{"id":3288,"date":"2024-09-19T22:56:47","date_gmt":"2024-09-20T01:56:47","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3288"},"modified":"2024-09-25T16:52:08","modified_gmt":"2024-09-25T19:52:08","slug":"uma-clinica-grupal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/09\/19\/uma-clinica-grupal\/","title":{"rendered":"Uma cl\u00ednica grupal"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Uma cl\u00ednica grupal<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Sylvia Fernandes<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O Projeto Cl\u00ednico-\u00c9tico-Pol\u00edtico da Cl\u00ednica do Sedes elege o dispositivo grupal como uma pr\u00e1tica cl\u00ednica de resist\u00eancia ao modo indiv\u00edduo de subjetiva\u00e7\u00e3o, \u00e0 massifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 desigualdade social. Dominante em nossa cultura, o modo indiv\u00edduo se faz pelo efeito de uma crescente normaliza\u00e7\u00e3o social, avessa \u00e0s singularidades e \u00e0s diversidades.<\/p>\n<p>O dispositivo grupal permeia as diversas a\u00e7\u00f5es da Cl\u00ednica. As recep\u00e7\u00f5es de novos usu\u00e1rios s\u00e3o feitas em grupo, o encaminhamento e a constru\u00e7\u00e3o do projeto terap\u00eautico singular s\u00e3o realizados em grupo e as discuss\u00f5es cl\u00ednico-institucionais com os aprimorandos (alunos dos cursos de especializa\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento do Instituto) e volunt\u00e1rios s\u00e3o feitas em seus grupos de refer\u00eancia, as equipes cl\u00ednicas). Acontecem diversas modalidades de atendimento grupal, dirigidos a crian\u00e7as, adolescentes e adultos. A abordagem psicanal\u00edtica relativa \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o subjetiva pode trazer um aporte singular ao trabalho terap\u00eautico grupal, como mais uma alternativa ao tratamento do sofrimento das pessoas que nos procuram. Seguem algumas reflex\u00f5es advindas de minha pr\u00e1tica com grupos psicanal\u00edticos que atendem adultos, na Cl\u00ednica do Sedes.<\/p>\n<p>O sofrimento humano est\u00e1 ligado \u00e0s vicissitudes da rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o outro. O eu, formador da identidade, \u00e9 composto pelas identifica\u00e7\u00f5es com a imagem do outro, por\u00e9m, a essa dimens\u00e3o imagin\u00e1ria do outro, necess\u00e1ria para a constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade, um diferente Outro se imp\u00f5e. Trata-se daquilo que \u00e9 anterior e exterior ao sujeito, e o determina. \u00c9 no deparar-se com essa alteridade radical, no mais \u00edntimo e exterior de si, que o sujeito pode acontecer. Assim, uma a\u00e7\u00e3o anal\u00edtica leva em considera\u00e7\u00e3o tanto a dimens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es com os semelhantes, vivida na hist\u00f3ria singular daquele sujeito, com o lugar e a fun\u00e7\u00e3o daqueles v\u00ednculos formadores do desejo, como a outra dimens\u00e3o, a do que est\u00e1 sempre al\u00e9m do outro, anterior e irredut\u00edvel.<\/p>\n<p>O processo psicanal\u00edtico se d\u00e1 num movimento pendular entre essas dimens\u00f5es, que podemos nomear como <em>tempos em espiral do acontecer ps\u00edquico<\/em>. Como pensar esses tempos num atendimento psicanal\u00edtico grupal?<\/p>\n<p><strong>Primeiro Tempo<br \/>\n<\/strong><em>Tempo do risco da perda da identidade<\/em><\/p>\n<p>A indica\u00e7\u00e3o para participar de um grupo tende a mobilizar no sujeito uma s\u00e9rie de representa\u00e7\u00f5es, suscitando expectativas relativas ao contato com o outro.\u00a0 Observa-se que, nos primeiros encontros, a identidade \u00e9 colocada numa certa suspens\u00e3o e o temor da indiscrimina\u00e7\u00e3o, da perda dos limites e da invas\u00e3o do outro se fazem presentes pela manifesta\u00e7\u00e3o de um autoerotismo povoado pelas fantasias mais precoces. \u00c9 vivenciado como uma volta ao per\u00edodo pr\u00e9-especular, quando o corpo ainda se encontra numa certa fragmenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 a constitui\u00e7\u00e3o do eu, como a proje\u00e7\u00e3o de uma superf\u00edcie, que possibilitaria organizar as puls\u00f5es parciais. \u00c9 um tempo anterior \u00e0 palavra, muito marcado pela rela\u00e7\u00e3o fusional com o outro e pelo surgimento de fantasias origin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Nesse momento, o grupo ainda n\u00e3o existe, pois estamos diante de um agrupamento de pessoas que pulsam isoladamente. Trata-se de um tempo em que, na transfer\u00eancia, a tend\u00eancia \u00e9 que predominem os sentimentos de depend\u00eancia de um terapeuta idealizado, que d\u00ea respostas e n\u00e3o quest\u00f5es.<\/p>\n<p>O trabalho a ser feito passa pela constru\u00e7\u00e3o da imagem, o asseguramento de um campo circunscrito, que possibilite o olhar ao outro, o olhar do outro, sem a dissolu\u00e7\u00e3o nele. Trata-se de dar figura \u00e0 ang\u00fastia da perda dos limites. As cenas trazidas nas sess\u00f5es cumprem essa fun\u00e7\u00e3o. O artif\u00edcio da media\u00e7\u00e3o possibilita uma dist\u00e2ncia suficientemente boa, funcionando como o Outro primordial e sua fun\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria e necess\u00e1ria para as constru\u00e7\u00f5es iniciais e suas primeiras representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tomar a palavra e dirigi-la ao outro t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de garantir a sustenta\u00e7\u00e3o do olhar, da escuta e do sentido da palavra. Paulatinamente, cria-se um discurso comum, uma forma compartilhada de se perceber o que se repete no dizer, os elementos que chamam a aten\u00e7\u00e3o e as resson\u00e2ncias produzidas nos outros. \u00c9 um tempo de abertura do sentido e dos processos inconscientes. \u00c9 o in\u00edcio do grupo propriamente dito.<\/p>\n<p><strong>Segundo Tempo<br \/>\n<\/strong><em>Tempo das identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias<\/em><\/p>\n<p>O agrupamento pode se constituir em um grupo, quando h\u00e1 o compartilhamento de um sentido. Os membros sentem os efeitos das resson\u00e2ncias, em fun\u00e7\u00e3o da tem\u00e1tica de um discurso. Assim, h\u00e1 um sutil reconhecimento de um outro, mas o que mais importa \u00e9 o querer que o outro seja como eu. \u00c9 um tempo de identifica\u00e7\u00f5es, entretanto menos amea\u00e7ado pelo risco da dissolu\u00e7\u00e3o da identidade. Aqui \u00e9 a imagem de si que vem do outro que impera. As pessoas se encantam com o encontro, sentem-se acompanhadas, vistas, ouvidas. \u00c9 o j\u00fabilo do espelhamento.<\/p>\n<p>H\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento, mas manifestam-se os afetos pr\u00f3prios do funcionamento narc\u00edsico: a hostilidade e a sensa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o diante do terceiro e da n\u00e3o complementariedade. Se no primeiro tempo a no\u00e7\u00e3o de pertencimento n\u00e3o estava totalmente ausente, no segundo tempo, ela n\u00e3o est\u00e1 absolutamente presente. O que possibilita as resson\u00e2ncias conferirem um certo sentido de pertencimento?<\/p>\n<p>As fantasias origin\u00e1rias, que s\u00e3o postas em vig\u00eancia nos grupos, s\u00e3o universais; assim, nesse v\u00ednculo, circulam fantasias id\u00eanticas, que podem atuar como organizadores inconscientes. H\u00e1 em nossa heran\u00e7a filogen\u00e9tica, no arcabou\u00e7o simb\u00f3lico de nossa esp\u00e9cie, estruturas arcaicas que se organizam antes das fantasias constru\u00eddas na experi\u00eancia de cada sujeito. S\u00e3o matrizes transubjetivas que modelam as fantasias individuais.<\/p>\n<p>Os membros do grupo se reconhecem no comum da hist\u00f3ria da humanidade, no que d\u00e1 estatuto \u00e0 nossa esp\u00e9cie, constru\u00eddo na hist\u00f3ria de nossos ancestrais: a sedu\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p><strong>Terceiro Tempo<br \/>\n<\/strong><em>Tempo da diferen\u00e7a<\/em><\/p>\n<p>Se o primeiro tempo \u00e9 pr\u00e9-especular e o segundo \u00e9 especular, o terceiro tempo \u00e9 de trabalho de constru\u00e7\u00e3o conjunta: tempo da palavra, da troca, do universo simb\u00f3lico. Tempo em que a alteridade que nos habita pode acontecer.<\/p>\n<p>Nesse tempo, o grupo, podendo compartilhar suas imagens e se reconhecendo nas imagens dos outros, pode tamb\u00e9m se deparar com as diferen\u00e7as. Num processo de associa\u00e7\u00e3o livre grupal, vai se surpreendendo com o que vai surgindo: resson\u00e2ncias identificat\u00f3rias, mas tamb\u00e9m estranhamento com o \u00edntimo. O trabalho de liga\u00e7\u00e3o pode acontecer: liga\u00e7\u00e3o entre imagens, entre afeto e puls\u00e3o, entre a puls\u00e3o e significante, entre emo\u00e7\u00e3o e sentimento. E o estranho no outro pode ser produtor de defesas, mas tamb\u00e9m de descobertas. Esse momento \u00e9 crucial na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito singular no grupo e do pr\u00f3prio grupo, pois p\u00f5e \u00e0 prova a condi\u00e7\u00e3o de suportar a alteridade. E a alteridade \u00e9 do sujeito singular em rela\u00e7\u00e3o ao grupo, do grupo em rela\u00e7\u00e3o aos membros singulares e do sujeito em rela\u00e7\u00e3o ao que lhe \u00e9 estranho e familiar e ao que lhe \u00e9 radicalmente estrangeiro.<\/p>\n<p>As transfer\u00eancias passam a ser m\u00faltiplas e j\u00e1 existe uma identidade grupal. H\u00e1 um \u201cn\u00f3s\u201d e se faz um envolt\u00f3rio que separa o grupo e o distingue do que est\u00e1 fora. Entretanto, a diferen\u00e7a pode ser veiculada, sem amea\u00e7ar a perman\u00eancia e o pertencimento.<\/p>\n<p>Nesse tempo, acontece muito trabalho ps\u00edquico e, tamb\u00e9m, muita resist\u00eancia, prerrogativa inevit\u00e1vel da constru\u00e7\u00e3o subjetiva. Muitas podem ser as amea\u00e7as ao grupo: inveja, ci\u00fame, rivalidade, disputa, sabotagem, subgrupos, acasalamentos etc.<\/p>\n<p>Atualizam-se os v\u00ednculos formadores do desejo, fonte de agressividade, de rivalidade e de amor nas rela\u00e7\u00f5es com os pais e irm\u00e3os. Manter um equil\u00edbrio de tens\u00e3o suficiente, que permita tanto o trabalho grupal e a produ\u00e7\u00e3o inconsciente quanto a sustenta\u00e7\u00e3o da perman\u00eancia do sujeito singular, \u00e9 um grande desafio. Pois todo grupo, e a todo momento, corre o risco de dissolu\u00e7\u00e3o, com amea\u00e7as de esvaziamento, de rupturas, de abandonos e mesmo de colapso, na medida em que \u00e9 do grupo negar o singular. Todo grupo est\u00e1 sujeito ao dom\u00ednio da puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>Pela fun\u00e7\u00e3o continente e de signific\u00e2ncia do grupo opera-se a desaliena\u00e7\u00e3o e a separa\u00e7\u00e3o, sem uma desamarra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. O processo n\u00e3o se d\u00e1 nem dentro nem fora, nem no indiv\u00edduo, nem no grupo, nem interno nem externo, se d\u00e1 entre inst\u00e2ncias &#8211; no fio que une e separa, sujeito e outro, indiv\u00edduo e coletivo.<\/p>\n<p>Se somos constru\u00eddos pelas nossas rela\u00e7\u00f5es, o grupo possibilita reviver e reconstruir a rela\u00e7\u00e3o com o outro e acessar n\u00edveis arcaicos das manifesta\u00e7\u00f5es inconscientes, pr\u00e9-simb\u00f3licas, que podem ser ent\u00e3o simbolizadas. Pela associa\u00e7\u00e3o livre grupal, o sujeito encontra a palavra que lhe faltava para poder significar suas viv\u00eancias. Esses tr\u00eas tempos podem se atualizar em uma mesma sess\u00e3o.<\/p>\n<p>Se vivemos um tempo da individualidade e da intoler\u00e2ncia, a cl\u00ednica grupal nos faz vislumbrar um sujeito do compartilhamento, que pode advir no grupo, na radicalidade do Outro.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, coordenadora de equipe cl\u00ednica da Cl\u00ednica do Sedes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Proposta de um dispositivo que vislumbra o advir do sujeito do inconsciente por meio da grupalidade. Por Sylvia Fernandes.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[98],"tags":[188,43],"edicao":[281],"autor":[105],"class_list":["post-3288","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-sedes","tag-noticias-do-sedes","tag-saude-mental","edicao-boletim-72","autor-sylvia-fernandes","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3288"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3288\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3325,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3288\/revisions\/3325"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3288"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3288"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}