{"id":3305,"date":"2024-09-19T23:23:12","date_gmt":"2024-09-20T02:23:12","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3305"},"modified":"2024-09-26T09:47:38","modified_gmt":"2024-09-26T12:47:38","slug":"conversa-com-thamy-ayouch","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/09\/19\/conversa-com-thamy-ayouch\/","title":{"rendered":"Conversa com Thamy Ayouch"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Conversa com Thamy Ayouch<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Daniela Athuil<\/strong><a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><strong> e Fernanda Almeida<\/strong><a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma noite de hospitalidade, reconhecimento e enuncia\u00e7\u00e3o. Assim poder\u00edamos dizer sobre o evento <em>Por uma psican\u00e1lise antirracista &#8211;<\/em> <em>Conversa com Thamy Ayouch<\/em>, organizado pelo Conselho de Dire\u00e7\u00e3o (2024-2025) que aconteceu no dia 12 de agosto em audit\u00f3rio lotado. Thamy n\u00e3o fala de um lugar universal, ou de uma imposs\u00edvel posi\u00e7\u00e3o neutra. \u00c9 desde sua experi\u00eancia de hibridez pessoal, cultural, territorial e pol\u00edtica, que encanta a todos, que ele se situa.<\/p>\n<p>Ao lado de Anne Eg\u00eddio, que nos trouxe a perspectiva hist\u00f3rica da luta antirracista no Departamento de Psican\u00e1lise at\u00e9 o momento, e de Mara Caff\u00e9, anfitrionada por ele em Paris e agora anfitri\u00e3 e apresentadora de nosso convidado, Thamy compartilhou conosco importantes reflex\u00f5es acerca das quest\u00f5es raciais por ele pensadas, e nos endere\u00e7ou uma fala implicada, afetiva e tamb\u00e9m provocativa.<\/p>\n<p>Tal qual em nado art\u00edstico sincronizado, Anne Eg\u00eddio fez os primeiros movimentos, posteriormente seguidos por Mara Caff\u00e9 e Thamy Ayouch, ao expor aquilo que precisa ser primordialmente nomeado \u2013 a viol\u00eancia fundante do racismo em nosso pa\u00eds. Ao dizer que o Brasil tem sua origem marcada pelos quase quatro s\u00e9culos de escraviza\u00e7\u00e3o de africanos e seus descentes e pela dizima\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios, Anne exp\u00f4s as consequ\u00eancias do racismo estrutural, n\u00e3o s\u00f3 na sociabilidade cotidiana brasileira, como em sua experi\u00eancia singular com a psican\u00e1lise. Fruto deste processo, foi a constru\u00e7\u00e3o do grupo de trabalho <em>A cor do m<\/em><em>al-<\/em><em>e<\/em><em>star: <\/em><em>p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise e <\/em><em>r<\/em><em>acismo <\/em><em>\u2013 d<\/em><em>a <\/em><em>invisibilidade do trauma ao l<\/em><em>etramento <\/em>que segue compondo as bases para um projeto de forma\u00e7\u00e3o antirracista e anticolonial de forma\u00e7\u00e3o de psicanalistas em nosso Departamento, atualmente encampado tamb\u00e9m pela <a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?mpg=11.00.00\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3<u>o Racial <\/u><u>e A\u00e7\u00f5es Afirmativas.<\/u><\/a><\/p>\n<p>Como num gesto de reciprocidade, Thamy evocou em sua fala a dimens\u00e3o da brasilidade, tanto no sentido do acolhimento entusiasmado que o faz sentir-se um tanto brasileiro, tamb\u00e9m porque aqui morou e lecionou, como no reconhecimento do nosso solo epistemol\u00f3gico f\u00e9rtil e da influ\u00eancia que tiveram no desenvolvimento de seu pensamento muitas autoras e autores negros que est\u00e3o na vanguarda do tema: Isildinha (presente na plateia!), Cida Bento, L\u00e9lia Gonzales, Silvio de Almeida. <em>Hospitalidade em rede.<\/em><\/p>\n<p>Sua fala nos faz lembrar a confer\u00eancia proferida por \u00c2ngela Davis em 2019 no audit\u00f3rio externo do Ibirapuera. Na ocasi\u00e3o, ela perguntou para uma plateia de milhares de pessoas quem havia lido L\u00e9lia Gonzalez, reafirmando a import\u00e2ncia de seu legado. Igualmente, Thamy afirmou que as autoras e os autores brasileiros \u2013 pretas e pretos \u2013 est\u00e3o na vanguarda da produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e intelectual sobre ra\u00e7a, negritude e branquitude, evidenciando a relev\u00e2ncia de nossa produ\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o de referenciais antirracista e anticolonialista.<\/p>\n<p>Fazendo emergir do profundo recalcado, e de maneira absolutamente articulada, Thamy apresentou os desafios para uma constru\u00e7\u00e3o de uma <em>p<\/em><em>sican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>a<\/em><em>ntirracista<\/em> apontando para o desmentido, ou seja, para ele, a colonialidade trabalha diuturnamente na recusa dos efeitos traum\u00e1ticos do colonialismo e do racismo. A ra\u00e7a, enquanto ideologia, foi o constructo da hierarquiza\u00e7\u00e3o entre os sujeitos brancos e n\u00e3o brancos e continua operando como estrutura de poder, racializando brancos e racizando n\u00e3o brancos. Ao delinear a base estrutural do racismo, sua fundamenta\u00e7\u00e3o parte do materialismo; ao reivindicar o melhor da tradi\u00e7\u00e3o e do pensamento gramsciano, ele aponta para o que s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es sociais de ra\u00e7a: a categoria te\u00f3rica subalterno\/subalterna refere-se \u00e0queles que n\u00e3o t\u00eam as possibilidades materiais de representa\u00e7\u00e3o de si no discurso majorit\u00e1rio, \u00e0queles que ficam subalternizados na gram\u00e1tica hegem\u00f4nica da subjetividade.\u00a0 Portanto, segundo ele, a no\u00e7\u00e3o de classe n\u00e3o pode ser recusada pela psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>\u00c0 suposta universalidade do sujeito do conhecimento, ancorada na l\u00f3gica moderna, euroc\u00eantrica, capitalista e colonialista, Thamy se contrap\u00f5e fazendo uma expans\u00e3o a outros campos de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e narrativas, como as decolonais, antirracistas e as de g\u00eanero e <em>queer<\/em>, invisibilizadas dentro das rela\u00e7\u00f5es de poder que sim conferem legitimidade a alguns saberes e a outros, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 epistemologia da ignor\u00e2ncia, essa forma ativa de anula\u00e7\u00e3o de saberes, como o pacto narc\u00edsico da branquitude que nega a perspectiva da ra\u00e7a e seus efeitos, Thamy prop\u00f5e a epistemologia da enuncia\u00e7\u00e3o, do posicionamento.<\/p>\n<p>De onde fala a psican\u00e1lise que praticamos? <em>A branquitude, um lugar.<\/em> O que a ra\u00e7a pode dizer \u00e0 psican\u00e1lise? <em>Desescutar para escutar.<\/em><\/p>\n<p>Uma psican\u00e1lise antirracista precisa reconhecer a ra\u00e7a e seu paradoxal &#8220;existe, n\u00e3o existe&#8221;. Reconhecer, enunciar, para que seja poss\u00edvel escutar o que a ra\u00e7a pode nos dizer de como ela permeia as rela\u00e7\u00f5es e opera como regime de poder. Convoca, portanto, a pensar radicalmente <em>o que <\/em><em>\u00e9 um sujeito<\/em>. Uma reforma necess\u00e1ria ao edif\u00edcio epistemol\u00f3gico psicanal\u00edtico. Uma tarefa urgente e intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Thamy prop\u00f5e uma metapsicologia da ra\u00e7a, o que implica em pensar quem a faz e de que lugar. <em>Para que n<\/em><em>\u00e3o despolitizemos a ra\u00e7<\/em><em>a.<\/em> Sua hip\u00f3tese de um inconsciente racial, ou como nomeou \u2013 o racial infantil, \u00e9 tema de seu pr\u00f3ximo livro, <em>A ra\u00e7a no div\u00e3<\/em>, que ser\u00e1 lan\u00e7ado em setembro na Fran\u00e7a. At\u00e9 l\u00e1, reverberemos suas palavras em n\u00f3s, entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Thamy Ayouch \u00e9 psicanalista, professor titular na Universit\u00e9 Paris Cit\u00e9 e professor visitante no Instituto de Psicologia da USP, graduado tamb\u00e9m em Filosofia e Literatura. Em seus estudos sobre psican\u00e1lise e hibridez, Thamy enfatiza o di\u00e1logo interdisciplinar e as experi\u00eancias interculturais, abordando tem\u00e1ticas de g\u00eanero e ra\u00e7a. Nascido e crescido em Marrocos, Thamy se estabeleceu na Fran\u00e7a, mantendo interc\u00e2mbios pr\u00f3ximos com os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da equipe editorial do boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line e da Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o Racial e A\u00e7\u00f5es Afirmativas do Departamento. Articuladora da \u00c1rea de Publica\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00e3o no Conselho de Dire\u00e7\u00e3o 2024-2025.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Psicanalista, assistente social e professora\u00a0de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Trabalha na Rede P\u00fablica de Sa\u00fade (SUS) em um Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial \u00c1lcool e Drogas (CAPS-AD). Aspirante a membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, integrante da equipe editorial do boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line e da Comiss\u00e3o de Repara\u00e7\u00e3o Racial e A\u00e7\u00f5es Afirmativas do Departamento. Integra o projeto Territ\u00f3rios Cl\u00ednicos da Funda\u00e7\u00e3o Tide Setubal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Not\u00edcias do evento por uma psican\u00e1lise antirracista. 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