{"id":3358,"date":"2024-11-20T17:57:16","date_gmt":"2024-11-20T20:57:16","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3358"},"modified":"2024-11-22T19:14:50","modified_gmt":"2024-11-22T22:14:50","slug":"psicanalise-e-literatura-surrealismos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/11\/20\/psicanalise-e-literatura-surrealismos\/","title":{"rendered":"Psican\u00e1lise e literatura: surrealismos"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Psican\u00e1lise e Literatura: Surrealismos*<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Inconsciente como fonte da criatividade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">por Luis Fernando Santos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>[Andr\u00e9 Breton] em seu hospital de malucos est<\/em><em>\u00e1 <\/em><em>tocado e horrorizado ao ver pacientes<br \/>\nque s\u00e3o melhores poetas do que ele.<br \/>\n<\/em>Th\u00e9odore Fraenkel, amigo de Breton, em seu di\u00e1rio<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao chegar em Viena em 1921, Andr\u00e9 Breton, ent\u00e3o com 25 anos, ficou dias rondando a casa de Sigmund Freud na Berggasse 19 sem coragem de tocar a campainha; alguma coisa o segurava. Havia ido \u00e0 \u00c1ustria com o firme prop\u00f3sito de encontrar um \u00eddolo, aquele que sua vanguarda surrealista com Dal\u00ed e companhia elegeria, \u00e0 revelia de Freud, como uma esp\u00e9cie de patrono sagrado.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Tendo estudado medicina e feito resid\u00eancia em psiquiatria, Breton esperava que o velho Freud, ent\u00e3o com 65 anos, o recebesse como um colega, n\u00e3o exatamente para discutir casos, mas sim arte, a arte que, pouco mais de tr\u00eas anos depois, Breton conceituaria como surrealista, em seu primeiro <em>Manifesto surrealista<\/em>, ainda hoje um de seus mais influentes e conhecidos trabalhos.<\/p>\n<p>Ao escrever o <em>Manifesto<\/em> de 1924, Breton j\u00e1 tinha como refer\u00eancia mais de cinco anos de pesquisa com o que ele ent\u00e3o nomearia surrealismo. Testes e brincadeiras com palavras e poesia, textos escritos com a t\u00e9cnica da escrita autom\u00e1tica e outros jogos pretensiosos\/despretensiosos: tudo virava mat\u00e9ria de experimenta\u00e7\u00e3o para ele e o grupo de jovens amigos que orbitava ao seu redor, como Aragon e \u00c9luard. O preferido entre os amigos, Jacques Vach\u00e9, invadia \u00f4nibus em Paris para anotar, metodicamente, as datas de nascimento dos passageiros ou tocava campainhas de pr\u00e9dios para perguntar aos porteiros se \u201cum tal Jacques Vach\u00e9\u201d ali morava.<\/p>\n<p>Todos esses exerc\u00edcios aparentemente rebeldes e despropositados tinham um objetivo muito claro para o grupo: acessar uma camada de criatividade que se situava <em>abaixo e aqu\u00e9m<\/em> da ger\u00eancia egoica, uma capacidade de enxergar mundos que s\u00f3 eram poss\u00edveis de serem vistos sem a interfer\u00eancia cens\u00f3ria da consci\u00eancia e da racionalidade. Isso fica claro na defini\u00e7\u00e3o de surrealismo de Breton, publicada no primeiro Manifesto:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong>surrealismo<\/strong>, subst. Automatismo ps\u00edquico em seu estado puro, atrav\u00e9s do qual pretende-se expressar verbalmente, atrav\u00e9s de palavras escritas, ou de qualquer outra maneira o funcionamento verdadeiro do pensamento. Ditado do pensamento, na aus\u00eancia de qualquer controle exercido pela raz\u00e3o, desprovido de qualquer preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica ou moral.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">encicl. <em>Philos<\/em>. O surrealismo \u00e9 baseado na cren\u00e7a da superioridade de certas formas de associa\u00e7\u00f5es antes negligenciadas, na onipot\u00eancia dos sonhos, na brincadeira desinteressada do pensamento. Tende a arruinar, de uma vez por todas, todos os outros mecanismos ps\u00edquicos e substitui-los na tarefa de resolver todos os principais problemas da vida.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>\u00c9 arrebatador constatar que a defini\u00e7\u00e3o de surrealismo de Breton poderia ser a defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o livre! Se deixarmos de lado a megalomania idiossincr\u00e1tica do escritor (\u201cresolver todos os principais problemas da vida\u201d \u00e9 algo que, definitivamente, nunca esteve no horizonte de tarefas da psican\u00e1lise), poder\u00edamos imaginar, \u201cbrincar\u201d, que o texto havia sido escrito pelo psicanalista.<\/p>\n<p>A preponder\u00e2ncia dos mecanismos do sonho, a aus\u00eancia de consci\u00eancia, controle, raz\u00e3o para acessar \u201ca verdade\u201d (criativa ou do sintoma), a investiga\u00e7\u00e3o da superioridade de um outro mundo a-est\u00e9tico e a-moral: todos elementos basilares das pesquisas de Freud e Breton. Podemos pensar que Breton pedia a seus colegas surrealistas a mesma coisa que Freud pedia a seus pacientes: crie\/fale livremente, sem preocupa\u00e7\u00e3o com nenhum sentido; conte o que vier \u00e0 cabe\u00e7a, mesmo que \u2013 ou especialmente se \u2013 parecer desimportante.<\/p>\n<p>A coincid\u00eancia n\u00e3o \u00e9 por acaso. A obra de Freud apenas come\u00e7ava a ser traduzida na Fran\u00e7a do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1920,<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> mas Breton estava ciente das descobertas freudianas, que circulavam em franc\u00eas atrav\u00e9s de comentadores imprecisos mas suficientes para que os surrealistas al\u00e7assem Freud a seu santo padroeiro.<\/p>\n<p><strong>O encontro entre Freud e Breton<\/strong><\/p>\n<p>Foi nesses termos identificat\u00f3rios que Breton pisou em Viena em 1921; a ansiedade e hesita\u00e7\u00e3o em bater \u00e0 porta de Freud era daquelas que antecedem o encontro com um \u00eddolo pop, algu\u00e9m que nos entende mais que n\u00f3s mesmos. Ele enxergava uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande entre a psican\u00e1lise e a an\u00e1lise de sonhos freudiana e seus m\u00e9todos art\u00edsticos de escrita e discurso autom\u00e1tico como constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica que nem chegou a colocar em quest\u00e3o se Freud iria se interessar por ele. Buscava um parceiro-cientista que, como ele, estivesse interessado em estudar o n\u00facleo da criatividade humana, aquele sem-limites de cria\u00e7\u00f5es imag\u00e9ticas que apareciam nos sonhos, quando a consci\u00eancia era posta de lado.<\/p>\n<p>O encontro se deu no dia 9 de outubro de 1921 e foi t\u00e3o frustrante que Breton o remoeria, amargo, pelo resto da vida. Ele foi recebido por um m\u00e9dico c\u00e9tico, que o considerava apenas um jovem artista, apressado para encerrar a conversa e atender seu pr\u00f3ximo paciente.<\/p>\n<p>O que explicaria um desencontro t\u00e3o radical entre esses dois homens, que dedicaram a vida a estudar o mesmo tema, mesmo que por perspectivas diferentes? Em psican\u00e1lise lidamos a todo o momento com o paradoxo e este \u00e9 mais um que teremos que suportar: o interesse aparente de Freud e Breton pela verdade do inconsciente n\u00e3o se reverteu em um encontro intelectual e emocional prol\u00edfico. Mas podemos esbo\u00e7ar alguns pensamentos.<\/p>\n<p>Penso que Freud, apesar de ter inventado a quintess\u00eancia do s\u00e9culo XX (o homem conflituado, que \u201cn\u00e3o \u00e9 senhor na pr\u00f3pria casa\u201d), era um homem formado no s\u00e9culo XIX, um homem cl\u00e1ssico, que leu e lia cl\u00e1ssicos \u2013 mais um paradoxo, a psican\u00e1lise como \u00e1pice e ocaso da modernidade. Freud foi cr\u00edtico e passou a vida a inovar, mesmo quando suas ideias implodiram pilares inteiros da sociedade ocidental, como as ideias de produtivismo, objetividade etc. Mas ainda assim era um defensor por tabela do processo civilizat\u00f3rio, considerava a neurose benigna como condi\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia e a prosperidade da sociedade. J\u00e1 Breton, 40 anos mais jovem, tendo servido na Primeira Guerra como m\u00e9dico (e, posteriormente, expulso da Fran\u00e7a durante a Segunda Guerra), me parece que tinha muito mais f\u00f4lego e vontade de encarar um projeto de implos\u00e3o civilizat\u00f3ria e art\u00edstica. O surrealismo queria construir uma literatura que n\u00e3o fosse literatura, que n\u00e3o tivesse autor. Seu bi\u00f3grafo relata a frustra\u00e7\u00e3o de Breton em escrever, escrever, escrever e terminar insatisfeito e atordoado, porque havia produzido exatamente aquilo que n\u00e3o queria: literatura.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca do encontro entre Freud e Breton, as pesquisas em psican\u00e1lise ainda se ocupavam bastante de entender e descrever o <em>acontecer<\/em><a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> ps\u00edquico. A outra hip\u00f3tese pode ser a de que a pesquisa psicanal\u00edtica com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 criatividade ainda era muito incipiente e n\u00e3o tinha o f\u00f4lego que ganharia um par de d\u00e9cadas depois com psicanalistas como Wilfred Bion e Donald Winnicott. Do meu ponto de vista, os acontecimentos pol\u00edticos do desenrolar do s\u00e9culo XX em especial a fal\u00eancia civilizat\u00f3ria da Segunda Guerra incitariam a pesquisa psicanal\u00edtica para al\u00e9m de sua perspectiva m\u00e9dico-terap\u00eautica, aproximando-a da filosofia, de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a <em>vida viva<\/em>, numa abordagem <em>positiva<\/em> da epistemologia psicanal\u00edtica. O sujeito voltaria a ser pensado em conex\u00e3o com um todo. Winnicott, por exemplo, escreveria como um cuidado materno prim\u00e1rio adequado, que fomentasse o desenvolvimento individual, engendrava um beb\u00ea que, crescido, cuidaria de volta desse ambiente, pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia da democracia.<\/p>\n<p>\u00c9 um disc\u00edpulo de Winnicott que vale a pena ser citado para finalizar essa discuss\u00e3o: o psicanalista estadunidense formado em Londres Christopher Bollas.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> O desdobramento de uma criatividade ps\u00edquica intr\u00ednseca a cada indiv\u00edduo est\u00e1 no cerne das teorias de Bollas. Havendo condi\u00e7\u00f5es suficientemente boas para o desenvolvimento dessa criatividade potencial o indiv\u00edduo experimentaria sentimento de realiza\u00e7\u00e3o. A possibilidade de ir intuindo esse caminho individual autoral seria o caminho da sa\u00fade ps\u00edquica para Bollas. Faz parte dessa intui\u00e7\u00e3o que o inconsciente proteja da consci\u00eancia tamb\u00e9m as ideias criativas, as perspectivas autorais com que o mundo poderia ser enxergado para o desdobramento de potencialidades inerentes; protegeria-as do crivo do recalque, da intromiss\u00e3o adiantada e cens\u00f3ria da consci\u00eancia. Me parece que Breton n\u00e3o poderia concordar mais!<\/p>\n<p><strong>Freud e a literatura<\/strong><\/p>\n<p>Mas o paradoxal desencontro entre Freud e Breton n\u00e3o significa que a psican\u00e1lise n\u00e3o esteve ligada \u00e0s artes desde o primeiro momento, com um especial destaque para a literatura. Freud foi um homem que tinha lido todos os cl\u00e1ssicos, citou Shakespeare e Goethe em diversos momentos em seus textos cient\u00edficos e, lembremos, sua principal teoria \u00e9 inspirada e nomeada por uma obra liter\u00e1ria <em>\u00c9dipo Rei<\/em>, de S\u00f3focles n\u00e3o por um achado \u201ccient\u00edfico\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, Freud guardava um lugar nobil\u00edssimo para a literatura na epistemologia psicanal\u00edtica, como n\u00e3o deixa d\u00favidas a seguinte passagem de seu extenso coment\u00e1rio sobre o romance <em>Gradiva<\/em>, de Wilhelm Jensen, que lhe foi apresentado por Jung:<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Os escritores s\u00e3o aliados valiosos e seu testemunho deve ser altamente considerado, pois sabem numerosas coisas do c\u00e9u e da terra, com as quais nem sonha a nossa filosofia. No conhecimento da alma eles se acham muito \u00e0 frente de n\u00f3s, homens cotidianos, pois recorrem a fontes que ainda n\u00e3o tornamos acess\u00edveis \u00e0 ci\u00eancia.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Tornar a literatura uma fonte acess\u00edvel \u00e0 ci\u00eancia: essa era parte do projeto epistemol\u00f3gico psicanal\u00edtico. \u00c9 com esse esp\u00edrito que as mesas de discuss\u00e3o do ciclo foram pensadas: pessoas da literatura e psicanalistas, dividindo uma mesma pesquisa a partir de obras liter\u00e1rias \u201csurrealistas\u201d.<\/p>\n<p>Entre aspas, porque pensamos aqui em surrealismos, no plural \u2013 n\u00e3o s\u00e3o obras produzidas durante esse espa\u00e7o e tempo determinados (Fran\u00e7a\/Europa, primeira metade do s\u00e9culo XX) em que um grupo dos mais diversos artistas orbitou em torno de Andr\u00e9 Breton. N\u00e3o formalmente surrealistas, mas dizendo de surrealismos, de maneiras de enxergar mundos diferentes, criar e selecionar camadas novas de realidade, t\u00e3o ou mais valiosas que uma pretensa realidade objetiva. Como diz Manoel de Barros, s\u00f3 dez por cento \u00e9 mentira. O resto seria inventado; a diferen\u00e7a? \u2013 \u00e9 que \u201ca inven\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa que serve para aumentar o mundo\u201d.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>O Ciclo<\/strong><\/p>\n<p>O ciclo de debates sobre psican\u00e1lise, literatura e surrealismo aconteceu na Biblioteca M\u00e1rio de Andrade, em agosto de 2024, em que psicanalistas e comentadores de literatura se uniram em mesas que procuramos montar a partir de uma obra liter\u00e1ria e de um \u201cdisparador\u201d, um tema, que pudesse enquadrar minimamente a discuss\u00e3o em meio \u00e0 infinidade de assuntos e leituras poss\u00edveis que cada obra traria.<\/p>\n<p>Iniciamos o ciclo com o livro mais importante da vida de Andr\u00e9 Breton, <em>Os cantos de Maldoror**<\/em>, de Isidore Ducasse, que assina como Conde de Lautr\u00e9amont. Podemos pensar que Breton inventou o surrealismo tendo este livro numa m\u00e3o e os trabalhos sobre os sonhos de Freud na outra. Breton comentaria e celebraria essa obra durante praticamente toda a sua vida. Um livro t\u00e3o arrebatador quanto misterioso.<\/p>\n<p>Sabe-se quase nada sobre a breve vida de Isidore Ducasse.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Ele era o filho de um diplomata franc\u00eas, nasce em 1846 em Montevid\u00e9u, perde a m\u00e3e muito cedo e vai para a Fran\u00e7a aos 13 anos para estudar. Morre em 1870, aos 24 anos, de maneira misteriosa.<\/p>\n<p>Sobre o livro, o que se sabe \u00e9 que ele o escreve entre 1868 e 1869, provavelmente de maneira vertiginosa. O livro s\u00f3 \u00e9 publicado quatro anos ap\u00f3s a sua morte. \u00c9 imposs\u00edvel definir o livro, mas podemos dizer que \u00e9 um texto todo recortado, conjuntos e conjuntos de cenas sobrepostas, \u00e0s vezes dif\u00edceis de acompanhar \u2013 um sonho?<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer que \u00e9 delirante, um del\u00edrio. \u00c9 uma cruzada contra o homem, contra Deus e contra o pr\u00f3prio autor, escrito por algu\u00e9m sem esperan\u00e7as na humanidade, na divindade e em si mesmo. Nesse ponto podemos identificar muitos elementos schreberianos, num mundo quebrado, com homens indignos e um Deus louco, que aparece \u00e0s vezes sentado num trono de fezes humanas, \u00e0s vezes jogado na rua, b\u00eabado.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 uma desconstru\u00e7\u00e3o de todo tipo de apoio civilizat\u00f3rio, de toda cren\u00e7a num mundo que poderia fazer sentido. Mas tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de cria\u00e7\u00e3o de um outro sentido, de uma outra beleza, que guiou os surrealistas desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>Num dos trechos mais famosos, j\u00e1 no sexto canto, Maldoror fala apaixonado da beleza de um garoto jovem, Mervyn, numa declara\u00e7\u00e3o de amor que definiria o que era o belo para os surrealistas: \u201c\u00c9s belo [\u2026] como o encontro fortuito, sobre uma mesa de disseca\u00e7\u00e3o, de uma m\u00e1quina de costura e de um guarda-chuva\u201d.<\/p>\n<p>Mas talvez o elemento que mais chame a aten\u00e7\u00e3o, que foi o escolhido para ser comentado, \u00e9 uma agressividade homoer\u00f3tica que aparece em diversas passagens. Cenas de tortura contra meninos jovens, narradas com detalhes, s\u00e3o constantes no livro, um fluxo er\u00f3tico e agressivo no qual nos vemos mergulhados. Tortura e amor, lado a lado.<\/p>\n<p>H\u00e1 diversas cenas de tortura: um n\u00e1ufrago nadando pela vida, um homem num prost\u00edbulo, e mesmo Mervyn, que \u00e9 torturado no final do livro. Essa sexualidade masculina agressiva, que gera ao mesmo tempo atra\u00e7\u00e3o e repulsa, esse <em>Unheimlich<\/em>, foi tema da discuss\u00e3o da mesa.<\/p>\n<p>O ciclo seguiu-se com <em>Gradiva<\/em>, de Wilhelm Jensen, outro livro pr\u00e9-surrealista adotado por Breton e companhia. Uma hist\u00f3ria de sonhos e del\u00edrios, em que o personagem principal \u00e9 acolhido em sua loucura por sua interlocutora, que opera nele uma esp\u00e9cie de cura, de acordo com a leitura de Freud. A t\u00edtulo de curiosidade, Gradiva foi o nome dado por Breton a uma galeria de arte que abriu em Paris no final da d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>Continuamos com <em>Na casa dos sonhos<\/em>, de Carmen Maria Machado, um romance autobiogr\u00e1fico sobre um relacionamento l\u00e9sbico abusivo vivido pela autora. Qual a rela\u00e7\u00e3o entre a escrita do trauma e sua supera\u00e7\u00e3o? Esse foi um tema que apareceu em mais de uma mesa do ciclo.<\/p>\n<p>Em seguida, o delicioso <em>Cinquenten<\/em><em>\u00e1rio da histeria<\/em>, de Breton e Aragon, publicado numa edi\u00e7\u00e3o da revista <em>Revolu\u00e7\u00e3o surrealista<\/em>. O texto diz muito da escrita desaforada e elegante de Breton, uma celebra\u00e7\u00e3o da histeria como est\u00e9tica e uma (de diversas) afrontas \u00e0 Freud.<\/p>\n<p>Em termos de vis\u00f5es alternativas de mundo, talvez seja muito dif\u00edcil fazer frente ao pensamento dos povos origin\u00e1rios da Am\u00e9rica do Sul. No pequeno livro infanto-juvenil de Ol\u00edvio Jekup\u00e9, <em>A mulher que virou urutau<\/em>, o autor nos conta a hist\u00f3ria da \u00edndia que se apaixonou pelo lua (no masculino), mas recusou-se a casar com ele ao v\u00ea-lo transmutado no corpo de um velho. Como puni\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 transformada num urutau, um p\u00e1ssaro que ningu\u00e9m v\u00ea, pois \u00e9 id\u00eantico a um tronco de \u00e1rvore; podemos apenas ouvir seu canto \u00e0 noite, lamentando-se para o lua.<\/p>\n<p>Breton e seus seguidores tinham um dispositivo de cria\u00e7\u00e3o que eles chamavam de <em>cad\u00e1ver saboroso<\/em>: um texto escrito a diversas m\u00e3os, de maneira autom\u00e1tica, muitas vezes sem que o autor do par\u00e1grafo seguinte tivesse sequer lido o anterior. A experi\u00eancia da escrita de <em>A hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria dos meus dentes<\/em>, de Valeria Luiselli, \u00e9 parente desse m\u00e9todo de cria\u00e7\u00e3o. Luiselli \u00e9 a autora do romance, mas conta com dezenas de co-autores: trabalhadores de uma f\u00e1brica de sucos com quem se correspondeu e de quem recolheu imagens e hist\u00f3rias que costura ao livro.<\/p>\n<p>Seguimos com mais uma auto-fic\u00e7\u00e3o, <em>Mudar: m<\/em><em>\u00e9<\/em><em>todo<\/em>, de \u00c9douard Louis, um emocionante re-contar de sua inf\u00e2ncia numa pequena cidade da Fran\u00e7a, inf\u00e2ncia atropelada pela pobreza e pelos insultos homof\u00f3bicos. Mas \u00e9 ainda na escola que o autor decide criar uma nova hist\u00f3ria para si, n\u00e3o ser mais Edy, mas \u00c9douard, um escritor. A literatura, impressionantemente, aparece n\u00e3o s\u00f3 como a fuga de um papel social, mas tamb\u00e9m de um lugar econ\u00f4mico ao qual estava destinado pela desigualdade e pelo lugar onde nasceu. A escrita \u00e9 de uma sinceridade potente que tenta reconstruir uma trajet\u00f3ria de estudos, meias-verdades, prostitui\u00e7\u00e3o; elementos de uma recria\u00e7\u00e3o, reinven\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>O ciclo termina de forma apote\u00f3tica com <em>Livro sobre nada<\/em>, de Manoel de Barros, um criador de mundos imagin\u00e1rios, de brinquedos feitos de palavras. Algu\u00e9m para quem \u201ctudo que n\u00e3o invento \u00e9 falso\u201d.<\/p>\n<p><strong>Programa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Com um grande agradecimento a todos os participantes das mesas, segue a programa\u00e7\u00e3o completa do ciclo, cujos v\u00eddeos estar\u00e3o dispon\u00edveis no canal do YouTube da Biblioteca.<\/p>\n<p><strong>A agressividade e o homoerotismo<br \/>\n<\/strong>Obra: Os cantos de Maldoror \u2013 Conde de Lautr\u00e9amont<br \/>\ncom Christian Dunker e Alexandre Patr\u00edcio<br \/>\nmedia\u00e7\u00e3o de Luis Santos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sonho, del\u00edrio e arte: aproxima\u00e7\u00f5es entre a psican\u00e1lise e o surrealismo<br \/>\n<\/strong>Obra: <em>Gradiva<\/em>, de Wilhem Jensen<br \/>\ncom Pedro Heliodoro e S\u00edlvia Nogueira de Carvalho<br \/>\nmedia\u00e7\u00e3o de Rodrigo Veinert<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Repeti<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o e trauma<\/strong><\/p>\n<p>Obra: <em>Na casa dos sonhos<\/em>, de Carmen Maria Machado<br \/>\ncom Tatiana Pequeno e Aline Rocha<br \/>\nmedia\u00e7\u00e3o de Gabriela Soutello<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Toda beleza ser\u00e1 convulsiva: a est<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>tica da histeria<br \/>\n<\/strong>Obra: <em>Cinquenten<\/em><em>\u00e1rio da histeria<\/em>, de Breton &amp; Aragon<br \/>\ncom Gustavo Henrique Dion\u00edsio e Paulo Jeronymo Pessoa de Carvalho<br \/>\nmedia\u00e7\u00e3o de Mario Sagayama<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Etnopo<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>ticas amer\u00edndias<br \/>\n<\/strong>Obra: <em>A mulher que virou urutau<\/em>, de Ol\u00edvio Jekup\u00e9<br \/>\ncom Malu Brant, Jo\u00e3o Pentagna e Cristino Wapichana<br \/>\nmedia\u00e7\u00e3o de William Figueiredo<br \/>\n+ apresenta\u00e7\u00e3o musical de Coral Guarani<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Cad\u00e1ver saboroso e a narrativa do inconsciente<br \/>\n<\/strong>Obra: <em>A hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria dos meus dentes<\/em>, de Valeria Luiselli<br \/>\ncom Tatiana Furquim do Prado Valladares e Giovana Bartucci<br \/>\nmedia\u00e7\u00e3o de Aryanne Rocha<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Autofic\u00e7\u00e3o, a narra\u00e7\u00e3o do eu e a reconstru\u00e7\u00e3o da identidade<br \/>\n<\/strong>Obra: Mudar: m\u00e9todo, de \u00c9douard Louis<br \/>\ncom Ta\u00eds Bravo e Eliane De Christo<br \/>\nmedia\u00e7\u00e3o de Martha Lopes<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fazer brinquedos com palavras<br \/>\n<\/strong>Obra: <em>Livro sobre nada<\/em>, de Manoel de Barros<br \/>\ncom Fl\u00e1vio Ferraz e Rubens Volich<br \/>\nmedia\u00e7\u00e3o de Astr\u00e9a Ribeiro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Freud, S. (1907\/2015). <em>O del\u00edrio e os sonhos na Gradiva de W. Jensen<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras.<\/p>\n<p>Freud, S. (1911\/2004). <em>Obras psicol\u00f3gicas completas \u2013 Escritos sobre a psicologia do inconsciente<\/em>. Trad. Luiz A. Hanns. S\u00e3o Paulo: Imago.<\/p>\n<p>Polizzotti, M. (1995\/2009). <em>Revolution of the Mind \u2014 The Life of Andr\u00e9 Breton<\/em>. Boston: Black Widow Press.<\/p>\n<p>Roudinesco, E. (1986\/1990) <em>Jacques Lacan &amp; Co. \u2013 A History of Psychoanalysis in France, 1925-1985<\/em>. Chicago: The University of Chicago Press.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a><\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p>* Texto escrito por ocasi\u00e3o do evento <em>Psican\u00e1lise e Literatura: Surrealismos<\/em>, realizado na Biblioteca Municipal M\u00e1rio de Andrade em agosto de 2024, que contou com a participa\u00e7\u00e3o de diversos membros e amigos do Departamento. O evento j\u00e1 est\u00e1 em seu segundo ano e adotou este ano o tema que a Biblioteca trabalhou em toda sua programa\u00e7\u00e3o, o surrealismo, por ocasi\u00e3o dos 100 anos da publica\u00e7\u00e3o do primeiro <em>Manifesto surrealista<\/em> por Andr\u00e9 Breton.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae, correalizador do evento Psican\u00e1lise e Literatura: Surrealismos juntamente com Paulina Schmidtbauer. <a href=\"http:\/\/luisfsantos.work\">http:\/\/luisfsantos.work<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> M. Polizzotti, <em>Revolution of the Mind \u2014 The Life of Andr\u00e9 Breton<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> A descri\u00e7\u00e3o completa do encontro de Breton e Freud, bem como seus desenrolares por toda a vida de Breton, est\u00e1 na estonteante biografia <em>Revolution of the Mind \u2014 The Life of Andr\u00e9 Breton<\/em>, de Mark Polizzotti.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> M. Polizzotti, <em>op. cit.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Para mais detalhes sobre a chegada da obra de Freud \u00e0 Fran\u00e7a e, como no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1920 sabia-se pouco e mal sobre ele, ver E. Roudinesco, <em>Jacques Lacan &amp; Co. \u2013 A History of Psychoanalysis in <\/em><em>France, 1925-1985<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Aprendi com Paulina Schmidtbauer que a melhor tradu\u00e7\u00e3o para o texto de 1911 \u00e9 \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre os dois princ\u00edpios do <em>acontecer<\/em> ps\u00edquico\u201d, cf Luiz A. Hanns (2004), <em>Obras Completas de Sigmund Freud \u2013 Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente<\/em>, Ed. Imago.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Uma discuss\u00e3o mais extensa sobre uma leitura bollasiana da criatividade e do surrealismo pode ser encontrada em artigo meu publicado no livro <em>Por que Bollas?<\/em>, da Cole\u00e7\u00e3o Grandes Psicanalistas, da editora Zagodoni.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Mais um desencontro para a nossa lista: no final de seu texto sobre a <em>Gradiva<\/em>, Freud diz ter enviado uma carta para Jensen, perguntando-o se conhecia sua obra sobre os sonhos. Freud estava encantado com a coincid\u00eancia entre sua pesquisa cient\u00edfica sobre os sonhos e a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Jensen. Para sua decep\u00e7\u00e3o, Jensen escreveu-lhe de volta dizendo que n\u00e3o sabia do que ele estava falando.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]&gt;<\/a> S. Freud. <em>O del\u00edrio e os sonhos na Gradiva de W. Jensen<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> A bel\u00edssima cita\u00e7\u00e3o est\u00e1 no document\u00e1rio <em>S\u00f3 dez por cento \u00e9 mentira<\/em>, de Pedro Cezar, dispon\u00edvel no YouTube.<\/p>\n<p>** Apresento aqui mais longamente o livro <em>Os cantos de Maldoror<\/em> pois ele foi tema da mesa que tive o prazer de mediar, com os debatedores Christian Dunker e Alexandre Patr\u00edcio de Almeida.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Devo as informa\u00e7\u00f5es que se seguem ao professor Joaquim Brasil, que tamb\u00e9m fez uma tradu\u00e7\u00e3o d\u2019<em>Os c<\/em><em>antos de Maldoror<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O inconsciente como fonte da criatividade. Por Luis Fernando Santos.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[85],"tags":[88],"edicao":[295],"autor":[219],"class_list":["post-3358","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-literatura","tag-literatura","edicao-boletim-73","autor-luis-fernando-santos","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3358"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3358\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3545,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3358\/revisions\/3545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3358"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3358"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}