{"id":345,"date":"2022-01-21T09:54:19","date_gmt":"2022-01-21T12:54:19","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=345"},"modified":"2022-04-14T23:45:22","modified_gmt":"2022-04-15T02:45:22","slug":"itauna-um-testemunho-uma-homenagem-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2022\/01\/21\/itauna-um-testemunho-uma-homenagem-2\/","title":{"rendered":"Ita\u00fana: um testemunho, uma homenagem"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Ita\u00fana <a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>: um testemunho, uma homenagem<\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong>por <strong>Maria Silvia Borghese<\/strong>\u00a0<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Andara\u00ed, Bahia. In\u00edcio dos anos 1960. Uma fam\u00edlia pobre cria seus filhos com muita dificuldade. As crian\u00e7as ajudam na pequena ro\u00e7a familiar, trabalham desde cedo e, cansadas, mal conseguem ver o sol se por, pois j\u00e1 dormem vencidas pela exaust\u00e3o de mais um dia de muito esfor\u00e7o e pouca comida. A fam\u00edlia \u00e9 descendente de mulheres e homens escravizados que, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, migraram para o Rec\u00f4ncavo, buscando encontrar rumo, tendo sido largados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, sem direito a um m\u00ednimo gesto de repara\u00e7\u00e3o do Estado ou da sociedade.<\/p>\n<p>\u00c0 essa altura, j\u00e1 \u00e9 pr\u00e1tica corrente, nessas gera\u00e7\u00f5es de negras e negros empobrecidos, a migra\u00e7\u00e3o para o sul e sudeste para tentar a vida nas regi\u00f5es mais ricas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, capital. Na mesma \u00e9poca, uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia, formada por um casal e cinco filhos (seriam seis em breve), descendentes de imigrantes italianos e portugueses, \u2018misturados\u2019 a brasileiros que tamb\u00e9m j\u00e1 haviam se \u2018misturado\u2019 antes, luta com dificuldades para sobreviver e educar os filhos. S\u00e3o trabalhadores da classe m\u00e9dia baixa, filhos de imigrantes que se instalaram no bairro do Jabaquara, construindo pequeno patrim\u00f4nio, vivendo com muito trabalho, mas dentro dos limites da dignidade necess\u00e1ria \u00e0 vida e \u00e0 sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>De um lado, pessoas tratando de sobreviver, de se manter vivas. De outro, pessoas buscando construir uma vida, criar filhos e vislumbrar futuro. H\u00e1 luta pela vida nos dois lados, mas h\u00e1 diferen\u00e7as fundamentais entre esses dois grupos: de origem, de oportunidades, de cuidados, de amparo social. Na estrutura social vigente, as diferen\u00e7as mencionadas s\u00e3o fundamentais, pois, do primeiro universo saem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s cidades grandes as empregadas dom\u00e9sticas e os trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil, principalmente. No segundo grupo est\u00e3o os imigrantes europeus, que rapidamente se tornam pequenos empreendedores, comerciantes etc. No \u00e2mbito dom\u00e9stico, dividem-se em patr\u00f5es e empregados, marcados por uma rela\u00e7\u00e3o que est\u00e1 ainda muito longe de ser puramente de trabalho, mesmo para os moldes capitalistas.<\/p>\n<p>E, foi seguindo a irm\u00e3 mais velha, que <em>Ita\u00fana<\/em> veio dar em S\u00e3o Paulo, terra de muitos \u2018neosenhores\u2019 e \u2018neosinhazinhas\u2019, descendentes de uma cultura ainda escravocrata, sociedade fundada na domina\u00e7\u00e3o, que se vale da desigualdade aprofundada pelo capitalismo tardio.<\/p>\n<p>Ita, como costum\u00e1vamos chamar aquela que viria ser considerada minha <em>segunda m\u00e3e<\/em>, era uma adolescente de 15\/16 anos, chegando em uma cidade j\u00e1 grande e hostil, quase sem as qualifica\u00e7\u00f5es exigidas pelos padr\u00f5es do lugar. N\u00e3o sabia ler ou escrever, era bastante t\u00edmida e amedrontada, pois, apesar da aus\u00eancia de instru\u00e7\u00e3o formal, sobre diferen\u00e7as sociais e viol\u00eancia muito j\u00e1 conhecia desde seu pr\u00f3prio corpo. O caminho tra\u00e7ado era encontrar trabalho em casas de fam\u00edlia, em tempos em que sequer eram discutidos quaisquer direitos trabalhistas de uma categoria profissional que jamais tinha sido vista como tal.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m questionaria que \u2018meninas\/mocinhas\u2019 pobres vindas do Nordeste e do interior de Minas ou S\u00e3o Paulo fossem simplesmente acolhidas por fam\u00edlias paulistanas, trabalhando de sol a sol, praticamente sem folga, a troco de moradia e alimenta\u00e7\u00e3o. E foi nessas condi\u00e7\u00f5es que Ita entrou na minha vida e na de meus irm\u00e3os. Aqui, me separo deles, pois meu relato diz respeito a uma recupera\u00e7\u00e3o lenta e vagarosa de mem\u00f3ria, que me impulsionei a fazer, sobre os aspectos concernentes a minha pr\u00f3pria branquitude, marcada pela rela\u00e7\u00e3o amorosa com Ita.<\/p>\n<p>Nasci e cresci em um Brasil racista, racismo insidioso, mal disfar\u00e7ado. Como sabemos, o racismo por aqui se camufla sob o discurso da miscigena\u00e7\u00e3o e da conviv\u00eancia \u2018alegre e cordial\u2019 entre todos os povos. Ali\u00e1s, esse \u00e9 quase o <em>slogan <\/em>que costuma vender ainda nos dias de hoje a cidade onde nasci, cresci e vivi. De fato, S\u00e3o Paulo \u00e9 uma cidade de todos os povos, de muitas misturas, mas a conviv\u00eancia entre eles est\u00e1 muito longe de ser pac\u00edfica, igualit\u00e1ria e feliz, pois S\u00e3o Paulo \u00e9 o retrato mais cruel da desigualdade social, que segue adoecendo e matando as popula\u00e7\u00f5es pobres e miser\u00e1veis. <em>Mas presos s\u00e3o quase todos pretos, ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de t\u00e3o pobres&#8230; <\/em>(<em>Haiti, <\/em>Caetano Veloso).<\/p>\n<p>Fico imaginando como deve ter sido dolorido para Ita, ao migrar para a tal terra da esperan\u00e7a e da oportunidade, encontrar uma cidade assim hostil, assustadora, uma grande fazenda urbana, cheias de troncos e chicotes t\u00e3o bem metaforizados \u2013 outros, nem tanto. Certamente, ser acolhida por uma fam\u00edlia poderia representar alento e amparo. De alguma maneira, poderia se dizer que, pelo lado das fam\u00edlias, a inten\u00e7\u00e3o caridosa e generosa pudesse estar presente, e, pelo lado de algu\u00e9m como Ita, seria o encontro de uma oportunidade para ser abrigada, um degrau na travessia para uma suposta vida melhor. Entretanto, essas rela\u00e7\u00f5es mal disfar\u00e7avam outros interesses, uma vez que a escravid\u00e3o permanecia estruturalmente em nossos meios de vida e em seus corpos. Em troca de guarida, as fam\u00edlias sempre esperavam muito trabalho dessas meninas, muitas delas viravam mulheres e envelheciam no seio das fam\u00edlias brancas, <em>nossas m\u00e3es pretas<\/em>. Os benef\u00edcios esperados pelas fam\u00edlias brancas eram extra\u00eddos imediatamente, no cotidiano de trabalho \u00e1rduo das<em> m\u00e3es pretas<\/em>; j\u00e1 o degrau prometido a essas jovens negras para que alcan\u00e7assem a ansiada e leg\u00edtima vida melhor, raramente se colocava de fato como um lugar propulsor. Na verdade, convertia-se em um eterno plat\u00f4, o qual era quase imposs\u00edvel ultrapassar.<\/p>\n<p>Certa vez, ouvi algu\u00e9m usar a express\u00e3o \u2018escravid\u00e3o branca\u2019 para se referir a este per\u00edodo no Brasil, que jamais terminou exatamente, e pensei que essa utiliza\u00e7\u00e3o da palavra \u2018branca\u2019 n\u00e3o poderia ser mais apropriada nesse caso. A aboli\u00e7\u00e3o dos povos escravizados no Brasil se sustenta nesse modo branco e rico \u2013 de grande parte de nossa elite \u2013 de fazer as coisas em benef\u00edcio pr\u00f3prio, a partir da suposta implementa\u00e7\u00e3o de avan\u00e7os sociais. Esse \u00e9 exatamente o caso da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>Nesse contexto, Ita chega em minha casa em 1963. Uma menina muito t\u00edmida e envergonhada, t\u00e3o risonha, tinha um olhar doce, meigo e carinhoso. Trabalho n\u00e3o lhe faltava, nem disposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabia ler nem escrever, mas trazia uma curiosidade no olhar, uma inquieta\u00e7\u00e3o. Minhas lembran\u00e7as de Ita em seus primeiros tempos na minha casa s\u00e3o de puro prazer, pois ela se juntou \u00e0 crian\u00e7ada (era quase uma). E, sem que tivesse obviamente a menor no\u00e7\u00e3o disso, apresentava-nos \u00e0 fantasia, \u00e0 riqueza e \u00e0 criatividade de nosso mundo imagin\u00e1rio. Minha m\u00e3e era extremamente m\u00edstica e amedrontadora \u2013 suas convic\u00e7\u00f5es religiosas sempre se basearam em medos, culpas e puni\u00e7\u00f5es \u2013, por isso, a presen\u00e7a de Ita se converteu pouco a pouco em garantia de prote\u00e7\u00e3o, a partir da inven\u00e7\u00e3o de um mundo l\u00fadico, amoroso e gentil. Acostumada a construir seus pr\u00f3prios brinquedos, uma vez que havia crescido muito pobre e sem recursos, ensinou-nos a fazer fam\u00edlias de bonequinhos de casca de melancias ou de laranjas; recort\u00e1vamos, pint\u00e1vamos, elabor\u00e1vamos roteiros completos para nossas brincadeiras.<\/p>\n<p>Foi assistindo a <em>Roma<\/em>, de Alfonso Cuar\u00f3n, que me flagrei em prantos, ao acompanhar a saga da personagem principal, que ajudava a criar a prole numerosa de uma fam\u00edlia, cujo casal se separa no in\u00edcio da hist\u00f3ria. A rela\u00e7\u00e3o das duas mulheres, a matriarca e a empregada dom\u00e9stica da fam\u00edlia, retratada ali na tela diante de meus olhos, trouxe Ita, resplandecente e iluminada, de volta \u00e0 tona de minha mente. Aquela era tamb\u00e9m a hist\u00f3ria de minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Anos de an\u00e1lise \u2013 e n\u00e3o foram poucos \u2013 trabalhando minha rela\u00e7\u00e3o conflituosa com minha m\u00e3e, mas apenas em 2018 eu me dei conta de que, durante bom tempo da an\u00e1lise, em meu discurso sobre minha hist\u00f3ria de rela\u00e7\u00e3o com a figura materna, Ita sempre esteve presente. Ela foi uma esp\u00e9cie de \u2018alter\u2019 figura materna, a partir da qual eu costumava elucidar o quanto minha m\u00e3e, pelas in\u00fameras dificuldades que havia atravessado na vida, perdera-se nos caminhos intensos e \u00e1rduos da maternidade. Lembro de exemplos que podem parecer prosaicos, como podem ser muitas de nossas lembran\u00e7as acessadas no div\u00e3, mas contam muito sobre a figura de minha <em>m\u00e3e preta<\/em>:<\/p>\n<p><em>Logo ap\u00f3s meu casamento, chegando de viagem, fui almo\u00e7ar na casa de minha m\u00e3e. Ela me conta que havia sugerido um card\u00e1pio para Ita que, imediatamente, se colocou contr\u00e1ria, pois sabia que eu detestava a comida sugerida. Ela me conhecia muito mais do que minha m\u00e3e.<\/em><\/p>\n<p><em>Em uma madrugada, ainda crian\u00e7a, acordei passando mal. Me lembro vivamente de chamar Ita para me ajudar. E ela veio em meu socorro, calma, silenciosa, carinhosa<\/em>. Essa \u00e9 uma lembran\u00e7a da presen\u00e7a de Ita, no lugar da m\u00e3e e essa positividade na nossa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 uma marca profunda que carreguei para vida, na m\u00e3e em que me converti.<\/p>\n<p>Era quase inacredit\u00e1vel que o eixo principal de minha narrativa havia sido de forma \u2018pregnante\u2019 apenas a negatividade de minha m\u00e3e. Somente em 2018, iluminou-se em mim o protagonismo de Ita em cada uma dessas cenas, minha <em>m\u00e3e preta<\/em>, minha <em>segunda m\u00e3e<\/em>. S\u00e3o apenas exemplos esparsos? Sim, nem conseguiria revelar outros tantos elementos de minha hist\u00f3ria neste \u00e2mbito. Contudo, eles foram se sucedendo e assaltando minhas lembran\u00e7as, ampliando e ressignificando minha mem\u00f3ria. Imensa gratid\u00e3o, eu experimentei por Ita!<\/p>\n<p>Claro que sabia de minha gratid\u00e3o por tudo que ela representou em minha hist\u00f3ria de vida. Entretanto, agora estava sendo elucidada e desvelada em mim, profundamente, <em>a presen\u00e7a positiva de Ita na mulher em que me tornei, na m\u00e3e amorosa que ainda sou.<\/em> N\u00e3o era uma figura lateral, foi uma presen\u00e7a fundamental, salvadora e reparadora. Agora, e apenas agora, eu estava reconhecendo a Ita que habitava em mim, um esteio essencial. D\u00edvida impag\u00e1vel, obviamente. E a isso s\u00f3 se pode responder com amor e gratid\u00e3o. Mas, como compreender ou tentar explicar que durante anos de processo de an\u00e1lise a figura de Ita flanasse apenas como negativo \u2013 como nas fotografias antigas \u2013 da figura de minha m\u00e3e?<\/p>\n<p>Branquitude. Do que trata essa palavra? Breve consulta aos dicion\u00e1rios <em>online<\/em> e o significado j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1: <em>branquitude \u00e9 um lugar de privil\u00e9gios simb\u00f3licos, subjetivos, isto \u00e9, materiais palp\u00e1veis que colaboram para constru\u00e7\u00e3o social e reprodu\u00e7\u00e3o do preconceito racial, discrimina\u00e7\u00e3o racial. <\/em>Certamente, esta \u00e9 uma resumida e boa defini\u00e7\u00e3o para o termo. No entanto, a apreens\u00e3o apenas te\u00f3rica \u2013 ou racionalizada \u2013 do conceito \u00e9 apenas o in\u00edcio de uma longa e dolorida jornada.<\/p>\n<p>Iniciei a forma\u00e7\u00e3o como psicanalista e uma longa travessia na minha an\u00e1lise pessoal, j\u00e1 nos idos de 1980, sabendo, em certa medida, que este caminho \u2013 tornar-se psicanalista \u2013 era acess\u00edvel no Brasil, sobretudo, a pessoas da classe m\u00e9dia\/alta e alta. Nesse universo, \u00e9ramos, sobretudo, pessoas brancas. Raras, as exce\u00e7\u00f5es. Nesses tempos, uma discuss\u00e3o aprofundada sobre rela\u00e7\u00f5es raciais e racismo em nosso campo era praticamente inexistente. Para exemplificar, eu sabia bem quem era Virginia Bicudo, mas os detalhes fundamentais de sua luta como mulher negra no in\u00edcio do s\u00e9culo XX \u2013 mesmo vinda de uma fam\u00edlia que gozava de certos privil\u00e9gios em rela\u00e7\u00e3o a sua posi\u00e7\u00e3o social \u2013, eu desconhecia completamente.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil explicar o que n\u00e3o se pode compreender exatamente, pois havia uma esp\u00e9cie de v\u00e9u nada transparente, quase leitoso, encobrindo aspectos da hist\u00f3ria, n\u00e3o s\u00f3 da hist\u00f3ria da psican\u00e1lise em S\u00e3o Paulo, mas, principalmente, distorcendo e relativizando a maneira de se alcan\u00e7ar um verdadeiro conhecimento a respeito dessas quest\u00f5es. Eu, que j\u00e1 me considerava vitoriosa por ter uma origem, de certo modo, humilde, passei a frequentar c\u00edrculos sociais bastante \u2018elitizados\u2019. Desde os tempos da gradua\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, inquietavam-me as diferen\u00e7as e injusti\u00e7as sociais. H\u00e1 muito sabia que as diferen\u00e7as de origem e lugares sociais eram determinantes de nossas oportunidades na vida.<\/p>\n<p>Cabe, entretanto, destacar, demorei muito mais tempo para compreender que minha condi\u00e7\u00e3o de mulher branca, de cabelos e olhos claros, descendente de imigrantes europeus, pudesse ser um fator que muito havia facilitado minha circula\u00e7\u00e3o em certos lugares sociais e acad\u00eamicos. Sinceramente, isso n\u00e3o me passava pela cabe\u00e7a. Discut\u00edamos muito sobre injusti\u00e7a social e desigualdade, luta de classes, elites predadoras no Brasil etc., mas falar sobre racismo e sobre as injustas rela\u00e7\u00f5es raciais, das quais eu fazia parte do lado privilegiado apenas pela cor de minha pele, disso definitivamente n\u00e3o trat\u00e1vamos.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo em que assisti ao filme <em>Roma, <\/em>o Brasil mergulhou em tempos sombrios e obscurantistas, como sabemos. Movimenta\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia em nossa sociedade voltaram para combater as amea\u00e7as fascistas que se abateram sobre nossa democracia. Nessas frentes, os movimentos negros, que h\u00e1 d\u00e9cadas travam lutas contra o racismo estrutural e pela igualdade de oportunidades para negras e negros no Brasil, trouxeram contribui\u00e7\u00f5es importantes, confrontando-nos uma vez mais com o <em>Unheimlich<\/em>. A apreens\u00e3o e os medos em rela\u00e7\u00e3o aos riscos sociais que enfrent\u00e1vamos e enfrentar\u00edamos eram, h\u00e1 muito tempo, a base estabelecida na qual a popula\u00e7\u00e3o negra vinha e vem sendo obrigada a suportar suas condi\u00e7\u00f5es de existir.<\/p>\n<p>Eu, que havia militado contra a ditadura militar no Brasil, lutado por democracia e elei\u00e7\u00f5es diretas, que vinha h\u00e1 alguns anos participando de discuss\u00f5es sobre viol\u00eancia de Estado, jamais arrefecida, principalmente nas periferias das grandes cidades, ainda assim, fui surpreendida (surpreendida?), mais uma vez. Foi preciso que mulheres negras e homens negros voltassem a levantar o v\u00e9u de hipocrisia, pois nosso medo de o pa\u00eds retornar a um vi\u00e9s ditatorial e violento, nunca deixara de atormentar a popula\u00e7\u00e3o preta e perif\u00e9rica, que o experimenta em seu cotidiano, desde tempos long\u00ednquos, tempos que estavam fora da mem\u00f3ria da branquitude.<\/p>\n<p>A redemocratiza\u00e7\u00e3o nunca atingiu plenamente a popula\u00e7\u00e3o preta, pobre e perif\u00e9rica do Brasil, mas n\u00e3o basta saber disso teoricamente. A responsabilidade do resgate da origem da sociedade brasileira e do alto custo humano implicado na escravid\u00e3o \u00e9 nossa: mulheres brancas, homens brancos. Sempre me fizeram acreditar que supremacia branca era algo bem distante dos brasileiros. Assisti a muitos filmes norte americanos, nos quais homens brancos encapuzados nos rinc\u00f5es sulistas dos Estados Unidos apareciam como figuras aterrorizantes, mas ultrapassadas. No entanto, em certa medida, no Brasil dos dias atuais, grande parte da popula\u00e7\u00e3o branca e privilegiada segue escondida sob capuzes.<\/p>\n<p>E foi assim, me embrenhando em territ\u00f3rios dos quais havia me apartado, em que me mantivera ilusoriamente protegida \u2013 sob o argumento de que sempre fui progressista, n\u00e3o racista \u2013, que me dei conta de que era imperativo ir <em>al\u00e9m<\/em>. Era preciso conhecer os efeitos em mim de minha pr\u00f3pria <em>branquitude.<\/em> Por onde come\u00e7ar essa travessia? Por que me sentia t\u00e3o pouco preparada para aprofundar em mim a reflex\u00e3o sobre quest\u00f5es b\u00e1sicas e estruturais de nossa sociedade?<\/p>\n<p>Nesse momento, minha estrela guia foi e vem sendo Ita. Ela, que sempre esteve ali, mas que permanecera na \u2018cozinha\u2019, no \u2018quartinho dos fundos\u2019 de minha mem\u00f3ria, durante tanto tempo. Era preciso remover grande quantidade de entulhos e escombros, sobre os quais os privil\u00e9gios simb\u00f3licos de minha branquitude permaneciam determinando a narrativa da mem\u00f3ria \u2018oficial\u2019. Ali\u00e1s, a hist\u00f3ria oficial sempre contou que o Brasil foi constitu\u00eddo por uma parcela de homens brancos e europeus verdadeiramente desbravadores e heroicos. Esses brancos benevolentes haviam catequizado os povos ind\u00edgenas indolentes e disciplinado as popula\u00e7\u00f5es negras que para c\u00e1 haviam sido trazidas. Essa hist\u00f3ria ainda hoje nos conta que, aos poucos, a sociedade brasileira foi se \u2018miscigenando\u2019 e \u2018abra\u00e7ando\u2019 a diversidade cultural que construiu e habita o Brasil.\u00a0 Contudo, sempre houve uma vers\u00e3o sombria. Quem nunca ouviu a vers\u00e3o de que tamb\u00e9m haviam chegado por aqui homens disfuncionais, criminosos, marginais, que logo se misturaram aos \u00edndios e negros indolentes e primitivos? Em outras palavras, o Brasil havia se constitu\u00eddo pelo esfor\u00e7o de \u2018homens brancos de bem\u2019 em civilizar os povos b\u00e1rbaros, incluindo europeus desgarrados.<\/p>\n<p>Esses clich\u00eas, de pobreza e sordidez flagrantes, a meu ver, sustentam ainda hoje o neofascismo que chegou ao poder no Brasil. A diversidade, a cultura popular, o conhecimento, a ci\u00eancia, os movimentos sociais, passaram a incomodar. A hist\u00f3ria do Brasil \u2013 nossa mem\u00f3ria \u2013 permanece em grande parte soterrada, para sustentar uma vers\u00e3o de nossa hist\u00f3ria, que naturaliza a manuten\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o branca no poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico, ditando leis, normas e condutas, do alto de sua branquitude, sequer reconhecida. Etnias e ra\u00e7as s\u00e3o palavras que definiriam apenas povos <em>desviantes.<\/em><\/p>\n<p>Palavras excessivamente duras? Clich\u00eas pobres? Exageros sem\u00e2nticos? Talvez. Por\u00e9m, s\u00e3o habitantes antigos de nosso imagin\u00e1rio, fantasmas que seguem assombrando as casas escuras onde parte da mem\u00f3ria inconsciente silenciosamente produz efeitos. Trazer Ita de volta, com sua poesia, seu lirismo, sua generosidade e amorosidade, esse resgate foi fundamental para mim. Lembrei das in\u00fameras hist\u00f3rias que contava de um Brasil que eu ainda n\u00e3o conhecia, mais pr\u00f3ximo da natureza, mais vibrante, pleno de recursos criativos de sobreviv\u00eancia e de vida. Lembrei de ensinar Ita a ler na mesma \u00e9poca em que eu mesma estava sendo alfabetizada, em cenas maravilhosas de conversas na cozinha da minha casa, que me surgem na mem\u00f3ria, cheias de cheiros e sabores. Lembrei do mutir\u00e3o que formamos para encontrar sua fam\u00edlia, da qual havia se perdido h\u00e1 tempos, simplesmente por ter ficado 19 anos com minha fam\u00edlia. Lembrei do dia em que me disse que se casaria logo depois de meu casamento, pois sua miss\u00e3o estaria cumprida. Lembrei de levar minha filha mais velha ainda beb\u00ea ao visit\u00e1-la na maternidade, ap\u00f3s ter seu \u00fanico filho. Lembrei que ela, para minha alegria, seguiu sua vida com sua pr\u00f3pria fam\u00edlia e que, apesar do enorme afeto que tinha pela minha fam\u00edlia, preferia se manter distante; os contatos foram rareando.<\/p>\n<p>Ita, essa mulher negra e forte, guerreira como todas elas se encontram obrigadas a ser, que trabalhou tanto para ajudar a criar os filhos de outra mulher, trocando afetos, convivendo, sabia, no entanto, que aquela n\u00e3o era sua fam\u00edlia. Eu participei como pude de sua saga para recuperar uma vida que de fato fosse sua, para ser protagonista de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, longe de quartinhos e cozinhas alheias. \u00c9ramos uma fam\u00edlia grande, uma prole unida e amorosa que, assim, se defendia das tens\u00f5es e perturba\u00e7\u00f5es advindas da rela\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel entre um casal que se uniu ainda muito jovem e enfrentava uma s\u00e9rie de dificuldades. No entanto, nosso <em>cl\u00e3 <\/em>era defendido e protegido de muitas dessas coisas porque t\u00ednhamos Ita, pela sua imensa disponibilidade amorosa. Ela sabia a import\u00e2ncia do amparo, tamb\u00e9m se sentia amparada em nosso <em>cl\u00e3.<\/em> Meus irm\u00e3os e eu recorrentemente nos pergunt\u00e1vamos sobre como pudemos atravessar \u2018relativamente bem\u2019 os tempos dif\u00edceis. Hoje, a resposta vem muito f\u00e1cil a minha cabe\u00e7a: foi porque tivemos Ita, nossa<em> m\u00e3e<\/em>. Afortunadamente, tive duas m\u00e3es e, sim, sou muito grata por isso.<\/p>\n<p>Enquanto escrevia este texto, telefonei pra Ita. Queria saber como ela estava e tamb\u00e9m contar que estava fazendo uma reflex\u00e3o sobre nossa rela\u00e7\u00e3o e nossa hist\u00f3ria, estava escrevendo um texto. \u2018Gostaria de ler?\u2019<\/p>\n<p>Ela ouviu, mas pareceu n\u00e3o fazer o menor caso disso. Depois de um sil\u00eancio breve, \u2018R\u00f3<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, voc\u00ea finalmente aprendeu a fazer \u2018sufrito\u2019<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>?\u2019 \u2018Ainda n\u00e3o, voc\u00ea acredita? Voc\u00ea precisa fazer um almocinho a\u00ed pra ver se aprendo.\u2019 \u2018Vou te ditar a receita novamente. Dessa vez, voc\u00ea vai acertar.\u2019<\/p>\n<p>Necess\u00e1rio ressaltar que para Ita a hist\u00f3ria vivida com minha fam\u00edlia tem aspectos evidentemente insuper\u00e1veis de dores, traumas e tristeza. Reconhe\u00e7o o imenso afeto em sua voz sempre que nos falamos, mas as marcas deixadas pelos anos em que esteve anulada e impedida de seguir seus desejos permanecem como cicatrizes importantes a proteg\u00ea-la em seus novos caminhos.<\/p>\n<p>Despedimo-nos, sabendo que nosso contato seguir\u00e1 assim, dentro dos limites colocados por ela, quando pode finalmente criar as condi\u00e7\u00f5es para seguir com sua vida. \u00c0s vezes, essa dist\u00e2ncia me entristece, mas quando finalmente acertei fazer o \u2018sufrito\u2019, no preparo de um almo\u00e7o que ficou muito saboroso, dei conta de que Ita segue aqui em mim, muito pr\u00f3xima e muito querida, protegendo, resguardando, alimentando certamente meu mais genu\u00edno antirrascismo. Ita \u00e9 a minha <em>m\u00e3e mais amorosa<\/em>, a descri\u00e7\u00e3o mais verdadeira e honesta de quem ela \u00e9 para mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<pre><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a><em> Ita\u00fana, <\/em>em tupi guarani, quer dizer pedra preta.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae. Professora no Curso de Psican\u00e1lise. Integrante do coletivo Escuta Sedes.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Apelido que tem origem nas minhas bochechas rosadas da inf\u00e2ncia.\r\n\r\n<a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Nome dado por Ita a uma fritada de abobrinha e ovo, com especiarias e um pouco de molho de tomate.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Silvia Borghese deixa ver uma fresta de mem\u00f3ria e ressignifica os afetos de sua branquitude.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":346,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[7],"tags":[47,104],"edicao":[13],"autor":[67],"class_list":["post-345","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronicas-da-branquitude","tag-branquitude","tag-cronicas","edicao-boletim-61","autor-maria-silvia-borghese","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=345"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/345\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1330,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/345\/revisions\/1330"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media\/346"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=345"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=345"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}