{"id":3389,"date":"2024-11-20T18:41:43","date_gmt":"2024-11-20T21:41:43","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3389"},"modified":"2024-11-22T19:23:23","modified_gmt":"2024-11-22T22:23:23","slug":"minas-reminiscencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2024\/11\/20\/minas-reminiscencias\/","title":{"rendered":"Minas, reMinisc\u00eancias"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Minas, reminisc\u00ea<\/strong><strong>ncias <\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Rubia Delorenzo<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A crian\u00e7a era pequena. Ainda nem sabia falar.<br \/>\nQuando falou, a primeira palavra foi soprada pela av\u00f3. Depois vieram outras, compondo a harmonia das frases, o tom dos pedidos, a severidade das ordens. Muito cedo banhou seu cora\u00e7\u00e3o a ternura da cantiga de ninar.<br \/>\nE pouco a pouco chegaram os ensinamentos e as supersti\u00e7\u00f5es. As b\u00ean\u00e7\u00e3os e os amuletos da sorte.<br \/>\nAli de certa forma, havia um convite para criar uma l\u00edngua sempre atenta ao ritmo do mundo.<br \/>\nQue escutasse o pio sonoro da ave que adverte. As nuances da voz do rio que corre devagar.<br \/>\nCriar um dizer que fareja o ar pesado da chuva, o an\u00fancio de um dia de sol.<br \/>\nOs sinais da madrugada que se finda e os da luz da tarde que se vai.<br \/>\nAtenta ao estrondo que avisa. Ao aguaceiro que cai.<br \/>\nQue ouve dos galhos que se quebram, seu ru\u00eddo seco.<br \/>\nE das folhas que caem em terra boa, seu sopro surdo.<br \/>\nAli, sob o calor da cidade, a crian\u00e7a cresceu. Foi e voltou muitas vezes, naqueles ver\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>Um halo de fuma\u00e7a se elevou.<br \/>\nA noite virou pura claridade.<br \/>\nUm vidro que era fosco virou ar.<\/p>\n<p>\u00c9 da quentura da inf\u00e2ncia que falo.<br \/>\nMinha, Minas.<\/p>\n<p>Na tarde abafada, o sil\u00eancio.<br \/>\nSil\u00eancio cavado no burburinho ordin\u00e1rio da rua, pr\u00f3prio das casas, dos quintais. De vez em quando, ouve-se o vento que uiva, ou o ru\u00eddo de um prato que bate na beira da pia, vozes que ecoam, indistintas. Ao longe, o som de um r\u00e1dio ligado, sertanejo.<br \/>\nEm algum lugar, o ranger das correntes de um balan\u00e7o, um latido.<\/p>\n<p>Calor africano. Quase quarenta graus.<br \/>\nO corpo se ressente da secura do p\u00f3, da estrid\u00eancia da luz.<br \/>\nTudo convida aos espa\u00e7os arejados, \u00e0<br \/>\nsombra t\u00e9pida, ao interior.<br \/>\nO ritmo dom\u00e9stico obedece tamb\u00e9m ao clima.<br \/>\nBem cedo, na manh\u00e3, faz-se tudo o que exige o esfor\u00e7o dos bra\u00e7os. Sovar a massa, preparar a lenha, passar a roupa com o ferro em brasa.<br \/>\nManejar o escov\u00e3o, seu vai-e-vem, que d\u00e1 vida nova \u00e0 madeira do assoalho.<\/p>\n<p>O tempo quente pede o linho.<br \/>\nLinho branco bem passado, roupas, toalhas e len\u00e7\u00f3is.<br \/>\nNo enxoval da casa, de tecido fresco e leve, veem-se os monogramas destacados, azuis, bordados no relevo do <em>ponto-ajour<\/em>.<\/p>\n<p>Na calma dos dias, nas horas lentas da tarde, a lida tinha tamb\u00e9m o seu frescor.<br \/>\nEra farta a \u00e1gua, regava-se \u00e0 vontade.<br \/>\nO jardim sedento agradecia.<br \/>\nAs pimenteiras, os temperos todos, erguiam-se em suas hastes finas, contentes com o molhe-molhe do chuvisco.<br \/>\nMas, regava-se tamb\u00e9m para sobrar um banho, pelo prazer que traz a \u00e1gua doce irrigando o corpo em fogo do ver\u00e3o.<br \/>\nEsse trabalho comum, regular, como tudo, se fazia no vagar.<br \/>\nFicar ali, sem data nem hora, jogando conversa fora, s\u00f3 lembrando o antigamente: os segredos da cidade, os ilustres, o destino dos parentes.<br \/>\nE como de costume, comentava-se, com muita f\u00e9, a liturgia da missa, a caridade do crente e os gestos pausados do monsenhor.<br \/>\nAvaliava-se, al\u00e9m disso, a boa educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as por seus cabelos penteados, molhados ainda, mostrando a limpeza do banho. Sinal de respeito \u00e0 cerim\u00f4nia do dia.<\/p>\n<p>Meu av\u00f4, m\u00e9dico de fam\u00edlia, ia \u00e0 ro\u00e7a, preocupado com as queixas dos doentes.<br \/>\nVoltava regularmente no final daquelas manh\u00e3s, o chap\u00e9u e as m\u00e3os repletos de provis\u00f5es: os ovos, o frango vivo, uma perna de leit\u00e3o. Acomodava ainda em seu farnel, a acelga, a escarola, o jil\u00f3 amargo e o quiabo gosmento.<br \/>\nBonito esse escambo da vida do interior.<br \/>\nPor que a galinha criada com a ci\u00eancia do caboclo n\u00e3o valeria o saber do doutor?<br \/>\nVale o ovo, vale a couve. Vale, sim, a carambola. At\u00e9 o marolo, HORR\u00cdVEL de gosto, nojento no aspecto, valia pelo bom doce.<\/p>\n<p>Frutas, no pomar, havia muitas.<br \/>\nS\u00f3 com J tinha tr\u00eas: jaca, jambo, jabuticaba.<br \/>\nE goiaba que \u00e9 com G.<br \/>\nN\u00e3o me apetecia a fruta crua: a textura da<br \/>\njaca babenta, a goiaba com minhoca, tinha medo de morder.<br \/>\nMas os doces\u2026<br \/>\nAs compoteiras cheias, as formas desmanchadas das frutas cozidas, seu brilho, seu aroma, era muita tenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNa cozinha febril de atividade, aproveitava-se tudo: o caldo, a polpa, a casca<br \/>\ne as sementes.<br \/>\nAs del\u00edcias se faziam com muito gosto e per\u00edcia: preparar o alimento, o fogo para cozinh\u00e1-lo, dar forma \u00e0s broas, tran\u00e7ar a rosca, dividir o p\u00e3o.<br \/>\nAli respeitava-se tanto a gula como o jejum. Tanto o Carnaval como a quaresma.<\/p>\n<p>A casa era prop\u00edcia aos dias de festa. A copa larga, a mesa grande.<br \/>\nTodo o espa\u00e7o fervia. O ir e vir da copa \u00e0 cozinha, da cozinha ao terreiro, do terreiro ao pomar.<br \/>\nEu via de longe o peru b\u00eabado cambaleando, prestes a ser degolado.<br \/>\nVia tamb\u00e9m a galinha em fuga, escolhida para ser cozida no pr\u00f3prio sangue e servida ao molho pardo.<br \/>\nMesmo sendo comuns esses h\u00e1bitos, menina do interior jamais esquece essas pr\u00e1ticas radicais, os m\u00e9todos da vida rural.<\/p>\n<p>Quando tudo serenava, nas \u00faltimas horas do dia, o cheiro bom de panelas areadas, dos guisados, dos assados e a fragr\u00e2ncia do jasmim, ainda inebriavam o ar.<br \/>\nAdorava aqueles momentos, instantes de quietude e devaneio, de verdade e fic\u00e7\u00e3o, com o que, sem saber, minha av\u00f3 nos inundava.<br \/>\nMorgana divagando em frente ao tear.<\/p>\n<p>N\u00e3o a amava por brincar comigo. Disso nem tenho lembran\u00e7a.<br \/>\nAmava nela o movimento, seu diligente fazer cont\u00ednuo. E na sequ\u00eancia, aquele repouso eloquente e a fala quieta que tanto nos aproximava.<br \/>\nEla era o pr\u00f3prio perfume do caldeir\u00e3o. Era a paz do servi\u00e7o conclu\u00eddo, do descanso merecido por tanta dedica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas, mais do que tudo o que me deu, mais do que as rel\u00edquias que conservo &#8211; a lou\u00e7a fina, a namoradeira &#8211; ela entendeu meu amor pela biblioteca, o prazer da novela e o feiti\u00e7o do div\u00e3. Recostada nele, se transportava ouvindo as hist\u00f3rias de amor e guerra da R\u00e1dio Nacional.<br \/>\nEla me deixou um calor de gente, a confian\u00e7a na vida e seu persistente amor.<\/p>\n<p>Voltemos. O sonho hoje \u00e9 passado.<br \/>\nAcordei com o ronco dos motores, voltei para o p\u00f3 do asfalto esburacado, para a miscel\u00e2nea de vidros, concreto e a\u00e7o.<br \/>\nVoltei trope\u00e7ando na mis\u00e9ria, desviando dos entregadores estressados, atenta ao roubo de celulares.<br \/>\nNa urbe, o bom conv\u00edvio se desgastou.<br \/>\nPerdeu sua inten\u00e7\u00e3o de partilha, sua aten\u00e7\u00e3o para o que est\u00e1 ao redor.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o se escuta o tom brando do dizer.<br \/>\nUrbe, vivemos aqui o avesso do sentido da palavra.<br \/>\nUrbanidade, civilidade, gentileza, cortesia.<\/p>\n<p>Minas n\u00e3o h\u00e1 mais?<br \/>\nSempre se guarda um floco, uma pena de ganso da asa do anjo da prociss\u00e3o. Ou a castanha perdida do caju que enfeitava a tiara nos blocos de carnaval.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da pr\u00e1tica radical de devanear em frente ao tear, flocos da meninice cozida na ternura dos a\/bra\u00e7os de av\u00f3. Por Rubia Delorenzo.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[41],"edicao":[295],"autor":[75],"class_list":["post-3389","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos","tag-poesia","edicao-boletim-73","autor-rubia-delorenzo","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3389"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3389\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3549,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3389\/revisions\/3549"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3389"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3389"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}