{"id":3367,"date":"2024-11-20T18:09:26","date_gmt":"2024-11-20T21:09:26","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3367"},"modified":"2024-11-22T19:09:06","modified_gmt":"2024-11-22T22:09:06","slug":"civilizacao-e-barbarie-o-mal-estar-no-caminho-da-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/11\/20\/civilizacao-e-barbarie-o-mal-estar-no-caminho-da-psicanalise\/","title":{"rendered":"Civiliza\u00e7\u00e3o e barb\u00e1rie. O mal-estar no caminho da psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Civiliza\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o e barb<\/strong><strong>\u00e1rie. O mal-estar no caminho da psican\u00e1lise<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Maria Silvia Borghese<\/strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O <strong><em>XI Congresso Internacional e XVII Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental <\/em><\/strong>aconteceria no Recife em setembro passado. Cidade que n\u00e3o visitava h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas, de cara pensei que seria muito bom retornar. Assim, confesso que decidi participar do evento animada, primeiramente, por raz\u00f5es bastante concorrentes entre si. Desejava passear pelo Recife antigo, subir e descer as ladeiras de Olinda, respirar a hist\u00f3ria da regi\u00e3o, aproveitando de sua culin\u00e1ria, sua vida cultural, apreciando ainda aquelas praias de mares verdejantes. Todas essas coisas me seduziam. De outro lado, por\u00e9m, o eixo proposto para o congresso era tamb\u00e9m fascinante: <em>Eros e Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>. H\u00e1 muito tempo, venho estudando os autores da Teoria Cr\u00edtica da Sociedade, sendo Herbert Marcuse um autor que conversa muito de perto com quest\u00f5es, a meu ver, fundamentais. Sendo mulher, brasileira, psicanalista, vivendo tempos de complexidade quase indecifr\u00e1vel, muito cedo sa\u00ed em busca de fazer dialogar a psican\u00e1lise com a perspectiva critica, apostando em uma psican\u00e1lise que n\u00e3o se furtasse a interrogar o contempor\u00e2neo, mas que se deixasse tamb\u00e9m por ele ser confrontada.<\/p>\n<p>Obviamente, ir ao congresso se tornou em imperativo daqueles dif\u00edceis de escapar. E l\u00e1 fui eu para o Recife, levando na mala um texto para apresentar em uma das mesas.<\/p>\n<p>Logo na chegada, contudo, fui tomada por um inc\u00f4modo \u2013 j\u00e1 o mal-estar? \u2013 porque estranhei <em>concretamente <\/em>o hotel onde o congresso iria acontecer. O lugar era de uma \u2018deseleg\u00e2ncia discreta\u2019 decepcionante. Nada mais \u2018anti\u2019 Recife. Um pr\u00e9dio feioso e acinzentado em uma rua paralela \u00e0 praia, sem qualquer vista para os lindos mares de Pernambuco. As salas determinadas \u00e0s atividades eram fechadas e sem janelas, iluminadas por luzes brancas, cadeiras desconfort\u00e1veis, ar condicionado que distribu\u00eda o ar frio a partir de m\u00e1quinas instaladas junto ao ch\u00e3o, deixando as salas com um clima polar para as pessoas que se sentavam mais pr\u00f3ximas \u00e0s mesas para, ao contr\u00e1rio, submeter as outras pessoas, que se sentavam do meio para o fundo da sala, a um calor infernal. Definitivamente, o espa\u00e7o n\u00e3o era convidativo ou acolhedor. Seriam os des\u00edgnios de T\u00e2natos?<\/p>\n<p>Precipitei-me a pensar que o tema proposto para fazer a psican\u00e1lise e os psicanalistas trabalharem corria o risco de se transformar apenas em uma moldura vazia. No entanto, comecei a encontrar colegas e amigos, fui me deparando com muitas pessoas chegando, circulando, conversando. Havia um burburinho, in\u00fameras mesas j\u00e1 iniciavam e relendo a programa\u00e7\u00e3o, imediatamente, dei conta do que ter\u00edamos pela frente: trabalho de Eros!<\/p>\n<p>Passadas essas impress\u00f5es iniciais, pude acompanhar um Congresso forte e vibrante. Psicanalistas, de diversas regi\u00f5es do Brasil e do mundo, puderam dizer a que vieram, apresentando suas inquieta\u00e7\u00f5es que os atravessavam desde a cl\u00ednica, dos significativos impasses sociais da atualidade, do mal-estar que se intensificou no atravessamento de uma pandemia cruel, do recrudescimento da extrema direita no mundo, dos quatro anos sombrios de um governo fascista no Brasil. A proposta dos organizadores do Congresso de \u201ctrazer Marcuse de volta&#8221; se mostrou acertada por muitas raz\u00f5es e, de fato, incitou a todas e todos psicanalistas que participaram \u2013 grande maioria, brasileiros \u2013 a apresentarem um pensamento psicanal\u00edtico vicejante, cr\u00edtico, com produ\u00e7\u00f5es que partem do nosso fazer cotidiano, das quest\u00f5es que t\u00eam confrontado e desafiado a psican\u00e1lise a buscar respostas ou, ao menos, apontar caminhos poss\u00edveis.<\/p>\n<p>O que cabe \u00e0 psican\u00e1lise? Transversalmente, essa era uma pergunta que ia sendo feita, em uma trama de temas, perguntas, diferentes olhares. A psican\u00e1lise, claro, s\u00f3 pode sobreviver assim, sendo posta a trabalhar. Penso que esse foi o principal m\u00e9rito do Congresso, ali\u00e1s. Nesses tempos, em que as velhas quest\u00f5es sobre a atualidade e\/ou validade da teoria e cl\u00ednica psicanal\u00edticas voltaram a ser trombeteadas, o Congresso demonstrou fartamente que a \u2018velha senhora\u2019 n\u00e3o se converteu ainda em um anacronismo. Feliz ou infelizmente.<\/p>\n<p>Embora seja dif\u00edcil abordar neste breve texto a variedade significativa dos temas apresentados nas mesas, simp\u00f3sios, confer\u00eancias e minicursos, penso que se pode \u2018fotografar\u2019 parte da trama tecida ao longo dos quatro dias do Congresso, pois ela possibilita vislumbrar a riqueza e a complexidade das quest\u00f5es ali tratadas, dos debates e das conversas que foram feitos. A meu ver, o Congresso foi bastante exitoso pela apresenta\u00e7\u00e3o de um mapa, um guia, a nos tirar do emaranhado de fios nos quais os sujeitos se veem enredados em sofrimentos decorrentes de m\u00faltiplas densidades.<\/p>\n<p><em>Eros e o feminino; Mal-estar na maternidade e paternidade; Mal-estar, religi\u00e3o, poder e transi\u00e7\u00e3o de g\u00ea<\/em><em>nero; Psican<\/em><em>\u00e1lise extra-muros: fazeres plurais; Eros, erros e err\u00e2<\/em><em>ncias; <\/em><em>\u00d3dio e amor; travessias contempor\u00e2neas; Impasses de Eros na inf\u00e2ncia; A civiliza\u00e7\u00e3o como sintoma; A vergonha nos limites entre Eros e T\u00e2<\/em><em>natos; Psican<\/em><em>\u00e1lise e autismo: a que se destina?; O enquadre interno do analista e o paradigma contempor\u00e2<\/em><em>neo; Mal <\/em><em>-estar na condi\u00e7\u00e3<\/em><em>o amorosa e a <\/em><em>\u2018<\/em><em>ars er<\/em><em>\u00f3<\/em><em>tica<\/em><em>\u2019; Neurose, psicose e autismo em tempos de forclus\u00e3o generalizada; Eros e seus desdobramentos no luto e no envelhecimento; Eros na era da acelera\u00e7\u00e3<\/em><em>o; Deu <\/em><em>\u2018match\u2019 sobre o masoquismo e o encontro de Eros e T\u00e2<\/em><em>natos; Domina<\/em><em>\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas e seus efeitos sobre Eros; Sintomas contempor\u00e2neos e o p\u00e1thos neoliberal; Escutar o mal-estar e ler o invis\u00edvel; Ciborgues digitais: pot\u00eancias e paradoxos; O corpo e suas vicissitudes na contemporaneidade; Reflex\u00f5es psicanal\u00edticas sobre viol\u00eancias (extra)ordin\u00e1rias; A sobreviv\u00eancia ps\u00edquica na clinica contempor\u00e2nea: abuso sexual, transidentidades e racismo; A experi\u00ea<\/em><em>ncia cl<\/em><em>\u00ed<\/em><em>nica da pervers<\/em><em>\u00e3o ou o outro sexual e sua psican\u00e1lise; O monstro Preciado e o mal-estar na psican\u00e1lise; A presen\u00e7a de Eros na cl\u00ednica do trauma; Psican\u00e1<\/em><em>lise e psicotr<\/em><em>\u00f3picos: par poss\u00ed<\/em><em>vel?<\/em><em>\u2026<\/em><\/p>\n<p>Este passeio aleat\u00f3rio sobre alguns t\u00edtulos das mesas e dos trabalhos apresentados permite entrar, de certo modo, na riqueza e densidade das quest\u00f5es abordadas. A maioria absoluta dos textos refletiu sobre os embates atuais do fazer psicanal\u00edtico, de uma psican\u00e1lise que n\u00e3o volta as suas costas para o mundo no qual est\u00e1 se desenvolvendo, para o mal-estar na atualidade: as dores e o sofrimento ps\u00edquico inscritos na submiss\u00e3o dos corpos, na explora\u00e7\u00e3o excessiva das almas, na rudeza e viol\u00eancia com as quais \u00e9 (im)poss\u00edvel viver nos dias de hoje.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos sentimos \u00e0 vontade com o tipo de civiliza\u00e7\u00e3o que conseguimos alcan\u00e7ar, escreveu Freud em 1929. De certo modo, essa foi a ponta do novelo perseguido por Marcuse em <em>Eros e civiliza\u00e7\u00e3o <\/em>(1955). Contudo, seguimos buscando ir al\u00e9m dos sobrevoos freudianos fundamentais, que desvelaram irremediavelmente o quanto as mazelas sociais adoecem psiquicamente o sujeito. Marcuse certamente resgatou e relan\u00e7ou essa discuss\u00e3o. Como guias carregando velas que queimavam suas m\u00e3os por trilhas e campos minados, certamente nos deixaram trilhas apontadas. Perder-se nesse trajeto \u00e9 um risco necess\u00e1rio a correr, pois o \u2018desencastelamento\u2019 da psican\u00e1lise de seus supostos lugares \u2018puristas\u2019 ainda merece ser defendido.<\/p>\n<p>E foi certamente o que se viu no Congresso: a busca de supera\u00e7\u00e3o das dificuldades e resist\u00eancias, para o desvelamento do fazer psicanal\u00edtico na contemporaneidade. O encerramento no exame de problemas cl\u00ednicos, dispensando ou evitando reflex\u00f5es mais amplas sobre as condi\u00e7\u00f5es objetivas dos sujeitos, n\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Apesar de, por vezes, termos que tolerar a imprecis\u00e3o dos referenciais ou a claudic\u00e2ncia de nossas produ\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, como ensinou Freud, os dias de trabalho no Recife permitiram conhecer in\u00fameras produ\u00e7\u00f5es rigorosas e consistentes.<\/p>\n<p>V\u00e1rios colegas do Departamento estiveram presentes, companhias afetivas daqueles dias, mas principalmente interlocutores argutos, psicanalistas alertas. As conversas e a troca de experi\u00eancias foram ricas e estimulantes. Seus trabalhos foram, a meu ver, escritos no fio da navalha da cl\u00ednica, da pol\u00edtica e da reflex\u00e3o te\u00f3rica, tarefa fundamental, pois esse esfor\u00e7o \u00e9 imprescind\u00edvel para a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. N\u00e3o citarei todas e todos, os <em>links<\/em> de suas mesas podem ser encontrados no site do Congresso. Mas gostaria de mencionar e agradecer a meus companheiros de mesa Maria Laurinda Ribeiro de Souza e Nelson da Silva Jr. Correndo o risco de cometer injusti\u00e7as, escolho ainda destacar dois textos, que conversaram mais de perto com minhas inquieta\u00e7\u00f5es atuais: \u2018A vergonha e o silenciamento das mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero\u2019, de Lilian Carbone, e \u2018Vida e morte da palavra\u2019, de Flavio Ferraz.<\/p>\n<p>Finalizo, recomendando a brilhante confer\u00eancia proferida por Jurandir Freire Costa: \u2018As v\u00e1rias faces de Eros\u2019. Corajosamente, Jurandir toma para sua an\u00e1lise as pessoas que ele chamou inicialmente de <em>migrantes sociais. <\/em>Quem s\u00e3o eles? Quem s\u00e3o essas pessoas, em sua maioria homens, que se encontravam perdidos ou expulsos do tecido social? Quem s\u00e3o as pessoas cooptadas visceralmente pelo recrudescimento de uma extrema direita mais violenta e igualmente fascista \u00e0 do inicio do s\u00e9culo XX na Europa? Jurandir levou sua an\u00e1lise \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias a que se pode chegar em eventos desse tipo, relatando inclusive um fragmento de sua cl\u00ednica, na qual entra em embate com um paciente que negara diversas vezes, durante as sess\u00f5es, a exist\u00eancia da ditadura militar no Brasil. Buscando tratar das anomias atuais, argumenta que o trauma cultural n\u00e3o afeta apenas os sujeitos \u2018vulnerabilizados\u2019, mas tamb\u00e9m aqueles que reproduzem a opress\u00e3o e a viol\u00eancia. Ao se colocar, assim, propriamente embrenhado em sua dolorosa reflex\u00e3o, Jurandir n\u00e3o nos deixou outra sa\u00edda: fazer uma psican\u00e1lise a servi\u00e7o da contemporaneidade. O Congresso evidenciou que a \u2018velha senhora\u2019 levantou da cadeira de rodas, est\u00e1 tentando escolher suas melhores armas para, inescapavelmente, seguir no campo de batalha.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora no Curso de Psican\u00e1lise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cronicamente \u00e0 procura de Eros, Maria Silvia Borghese encontra a realidade compartilhada no Congresso de Psicopatologia Fundamental.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[90],"tags":[96],"edicao":[295],"autor":[67],"class_list":["post-3367","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-campo-psicanalitico","tag-congressos","edicao-boletim-73","autor-maria-silvia-borghese","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3367"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3367\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3544,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3367\/revisions\/3544"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3367"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3367"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}