{"id":3181,"date":"2024-06-15T15:36:57","date_gmt":"2024-06-15T18:36:57","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3181"},"modified":"2024-06-17T15:02:41","modified_gmt":"2024-06-17T18:02:41","slug":"icarai-chartres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/06\/15\/icarai-chartres\/","title":{"rendered":"Icara\u00ed Chartres"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Icara\u00ed Chartres<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Rubia Delorenzo<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p><strong>cemit<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>rio &#8211; pedras compridas \u2013 icara\u00ed <\/strong><\/p>\n<p>O lugar \u00e9 obra divina, cheio de luz da natureza. Ouve-se no descampado um murm\u00fario que insiste. \u00c9 o sussurro das ondas, o apito do vento que traz o chuvisco de areia das dunas, o cochicho da conversa dos mortos. Dizem que antigamente esse foi um campo distante do mar.<\/p>\n<p>Hoje vem sendo bebido por incessantes mar\u00e9s. O ch\u00e3o mole de umidade n\u00e3o seca nem sob a inclem\u00eancia do sol.<\/p>\n<p>Assim, pouco a pouco, uma a uma, as moradas caiadas de branco, enfeitadas com rosas de amor, se despedem e navegam como os barcos floridos em dia de Iemanj\u00e1.<\/p>\n<p>Uma certa sepultura como as outras deste mesmo lugar ser\u00e1 levada pelas \u00e1guas marinhas, que levar\u00e3o seus mortos, levar\u00e3o os ossos e tamb\u00e9m as cinzas.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o t\u00famulo de um homem bom.<\/p>\n<p>Vivia numa grande biblioteca. Ali se perdia, escrevia longos di\u00e1rios de viagem, diante da escrivaninha de madeira, rel\u00edquia conservada, salva e intacta. Escrevia tamb\u00e9m \u00e0s filhas a quem muito amava, tendo dado a elas nomes de joias que compunham coroas de reis.<\/p>\n<p>Dentro da extensa caixa de vidro ao lado da estante fininha, guardava como um tesouro, fragmentos diversos de coisas, mem\u00f3ria tatuada de mundos: um colar met\u00e1lico, um peda\u00e7o de tecido num pequeno tear, um adere\u00e7o de penas, min\u00fasculas armas, o canivete r\u00fastico, e belos pigmentos obtidos na tritura\u00e7\u00e3o de minerais encontrados na beira de rios estrangeiros.<\/p>\n<p>Esse homem conheceu a extravag\u00e2ncia de outros povos, mediu-se com o tamanho de animais, viu a dor da guerra, sentiu grande saudade do lar.<\/p>\n<p>Havia naquele terreno sepulturas vol\u00e1teis cavadas na areia solta, ao lado de constru\u00e7\u00f5es mais s\u00f3lidas, embora se adivinhasse que, firme ou fugaz, tudo ali sumiria. Pela hist\u00f3ria lend\u00e1ria deste campo sagrado, sabemos que o cortejo dos mortos era feito em grande sil\u00eancio, seus corpos ajeitados em redes e nunca em caix\u00f5es fechados.<\/p>\n<p>E tudo se dava sob a luz clara do dia e \u00e0 vista da imensid\u00e3o daquelas \u00e1guas profundas.As preces da multid\u00e3o pediam pelo infinito descanso e o gesto reverente de todos invocava a ben\u00e7\u00e3o de Deus na viagem rumo ao espa\u00e7o aberto do mar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>II <\/strong><\/p>\n<p><strong>1- O homem e a caixinha de pigmentos <\/strong><\/p>\n<p>Visto um terno de linho branco para enfrentar as temperaturas. \u00c9 com ele que me despedirei da vida. Est\u00e1 dito e registrado.<\/p>\n<p>Me cheguei perto do rio com estas vestes de homem formal &#8211; ali\u00e1s, o que sempre fui &#8211; e ali na beira das \u00e1guas, me lembrei.<\/p>\n<p>Num efeito \u201cmadeleine\u201d toda a cidade de Chartres se apresentou.<\/p>\n<p>A ponte, o riacho, a barraquinha de crepe, a pequena loja que vendia provimentos para artistas. Aproximei-me da vitrine e vi caixinhas redondas com p\u00f3s de cores estranhas ao arco-\u00edris, fortes, sangu\u00edneas, viol\u00e1ceas, azul de Giotto, cinza chumbo, preto-carv\u00e3o. Vi ainda folhas de ouro bem finas que compunham a extraordin\u00e1ria cole\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Soube, ent\u00e3o, que foram tais corantes que deram a tonalidade ins\u00f3lita ao tingimento dos vidros onde a hist\u00f3ria b\u00edblica era contada na arte sacra dos vitrais.<\/p>\n<p>A Catedral sofreu fogo, sofreu guerras, mas encontrei naquele recinto, diante de sua altura que chama a vertigem, de seu sil\u00eancio, daquela luminosidade coada, uma atmosfera de milagres. Concentrei-me em ora\u00e7\u00f5es com todo o fervor de minha alma religiosa.<\/p>\n<p>Esses pigmentos, com o tempo percebi, continham a minha terra cobi\u00e7ada, meu grande amor dos come\u00e7os, t\u00e3o jovem, t\u00e3o fresco, a travessia do oceano, a l\u00edngua estrangeira, a grandeza da f\u00e9.<\/p>\n<p><strong>2- Os pigmentos e o homem<\/strong><\/p>\n<p>Saindo da visita ao santu\u00e1rio, tomado de espanto e maravilha, o homem parou outra vez diante da vitrine da loja. Entrou, visivelmente aturdido, correu os olhos pelo balc\u00e3o e deixou-os pousar sobre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Depois de sentir a grande emo\u00e7\u00e3o por ter visto a claridade que espreitava transl\u00facida entre as frestas das vidra\u00e7as, nuan\u00e7ada por nossas cores, quando o azul do c\u00e9u j\u00e1 deixava de ser celeste para ser anil, cobalto, para ser roxo como os mantos dos santos na quaresma, por ter dado olhos \u00e0 alma, por ter comungado com o belo e o sagrado, ali decidimos.<\/p>\n<p>Quando aqueles olhos castanhos de nascen\u00e7a se iluminaram com os tons de nossos corpos, guardando na \u00edris aquela delicadeza de luz filtrada, aceitamos ficar entre seus pertences por quase um s\u00e9culo, at\u00e9 que ele se tornasse um anci\u00e3o e vestisse pela derradeira vez, seu terno de linho branco para enfrentar as temperaturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">maio\/2024<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No tempo do luto, quem \u00e9 que a mem\u00f3ria chama? Que sinais, que objetos escolhe para fazer uma hist\u00f3ria voltar a pulsar? Por Rubia Delorenzo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[88],"edicao":[263],"autor":[75],"class_list":["post-3181","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos","tag-literatura","edicao-boletim-71","autor-rubia-delorenzo","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3181","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3181"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3181\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3238,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3181\/revisions\/3238"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3181"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3181"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3181"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3181"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3181"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}