{"id":338,"date":"2022-01-21T09:33:29","date_gmt":"2022-01-21T12:33:29","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=338"},"modified":"2022-02-18T15:27:04","modified_gmt":"2022-02-18T18:27:04","slug":"racismo-naturalizado-trauma-invisibilizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/01\/21\/racismo-naturalizado-trauma-invisibilizado\/","title":{"rendered":"Racismo naturalizado, trauma invisibilizado"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">\u00a0 Racismo naturalizado, trauma invisibilizado<strong>\u00a0<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">por <strong>Marisa Corr\u00eaa da Silva<\/strong> <strong><a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Comemoramos neste m\u00eas de novembro o Dia da Consci\u00eancia Negra. A import\u00e2ncia dessa tomada de consci\u00eancia leva-me a retornar ao dia 13 de maio, data em que ainda \u00e9 comemorada a Aboli\u00e7\u00e3o da Escravid\u00e3o, para estabelecer um nexo entre a representa\u00e7\u00e3o desta data, a representa\u00e7\u00e3o do m\u00eas de novembro e o t\u00edtulo deste texto.<\/p>\n<p>A chamada lei \u201c\u00c1urea\u201d j\u00e1 imp\u00f5e, pelo nome \u201clei de ouro\u201d, uma associa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica com algo de grande valor. A lei, no entanto, foi um engodo, uma tentativa de \u201cdourar a p\u00edlula amarga\u201d do criminoso regime escravagista existente. Tanto que n\u00e3o propiciou a emancipa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra e muito menos a repara\u00e7\u00e3o pelos anos de escravid\u00e3o, pelo contr\u00e1rio lan\u00e7ou \u00e0 pr\u00f3pria sorte a popula\u00e7\u00e3o que restava escravizada, como j\u00e1 acontecia com os alforriados, que, inclusive, j\u00e1 eram em maioria na \u00e9poca.<\/p>\n<p>O resgate desse fato hist\u00f3rico, agregado \u00e0 intencional recusa e usurpa\u00e7\u00e3o das oportunidades de trabalho aos ex-escravizados, \u00e9 importante para aprofundarmos o entendimento da rela\u00e7\u00e3o do racismo e da escravid\u00e3o com o traum\u00e1tico individual e coletivo da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>A promulga\u00e7\u00e3o oficial da aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o garantiu o reconhecimento pelo Estado de que houve um crime hediondo e de que autorizou uma viol\u00eancia continuada. Esse crime foi camuflado, omitido, negado.<\/p>\n<p>Quando a escravid\u00e3o e o racismo s\u00e3o negados enquanto feitos violentos, n\u00e3o sendo criminalizados, marcas traum\u00e1ticas s\u00e3o reinscritas, transcendendo as viol\u00eancias cometidas. A nega\u00e7\u00e3o do ato traum\u00e1tico funciona como um segundo momento do trauma.<\/p>\n<p>No caso da escravid\u00e3o e do racismo ainda houve o agravante de terem sido justificados pela afirma\u00e7\u00e3o de que um sujeito negro n\u00e3o \u00e9 necessariamente um sujeito, \u00e9 praticamente uma coisa. Dessa forma o dominador intenciona se abster da responsabilidade pela execu\u00e7\u00e3o desta viol\u00eancia, garantir seus privil\u00e9gios e a domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O comprometimento obvio da sa\u00fade mental do sujeito abusado pode gerar transtornos de comportamentos, que resultem em a\u00e7\u00f5es danosas para si e para outros.<\/p>\n<p>O dominador, que nega o seu papel de algoz, tamb\u00e9m nega a correla\u00e7\u00e3o entre este comprometimento da sa\u00fade mental com a viol\u00eancia executada e sofrida, distorce os fatos e responsabiliza o sujeito violentado de modo absoluto pelas a\u00e7\u00f5es auto e hetero destrutivas. Inscreve dessa forma neste sujeito o estigma de um ser pernicioso para a sociedade, e fecha o ciclo ao se eximir da responsabilidade e culpabilizar, de forma projetiva, o sujeito abusado de ser o algoz de si mesmo.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma outra fal\u00e1cia traduzida nos dias de hoje pela hedionda afirma\u00e7\u00e3o: \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d. Ou pela afirma\u00e7\u00e3o: \u201cn\u00e3o melhora de vida porque n\u00e3o se esfor\u00e7a\u201d. Os que hoje apoiam esse paradigma n\u00e3o refletem sobre as origens deste descalabro sociopol\u00edtico, que incrimina os que por longos s\u00e9culos sofreram crimes di\u00e1rios, sem o direito sequer de ter o seu sofrimento reconhecido como produto de um crime.<\/p>\n<p>Portanto, a nega\u00e7\u00e3o, a clivagem e a proje\u00e7\u00e3o como componentes do ato traum\u00e1tico, a distor\u00e7\u00e3o da realidade, a isen\u00e7\u00e3o de responsabilidade retraumatizam, potencializando o trauma j\u00e1 institu\u00eddo pela viol\u00eancia. Este \u00e9 o segundo momento do trauma, onde quem o sofre v\u00ea-se em total desamparo, tomado pelo pavor e pela impot\u00eancia, com consequente preju\u00edzo na capacidade de reagir adequadamente a seu favor.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje presenciamos trabalhadores dom\u00e9sticos que s\u00e3o sub-remunerados, explorados com demanda excessiva de trabalho, mas que se conformam com a situa\u00e7\u00e3o, como se entendessem que \u00e9 aquilo que lhes cabe. Da mesma forma, escutamos com frequ\u00eancia pessoas dizendo: \u201cMeu bisav\u00f4 tinha escravos, mas os tratava bem\u201d. Ou seja, tanto no imagin\u00e1rio do ex-escravizado, como no do descendente do escravagista, escravizar ou sub empregar n\u00e3o s\u00e3o considerados tratar mal. Em ambos os comportamentos pode-se identificar os mecanismos de clivagem e nega\u00e7\u00e3o acima citados.<\/p>\n<p>Uma outra vertente da mesma express\u00e3o anterior, \u201cOs escravos do meu av\u00f4 preferiram continuar trabalhando na fazenda mesmo depois da aboli\u00e7\u00e3o\u201d, permite identificar uma outra fal\u00e1cia que ignora o fato de os escravizados libertos simplesmente n\u00e3o terem para onde ir, e, para onde quer que fossem, sofreriam alijamento, explora\u00e7\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos entender neste contexto que as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais no Brasil sejam caracterizadas por um racismo inscrito de modo institucional e estrutural, n\u00e3o sendo identificado como um fator nocivo para as possibilidades e perspectivas de vida social, pol\u00edtica, econ\u00f4mica, profissional do sujeito.<\/p>\n<p>A consequente desigualdade de oportunidades e modos de vida assim geradas alimenta um ciclo vicioso de rela\u00e7\u00f5es permeadas por domina\u00e7\u00e3o e subservi\u00eancia, que consequentemente influencia o desenvolvimento psicossocial do sujeito, na mesma propor\u00e7\u00e3o de graves a\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas, individuais e coletivas.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, penso ser importante destacar que a maioria das abordagens cl\u00ednicas, sejam elas preventivas, curativas ou de reabilita\u00e7\u00e3o, raramente consideram e integram na sua pr\u00e1tica aspectos raciais, sociais, culturais e pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A desconsidera\u00e7\u00e3o do racismo como um fator causador de doen\u00e7a \u00e9 definitivamente uma lacuna que precisa ser entendida, elaborada e sanada.<\/p>\n<p>Entendo que o racismo tem uma dimens\u00e3o traum\u00e1tica para toda a sociedade, qualquer que seja a etnia dos cidad\u00e3os desta sociedade, j\u00e1 que ele est\u00e1 integrado na din\u00e2mica social do pa\u00eds h\u00e1 s\u00e9culos, a partir de uma mentalidade escravocrata ainda atual.<\/p>\n<p>O racismo atinge tanto a popula\u00e7\u00e3o negra, enquanto objeto que o sofre, quanto a popula\u00e7\u00e3o branca, enquanto seu agente. Portanto, a viol\u00eancia estabelecida nesta rela\u00e7\u00e3o respinga para os dois lados, mesmo que com caracter\u00edsticas diversas.<\/p>\n<p>Estou generalizando sujeitos negros e brancos com a inten\u00e7\u00e3o de simplificar, na reduzida pretens\u00e3o deste texto, uma realidade que certamente \u00e9 bem mais complexa, composta de sujeitos \u00fanicos, com posturas individuais diante do racismo. Por\u00e9m vou manter ao longo do texto a denomina\u00e7\u00e3o generalizada de \u201cnegros\u201d e \u201cbrancos\u201d com a finalidade de representar um imagin\u00e1rio racista estabelecido no coletivo da nossa sociedade.<\/p>\n<p>Explicando melhor: o racismo est\u00e1 internalizado em todos os que vivem em uma sociedade estruturalmente racista. Estou me referindo a um processo muitas vezes inconsciente, naturalizado e aceito dentro de uma \u201cnormalidade\u201d social, como os estere\u00f3tipos. Esse aspecto \u00e9 de extrema import\u00e2ncia na pr\u00e1tica cl\u00ednica terap\u00eautica.<\/p>\n<p>Para que a rela\u00e7\u00e3o paciente-terapeuta facilite o acesso, a representa\u00e7\u00e3o e a elabora\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias traum\u00e1ticas do racismo, essa rela\u00e7\u00e3o precisa permitir que processos intra e interps\u00edquicos de elabora\u00e7\u00e3o e simboliza\u00e7\u00e3o aconte\u00e7am tanto com o paciente como com o terapeuta. Ou seja, ambos v\u00e3o precisar se confrontar com seu racismo internalizado.<\/p>\n<p>Levando-se em considera\u00e7\u00e3o que a maioria dos profissionais psicanalistas e terapeutas em geral n\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda por negros, como consequ\u00eancia da pr\u00f3pria discrimina\u00e7\u00e3o racial, que dificulta a ascens\u00e3o s\u00f3cio-cultural da popula\u00e7\u00e3o negra e pobre, \u00e9 muito importante que o analista n\u00e3o negro atente para que a rela\u00e7\u00e3o anal\u00edtica\/terap\u00eautica n\u00e3o reencene comportamentos racistas. O mesmo se aplica a um analista negro, que passe a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o praticamente exclusiva da privilegiada popula\u00e7\u00e3o branca.<\/p>\n<p>Como entender de que modo uma viv\u00eancia traum\u00e1tica age na contram\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental?<\/p>\n<p>Uma distin\u00e7\u00e3o importante a ser feita \u00e9 entre a viv\u00eancia de um traumatismo, o estado traum\u00e1tico e as altera\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas duradouras.<\/p>\n<p>O entendimento dessas distin\u00e7\u00f5es importa, pois as consequ\u00eancias diretas de vivenciar uma situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica podem ser patog\u00eanicas, embora n\u00e3o necessariamente. Nem todas as situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas t\u00eam o mesmo efeito em todas as pessoas, assim como fatores predisponentes tamb\u00e9m devem ser levados em considera\u00e7\u00e3o. A dura\u00e7\u00e3o e a intensidade do(s) evento(s) traum\u00e1ticos precisam igualmente ser consideradas, bem como a \u00e9poca de vida em que o trauma ocorre.<\/p>\n<p><em>Trauma \u00e9 um conceito que vincula um evento externo com suas consequ\u00eancias espec\u00edficas para a realidade ps\u00edquica interna. Nessa medida, \u00e9 um termo relacional<\/em> (Fischer e Riedesser, 1998).<\/p>\n<p><em>O trauma ps\u00edquico \u00e9 um acontecimento que arrebata abruptamente a capacidade do Eu de proporcionar uma sensa\u00e7\u00e3o m\u00ednima de seguran\u00e7a e plenitude integradora, resultando que o Eu vivencie medo ou impot\u00eancia avassaladores o suficiente para se sentir amea\u00e7ado, provocando modifica\u00e7\u00f5es permanentes na organiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica<\/em> (Cooper,1986, p.44).<\/p>\n<p>Um fator essencial nessa defini\u00e7\u00e3o \u00e9 a caracter\u00edstica repentina, disruptiva e incontrol\u00e1vel do evento traum\u00e1tico e a experi\u00eancia de tornar o Eu indefeso. A experi\u00eancia traum\u00e1tica confronta o Eu com um &#8220;fato consumado&#8221; (Furst, 1977, p.349). As rea\u00e7\u00f5es do Eu chegam tarde demais. Elas n\u00e3o acontecem como resposta a um perigo iminente, mas somente depois que ele se tornou realidade e o Eu foi passivamente rendido a esse perigo. Krystal (1978) fala em &#8220;trauma catastr\u00f3fico&#8221;, onde o fator central \u00e9 o desamparo, desencadeado por sua avalia\u00e7\u00e3o subjetiva. Se o perigo \u00e9 visto como inevit\u00e1vel, o desamparo se transforma em um desistir de si mesmo. As rea\u00e7\u00f5es de autossubsist\u00eancia est\u00e3o prejudicadas. Para Krystal, esse ataque ao psiquismo do sujeito pelo agente traum\u00e1tico, que lesiona a fun\u00e7\u00e3o de defesa e a fun\u00e7\u00e3o expressiva do medo, levando \u00e0 inibi\u00e7\u00e3o de ambas as fun\u00e7\u00f5es, seria o verdadeiro evento traum\u00e1tico. Nesse caso a fun\u00e7\u00e3o de autopreserva\u00e7\u00e3o, de valoriza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida permanece bastante prejudicada, muitas vezes inibida.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel para o Eu integrar mentalmente a experi\u00eancia traum\u00e1tica. A atribui\u00e7\u00e3o de significado \u00e9 interrompida, porque o fortuito e inesperado do evento n\u00e3o pode ser absorvido por estruturas de significado anteriores. Um efeito duradouro e n\u00e3o tempor\u00e1rio, importante para a defini\u00e7\u00e3o de trauma, \u00e9 que a confian\u00e7a b\u00e1sica \u00e9 destru\u00edda e leva a um &#8220;estilha\u00e7amento permanente da compreens\u00e3o de si mesmo e do mundo&#8221; (Fischer e Riedesser, 1998, p.79).<\/p>\n<p>Enquanto estivermos com consci\u00eancia de autopreserva\u00e7\u00e3o e reagindo a nosso favor em rela\u00e7\u00e3o aos nossos medos, n\u00e3o estaremos aprisionados no estado traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a complexidade no caso do racismo, no meu entender, \u00e9 que h\u00e1 muitas nuances entre o estado de aprisionamento traum\u00e1tico, onde h\u00e1 quase uma paralisia e um desistir de si mesmo, e o estado de um funcionamento mental saud\u00e1vel e favor\u00e1vel a si mesmo. A const\u00e2ncia, a cronifica\u00e7\u00e3o e o efeito cumulativo das viv\u00eancias traum\u00e1ticas devidas ao racismo cotidiano secular interferem nos mecanismos de defesa e nas express\u00f5es reativas ao medo. Esses, que deveriam agir a nosso favor, podem j\u00e1 n\u00e3o funcionar como de fato deveriam no cuidado da autopreserva\u00e7\u00e3o e como geradores de bem-estar e plenitude. Como se o Eu reconhecesse determinados ataques nocivos como normatizados e toler\u00e1veis, n\u00e3o resultando necessariamente numa paralisia, sem deixar, no entanto, de causar inibi\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es ao seu funcionamento. Essas inibi\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es, por passarem despercebidas, podem resultar em sofrimentos, sintomas e transtornos de comportamento que passam igualmente despercebidos. Como se estiv\u00e9ssemos tolerando chibatadas, nos movimentando com grilh\u00f5es no corpo e nos expressando com uma morda\u00e7a na boca, sem nos darmos conta disso.<\/p>\n<p>Diretamente relacionado aos aspectos acima descritos \u00e9 o car\u00e1ter transgeracional deste racismo traum\u00e1tico, ou seja, as consequ\u00eancias lesivas s\u00e3o transmitidas de forma inconsciente e herdadas sem possibilidades de serem identificadas na sua rela\u00e7\u00e3o causa e efeito, como se sujeito j\u00e1 viesse ao mundo com uma d\u00edvida que n\u00e3o contraiu.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o antirracista, portanto, faz uma conex\u00e3o direta com a produ\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental, assumindo n\u00e3o s\u00f3 uma fun\u00e7\u00e3o curativa, como tamb\u00e9m preventiva, tanto na cl\u00ednica como no cotidiano social e pol\u00edtico de todos n\u00f3s. Sem uma atua\u00e7\u00e3o antirracista enquanto cidad\u00e3os n\u00e3o conseguiremos construir uma sociedade saud\u00e1vel e de fato humanizada.<\/p>\n<p>E para concluir convido para uma discuss\u00e3o sobre o traum\u00e1tico de um sujeito branco que presenciou, presencia e usufrui de toda essa viol\u00eancia secular. Nomino como tamb\u00e9m traum\u00e1ticas essas viv\u00eancias para o branco, por\u00e9m essa afirma\u00e7\u00e3o carece de uma discuss\u00e3o mais aprofundada entre brancos e negros principalmente. Ocorre-me por exemplo, a maternagem pela m\u00e3e preta, hoje atualizada na figura da bab\u00e1, recebida por uma crian\u00e7a branca, que sabe ter uma m\u00e3e biol\u00f3gica branca. Se admitirmos ser essa m\u00e3e branca representante de uma sociedade que violenta e despreza a m\u00e3e preta, enquanto representante da mulher coisificada, j\u00e1 podemos questionar uma contradi\u00e7\u00e3o estabelecida.<\/p>\n<p>Poderia essa mulher negra que amamenta, alimenta, cuida e muitas vezes acolhe tamb\u00e9m suscitar desejos na crian\u00e7a branca, inclusive libidinosos, que, mesmo realizados, de modo coercivo ou n\u00e3o, permane\u00e7am conflituosos? Essa maternagem tamb\u00e9m pode vir carregada de m\u00e1goas, ressentimentos, raiva, j\u00e1 que, tanto a m\u00e3e preta escravizada como a bab\u00e1 subempregada dos dias atuais, vivenciam a incoer\u00eancia de terem que descuidar do seu filho biol\u00f3gico, para cuidar dos filhos privilegiados. Isso n\u00e3o afetaria tamb\u00e9m a crian\u00e7a que est\u00e1 sendo cuidada?<\/p>\n<p>O mesmo fen\u00f4meno presenciamos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conviv\u00eancia desta crian\u00e7a com v\u00e1rios outros \u201cservi\u00e7ais\u201d, em sua maioria negra, dos quais \u00e9 muitas vezes dependente, como o motorista, o porteiro, o faxineiro, a cozinheira etc., mas pelos quais alimenta o sentimento de serem pessoas de segunda categoria. Convive e depende de pessoas que muitas vezes lhe evocam medo, ojeriza, estranhamento, das quais quer manter dist\u00e2ncia. Como se convivesse diariamente com um inimigo perigoso, mas necess\u00e1rio por lhe prestar servi\u00e7os essenciais e com baixa remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria isso um comportamento quase perverso, equivalente a um fen\u00f4meno psic\u00f3tico, onde mecanismos de defesa como a clivagem, a nega\u00e7\u00e3o, a proje\u00e7\u00e3o e a identifica\u00e7\u00e3o projetiva predominam?<\/p>\n<p>Esses questionamentos remetem \u00e0 necessidade de revis\u00e3o da comemora\u00e7\u00e3o de 13 de maio e do m\u00eas de novembro. No meu entender, novembro n\u00e3o deveria ser isoladamente o m\u00eas da consci\u00eancia negra, e sim o m\u00eas da consci\u00eancia do racismo para toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira. Um m\u00eas que encabe\u00e7asse a inclus\u00e3o de todos os meses restantes do ano em um movimento antirracista permanente de toda a sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">S\u00e3o Paulo, 04\/10\/2021<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas e leituras complementares:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bento, M.A.S.; Carone, I. (Ed.) <\/strong>(2016), <em>Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil.<\/em> Petr\u00f3polis: Vozes.<\/p>\n<p><strong>Bohleber, Werner<\/strong>. (2000), <em>Die Entwicklung der Traumatheorie in der Psychoanalyse,<\/em> Psyche, 54. Jahrgang, Heft 9\/10, psycho-sozial verlag.de.<\/p>\n<p><strong>Davis, M. 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Por Marisa Corr\u00eaa da Silva.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[40,43],"edicao":[13],"autor":[65],"class_list":["post-338","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicanalise-e-politica","tag-negritude","tag-saude-mental","edicao-boletim-61","autor-marisa-correa-da-silva","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/338","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=338"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/338\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1193,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/338\/revisions\/1193"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=338"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=338"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=338"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=338"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=338"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}