidar a regi\u00e3o de \u201cFaixa de Gaza\u201d, com o que certamente concordariam lojistas cujos estabelecimentos foram saqueados por usu\u00e1rios em busca de artigos para vender, para com o dinheiro assim obtido adquirir pedras de <em>crack<\/em>.<\/p>\n<p>3. \u201c<em>Celulares roubados ou furtados chegaram a quase 1 milh\u00e3o em 2022<\/em>\u201d (<em>OESP,<\/em> 21.07.23): o dado se refere ao pa\u00eds como um todo, mas n\u00e3o deixa de ser impressionante. Foram precisamente 999.223, que divididos por 365 representam 2.738 aparelhos a cada dia, ou dois em cada um dos 1440 minutos entre um nascer do sol e o seguinte). Nos \u00faltimos meses, tornou-se comum ver assaltantes batendo no vidro de carros presos em congestionamentos, apontando uma arma e exigindo que lhes sejam entregues os celulares dos ocupantes. Outros se instalam num dos muitos viadutos da cidade para atirar pedras sobre os autom\u00f3veis que passam na avenida embaixo deles. Alarmado, o motorista estaciona para ver o que aconteceu; comparsas dos meliantes se aproximam, procedem ao assalto e desaparecem como por encanto.<br \/>\nE por que o celular \u00e9 o objeto mais visado neste tipo de crime? Se at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s o destino dele era ser desmontado e ter seus componentes utilizados no reparo de outro aparelho, o enorme incremento no uso de plataformas digitais para todo tipo de atividade durante a pandemia do Covid-19 fez surgir uma modalidade in\u00e9dita de trapa\u00e7a: os golpes financeiros pela internet.<\/p>\n<p>4. \u201c<em>Golpe virtual leva a 1,8 milh\u00e3o de estelionatos no Pa\u00eds em um ano<\/em>\u201d (<em>OESP<\/em>, 21.07.23): dados do <em>Anu\u00e1rio <\/em>de 2022 do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica revelam um aumento de 38% neste g\u00eanero de golpe frente aos j\u00e1 escandalosos n\u00fameros de 2021. Duzentos mil deles foram aplicados via internet, para o que contribuiu muito o surgimento de uma nova maneira de efetuar pagamentos e transfer\u00eancias de dinheiro, o <em>Pix<\/em>, que os realiza gratuita e instantaneamente da conta banc\u00e1ria de quem envia para a conta de quem recebe. Com o celular roubado, o fals\u00e1rio se faz passar por algu\u00e9m conhecido da v\u00edtima, embolsa o valor transferido e desaparece nas sombras. O alvo preferencial desse tipo de delinquente s\u00e3o pessoas sem grande familiaridade com o mundo digital, tipicamente idosos e aposentados. \u201cEstes delitos s\u00e3o mais seguros para os bandidos, porque n\u00e3o precisam envolver viol\u00eancia\u201d, dizem os especialistas citados no artigo.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Delitos contra o patrim\u00f4nio, como os mencionados at\u00e9 aqui, podem parecer irrelevantes se comparados aos que levam \u00e0 morte da v\u00edtima, mas sem d\u00favida contribuem mais do que estes para a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a generalizada que se observa no Brasil, porque atingem um n\u00famero bem maior de pessoas. Muitos de n\u00f3s j\u00e1 os sofremos pessoalmente, ou conhecemos algu\u00e9m que foi alvo de um deles, e nem sempre saiu fisicamente ileso. Outra raz\u00e3o para sentir raiva e impot\u00eancia frente ao roubo do celular \u00e9 o fato de que cada vez mais dependemos deste aparelho, no qual, no dizer de um especialista do F\u00f3rum, \u201cest\u00e1 a vida toda da pessoa\u201d &#8211; contatos, registros financeiros, arquivos de fotos afetivamente importantes, mensagens que por este ou aquele motivo devam ser conservadas, etc. Um terceiro incentivo para que este sentimento t\u00e3o difundido nos invada aparece no recorte a seguir:<\/p>\n<p>5. \u201c<em>Pol\u00edcia envelhecida n\u00e3o resolve crimes modernos<\/em>\u201d (<em>OESP<\/em>, 21.07.23): a pol\u00edcia no Brasil se diz no plural: temos a Pol\u00edcia Federal (equivalente ao FBI americano) e 54 corpora\u00e7\u00f5es, duas para cada Estado da Federa\u00e7\u00e3o. A conhecida inefici\u00eancia dessas \u00faltimas em resolver uma propor\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel de crimes, quer contra a propriedade ou contra a vida, vem de longa data e tem motivos dif\u00edceis de erradicar. O primeiro deles surge da divis\u00e3o entre uma Pol\u00edcia Militar, encarregada das rondas ostensivas e da captura de criminosos, e uma Pol\u00edcia Civil, que investiga usando elementos de intelig\u00eancia. Al\u00e9m da rivalidade entre elas, o pessoal de ambas \u00e9 cronicamente deficit\u00e1rio, os recursos s\u00e3o poucos e mal alocados, e os governos \u201cinvestem mais em pol\u00edticas de patrulhamento, quando o que precisamos \u00e9 moderniza\u00e7\u00e3o na mentalidade e na forma de fazer a gest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica. Sem isso, os crimes da internet n\u00e3o ser\u00e3o resolvidos\u201d, diz o especialista citado acima.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Infelizmente, a frase se aplica tamb\u00e9m a assassinatos em geral, assim como aos estupros. Em 2022, os primeiros somaram 47.508 em todo o Brasil, o que significa 130 mortes violentas em cada dia do ano. A taxa por 100.000 habitantes (m\u00e9trica usual nestes casos) \u00e9 de 23,4, mas este valor est\u00e1 longe de ser semelhante nas v\u00e1rias regi\u00f5es de um pa\u00eds continental como o Brasil. Para ele contribuem de modo decisivo as mortes causadas pela Pol\u00edcia Militar, particularmente na Bahia e no Rio de Janeiro. N\u00e3o por acaso, estes s\u00e3o os estados em que a propor\u00e7\u00e3o de crimes solucionados \u00e9 mais p\u00edfia: \u201cL\u00edder em homic\u00eddios, Bahia resolve apenas 17% dos casos\u201d (<em>FSP<\/em>, 07.09.23). Em 2022, os policiais da \u201cboa terra\u201d mataram nada menos que 1.464 civis, e os do Rio de Janeiro n\u00e3o ficaram muito atr\u00e1s, superando por\u00e9m seus colegas baianos na incompet\u00eancia das investiga\u00e7\u00f5es (somente 11% de casos foram solucionados, mostra uma tabela na mesma p\u00e1gina do jornal).<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O Estado de S\u00e3o Paulo, que at\u00e9 recentemente vinha mostrando \u00edndices razo\u00e1veis tanto na quantidade de mortes violentas (3.735 para 44 milh\u00f5es de habitantes, ou 8,4 por 100.000) quanto na propor\u00e7\u00e3o de casos elucidados (60%), deu recentemente um exemplo de barb\u00e1rie como n\u00e3o se via h\u00e1 mais de trinta anos. Em rea\u00e7\u00e3o \u00e0 morte em servi\u00e7o de um policial militar, iniciou-se uma \u201copera\u00e7\u00e3o\u201d no litoral paulista que em um m\u00eas matou 28 civis, muitos dos quais, ao que tudo indica, sem rela\u00e7\u00e3o com o alvo declarado da interven\u00e7\u00e3o, a saber a organiza\u00e7\u00e3o criminosa que ali controla o tr\u00e1fico de drogas. Den\u00fancias de crueldade desnecess\u00e1ria, de execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias e de torturas levaram \u00e0 demiss\u00e3o do comandante do batalh\u00e3o, cujos soldados (com algumas poucas exce\u00e7\u00f5es) n\u00e3o portavam as c\u00e2meras que, por lei, deveriam trazer fixadas em seus uniformes.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Avan\u00e7ando nesta amostra dos atos de viol\u00eancia relatados cotidianamente no notici\u00e1rio, mencionemos os atentados contra mulheres. As estat\u00edsticas confirmam o diagn\u00f3stico de Silvia Alonso: \u201c<em>Feminic\u00ed<\/em><em>dios t<\/em><em>\u00eam<\/em> <em>crescimento de 42,6% em SP<\/em>\u201d (<em>OESP<\/em>, 21.07.23), e \u201c<em>Pa\u00eds registra recorde de estupros, com 8 por hora\u201d<\/em> (<em>OESP<\/em>, 21.07.23).<\/p>\n<p>Os dados, mais uma vez retirados do <em>Anu\u00e1rio<\/em> do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, s\u00e3o aterradores: 74.930 casos de estupro declarados em 2022, sem contar os que n\u00e3o chegam aos registros p\u00fablicos porque as v\u00edtimas n\u00e3o conseguem superar a vergonha, o medo, ou a alta probabilidade de se ver acusadas de terem elas pr\u00f3prias provocado a agress\u00e3o. O jornal informa ainda que oito entre dez delas t\u00eam menos de 18 anos, seis em cada dez menos de 13, e 10% s\u00e3o beb\u00eas ou crian\u00e7as at\u00e9 quatro anos. Em 90% dos casos, os estupradores s\u00e3o da mesma fam\u00edlia que a jovem ou crian\u00e7a abusada.<\/p>\n<p>Quanto aos feminic\u00eddios, foram 1.347 em 2021 e 1.437 no ano passado, 6% a mais, elevando a taxa para 1,4 por 100.000 habitantes. Novamente, a m\u00e9dia oculta varia\u00e7\u00f5es importantes por regi\u00e3o, com o m\u00e1ximo de 3,1% no Estado de Rond\u00f4nia. \u201cComo proteger essas mulheres, se as viol\u00eancias acontecem em um contexto dom\u00e9stico e privado?\u201d, se indaga Juliana Martins, coordenadora do F\u00f3rum. [Isso] demanda uma atua\u00e7\u00e3o em rede n\u00e3o s\u00f3 dos profissionais, mas de pessoas pr\u00f3ximas a essas mulheres.\u201d<\/p>\n<p>Para concluir esta s\u00e9rie de dados sobre a extens\u00e3o e variedade dos atos violentos praticados Brasil afora, \u00e9 necess\u00e1rio enfatizar que o segmento da popula\u00e7\u00e3o proporcionalmente mais atingido pela viol\u00eancia homicida (principalmente, mas n\u00e3o s\u00f3, das pol\u00edcias militares) \u00e9 constitu\u00eddo por jovens negros, pobres e do sexo masculino, com idade entre 12 e 29 anos. \u201cEste perfil dos assassinados a cada ano no Brasil indica que a viol\u00eancia n\u00e3o prospera apenas no v\u00e1cuo das pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica do Pa\u00eds, mas tamb\u00e9m na fragilidade das agendas de educa\u00e7\u00e3o, de emprego, de crescimento econ\u00f4mico sustent\u00e1vel, de combate ao racismo e de inclus\u00e3o e assist\u00eancia social\u201d.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o acima basta para perceber que estamos diante de um problema cr\u00f4nico na nossa sociedade, a qual n\u00e3o economiza atrocidades para com os mais vulner\u00e1veis. Cabe ent\u00e3o a pergunta: que fatores poderiam dar conta dessa situa\u00e7\u00e3o calamitosa? Certamente, ser\u00e3o de v\u00e1rias ordens &#8211; pol\u00edticos, sociais, e tamb\u00e9m psicol\u00f3gicos. Vejamos ent\u00e3o o que \u00e9 poss\u00edvel dizer a respeito deles, com vistas a saber sobre o qu\u00ea deve se debru\u00e7ar nosso esbo\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>II. Por que somos uma sociedade t\u00e3<\/strong><strong>o violenta?<\/strong><\/p>\n<p>Numa entrevista concedida \u00e0 revista <em>Percurso<\/em><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>, nosso colega Paulo Endo fornece algumas pistas para articular uma resposta a essa quest\u00e3o. Relembrando seus tempos de residente em psicologia num hospital psiqui\u00e1trico, comenta que a institui\u00e7\u00e3o \u201creplicava o desenho do Brasil\u201d (p. 95), ou seja, dividia-se em alas reservadas a pacientes pobres e ricos, com recursos e tratamentos muito diferentes para cada grupo. \u201cNaquela estrutura corrompida, violenta, os pacientes que entravam em camisa de for\u00e7a eram os pobres, nunca um das alas ricas. Viol\u00eancias muito profundas s\u00e3o praticadas contra a popula\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica, eu diria quase sem exce\u00e7\u00e3o.\u201d (pp. 97-98). Primeiro ponto a reter: ningu\u00e9m se espanta com a desigualdade abissal entre os privilegiados e os miser\u00e1veis. Ela \u00e9 considerada como algo natural, que n\u00e3o precisa se justificar porque est\u00e1 inscrita na ordem das coisas.<\/p>\n<p>Um segundo ponto relevante surge quando Paulo se refere aos ataques contra delegacias, lojas e \u00f4nibus protagonizados em S\u00e3o Paulo, no ano de 2006, por uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa auto-intitulada Primeiro Comando da Capital (PCC). A rea\u00e7\u00e3o desarvorada das autoridades naquela ocasi\u00e3o demonstra, diz ele, a \u201cdesist\u00eancia de realizar pol\u00edticas p\u00fablicas de seguran\u00e7a eficazes. Ent\u00e3o&#8230; matan\u00e7a.\u201d Ap\u00f3s sugerir que a fal\u00eancia do Estado brasileiro na tarefa de garantir seguran\u00e7a aos cidad\u00e3os tem como complemento a negativa em pensar a s\u00e9rio em solu\u00e7\u00f5es para muitos outros problemas que deveriam reter sua aten\u00e7\u00e3o, nosso colega prossegue:<\/p>\n<p>\u201cA voca\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es brasileiras \u00e9 a hesita\u00e7\u00e3o e a pusilanimidade em rela\u00e7\u00e3o ao seu papel castrador. A castra\u00e7\u00e3o tem, inequivocamente, efeitos sociais, pol\u00edticos e subjetivos. O que se v\u00ea hoje no Brasil \u00e9 uma aus\u00eancia quase absoluta de castra\u00e7\u00e3o: pode fazer o que quiser, falar o que quiser (&#8230;). Essa aus\u00eancia de castra\u00e7\u00e3o institucional potencializa a cria\u00e7\u00e3o de ambientes traumatog\u00eanicos. N\u00e3o s\u00f3 por personagens n\u00e3o castrados que ocupar\u00e3o v\u00e1rios espa\u00e7os, mas tamb\u00e9m subjetivamente, por certa autoriza\u00e7\u00e3o pessoal dada \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para que fa\u00e7a o mesmo.\u201d (p. 101).<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui dois pontos fundamentais para a nossa discuss\u00e3o: a frouxa aplica\u00e7\u00e3o das leis quando os infratores s\u00e3o da classe dominante, o que acrescenta aos in\u00fameros privil\u00e9gios dela um grau espantoso de impunidade, e o est\u00edmulo \u00e0s demais (a \u201cpopula\u00e7\u00e3o\u201d) para imitar em seu comportamento as mesmas atitudes que v\u00eaem adotadas pelos que ocupam o topo da escala social.<\/p>\n<p>Confundindo liberdade com permiss\u00e3o para delinquir, estabelecendo um sistema de justi\u00e7a penal que em nome do direito de defesa estimula a contesta\u00e7\u00e3o infind\u00e1vel das senten\u00e7as condenat\u00f3rias, autorizando que pol\u00edticos e ju\u00edzes legislem em causa pr\u00f3pria, criando sem o menor pudor regalias sobre regalias para aumentar seus vencimentos, o ordenamento jur\u00eddico do Brasil &#8211; j\u00e1 por si leniente com abusos de toda ordem &#8211; parece feito para ser burlado, e de fato o \u00e9. N\u00e3o \u00e9 de admirar que, como diz o jornalista William Waack num coment\u00e1rio sobre fatos pol\u00edticos recentes, \u201ca sociedade [esteja] carente de lideran\u00e7as, e profundamente descontente com os sistemas pol\u00edtico e de governo.\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Em suma: desigualdade monumental, indiferen\u00e7a pelo que ela possa acarretar em termos de mis\u00e9ria para uns e inseguran\u00e7a para outros, falhas gritantes do Estado em muitas \u00e1reas da sua compet\u00eancia<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>, um sistema de leis e de tribunais perante o qual alguns s\u00e3o muito mais iguais do que outros, exemplos di\u00e1rios e abundantes de comportamento vergonhoso por parte de quem deveria zelar pelo bem comum. Conclus\u00f5es semelhantes podem ser extra\u00eddas dos escritos de historiadores, cientistas pol\u00edticos, fil\u00f3sofos, soci\u00f3logos e demais especialistas em assuntos do Brasil, este pa\u00eds do qual Tom Jobim disse certa vez que \u201cn\u00e3o \u00e9 para principiantes.\u201d<\/p>\n<p>De onde prov\u00eam tantos fatores que, agindo em conjunto, fazem ocorrer e persistir a viol\u00eancia na vida p\u00fablica e privada dos brasileiros? Nos \u00faltimos anos, essa quest\u00e3o vem sendo estudada tamb\u00e9m pelos psicanalistas, que buscam nas teorias cl\u00e1ssicas e contempor\u00e2neas instrumentos para compreender n\u00e3o s\u00f3 os efeitos, mas tamb\u00e9m as causas dos fen\u00f4menos a que vimos aludindo. Um deles, assinado por nosso colega da USP Pablo Castanho<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>, traz contribui\u00e7\u00f5es que complementam as de Paulo Endo, at\u00e9 pelo fato de ambos terem trabalhado v\u00e1rios anos no Jardim \u00c2ngela, um bairro na zona sul de S\u00e3o Paulo na \u00e9poca qualificado pela ONU de \u201clugar mais perigoso do mundo\u201d.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Para nossos prop\u00f3sitos, merecem destaque dois pontos no trabalho de Castanho: o papel da escravatura na constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade dos habitantes da col\u00f4nia, e posteriormente do Brasil independente, e o emprego de conceitos de analistas contempor\u00e2neos, como H\u00e9lio Pellegrino, Maria In\u00eas Fernandes, Ren\u00e9 Ka\u00ebs e Paul Racamier, para compreender certas peculiaridades do la\u00e7o social no Brasil.<\/p>\n<p>Para o soci\u00f3logo Jess\u00e9 Souza, deve-se ver no instituto da escravid\u00e3o a \u201cestrat\u00e9gia geral da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa\u201d, pois dela deriva o elemento social e pol\u00edtico fundamental na vida da col\u00f4nia: o poder praticamente ilimitado do senhor local sobre quem vivesse nos seus dom\u00ednios. Quer se tratasse do dono de um engenho ou de um simples chefe de fam\u00edlia, \u201clonge da metr\u00f3pole e dos contrapoderes vigentes em Portugal, aos quais o pr\u00f3prio rei se submetia, os propriet\u00e1rios podiam fazer o que bem entendessem. A rela\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o delimitava o quadro legal em que isso ficava mais expl\u00edcito\u201d (p. 155), escreve Castanho, resumindo o pensamento do autor.<\/p>\n<p>Essa circunst\u00e2ncia estabeleceu um padr\u00e3o relacional que permeia toda a estrutura social brasileira, e tamb\u00e9m o \u201cpacto narc\u00edsico\u201d oferecido a quem nasce nela: de um lado a onipot\u00eancia, ou o que mais se assemelhar a ela, do outro a submiss\u00e3o absoluta e a dissimula\u00e7\u00e3o como estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia. Os efeitos deste padr\u00e3o se fazem ver, por exemplo, no gozo s\u00e1dico do criminoso que aponta a arma para a cabe\u00e7a de quem est\u00e1 assaltando, e na ang\u00fastia desse mesmo indiv\u00edduo ao imaginar que sem ela se tornaria \u201cpequeno e fr\u00e1gil\u201d, ou alvo de uma \u201cqueima de arquivo\u201d (assassinato preventivo) por parte dos seus ex-companheiros.<\/p>\n<p>Os mesmos efeitos ecoam no que Maria In\u00eas Fernandes chamou de \u201cpacto denegativo de grande alcance social\u201d, destinado a mascarar a percep\u00e7\u00e3o das imensas desigualdades econ\u00f4micas, sociais e raciais no Brasil (p. 154). Para Castanho, ao longo dos s\u00e9culos este pacto foi acumulando falhas sucessivas, o que faz dele um \u201ccontrato civilizat\u00f3rio insuficientemente estabelecido, cujo resultado \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o incessante de viol\u00eancias f\u00edsicas e simb\u00f3licas\u201d (p. 155).<\/p>\n<p>Na esteira de Fernandes, nosso autor prop\u00f5e levar em conta um \u201cpacto com fun\u00e7\u00e3o de recusa\u201d, encarregado de dissimular viol\u00eancias passadas e presentes. Em parte eficaz, em parte n\u00e3o, esse mecanismo psic\u00f3tico de defesa estaria ligado \u00e0 transmiss\u00e3o de \u201cfragmentos traum\u00e1ticos\u201d no tecido social brasileiro. Inevit\u00e1vel nesse contexto, a refer\u00eancia a Ferenczi poderia fazer pensar na identifica\u00e7\u00e3o com o agressor como um dos operadores atuando nessas alian\u00e7as inconscientes.<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a de inf\u00e2ncia de uma educadora que participava de um trabalho realizado por nosso colega no Rio de Janeiro ilustra dramaticamente outro aspecto da precariedade vivenciada por largos segmentos da popula\u00e7\u00e3o brasileira. A cena \u00e9 aterradora: ap\u00f3s uma opera\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia na favela em que morava, a menina grava na mem\u00f3ria a imagem da rua coberta por corpos despeda\u00e7ados em meio a po\u00e7as de sangue. \u201cMe faz pensar no dia de matar porcos na fazenda do meu pai\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>Castanho toma a frase ao p\u00e9 da letra, e a associa por sua vez ao estudo de Nathalie Zaltzman sobre o <em>homo sacer<\/em> (que na Roma antiga podia ser morto sem que o assassino fosse punido). \u201cNo Brasil, existe uma categoria de pessoas que n\u00e3o \u00e9 considerada humana: os pobres, os negros, os ind\u00edgenas, uma mistura disso tudo. Podem ser mortos como os porcos, em massa\u201d, diz ele \u00e0 p. 157.<\/p>\n<p>Como algo t\u00e3o chocante pode ser um elemento estrutural na sociedade brasileira sem despertar vergonha e indigna\u00e7\u00e3o? O psicanalista recorre aqui ao conceito de \u201cidentifica\u00e7\u00e3o de base do Eu \u00e0 esp\u00e9cie humana\u201d (P. Racamier), que para Ren\u00e9 Ka\u00ebs funda o contrato narc\u00edsico oferecido a quem nasce numa comunidade humana. Empregando outros termos, H\u00e9lio Pellegrino defendia uma ideia semelhante j\u00e1 em 1983: o tecido social se esgar\u00e7a irremediavelmente quando o custo das ren\u00fancias pulsionais necess\u00e1rias \u00e0 vida em dada sociedade n\u00e3o \u00e9 compensado como prometido ao sujeito, ou seja, com a outorga de uma identidade que lhe permita sentir-se parte integrante dela.<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup>[16]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Este conjunto de conceitos e hip\u00f3teses permite articular um esbo\u00e7o de resposta \u00e0 quest\u00e3o de por que somos uma sociedade t\u00e3o violenta: porque, no \u00e2mago da nossa forma\u00e7\u00e3o social &#8211; e tamb\u00e9m, talvez, nos rec\u00f4nditos do nosso inconsciente cultural &#8211; n\u00e3o nos reconhecemos de forma suficiente como pertencentes \u00e0 <em>mesma<\/em> tribo. Para manter a ilus\u00e3o narc\u00edsica de superioridade de alguns, \u00e9 necess\u00e1rio que outros componham a malta, a turba, a ral\u00e9. Por outro lado, esta concep\u00e7\u00e3o e este fato precisam ser tornados invis\u00edveis, o que fica a cargo do pacto impl\u00edcito entre os que mandam e os que obedecem. O discurso oficial sobre a aus\u00eancia de racismo no Brasil, incontestado at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, \u00e9 uma excelente ilustra\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia deste tipo de \u201calian\u00e7a inconsciente.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a dimens\u00e3o psicol\u00f3gica destacada no que precede n\u00e3o explica por si s\u00f3 o alcance e a profundidade da viol\u00eancia com sotaque brasileiro. Parece-me contudo plaus\u00edvel que ela constitua um dos fundamentos da indiferen\u00e7a frente ao sofrimento produzido pelas desigualdades econ\u00f4micas, sociais e raciais da nossa sociedade, assim como da toler\u00e2ncia (e por vezes do apoio abertamente c\u00ednico) quanto \u00e0s distor\u00e7\u00f5es do nosso sistema pol\u00edtico e jur\u00eddico.<\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel avan\u00e7ar mais na demonstra\u00e7\u00e3o dessa tese? Em certa medida, sim. Para isso, conv\u00e9m deixar de lado por um momento o caso espec\u00edfico do Brasil, e, abrindo um pouco o leque da nossa investiga\u00e7\u00e3o, averiguar o que a Psican\u00e1lise tem dito acerca da viol\u00eancia enquanto tal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>III. Algumas ideias da Psican\u00e1lise sobre a viol\u00ea<\/strong><strong>ncia<\/strong><\/p>\n<p>Escrevendo no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980 a respeito das concep\u00e7\u00f5es da viol\u00eancia propostas por nossos colegas, Jurandir Freire Costa admirava-se da pouca aten\u00e7\u00e3o que a teoria psicanal\u00edtica dedicava a ela, e tamb\u00e9m do fato de o pr\u00f3prio termo ser usado, no mais das vezes, de modo \u201cconfuso\u201d e \u201cimpreciso\u201d. O estudo de alguns exemplos mostrava, a seu ver, uma oscila\u00e7\u00e3o entre a \u201cbanaliza\u00e7\u00e3o\u201d e a \u201csacraliza\u00e7\u00e3o\u201d da viol\u00eancia: esta por defini-la \u201ccomo sin\u00f4nimo do que h\u00e1 de impens\u00e1vel na experi\u00eancia humana, portanto irredut\u00edvel a qualquer an\u00e1lise\u201d, aquela por encontr\u00e1-la na raiz de toda e qualquer a\u00e7\u00e3o, ideia ou atitude: a viol\u00eancia seria \u201ca impuls\u00e3o primeira e permanente do psiquismo\u201d.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup>[17]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Quarenta anos depois, essa situa\u00e7\u00e3o se alterou por completo, tanto quantitativamente quanto no n\u00edvel cient\u00edfico dos trabalhos. Ao menos no Brasil, \u00e9 bastante grande o volume de artigos, livros e eventos abordando os diversos aspectos do fen\u00f4meno, e segundo perspectivas te\u00f3ricas bastante variadas. Um exemplo entre muitos: no \u00cdndice Tem\u00e1tico dispon\u00edvel no site da revista <em>Percurso<\/em>, foi necess\u00e1rio h\u00e1 alguns anos destacar do verbete \u201cPsican\u00e1lise e Fen\u00f4menos Sociais\u201d um item espec\u00edfico intitulado \u201cPsican\u00e1lise e Viol\u00eancia\u201d, tantos eram os textos que j\u00e1 ent\u00e3o abordavam o assunto. E continuam a abordar: somente nos n\u00fameros publicados em 2022, 14 dos quarenta e poucos t\u00edtulos listados nos Sum\u00e1rios refletem sobre o racismo, a misoginia, a ideologia fascista no passado e no presente, os fundamentalismos religiosos em expans\u00e3o, e assim por diante.<\/p>\n<p>Mesmo sem maior valor estat\u00edstico, essa breve rela\u00e7\u00e3o permite perceber que a viol\u00eancia se apresenta sob muitos aspectos, e por isso &#8211; sem preju\u00edzo do v\u00e9rtice propriamente psicanal\u00edtico &#8211; exige uma abordagem multidisciplinar. Retomo aqui algumas observa\u00e7\u00f5es feitas a prop\u00f3sito de uma obra coletiva editada h\u00e1 alguns anos, que a meu ver se mant\u00eam pertinentes:<\/p>\n<p>\u201cA viol\u00eancia se diz no plural: h\u00e1 viol\u00eancia <em>individual <\/em>(contra si mesmo ou contra outrem) e <em>coletiva<\/em> (guerras, massacres, regimes totalit\u00e1rios, escraviza\u00e7\u00e3o de povos e grupos vencidos, ou mais fracos); h\u00e1 viol\u00eancia <em>f\u00ed<\/em><em>sica <\/em>(espancamentos, tortura, crimes brutais), <em>ps\u00ed<\/em><em>quica<\/em> (dom\u00ednio por excel\u00eancia da cl\u00ednica psicanal\u00edtica), <em>cultural<\/em> (opress\u00e3o dos dominadores sobre os dominados, como a proibi\u00e7\u00e3o de usar seu idioma ou praticar sua religi\u00e3o); viol\u00eancia <em>aberta<\/em> ou <em>impl<\/em><em>\u00ed<\/em><em>cita<\/em>, <em>ocasional <\/em>ou <em>permanent<\/em>e, neste caso implicando um \u201cestado de viol\u00eancia\u201d que n\u00e3o deixa de ter consequ\u00eancias sobre os atores sociais enredados em tal condi\u00e7\u00e3o.\u201d<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup>[18]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Os autores da colet\u00e2nea se revelam de acordo quanto a alguns pontos fundamentais. Um deles resulta da const\u00e2ncia com que a viol\u00eancia comparece ao longo da hist\u00f3ria da humanidade: ela sugere que existe algo subjacente e invariante a atravessar as in\u00fameras formas que ela assume segundo as \u00e9pocas e as culturas<strong>. <\/strong>Este \u201calgo\u201d \u00e9 ora concebido como \u201cinvas\u00e3o e ruptura da esfera \u00edntima\u201d por uma for\u00e7a superior, ora como resultado de a\u00e7\u00f5es agressivas praticadas com o intuito de ferir, causar dano, e mesmo aniquilar a si mesmo ou a outrem.<\/p>\n<p>Quer acentuem mais um ou outro aspecto, todos os autores aceitam como evidente uma tese herdada de Freud: a viol\u00eancia deriva da constitui\u00e7\u00e3o pulsional do ser humano, na qual a agressividade e a destrutividade t\u00eam a import\u00e2ncia que conhecemos. Esta constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente a mesma desde que nossos ancestrais desceram das \u00e1rvores, e, juntamente com as ang\u00fastias fundamentais e um reduzido elenco de defesas, faz parte dos invariantes ps\u00edquicos que definem a esp\u00e9cie <em>Homo Sapiens<\/em>.<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup>[19]<\/sup><\/a> \u00c9 o que explica, ali\u00e1s, que uma fala na <em>Med<\/em><em>\u00e9<\/em><em>ia <\/em>de Eur\u00edpedes (\u201co funesto desespero, do qual prov\u00eam a morte e os infort\u00fanios terr\u00edveis que fazem ruir os lares\u201d) soe ainda hoje t\u00e3o pungente quanto o verso de \u201cA terra desolada\u201d em que T. S. Elliot evoca, 2.400 anos depois, o vazio emocional dos \u201chomens ocos\u201d.<\/p>\n<p>Uma segunda linha de pensamento, mais pr\u00f3xima de Melanie Klein e de Winnicott, concebe a viol\u00eancia n\u00e3o tanto como ancorada na din\u00e2mica pulsional, e sim como rea\u00e7\u00e3o do sujeito a situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas de desamparo ou abandono, a feridas narc\u00edsicas que nunca cicatrizam, ou ainda a ang\u00fastias de tipo psic\u00f3tico. Sob este \u00e2ngulo, a a\u00e7\u00e3o violenta consiste numa atua\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo impulsiva e defensiva. H\u00e1 ainda que considerar uma express\u00e3o da viol\u00eancia que nada tem de irrup\u00e7\u00e3o emocional cega e desprovida de simboliza\u00e7\u00e3o: a <em>premeditada<\/em>, que culmina num crime planejado e executado com lucidez e frieza.<\/p>\n<p>Todos estes casos se referem de um modo ou outro ao modelo da agress\u00e3o f\u00edsica (tapa, pancada, golpe de arma branca ou de fogo etc.), e deixam de lado as modalidades da viol\u00eancia que podemos qualificar como <em>simb<\/em><em>\u00f3<\/em><em>lica.<\/em> Estas v\u00e3o da humilha\u00e7\u00e3o verbal (por exemplo nas invectivas racistas que ultimamente se tornaram praga nos est\u00e1dios de futebol) a formas muito mais sutis, nas quais o dano \u00e9 tanto mais profundo quanto menos imediatamente aparente (como as que se originam nos \u201cpactos denegadores\u201d mencionados atr\u00e1s).<\/p>\n<p>Neste sentido, diversos cap\u00edtulos do livro destacam o que os autores denominam \u201cdesagrega\u00e7\u00e3o dos referenciais culturais\u201d. Trata-se de um processo por assim dizer em forma de pin\u00e7a: ao mesmo tempo em que as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e ideol\u00f3gicas da atualidade favorecem o surgimento de ang\u00fastias frequentes e intensas, tornam mais e mais dif\u00edcil a elabora\u00e7\u00e3o delas, porque solapam sistematicamente os meios simb\u00f3licos que at\u00e9 um passado recente permitiam cont\u00ea-las e process\u00e1-las. Nas palavras de Leopold Nosek,<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se conta mais com as formas tradicionais de cerim\u00f4nias, rituais de passagem, costumes sociais, formas de rela\u00e7\u00e3o. Voltamos \u00e0 reflex\u00e3o de \u00c9mile Durkheim sobre a anomia (&#8230;). Os indiv\u00edduos passam a se mover num mundo carente de refer\u00eancias, sem o aconchego dado por um repert\u00f3rio de representa\u00e7\u00f5es comuns. Geram-se assim graus de viol\u00eancia cr\u00f4nica\u201d <a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup>[20]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A ideia de que a viol\u00eancia n\u00e3o se limita a a\u00e7\u00f5es agressivas de um indiv\u00edduo ou de um grupo contra outros, mas comporta uma dimens\u00e3o <em>sist\u00ea<\/em><em>mica<\/em> que permeia a cultura como um todo, est\u00e1 igualmente no centro do livro de Jurandir Freire Costa. O que o torna ainda hoje uma leitura indispens\u00e1vel \u00e9 a amplitude do campo coberto por suas an\u00e1lises, que se estende da obra de Freud e dos principais sucessores a estudos sobre a sociedade contempor\u00e2nea, da Escola de Frankfurt a obras ent\u00e3o rec\u00e9m-publicadas de Christopher Lasch e Jean Braudrillard. Ap\u00f3s apresentar os argumentos principais de cada um desses textos, Jurandir os submete a uma rigorosa cr\u00edtica quanto \u00e0 consist\u00eancia l\u00f3gica, epistemol\u00f3gica, eventualmente cl\u00ednica, e \u00e9 do debate com esses pensadores que v\u00e3o sendo extra\u00eddas as caracter\u00edsticas que permitem definir a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 que devemos consider\u00e1-la sob duas perspectivas, que ele denomina <em>quantitativa<\/em> &#8211; despropor\u00e7\u00e3o entre a for\u00e7a do violentador e a do violentado &#8211; e <em>qualitativa<\/em> &#8211; presen\u00e7a no ato violento do desejo de ferir ou destruir o alvo da agress\u00e3o. Curiosamente, ambas est\u00e3o contidas na origem dos termos latinos <em>violentia<\/em> e <em>violatio<\/em>: ambos\u00a0 procedem da raiz indoeurop\u00e9ia \u2018<em>gi<\/em> (ou \u2018<em>gvi<\/em>), presente nos termos s\u00e2nscritos <em>ginati<\/em> (violentar) e <em>gayati <\/em>(vencer). <em>Vis<\/em> (for\u00e7a) \u00e9 aquilo que permite vencer, e portanto maltratar, oprimir, ofender, ultrajar quem \u00e9 <em>victus<\/em> (vencido, derrotado), e, no limite, aniquil\u00e1-lo.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup>[21]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Sob este aspecto, a originalidade da concep\u00e7\u00e3o de Jurandir \u00e9 manter sempre juntas essas duas vertentes, enquanto o mais frequente nas discuss\u00f5es psicanal\u00edticas sobre viol\u00eancia \u00e9 limit\u00e1-la ao aspecto quantitativo. Segundo ele, isso se deve \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno violento pelo conceito de <em>trauma<\/em>, compreendido como a ruptura de uma superf\u00edcie por uma for\u00e7a superior, que ao invadir o que ela protegia desorganiza o equil\u00edbrio at\u00e9 ent\u00e3o vigente entre as suas partes (modelo de <em>Al<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m do princ\u00edpio do prazer<\/em>). A met\u00e1fora da erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica comanda essa vis\u00e3o, cuja consequ\u00eancia l\u00f3gica \u00e9 conceber a viol\u00eancia essencialmente como \u00edmpeto incontrol\u00e1vel, impulso cego, ao qual posteriormente se ligaria alguma justifica\u00e7\u00e3o projetiva, ou racionalizadora.<\/p>\n<p>Opondo-se ao que considera um reducionismo nocivo, o autor n\u00e3o perde ocasi\u00e3o de apontar suas limita\u00e7\u00f5es, e os equ\u00edvocos aos quais elas conduzem. Sem descurar a dimens\u00e3o quantitativa &#8211; \u201cviol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 poder, \u00e9 <em>abuso<\/em> de poder\u201d, lemos logo na primeira p\u00e1gina do livro &#8211; ele insiste que a viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 algo natural, mas sim cultural &#8211; \u201cuma forma de resolver conflitos pela for\u00e7a\u201d, que assim se torna \u201cmeio de negocia\u00e7\u00e3o\u201d, e portanto pressup\u00f5e a exist\u00eancia entre os advers\u00e1rios de outras maneiras de processar diferen\u00e7as, momentaneamente eclipsados pelo recurso \u00e0 for\u00e7a (p. 48).<\/p>\n<p>Falar em cultura implica supor normas para a vida em conjunto, de modo a garantir certa seguran\u00e7a e certa medida de liberdade para os seus integrantes. A dimens\u00e3o <em>qualitativa<\/em> da viol\u00eancia consiste na recusa do acordo t\u00e1cito pelo qual elas ganham legitimidade, ou do \u201ccontrato\u201d que outorga a cada membro da comunidade certos direitos e certos deveres: \u201cpara que haja viol\u00eancia, n\u00e3o basta que o violentado seja objeto da agressividade ou do desejo de dom\u00ednio do outro. \u00c9 preciso que ele sinta, da parte do violentador, a disposi\u00e7\u00e3o para transgredir as leis simb\u00f3licas que o pro\u00edbem de fazer da v\u00edtima o objeto do seu gozo il\u00edcito.\u201d (p. 15).<\/p>\n<p>Qual seria o \u201cgozo il\u00edcito\u201d do agressor? Sem d\u00favida, a sensa\u00e7\u00e3o de poder advinda do dom\u00ednio exercido sobre o outro, ou seja, uma viv\u00eancia ligada ao narcisismo. Reencontramos aqui um ponto sublinhado por Pablo Castanho ao falar do assaltante apontando a arma para a sua v\u00edtima, mas tamb\u00e9m a explica\u00e7\u00e3o para algo que nos surpreendeu quando coment\u00e1vamos as not\u00edcias da imprensa: a id\u00e9ia esdr\u00faxula de que arrancar da m\u00e3o de algu\u00e9m o seu celular, ou os golpes financeiros via internet, \u201cn\u00e3o s\u00e3o violentos\u201d, porque n\u00e3o envolvem ferimentos corporais. Parece claro que o ladr\u00e3o experimenta aqui o prazer de se considerar mais \u00e1gil ou mais esperto que a pessoa que est\u00e1 lesando (\u201cnasce um ot\u00e1rio a cada minuto\u201d, reza a c\u00ednica frase atribu\u00edda a P. T. Barnum).<\/p>\n<p>O segundo ponto a ressaltar em <em>Viol\u00eancia e p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1lise<\/em> s\u00e3o justamente as teses que vinculam a viol\u00eancia a certas dimens\u00f5es do narcisismo. Salta aos olhos &#8211; mas era preciso por de p\u00e9 este ovo de Colombo &#8211; a raiz narc\u00edsica do racismo contra os negros, que entre outras estrat\u00e9gias recorria \u00e0 de impor a eles padr\u00f5es de beleza brancos, tidos por universalmente v\u00e1lidos. \u201cUma vez introjetado, o fetiche da \u201cbrancura\u201d funcionava como uma fonte incessante de viol\u00eancia interior (&#8230;), como agente desintegrador da unidade egoica, pela imposi\u00e7\u00e3o de um ideal de eu racista conflitante com a realidade psicof\u00edsica do sujeito negro\u201d. (p. 16)<\/p>\n<p>Outros exemplos de identifica\u00e7\u00e3o com o agressor, menos consp\u00edcuos por\u00e9m n\u00e3o menos eficazes, s\u00e3o analisados no cap\u00edtulo sobre a sociedade de consumo, no qual se discutem as formas contempor\u00e2neas do que Marx denominava \u201caliena\u00e7\u00e3o\u201d. Na se\u00e7\u00e3o intitulada \u201cNarcisismo: os atropelos de uma no\u00e7\u00e3o\u201d, encontramos n\u00e3o apenas uma exposi\u00e7\u00e3o util\u00edssima das aventuras desse conceito na obra de Freud e depois, mas uma ideia de grande alcance: o narcisismo da cultura contempor\u00e2nea n\u00e3o \u00e9 <em>hedonista<\/em>, e sim <em>defensivo<\/em>, isto \u00e9, uma forma de prote\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia sist\u00eamica nela embutida.<\/p>\n<p>\u201cO investimento compulsivo do corpo que presenciamos hoje \u00e9 uma maneira encontrada pelo indiv\u00edduo de limitar os efeitos violentos da sociedade de consumo. O narcisismo moderno \u00e9 um narcisismo <em>regenerador<\/em>\u201d, lemos \u00e0 p. 192.<\/p>\n<p>Essa variedade de viol\u00eancia &#8211; sutil, mas onipresente na publicidade e no recurso constante a \u201cespecialistas\u201d &#8211; tamb\u00e9m opera pela imposi\u00e7\u00e3o de ideais \u201cconflitantes com a realidade psicof\u00edsica dos sujeitos\u201d, no caso o corpo que possuem, e que v\u00eam a odiar por n\u00e3o ser como deveria, maltratando-o cruelmente a pretexto de o tornar mais belo e mais desej\u00e1vel. \u00c9 numa interpreta\u00e7\u00e3o arguta do que Freud escreve em <em>Al<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m do princ\u00edpio do prazer<\/em> sobre o investimento narc\u00edsico do \u00f3rg\u00e3o lesado numa doen\u00e7a ou num acidente &#8211; que ele possa ocorrer \u201cpara controlar ou extinguir uma experi\u00eancia de dor\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup>[22]<\/sup><\/a> que Jurandir encontra apoio para essa nova espiral da sua reflex\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cViol\u00eancia, a nosso ver, \u00e9 toda a\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica que conduz o psiquismo ou a <em>desorganizar-se completamente<\/em>, ou a responder ao trauma atrav\u00e9s de <em>mecanismos de defesa<\/em> <em>an\u00e1logos \u00e0 economia da dor<\/em>. Violenta \u00e9 qualquer circunst\u00e2ncia da vida em que o sujeito \u00e9 colocado em posi\u00e7\u00e3o de <em>n\u00e3o poder obter prazer<\/em>, ou de s\u00f3 busc\u00e1-lo como <em>defesa contra o medo da morte<\/em>.\u201d (p. 195, grifos no original).<\/p>\n<p>\u00c9 tempo de concluir essas notas. Nosso trajeto pelos textos de alguns analistas contempor\u00e2neos mostra que a Psican\u00e1lise disp\u00f5e de instrumentos bastante sofisticados para elucidar alguns aspectos do fen\u00f4meno que nos ocupa. Sugiro que estes sejam os que dependem de causas ps\u00edquicas, aqui inclu\u00eddas as que t\u00eam por origem a identifica\u00e7\u00e3o com modelos, normas e valores historica e socialmente determinados, por exemplo a toler\u00e2ncia com a incompet\u00eancia e a roubalheira na pol\u00edtica do Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 diferente, por outro lado, o caso dos fatores que se originam e operam em esferas da vida coletiva <em>stricto sensu<\/em>. Penso aqui nas pr\u00e1ticas espec\u00edficas em que se elas se materializam (pol\u00edticas, sociais, econ\u00f4micas), nas leis mal feitas (ou talvez muito bem feitas) que as estimulam, nos abusos de toda ordem que permanecem impunes, e assim por diante. Que possamos pensar psicanaliticamente a respeito delas n\u00e3o elimina a densidade pr\u00f3pria dessas esferas, que exigem conceitos, hip\u00f3teses e m\u00e9todos adequados a cada uma. A Psican\u00e1lise pode dar sua contribui\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o deve nem precisa se julgar detentora de qualquer \u00faltima palavra seja sobre o que for.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que por isso os psicanalistas n\u00e3o podemos fazer nada a respeito do que vemos de errado, injusto e revoltante ao nosso redor? Seria a Psican\u00e1lise, como \u00e0s vezes se diz maldosamente da Filosofia, aquela disciplina com a qual ou sem a qual o mundo permanece tal e qual? Nada mais distante da realidade! In\u00fameras iniciativas comprovam que os analistas do Sedes (e de outras institui\u00e7\u00f5es) v\u00eam buscando nossas formas de praticar nosso of\u00edcio, formas abertas \u00e0 diversidade de demandas que n\u00e3o chegam a ser formuladas como de ajuda terap\u00eautica, mas que nos desafiam a enfrentar os efeitos da viol\u00eancia ali onde eles est\u00e3o. \u00a0\u00c9 o que nos contam, por exemplo, os textos do Debate da <em>Percurso<\/em> 69, intitulado \u201cO poder da Psican\u00e1lise como dispositivo do fazer pol\u00edtico\u201d, ou, no mesmo n\u00famero, os artigos de Mario Fuks, \u201cPsicopatologia psicanal\u00edtica e cl\u00ednica contempor\u00e2nea\u201d e \u201cPsican\u00e1lise: o futuro de uma des-ilus\u00e3o\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m o que podemos ver em eventos da nossa institui\u00e7\u00e3o, e de outras, cujas comunica\u00e7\u00f5es s\u00e3o posteriormente reunidas em colet\u00e2neas, ou ficam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em plataformas digitais.<\/p>\n<p>Toda esta produ\u00e7\u00e3o mereceria uma an\u00e1lise detalhada, mas ela ter\u00e1 de ficar para outra oportunidade. Muito obrigado, e vamos ao debate.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Alonso, S. A constru\u00e7\u00e3o de um di\u00e1logo: psican\u00e1lises e feminismos. Comunica\u00e7\u00e3o no XI \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Congresso da Flappsip, 2021.<\/p>\n<p>Castanho, P. Violence et criminalit\u00e9\u00a0: r\u00e9flexion sur les \u00e9cueils de la <em>Kulturarbeit <\/em>au Br\u00e9sil. <em>Revue de psychoth\u00e9raie psychanalytique de groupe<\/em> 81, Toulouse, Er\u00e8s, 2.2023.<\/p>\n<p>Endo, P. Viol\u00eancia e delicadeza. Entrevista em <em>Percurso <\/em>68, Departamento de Psican\u00e1lise \u00a0 do Instituto Sedes Sapientiae, 1\/2022.<\/p>\n<p>Freire Costa, J. <em>Viol\u00eancia e p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1lise<\/em>, 4a. edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, Ed. Zagodoni, 2019.<\/p>\n<p>Jornal <em>Folha de S. Paulo<\/em>, edi\u00e7\u00f5es de julho de 2023 a setembro de 2023.<\/p>\n<p>Jornal <em>O Estado de S. Paulo, <\/em>edi\u00e7\u00f5es de julho de 2023 a setembro de 2023.<\/p>\n<p>Mezan, R. \u201cHomens ocos, funesto desespero\u201d, in <em>Interven\u00e7\u00f5es<\/em>, S. Paulo, Casa do Psic\u00f3logo, 2011.<\/p>\n<p>Revista <em>Percurso<\/em>, Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, n\u00fameros 68 (1\/2022) e 69 (2.2022).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">S\u00e3o Paulo, setembro de 2023.<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Comunica\u00e7\u00e3o na Mesa Plen\u00e1ria \u201cTransforma\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-culturais\u201d, XII Congresso Internacional da FLAPPSIP (Federa\u00e7\u00e3o Latinoamericana de Associa\u00e7\u00f5es de Psicoterapia Psicanal\u00edtica e Psican\u00e1lise), Santiago do Chile, outubro de 2023.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Silvia Alonso, \u201cA constru\u00e7\u00e3o de um di\u00e1logo: psican\u00e1lises e feminismos\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]&gt;<\/a> Jurandir Freire Costa, <em>Viol\u00eancia e psican\u00e1lise<\/em>, 4a. edi\u00e7\u00e3o revista e ampliada. S\u00e3o Paulo, Ed. Zagodoni, 2019.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> No que segue, as siglas <em>FSP<\/em> e <em>OESP<\/em> designam os jornais <em>Folha de S. Paulo<\/em> e <em>O Estado de S. Paulo<\/em>; os n\u00fameros entre par\u00eanteses d\u00e3o a data da not\u00edcia.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> A peculiar no\u00e7\u00e3o do que seja viol\u00eancia presente nessa afirma\u00e7\u00e3o ser\u00e1 discutida mais adiante.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Outro tipo de golpe via celular consiste em forjar, mediante recursos de intelig\u00eancia artificial, \u201cpalestras\u201d falsas, e atribu\u00ed-las a m\u00e9dicos e cientistas de destaque. Um deles, o prestigioso oncologista Drauzio Varella, precisou desmentir energicamente que estivesse fazendo propaganda comercial de rem\u00e9dios (\u201c<em>O diabo que os carregue<\/em>\u201d, <em>FSP,<\/em> 07.09.23)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> A principal raz\u00e3o para isso n\u00e3o \u00e9, evidentemente, a presen\u00e7a de mais gente burra na pol\u00edcia carioca que em outras, e sim a coopta\u00e7\u00e3o de muitos integrantes dela pelo crime organizado e pelas \u201cmil\u00edcias\u201d, como s\u00e3o designadas as m\u00e1fias criadas por policiais corruptos para extorquir a popula\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas em que atuam.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> \u201c<em>Termina a\u00e7\u00e3o no litoral de SP, com 28 mortos<\/em>\u201d (<em>FSP<\/em>, 06.03.23), e \u201c[<em>Governador de S\u00e3o Paulo] Tarc\u00edsio troca comandantes da Rota e da Cracol\u00e2ncia em S\u00e3o Paulo<\/em>\u201d (<em>FSP<\/em>, 05.09.23).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Cf. \u201cIncivilidade brasileira\u201d (22.07.23), editorial de <em>O Estado de S. Paulo<\/em> comentando os dados do <em>Anu\u00e1rio<\/em> do FBSP publicados na edi\u00e7\u00e3o do dia anterior.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> \u201cViol\u00eancia e delicadeza\u201d, <em>Percurso <\/em>n\u00ba 68, S\u00e3o Paulo, Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, junho de 2022. No que segue, as frases entre aspas s\u00e3o cita\u00e7\u00f5es dessa entrevista.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> William Waack, \u201cRoubalheira e vergonha\u201d, OESP 07.09.23.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> N\u00e3o todas: o sistema p\u00fablico de sa\u00fade, por exemplo, funciona razoavelmente bem &#8211; por\u00e9m muito mais pela compet\u00eancia e dedica\u00e7\u00e3o dos seus funcion\u00e1rios do que pela capacidade de gest\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> \u201cViolence et criminalit\u00e9 en banlieue: r\u00e9flexion sur les \u00e9cueils de la <em>Kuturarbeit <\/em>au Br\u00e9sil\u201d (Viol\u00eancia e criminalidade: reflex\u00e3o sobre os obst\u00e1culos para a <em>Kulturarbeit<\/em> [trabalho de cultura] no Brasil). <em>Revue de psychoth\u00e9rapie psychanalytique de groupe<\/em> n\u00ba 81 (2\/2023), Toulouse, \u00c9ditons \u00c9r\u00e8s.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Cf. R. Brancatelli, \u201cPor que se mata menos em S\u00e3o Paulo\u201d, <em>Veja S\u00e3o Paulo<\/em>, 06.07.2005. <em>Apud<\/em> Castanho, \u201c<em>Violence.<\/em>..,\u201d p. 152.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Cf. respectivamente Ren\u00e9 Ka\u00ebs, <em>Les Alliances inconscientes<\/em>, Paris, Malakoff-Dunod, 2009, e H\u00e9lio Pellegrino, \u201cPacto ed\u00edpico e pacto social\u201d, <em>Folha de S. Paulo, Folhetim<\/em>, setembro de 1983. Ambos<em> apud <\/em>Castanho, op. cit.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Jurandir Freire Costa, Por que a viol\u00eancia? Por que a paz?\u201d, in<em> Viol\u00eancia<\/em> <em>e psican\u00e1lise<\/em>, S\u00e3o Paulo, Ed. Zagodoni, 2019, p. 28.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Renato Mezan, \u201cHomens ocos, funesto desespero\u201d, resenha de Magda Khouri <em>et alii<\/em>, <em>Leituras psicanal\u00edticas da<\/em> v<em>iol\u00eancia<\/em>, S\u00e3o Paulo, Casa do Psic\u00f3logo, 2004. In R. Mezan, <em>Interven\u00e7\u00f5es,<\/em> S\u00e3o Paulo, Casa do Psic\u00f3logo, 2011.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> O que varia de cultura para cultura, de \u00e9poca para \u00e9poca e de in\u00fameras formas segundo os indiv\u00edduos \u00e9 o que, na organiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, tem origem nos processos de socializa\u00e7\u00e3o: os ideais, normas, valores etc., e tudo o que funciona segundo o processo secund\u00e1rio, ou seja o mundo da cogni\u00e7\u00e3o. Este, por\u00e9m, \u00e9 um t\u00f3pico a tratar numa outra oportunidade.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Cf. Leopold Nosek, \u201cO terror na vida cotidiana: revisitando o sr. Kurtz\u201d, in <em>Leituras<\/em>&#8230;, p. 125.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> \u00c9 o que informa o <em>Vocabolario Etimologico della L\u00edngua Italiana<\/em> de\u00a0 Ottorino Pianigiani, acess\u00edvel na internet sob o t\u00edtulo <em>etimo.it.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d, cap\u00edtulo 4, <em>apud<\/em> Freire Costa, op. cit., p. 188. A passagem se refere ao esfor\u00e7o para ligar a representa\u00e7\u00f5es a energia invasora, que &#8211; tendo rompido o p\u00e1ra-excita\u00e7\u00e3o &#8211; se encontra de in\u00edcio em estado flutuante (modelo do trauma).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de Renato Mezan abriu nossa noite FLAPPSIP, num chamado \u00e0 reflex\u00e3o e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de sentidos.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[49,126],"edicao":[263],"autor":[279],"class_list":["post-3179","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicanalise-e-politica","tag-flappsip","tag-psicanalise-e-politica","edicao-boletim-71","autor-renato-mezan","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3179","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3179"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3179\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3241,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3179\/revisions\/3241"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3179"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3179"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}