{"id":3292,"date":"2024-09-19T23:07:39","date_gmt":"2024-09-20T02:07:39","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3292"},"modified":"2024-09-25T14:13:30","modified_gmt":"2024-09-25T17:13:30","slug":"trabalho-na-equipe-clinica-e-na-supervisao-potencias-ruidos-e-conflitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/09\/19\/trabalho-na-equipe-clinica-e-na-supervisao-potencias-ruidos-e-conflitos\/","title":{"rendered":"Trabalho na equipe cl\u00ednica e na supervis\u00e3o: pot\u00eancias, ru\u00eddos e conflitos"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Trabalho na equipe cl\u00ed<\/strong><strong>nica e <\/strong><strong>na <\/strong><strong>supervis<\/strong><strong>\u00e3<\/strong><strong>o: pot<\/strong><strong>\u00eancias, ru\u00eddos e conflitos<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Fabiana Gomes<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como jovem analista em constante forma\u00e7\u00e3o (como creio, n\u00e3o pode deixar de ser), a entrada na Cl\u00ednica social do Sedes se apresentou, a princ\u00edpio, com nuances muito distintas do trabalho na cl\u00ednica particular. Sem entrar em min\u00facias quanto \u00e0 chegada do paciente e todos os aspectos atrelados a essa chegada, desde o processo de sele\u00e7\u00e3o, recep\u00e7\u00e3o de pacientes em grupo, a estrutura da institui\u00e7\u00e3o em si e atravessamentos aos quais o paciente pode ser submetido, s\u00e3o muitas as camadas constru\u00eddas que falam ou podem falar na transfer\u00eancia e na experi\u00eancia anal\u00edtica mesma. E a\u00ed est\u00e3o inclu\u00eddas cenas e experi\u00eancias como um cafezinho na lanchonete, o contato com funcion\u00e1rios da Cl\u00ednica, preenchimento de fichas e formul\u00e1rios, at\u00e9 finalmente acontecer o encontro com o analista que <em>lhe<\/em> foi designado. Nos deparamos na Cl\u00ednica com um modo da transfer\u00eancia se estabelecer que passa pela transfer\u00eancia institucional \u2013 acontece uma passagem da institui\u00e7\u00e3o para aquele que recebe o paciente e, na sequ\u00eancia, a transfer\u00eancia com o analista pode se constituir, se manter, ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Para ilustrar como acontecem alguns atravessamentos institucionais, um breve exemplo: um dos pacientes de uma recep\u00e7\u00e3o da qual participei experimentou o que pareceu, a mim e a outras pessoas da equipe que acompanharam o grupo, algo como um ligeiro precipitado rom\u00e2ntico com outro participante da recep\u00e7\u00e3o. Ocorre que esse participante viria a ser meu paciente.\u00a0Meses depois de iniciado o processo de an\u00e1lise, durante uma sess\u00e3o, como se falasse com uma amiga, ele lan\u00e7a a pergunta: \u201cLembra do fulano da recep\u00e7\u00e3o?\u201d. Devolvo a pergunta com um semblante de interroga\u00e7\u00e3o e interesse. Animado, relembra detalhes sobre a hist\u00f3ria de vida compartilhada pelo tal fulano na ocasi\u00e3o da recep\u00e7\u00e3o e de como ficou impressionado e comovido com o relato. Ao final da lembran\u00e7a, me informa que o encontrou na lanchonete. A cena se torna, ent\u00e3o, material daquela sess\u00e3o.<\/p>\n<p>Toda estrutura e trocas que envolvem, al\u00e9m das supervis\u00f5es e reuni\u00f5es de equipe cl\u00ednica com profissionais de diferentes \u00e1reas, me pareceram uma importante rede de sustenta\u00e7\u00e3o das transfer\u00eancias, uma rica fonte de experi\u00eancia e de interc\u00e2mbio de ideias e abordagens. Confirmando essa percep\u00e7\u00e3o, um dos significantes que mais ouvi referenciados \u00e0 experi\u00eancia na Cl\u00ednica social foi \u201criqueza\u201d \u2013 \u201cuma experi\u00eancia muito rica\u201d. O termo riqueza pode ser lido como abund\u00e2ncia, fertilidade, mas tamb\u00e9m como excesso.<\/p>\n<p>Caso o analista n\u00e3o tenha participado da recep\u00e7\u00e3o do paciente, antes mesmo do primeiro encontro, ele recebe o prontu\u00e1rio. Nesse documento, marcadamente referido ao modelo m\u00e9dico, podem ser encontradas informa\u00e7\u00f5es pessoais como: nome completo, endere\u00e7o e renda, assim como detalhes sobre a medica\u00e7\u00e3o que eventualmente esteja fazendo uso.\u00a0Tamb\u00e9m podem constar impress\u00f5es sobre a participa\u00e7\u00e3o do paciente na recep\u00e7\u00e3o ou, no caso daqueles que j\u00e1 passaram por processos anteriores na Cl\u00ednica, relat\u00f3rios de atendimentos e de evolu\u00e7\u00e3o [modelo m\u00e9dico]. Na reuni\u00e3o de equipe cl\u00ednica, al\u00e9m de ler o prontu\u00e1rio, o analista escuta <em>sobre<\/em> seu futuro paciente.<\/p>\n<p>Entendo que a an\u00e1lise e seus desafios se apresenta em campo, no <em>setting<\/em>. De que maneira e em que momento usar (ou n\u00e3o) esse conhecimento pr\u00e9vio, essa mem\u00f3ria institucional? Quando se tem algum conhecimento pr\u00e9vio do paciente, como articular essa escuta e saberes pr\u00e9vios (que fazem inscri\u00e7\u00f5es) com o que ele lhe traz em an\u00e1lise?\u00a0Sabendo de sa\u00edda que o processo tem data de validade, como dar o tempo necess\u00e1rio para que a transfer\u00eancia se estabele\u00e7a sem se antecipar diante de tantos atravessamentos, transfer\u00eancias pr\u00e9vias e ru\u00eddos? Como lidar com o tempo cronol\u00f3gico \u2013 estabelecido pelo per\u00edodo de tempo do aprimoramento e o tempo dos processos em andamento \u2013 o tempo do inconsciente?\u00a0Outra quest\u00e3o se apresenta: ser\u00e1 que s\u00f3 existem perdas neste formato de atendimento no qual se trabalha com um tempo pr\u00e9-estabelecido?\u00a0Na troca com colegas, notamos, com frequ\u00eancia, pressa e exig\u00eancias supereg\u00f3icas em promover mudan\u00e7as e trazer resultados para o trabalho em andamento. Isso se acentuaria por estarmos numa institui\u00e7\u00e3o em que os analistas participam de um curso, de um percurso de transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Penso que um caminho poss\u00edvel seja sempre o de escutar <em>pelo<\/em> paciente o que ele diz sobre si. Mantendo experi\u00eancias de supervis\u00e3o e intervis\u00e3o como guias que podem ajudar a iluminar o processo, mas sem antecipar ou encobrir a fala do paciente.\u00a0 Sem deixar que isso se sobreponha a sensibilidade e intui\u00e7\u00e3o do analista do caso. E, \u00e9 justamente a\u00ed que a riqueza herdada com a experi\u00eancia na cl\u00ednica (e, naturalmente, com o estudo te\u00f3rico e a an\u00e1lise pessoal) pode oferecer toda sua pot\u00eancia: quando surge na cena anal\u00edtica a oportunidade de trabalhar o que se apresentou naqueles lugares.<\/p>\n<p>Como num sonho com profus\u00e3o de elementos, Freud nos ensina a n\u00e3o nos deixarmos seduzir pela eloqu\u00eancia e botarmos reparo, assuntarmos o que parece irrelevante:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cQuanto mais trivial, disparatado e desinteressante \u00e9 um elemento do sonho manifesto, e quanto mais o sonhador se recusa a fornecer associa\u00e7\u00f5<\/em><em>es a este elemento alegando sua desimport<\/em><em>\u00e2ncia, mais ele se mostra significante para o trabalho de decifra\u00e7\u00e3o, posto que s\u00e3o precisamente eles que poder\u00e3o conduzir ao desejo inconsciente e \u00e0 <\/em><em>solu<\/em><em>\u00e7\u00e3o do sonho.\u201d<\/em><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Talvez o maior desafio venha justamente da\u00ed \u2013 perceber quando e como usar a pot\u00eancia da experi\u00eancia coletiva da Cl\u00ednica, as diferentes perspectivas que se apresentam em rela\u00e7\u00e3o a determinado caso \u2013 que podem ajudar a oxigenar, lampejar e compor mem\u00f3ria. Mas que tamb\u00e9m podem se apresentar como ru\u00eddo antecipat\u00f3rio. Guiar-se pelo que se apresenta em transfer\u00eancia na experi\u00eancia anal\u00edtica, tendo o amparo da rede institucional, parece ser um bom guia para esse compasso. Qu\u00e3o revelador pode ser um cafezinho?<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Escrito apresentado no evento Espa\u00e7o Cl\u00ednico, do Curso de Psican\u00e1lise, em agosto de 2024.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Aluna do curso Psican\u00e1lise no Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> FREUD, S. <em>Obras Completas vol IV, A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos <\/em>(1900). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elabora\u00e7\u00f5es sobre a experi\u00eancia cl\u00ednica no contexto institucional. Por Fabiana Gomes.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[116,290],"edicao":[281],"autor":[289],"class_list":["post-3292","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-curso-de-psicanalise","tag-espaco-clinico","edicao-boletim-72","autor-fabiana-gomes","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3292"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3292\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3318,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3292\/revisions\/3318"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3292"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3292"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}