{"id":336,"date":"2022-01-21T09:29:28","date_gmt":"2022-01-21T12:29:28","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=336"},"modified":"2023-03-23T21:25:21","modified_gmt":"2023-03-24T00:25:21","slug":"desalienacao-comentario-para-uma-proposicao-antirracista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/01\/21\/desalienacao-comentario-para-uma-proposicao-antirracista\/","title":{"rendered":"Desaliena\u00e7\u00e3o: coment\u00e1rio para uma proposi\u00e7\u00e3o antirracista"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Desaliena\u00e7\u00e3o: coment\u00e1rio para uma proposi\u00e7\u00e3o antirracista.<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Paula Francisquetti <\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O debate acalorado em diferentes grupos de psicanalistas instigou-me a escrever um coment\u00e1rio sobre a desaliena\u00e7\u00e3o e o racismo em rela\u00e7\u00e3o aos afrodescendentes. Quando poderemos desmontar o j\u00e1 antigo e insidioso <em>apartheid<\/em> brasileiro escamoteado por uma narrativa de democracia racial? Por que tal quest\u00e3o diz respeito aos psicanalistas?<\/p>\n<p>Tais debates aconteceram no contexto da desastrosa gest\u00e3o da pandemia da Covid-19 no Brasil, que tem levado ao agravamento vertiginoso e obsceno das j\u00e1 conhecidas e injustas desigualdades sociais. Tem sido divulgado continuamente o descaso governamental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pandemia. \u00c9 grande o n\u00famero de mortos entre os afrodescendentes, nas camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, sem acesso \u00e0 escolariza\u00e7\u00e3o e sem o direito a uma vida digna. As viol\u00eancias, os assassinatos e os massacres, como o da favela do Jacarezinho no Rio de Janeiro em maio de 2021, al\u00e9m dos mortos na pandemia, apontam para o racismo estrutural. A hist\u00f3ria colonial repete-se com seu rastro de sangue e morte. Essa tr\u00e1gica heran\u00e7a continua a produzir mal-estar, mortes e pesar sobre n\u00f3s, brancos, afrodescendentes e ind\u00edgenas<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, diferentemente.<\/p>\n<p>Sem que todos tenham possibilidade a uma vida digna e respeito, n\u00e3o teremos democracia nem justi\u00e7a social. Kilomba (2019) afirma que o grande problema do racismo n\u00e3o \u00e9 a diversidade, mas a desigualdade; quando a diferen\u00e7a leva ao estigma, \u00e0 desonra e \u00e0 inferioridade. Ela aponta tr\u00eas n\u00edveis de racismo: o estrutural (revelador da exclus\u00e3o de grupos racializados das estruturas de poder), o institucional (presente na elabora\u00e7\u00e3o de agendas e pol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o, de emprego e outras que privilegiam os brancos) e aquele do cotidiano (de car\u00e1ter constante, repetitivo). Diversas camadas da vida, sobretudo as subjetividades, s\u00e3o atravessadas \u00a0pelo racismo, sendo fundamental para seu combate tocarmos na quest\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o ainda existente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 percep\u00e7\u00e3o deste, tendo como uma de suas faces a indiferen\u00e7a e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise, por sua vez, traz-nos em seu fundamento, em seu cora\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o da desaliena\u00e7\u00e3o, impl\u00edcita na formula\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo psicanal\u00edtico da livre associa\u00e7\u00e3o, de abertura ao inconsciente, de fazer saber a partir do sujeito que fala em transfer\u00eancia. No contexto desse processo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade do sujeito do inconsciente, \u00e0 elucida\u00e7\u00e3o de uma historicidade, qual a rela\u00e7\u00e3o entre essas duas formas de aliena\u00e7\u00e3o indicadas?<\/p>\n<p>No seu belo texto \u201cPol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise \u2013 alinhavando algumas anota\u00e7\u00f5es de leitura\u201d, Regina Chnaiderman (1988) afirma que no contexto da cl\u00ednica psicanal\u00edtica n\u00e3o se trata de mera teoriza\u00e7\u00e3o em torno de um objeto, mas de fazer o sujeito falar, fazer saber e n\u00e3o saber fazer, encarnar o sentido e com isso \u201caceder a uma historicidade ao mesmo tempo singular e coletiva\u201d (Chnaiderman, 1988).<\/p>\n<p>No livro <em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em> (1900), Freud configura um percurso inici\u00e1tico (Roudinesco, 2016). Ao escrev\u00ea-lo, faz o dif\u00edcil luto do pai e do afastamento do amigo Fliess. Tal percurso \u00e9 considerado inici\u00e1tico porque visa ao exerc\u00edcio de uma pr\u00e1tica que envolve transforma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da experi\u00eancia do inconsciente. Muitos dos sonhos da autoan\u00e1lise de Freud s\u00e3o apresentados e interpretados nesse livro, experi\u00eancia que torna poss\u00edvel a ideia do inconsciente, como proposta na primeira t\u00f3pica freudiana, e o descentramento da consci\u00eancia decorrente dela. A cria\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise passa por essa experi\u00eancia seminal, experi\u00eancia do inconsciente. Todo leitor do livro dos sonhos \u00e9 convidado a refazer esse percurso que propicia a abertura ao inconsciente atrav\u00e9s do m\u00e9todo de livre-associa\u00e7\u00e3o, proposto logo no cap\u00edtulo dois. Pode-se considerar que tal mergulho, para al\u00e9m da ponta do <em>iceberg<\/em>, implica em um movimento de deslizamento do sentido e de desaliena\u00e7\u00e3o, ou seja, de elucida\u00e7\u00e3o da historicidade. Sabemos, no entanto, que certa aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 constitutiva, pois o psiquismo se constitui na rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva com o Outro.<\/p>\n<p>No Sonho do Conde Thun<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, de 1898, apresentado por Freud no quinto cap\u00edtulo do livro dos sonhos, que trata do material e das fontes do sonho, podemos observar essa dupla vertente do singular e da hist\u00f3ria coletiva.<\/p>\n<p>Para o que nos interessa na presente discuss\u00e3o n\u00e3o seria o caso de uma an\u00e1lise exaustiva do sonho, mas de apontar fios que levam Freud tanto ao infantil como ao momento hist\u00f3rico de uma \u00c1ustria que traz as recentes marcas da revolu\u00e7\u00e3o burguesa de 1848, seguida da retomada da monarquia pelos Habsburgo. Freud privilegia o caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s determina\u00e7\u00f5es do infantil, para ele fonte dos sonhos, mas n\u00e3o deixa de trazer aos leitores os restos diurnos de uma viagem de trem at\u00e9 <em>Aussee<\/em>, onde passaria alguns dias de f\u00e9rias. Informa-nos que na plataforma do trem nota como o conde Thun, em viagem para encontrar o Imperador em <em>Ischl, se <\/em>vale de sua condi\u00e7\u00e3o para recha\u00e7ar o controlador de passagens. Presta aten\u00e7\u00e3o em outros passageiros que apelam para obter um compartimento de primeira classe, o que o faz cantar jocosamente um trecho de <em>As bodas de F\u00edgaro.<\/em><\/p>\n<p>Com \u00e2nimo altivo e revolta, Freud recorda uma pe\u00e7a assistida em Paris na <em>Com\u00e9die Fran\u00e7aise<\/em>, assim como das piadas feitas por jornalistas em rela\u00e7\u00e3o ao conde <em>Thun<\/em> [fazer], ao cham\u00e1-lo de conde <em>Nichststhun<\/em>[n\u00e3ofazernada]. E ainda, sorri ao se considerar o verdadeiro <em>Nichststhun <\/em>[n\u00e3ofazernada] por suas f\u00e9rias.Ao entrar no trem, recebe um compartimento sem acesso ao banheiro e sugere ao funcion\u00e1rio abrir um buraco no piso. Durante a viagem, embalado por essa atmosfera de atrevimento, sonha e acorda com vontade de urinar.<\/p>\n<p>Um dos pontos nodais dessa fantasia expressa em imagens, \u00e9 o sonhador segurando um urinol [<em>glas<\/em> = vidro, lente] para um velho caolho em situa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Ao mergulhar na an\u00e1lise do sonho Freud faz diversas associa\u00e7\u00f5es<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Tomo uma delas: a lembran\u00e7a de quando Freud tinha cerca de 7 a 8 anos e urinou no quarto dos pais, desconsiderando a discri\u00e7\u00e3o. O pai teria dito: \u201cesse garoto nunca ser\u00e1 algu\u00e9m na vida\u201d (Freud, 1900). Ofensa terr\u00edvel a que o sonho trar\u00e1 resposta, pois o homem mais velho da parte final do sonho \u00e9 associado ao seu pai, dado o problema dos olhos. Assim, Freud tro\u00e7a e se vinga do pai, ao coloc\u00e1-lo urinando num lugar p\u00fablico. Essa imagem traz alus\u00f5es \u00e0 sua descoberta dos poderes anest\u00e9sicos da coca\u00edna, utilizada na cirurgia de glaucoma do pai e \u00e0 histeria, pois teria colocado lentes sobre o sentido de seus sintomas.<\/p>\n<p>Nota-se a revolta de Freud em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade paterna e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 monarquia imperial e seus representantes, como o Conde Thun. Durante o per\u00edodo da monarquia, era pouco prov\u00e1vel que Freud, sendo judeu, pudesse ser nomeado professor, o que tanto ambicionava. Depois do per\u00edodo alentador que se seguiu \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o de 1848, teve in\u00edcio um per\u00edodo mon\u00e1rquico imperial, retr\u00f3grado, no qual pouco a pouco se alastrou o antissemitismo.<\/p>\n<p>Surge tamb\u00e9m nas linhas de discuss\u00e3o do sonho citado, a identifica\u00e7\u00e3o de Freud com Fischhof, l\u00edder estudantil da revolu\u00e7\u00e3o de 1848, evocada pelo jubileu de 1898 e associada a uma excurs\u00e3o que Freud teria feito a Wachau, onde conheceu o retiro deste. Segundo Roudinesco (2016), ambos, Freud e Fischhof, rejeitavam o catolicismo romano e a dinastia dos Habsburgo, mas estavam envolvidos em diferentes revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na associa\u00e7\u00e3o que parte de tal sonho, a grande hist\u00f3ria se entrecruza com a pequena hist\u00f3ria, a dimens\u00e3o ed\u00edpica do infantil; \u00e9 nesse momento de fala sobre o sonho que se produz a historicidade. Lembremos que o sonho, fantasia, fachada lacunar, \u00e9 sobredeterminado e tecido por muitos fios num entrela\u00e7amento de tempos, sem linearidade.<\/p>\n<p>No processo de escrita do livro dos sonhos, Freud lan\u00e7a a pergunta se o infantil n\u00e3o constituiria uma condi\u00e7\u00e3o essencial ao sonhar. O infantil no atual, o inatual, como motor do sonho. Mais tarde, com a segunda t\u00f3pica e autores mais contempor\u00e2neos, veremos como os restos diurnos e a dimens\u00e3o do traum\u00e1tico se tornam cada vez mais importantes para se pensar o sonho, que deixa de ser apenas realiza\u00e7\u00e3o de desejo para se tornar espa\u00e7o de elabora\u00e7\u00e3o, intercess\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o a uma transforma\u00e7\u00e3o subjetiva se acolhido com hospitalidade e tentativa de realiza\u00e7\u00e3o de desejo, \u00e0s vezes parcialmente poss\u00edvel, outras vezes n\u00e3o. No sonho traum\u00e1tico, trabalhado por Freud no texto de 1920 \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d, est\u00e1 em jogo a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o e sua tentativa de mudan\u00e7a do al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer para o princ\u00edpio do prazer, o que pode trazer um ganho para a economia ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Nesse sonho do Conde Thun, o resto diurno associado aos desejos infantis recalcados encontra possibilidade de elabora\u00e7\u00e3o ao entrar na cadeia associativa e produzir pensamentos na forma de imagens, atrav\u00e9s da trilha do desejo. Mas nem sempre o que vem como resto diurno pode ganhar imagem, entrar na cadeia associativa e encontrar possibilidade de simboliza\u00e7\u00e3o. Sabemos que a hist\u00f3ria, com seus momentos catastr\u00f3ficos traz como efeito a dimens\u00e3o traum\u00e1tica, o inenarr\u00e1vel, o irrepresent\u00e1vel e a impossibilidade de integra\u00e7\u00e3o na cadeia ps\u00edquica (simboliza\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria) e de apropria\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Retomo um coment\u00e1rio de Fanon sobre os sonhos em um contexto traum\u00e1tico, mas antes disso \u00e9 importante situar o autor. Nascido na Martinica, Frantz Fanon, com estudos de psiquiatria em Lyon, ainda muito jovem, lutou nas for\u00e7as da resist\u00eancia francesa contra o nazismo. Participou tamb\u00e9m da inovadora experi\u00eancia de cria\u00e7\u00e3o da psicoterapia institucional com Fran\u00e7oise Tosquelles em Saint-Alban, Fran\u00e7a. Pensador militante e atuante da resist\u00eancia argelina, deixou-nos uma obra que tem sido cada vez mais influente na \u00e1rea de humanidades e estudos p\u00f3s-coloniais. Entre seus temas encontramos quest\u00f5es que tocam as rela\u00e7\u00f5es entre psiquismo e hist\u00f3ria, psiquismo e realidade social, racismo e colonialismo.<\/p>\n<p>No livro <em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em>, ele faz a cr\u00edtica da interpreta\u00e7\u00e3o de O. Mannoni de sete sonhos de malgaxes, em que o elemento dominante \u00e9 o terror. Aponta para a import\u00e2ncia do contexto social em que tais sonhos aconteceram. Diz ele: \u201c\u00c9 preciso recolocar o sonho no seu tempo, e este tempo \u00e9 o per\u00edodo em que oitenta mil nativos foram assassinados, isto \u00e9, um habitante para cada cinquenta\u201d (Fanon, 2008, p. 98). Sem os fios que ligam tais sonhos \u00e0 grande hist\u00f3ria, a interpreta\u00e7\u00e3o fica reduzida a um exerc\u00edcio est\u00e9ril.<\/p>\n<p>Em 2020, numa palestra virtual, durante a pandemia da Covid-19, chamada \u201cA escuta psicanal\u00edtica hoje: a crian\u00e7a-mundo\u201d, Radmila Zygouris, psicanalista residente na Fran\u00e7a, fala sobre a \u201cconstela\u00e7\u00e3o\u201d de crian\u00e7as da psican\u00e1lise. Discorre sobre essas v\u00e1rias crian\u00e7as presentes no c\u00e9u da psican\u00e1lise, ou seja, a crian\u00e7a ed\u00edpica, a crian\u00e7a do carretel, a crian\u00e7a da m\u00e3e-ambiente, a crian\u00e7a que sofreu traumas de guerra ou outras viol\u00eancias, a crian\u00e7a-mundo que cresceu interagindo com as telas. Irei me deter no ponto da palestra em que ela comenta sobre a crian\u00e7a que sofreu traumas que passam pela grande hist\u00f3ria e n\u00e3o p\u00f4de ser protegida por seus pais da viol\u00eancia mort\u00edfera, sendo assim exposta a algo da ordem do inomin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Zygouris ent\u00e3o ofereceu um testemunho importante sobre sua experi\u00eancia no p\u00f3s-guerra e a dificuldade dos analistas com a an\u00e1lise de pessoas que teriam passado por traumas durante a Segunda Guerra, pois nestes casos n\u00e3o bastava a an\u00e1lise da problem\u00e1tica ed\u00edpica, mas era fundamental levar em conta a dimens\u00e3o traum\u00e1tica, considerando o cruzamento da pequena e da grande hist\u00f3ria. Trata-se, neste ponto, de restabelecer a verdade dos eixos hist\u00f3ricos, geneal\u00f3gicos; do analista n\u00e3o desconsiderar os movimentos da grande hist\u00f3ria e seus efeitos ps\u00edquicos e assim propiciar um reposicionamento do sujeito.<\/p>\n<p>O psicanalista franc\u00eas, Jean Oury, que viveu e trabalhou em La Borde, na regi\u00e3o do Loire, na Fran\u00e7a, aborda a quest\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o e da abertura de forma muito precisa:<\/p>\n<p><em>A an\u00e1lise \u00e9 para enxertar\u2026 a abertura, porque na vida cotidiana, alienada, fazendo de conta que somos livres, estamos fechados. Fechados nos h\u00e1bitos, com os amigos, com a fam\u00edlia, estamos fechados numa estereotipia. A gente n\u00e3o escapa.<\/em>..<em>Chega-se a dizer que uma verdadeira interpreta\u00e7\u00e3o certamente n\u00e3o \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 algo que toca. Algo que \u00e9 um verdadeiro encontro, e o verdadeiro encontro \u00e9 inesperado\u2026 Mas para haver encontro, n\u00e3o se pode estar cheio de preconceitos, \u00e9 preciso recolocar em quest\u00e3o a no\u00e7\u00e3o de neutralidade. Eu sempre digo que a neutralidade \u00e9 um processo ativo para se livrar de todos os preconceitos da sociedade, para chegar a um verdadeiro encontro, mesmo com esquizofr\u00eanicos. O que est\u00e1 em quest\u00e3o em um encontro com o esquizofr\u00eanico e com outros \u00e9 o que Lacan chama de fun\u00e7\u00e3o menos um, que n\u00e3o se misture com a vida cotidiana, e a posi\u00e7\u00e3o transferencial \u00e9 poder assumir (\u00e9 uma palavra ruim [experimentar]) essa posi\u00e7\u00e3o menos um\u2026 dist\u00e2ncia, estranhamento, abertura a multiplicidade\u2026 <\/em>(Oury, 2009).<\/p>\n<p>Do lado do analista: o n\u00e3o saber para fazer saber. A posi\u00e7\u00e3o menos um que implica dist\u00e2ncia, assimetria, abertura \u00e0 multiplicidade, estranhamento, abertura ao inesperado&#8230; O trabalho para se deslocar dos preconceitos e do racismo \u00e9 parte fundamental do trabalho ps\u00edquico de um analista para que ele possa manter a posi\u00e7\u00e3o menos um, a abertura e a possibilidade de escuta.<\/p>\n<p>Em nosso pa\u00eds, a hist\u00f3ria e o car\u00e1ter constitutivo do sistema escravocrata na forma\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica t\u00eam sido escamoteados pela narrativa do Brasil como democracia racial, algo dif\u00edcil de ser sustentado diante das sequelas sociais e ps\u00edquicas que perduram at\u00e9 a atualidade. Muitos analistas t\u00eam trabalhado com essa quest\u00e3o, pois sem o reconhecimento hist\u00f3rico da escraviza\u00e7\u00e3o e de suas consequ\u00eancias, n\u00e3o se torna poss\u00edvel a elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, a sa\u00edda da dimens\u00e3o traum\u00e1tica, mantida atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o geracional e dos mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o social material e imaterial da desigualdade. Segundo Marisa Corr\u00eaa:<\/p>\n<p><em>Um aspecto importante de ser destacado \u00e9 que essa transmiss\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o pode acontecer mesmo que a gera\u00e7\u00e3o seguinte n\u00e3o tenha diretamente vivenciado o trauma ou n\u00e3o o tenha vivenciado com a mesma intensidade e da mesma forma que a gera\u00e7\u00e3o anterior. Com esta afirma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o estou excluindo a probabilidade de que o modo como cada um, nesse contexto, se vivencia, lida, reage e se comporta em rela\u00e7\u00e3o a esse trauma seja tamb\u00e9m influenciado pela sua hist\u00f3ria individual. De qualquer maneira, mesmo levando-se em considera\u00e7\u00e3o o hist\u00f3rico individual, acredito ser fundamental&#8230; Desta forma conseguiremos entender, com maior facilidade, as din\u00e2micas que perpetuam as condi\u00e7\u00f5es de precariedade social, cultural, educacional, econ\u00f4mica e de sa\u00fade do Pa\u00eds.<\/em> (Corr\u00eaa, 2020)<\/p>\n<p>O deslocamento em rela\u00e7\u00e3o ao racismo \u00e9 importante para que se possa escutar e dar lugar a um novo saber, singular e coletivo. Uma an\u00e1lise, entre outras coisas, pode nos levar a desfazer cren\u00e7as, normatiza\u00e7\u00f5es e cristaliza\u00e7\u00f5es de comportamento, como aquelas provindas da heran\u00e7a escravocrata, tendo como vetor a valoriza\u00e7\u00e3o do branqueamento. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a dimens\u00e3o \u00e9tica da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo dos Camar\u00f5es e residente na \u00c1frica do Sul, Achille Mbembe, prop\u00f5e uma \u00e9tica da restitui\u00e7\u00e3o e da repara\u00e7\u00e3o, repara\u00e7\u00e3o porque a hist\u00f3ria deixou les\u00f5es e marcas profundas. No nosso momento hist\u00f3rico em que est\u00e1 em jogo a democracia seu convite \u00e9 fundamental:<\/p>\n<p><em>Enquanto persistir a ideia de que s\u00f3 deve haver justi\u00e7a aos seus e que existem ra\u00e7as e povos desiguais, e enquanto se continuar a fazer crer que a escravid\u00e3o e o colonialismo foram grandes feitos da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, a tem\u00e1tica da repara\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 a ser mobilizada pelas v\u00edtimas hist\u00f3ricas da expans\u00e3o europeia e da sua brutalidade pelo mundo. Nesse contexto, \u00e9 necess\u00e1ria uma dupla estrat\u00e9gia. Por um lado, \u00e9 preciso abandonar o estatuto da v\u00edtima. Por outro lado, \u00e9 preciso romper com a \u201cboa consci\u00eancia\u201d e a nega\u00e7\u00e3o da responsabilidade. \u00c9 sob essa dupla condi\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 poss\u00edvel articular uma pol\u00edtica e uma \u00e9tica novas, baseadas na exig\u00eancia de justi\u00e7a.<\/em> (Mbembe, 2018, p. 306-307)<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o posicionamento de cada um de n\u00f3s na hist\u00f3ria brasileira? Uma abertura em rela\u00e7\u00e3o a isso n\u00e3o possibilitaria um devir outro da psican\u00e1lise? As resist\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o a esse movimento n\u00e3o s\u00e3o poucas. O reconhecimento de nossa hist\u00f3ria extremamente violenta, tr\u00e1gica, \u00e9 fundamental para que advenha o engajamento em outras possibilidades de vida para todos na dire\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica do semelhante em que o outrem seja tomado tanto em sua diferen\u00e7a como em sua semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o ao grupo de trabalho <em>A cor do mal-estar<\/em> por provocar em mim um trabalho de deslocamento cotidiano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>CHNAIDERMAN, Regina. Pol\u00edtica de forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise \u2013 alinhavando algumas anota\u00e7\u00f5es de leitura. <em>Revista<\/em> <em>Percurso<\/em>, n. 1, p. 11, 1988.<\/p>\n<p>CORREA, Marisa. Escravid\u00e3o, racismo e personalidade aprisionada. <em>Jornal Na\u00e7\u00e3o Z<\/em>, do dia 31\/03\/2020.<\/p>\n<p>FANON, Frantz. <em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em>. Salvador: EDUFBA, 2008.<\/p>\n<p>FREUD, Sigmund. <em>Obras completas<\/em>, vol. 4: a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos (1900). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019.<\/p>\n<p>KILOMBA, Grada. <em>Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o \u2013 epis\u00f3dios do racismo cotidiano<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cobog\u00f3, 2019.<\/p>\n<p>KON, Noemi M.; Silva, Maria L\u00facia da; Abud, Cristiane. C. (orgs.). <em>O racismo e o negro no Brasil \u2013 quest\u00f5es para a psican\u00e1lise<\/em>. \u201c\u00c0 guisa de apresenta\u00e7\u00e3o: por uma psican\u00e1lise brasileira\u201d. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2017.<\/p>\n<p>MBEMBE, Achille. <em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o negra. <\/em>S\u00e3o Paulo: N-1 Edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/p>\n<p>NUMBERG, H; FEDERN, E. (compiladores). <em>Las reuniones de los mi\u00e9rcoles. Actas de la Sociedad Psiconal\u00edtica de Viena.<\/em> Tomo II (1908-1909). Buenos Aires: Ediciones Nueva Visi\u00f3n, 1980.<\/p>\n<p>OURY, Jean. S\u00edndromes patopl\u00e1sticas. Institui\u00e7\u00e3o e estabelecimento. As diversas formas de aliena\u00e7\u00e3o. Boletim <em>Online<\/em> n. 11, novembro de 2009.<a href=\"https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=11&amp;ordem=2&amp;origem=ppag\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/index.php?apg=b_visor&amp;pub=11&amp;ordem=2&amp;origem=ppag<\/a><\/p>\n<p>ROUDINESCO, Elizabeth. <em>Sigmund Freud \u2013 na sua \u00e9poca e em nosso tempo<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.<\/p>\n<p>ZYGOURIS, Radmila. Palestra \u201cA escuta psicanal\u00edtica hoje: a crian\u00e7a-mundo\u201d, realizada na forma <em>online<\/em>dia 14 de julho de 2020.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<pre><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psican\u00e1lise e integrante do grupo de trabalho <em>A cor do mal-estar<\/em>.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> No escopo deste texto n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel entrar na quest\u00e3o important\u00edssima dos povos ind\u00edgenas que habitam o territ\u00f3rio brasileiro e que, como a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente, t\u00eam sido objeto de descaso no contexto da pandemia da Covid-19 e alvo de um terr\u00edvel genoc\u00eddio em curso.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Sonho do Conde Thun:\r\n<em>Multid\u00e3o, reuni\u00e3o de estudantes. \u2013 Com a palavra, um conde (Thun ou Taaffe). Convidado a dizer algo sobre os alem\u00e3es, ele, com seu gesto derris\u00f3rio, declara a unha-de-cavalo a flor preferida desse povo, e prende algo parecido com uma folha rasgada \u2013 na verdade, um esqueleto de folha amassada \u2013 em sua botoeira, eu me irrito, ent\u00e3o me irrito, mas me admiro dessa atitude. <\/em>\r\n\r\n<em>Como se fosse o audit\u00f3rio, as entradas s\u00e3o obstru\u00eddas e \u00e9 preciso fugir. Eu abro o caminho e passo por uma s\u00e9rie de aposentos belamente decorados, claramente salas governamentais, com m\u00f3veis de uma cor entre marrom e violeta, e por fim alcan\u00e7o um corredor, onde est\u00e1 sentada uma governanta, uma senhora gorda de meia-idade. Evito falar com ela: evidentemente, por\u00e9m, ela me considera autorizado a passar por aqui, pois me pergunta se quero que me acompanhe com a lanterna. Eu lhe dou a entender ou lhe digo que deve ficar parada na escada e me acho muito<\/em> <em>esperto por evitar o<\/em> <em>controle na sa\u00edda. Ent\u00e3o, estou embaixo e acho um caminho estreito e \u00edngreme que leva ao alto, e o sigo. <\/em>\r\n\r\n<em>Como se agora viesse a segunda tarefa: sair da cidade, como antes sa\u00ed de casa. Estou num fiacre e ordeno que seja levado para a esta\u00e7\u00e3o de trem. \u201cN\u00e3o posso fazer o trajeto do trem com o senhor\u201d, digo ap\u00f3s o cocheiro protestar, como se eu o estivesse cansando. Parece que j\u00e1 percorri com ele um trajeto que normalmente se faz com o trem. As esta\u00e7\u00f5es ferrovi\u00e1rias est\u00e3o ocupadas: pondero se devo ir a Krems ou Znaim, mas penso que l\u00e1 deve estar a corte, e ent\u00e3o decido seguir para Graz ou algo assim. Agora estou sentado no vag\u00e3o, que se parece com um bonde, e tenho na botoeira uma coisa longa e estranhamente tecida, presas nela, violetas roxo-castanho feitas de material r\u00edgido, o que chama muito a aten\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/em>\r\n\r\n<em>Novamente estou diante da esta\u00e7\u00e3o de trem, dessa vez, por\u00e9m, na companhia de um senhor idoso; invento um plano para n\u00e3o ser reconhecido, e j\u00e1 vejo esse plano realizado. Pensar e vivenciar s\u00e3o uma coisa s\u00f3. Ele imita um cego, um caolho, pelo menos, e eu seguro para ele um urinol (que compramos ou precisamos comprar na cidade). Portanto, sou um enfermeiro e tenho de segurar um urinol, porque ele \u00e9 cego. Se o controlador nos vir assim, ele nos deixar\u00e1 passar sem que chamemos a aten\u00e7\u00e3o. Vejo de maneira pl\u00e1stica a postura do homem e seu membro em mic\u00e7\u00e3o. Segue ent\u00e3o o despertar com o impulso de urinar.<\/em> (Freud, 2019, p. 247-249)\r\n\r\n<a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Cito a seguir apenas associa\u00e7\u00f5es relativas ao ponto nodal citado para o leitor ter ideia das ramifica\u00e7\u00f5es em jogo. Para mais explora\u00e7\u00f5es sugiro a leitura do item b) do cap\u00edtulo V de <em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em>. S\u00e3o elas: a hist\u00f3ria de uma campon\u00eas que foi ao oftalmologista e tenta v\u00e1rias lentes, mas n\u00e3o sabe ler; a lembran\u00e7a de La Terre de Zola, em que camponeses se satisfazem ao notar que o pai demente sujou a cama como crian\u00e7a; o drama revolucion\u00e1rio de Oskar Panizza, em que um arcanjo tenta impedir Deus de vociferar contra seus opositores, pois sua palavra poderia fazer cumprir desgra\u00e7as; o c\u00e1lice de veneno de Lucr\u00e9cia Borgia em forma de urinol exposto na \u00faltima noite de Gshnas.\r\n\r\n\r\n<\/pre>\n<pre><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escuta psicanal\u00edtica deve levar em conta efeitos traum\u00e1ticos sobre o psiquismo, no entrecruzamento da pequena e da grande hist\u00f3ria. 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