{"id":3569,"date":"2025-04-10T14:59:51","date_gmt":"2025-04-10T17:59:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3569"},"modified":"2025-04-15T14:18:40","modified_gmt":"2025-04-15T17:18:40","slug":"para-tocar-no-luto-com-patas-e-petalas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/04\/10\/para-tocar-no-luto-com-patas-e-petalas\/","title":{"rendered":"Para tocar no luto com patas e p\u00e9talas"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Para tocar no luto com patas e p<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>talas<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por D<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>borah de Paula Souza<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<em>E, vejam bem, n\u00e3o \u00e9 que se possa esperar<br \/>\nda escrita um consolo para a tristeza<\/em>\u201d<br \/>\nNatalia Ginzburg<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma mulher, um amigo morto, um c\u00e3o: esses s\u00e3o os protagonistas do livro <em>O amigo<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><em>, <\/em>de Sigrid Nunez<em>. <\/em>Um romance desconcertante que, ao abordar o luto, faz uma poderosa reflex\u00e3o sobre a linguagem, a escrita, o amor e a amizade entre g\u00eaneros e esp\u00e9cies. Sem sentimentalismo e com humor inesperado. No Brasil, alguns conhecem essa autora novaiorquina do cinema. O filme <em>O quarto ao lado<\/em>, de Pedro Almod\u00f3var, que tamb\u00e9m aborda a morte, foi inspirado em outro livro dela.<\/p>\n<p>A escrita do luto \u00e9 um modo de process\u00e1-lo? De que maneira a morte subverte ou fertiliza as narrativas? Quem diz a morte e quem poderia escutar seus efeitos na carne viva? Emudecer ser\u00e1 o come\u00e7o de outro dizer, instigado pela fronteira entre vivos e mortos? Ser\u00e1 essa fronteira a respira\u00e7\u00e3o? Eu queria tocar no luto com p\u00e9talas.<\/p>\n<p>Encontrei no pequeno livro <em>O amigo<\/em>, de Sigrid Nunez (ed. Instante; 192 p\u00e1ginas), um amparo para o momento em que o passo falha e a gente cai. O enredo: o melhor amigo se mata e a narradora adota seu cachorro \u2013 Apolo, um enorme dog alem\u00e3o que n\u00e3o para de uivar desde que o dono morreu. A narradora \u00e9 uma mulher, o amigo suicida \u00e9 um homem que j\u00e1 passou da meia-idade, ambos escritores. O luto dela \u00e9 atravessado por muitas quest\u00f5es relativas \u00e0 escrita, ao mundo intelectual contempor\u00e2neo, com suas miragens de fama, gl\u00f3ria e outras situa\u00e7\u00f5es pat\u00e9ticas. O morto \u00e9 um mulherengo que n\u00e3o sabia ficar sozinho. Casou tr\u00eas vezes, teve um monte de namoradas e era um professor de literatura ador\u00e1vel, que conquistava colegas e alunas. Mas os tempos mudaram e as novas alunas fizeram um abaixo-assinado: n\u00e3o querem mais ser chamadas de \u201cqueridas\u201d, como ele estava habituado a cham\u00e1-las. Sua intelig\u00eancia ir\u00f4nica mant\u00e9m-se firme \u2013 com \u00f3timas tiradas sobre o papel de Eros na transmiss\u00e3o em sala de aula \u2013 mas ele sofre. N\u00e3o apenas com o envelhecimento, tamb\u00e9m com os clubes e pr\u00eamios liter\u00e1rios, a banaliza\u00e7\u00e3o dos livros, a leitura desatenta, os alunos que acham que escrever \u00e9 truque e que v\u00e3o ganhar dinheiro com romances divulgados na internet. As in\u00fameras cita\u00e7\u00f5es e divaga\u00e7\u00f5es de escritores famosos permeiam o texto, com hist\u00f3rias saborosas ou \u00e1cidas. Idem para as considera\u00e7\u00f5es a respeito da psican\u00e1lise, do masoquismo, da terapia de luto que a narradora faz a pedido de amigos que se preocupam com seu isolamento. Um aluno do curso de escrita pergunta \u00e0 professora se Freud existiu mesmo, ele n\u00e3o acredita.<\/p>\n<p>Na juventude, a narradora foi uma das colegas de faculdade apaixonada pelo escritor que se matou, chegaram a transar, foi ele quem interrompeu o flerte. A amizade que nasceu da\u00ed durou muito mais que os casamentos dele. Ela \u00e9 amiga da esposa 1; a esposa 2 era uma ciumenta obsessiva e, depois de sua morte, anuncia que escrever\u00e1 um livro sobre a rela\u00e7\u00e3o deles; a esposa 3 desconsidera o desprezo do morto por choradeira e ritos funer\u00e1rios e chama todos os amigos para a despedida final.<\/p>\n<p>O morto era ateu. N\u00e3o desacreditava s\u00f3 dos deuses, perdera a f\u00e9 no poder da fic\u00e7\u00e3o, na possibilidade da arte interferir no curso do mundo, ressentia-se dos livros tratados como objetos que deveriam satisfazer os clientes. Andava deprimido.<\/p>\n<p>Ele tinha parado de lecionar, h\u00e1 tempos n\u00e3o lan\u00e7ava um livro, mas parecia entusiasmado ao voltar a escrever e correr no parque. A narradora conta as \u00faltimas conversas que tiveram por e-mail. Falaram sobre as mulheres do Camboja, refugiadas de guerra que chegaram em massa na Calif\u00f3rnia, depois de passarem por uma s\u00e9rie atroz de abusos, estupros, viol\u00eancia e espolia\u00e7\u00e3o. Todas cegas. Os m\u00e9dicos n\u00e3o encontraram nada nos exames cl\u00ednicos para explicar essa cegueira. O motivo n\u00e3o estava no corpo: \u201cUma mulher, que nunca mais viu o marido e os tr\u00eas filhos, depois que os soldados os levaram, disse que havia perdido a vis\u00e3o ap\u00f3s ter chorado todos os dias durante quatro anos.\u201d<\/p>\n<p>O vi\u00e9s ps\u00edquico do luto se insinua o tempo todo, sempre com refer\u00eancias \u00e0s not\u00edcias do mundo, \u00e0 literatura, aos cursos de escrita criativa que s\u00e3o o ganha-p\u00e3o da narradora. \u00c9 com essas refer\u00eancias que ela atravessa a tempestade. Enrolando-se numa colcha de palavras que remetem \u00e0 dor e ao absurdo, sem nunca tocar na falta que o amigo lhe faz. Ela se recolhe, n\u00e3o quer falar dele com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>UMA DOR DO C\u00c3O<\/p>\n<p>A chegada do cachorro do amigo na casa da narradora inaugura outra fase. O que parece um enredo de com\u00e9dia \u2013 o dog alem\u00e3o pesa 80kg e o apartamento da narradora tem 50 metros, boa parte ocupada por estantes \u2013 vai tomando caminhos surpreendentes. Na verdade, ela espera um milagre. Sem misticismos, n\u00e3o aguarda a volta do amigo morto (esse desejo s\u00f3 escapa num sonho), apenas deseja n\u00e3o ser despejada do condom\u00ednio, que pro\u00edbe animais no pr\u00e9dio. Os amigos est\u00e3o preocupados e ao mesmo tempo fogem dela: temem que surja de repente com uma mala e aquele cachorro imenso na porta deles. Mas como ela foi pegar um cachorro numa hora dessas? Ela n\u00e3o queria. A esposa 3 a convocou \u2013 h\u00e1 tempos o marido achara o cachorro no parque, abandonado, levou-o para a casa contra a vontade da mulher. Quando seu dono morreu, o cachorro continuou esperando por ele na porta de casa. Apolo, esse era o nome do cachorro, passava a madrugada uivando. Ningu\u00e9m dormia.<\/p>\n<p>Os vizinhos n\u00e3o suportaram, nem a vi\u00fava, por isso colocou o bicho num canil. No entanto, uns dias antes de se matar, o marido fez a esposa saber que a amiga morava sozinha e gostava de animais. A vi\u00fava tenta atenuar a situa\u00e7\u00e3o dizendo que o c\u00e3o \u00e9 velho, essa ra\u00e7a n\u00e3o vive muito tempo. A amiga recusa, por\u00e9m, identificada com a dor do c\u00e3o, n\u00e3o consegue imaginar o bicho uivando no canil e acaba levando-o para casa, mesmo correndo risco de um despejo. \u201cVoc\u00ea precisa esquec\u00ea-lo e se apaixonar por mim\u201d, diz ela ao c\u00e3o. Apolo para de uivar, eles se entendem. Mas ela est\u00e1 louca.<\/p>\n<p>TEMPO DE N\u00c9VOA<\/p>\n<p>Esquecer compromissos e perder a hora s\u00e3o apenas alguns registros compreens\u00edveis da n\u00e9voa que o luto produz. N\u00e3o se v\u00ea mais o sol, mesmo que seja necess\u00e1rio passear na rua todos os dias, o c\u00e3o exige.<\/p>\n<p>Como dizer do imposs\u00edvel de morrer? E do imposs\u00edvel de sobreviver aos mortos? E um suic\u00eddio sem bilhete de despedida? Com raz\u00e3o n\u00e3o se diz nada, o registro da perda \u00e9 outro. A supress\u00e3o do sentido d\u00e1 pistas nessa escrita de nuvem. O p\u00e9 na loucura, a falta de ch\u00e3o. Em alguns momentos, o leitor se perde, eu me perdi, voltei as p\u00e1ginas: Onde ela est\u00e1? Onde voc\u00ea est\u00e1? Onde eu estou?<\/p>\n<p>\u201cA poeta est\u00e1 falando de amor ou da morte?\u201d A velha senhora com sua foice \u00e9 perita em embaralhar narrativas. Os protagonistas s\u00e3o escritores desconfiados da fic\u00e7\u00e3o. Para que inventar a dor, se ela j\u00e1 est\u00e1 gritando no mundo? Quem tem o direito ou o talento para contar a hist\u00f3ria do outro? S\u00e3o muitos rios que cruzam <em>O amigo<\/em>.\u00a0 Eis as\u00a0 palavras que a narradora recolhe da sua terapia de luto: \u201cDeixar de sentir a falta dele n\u00e3o me faria feliz\u201d. Outra vertente da escrita \u00e9 se ela tem fun\u00e7\u00e3o de auto-ajuda, de cura, essas coisas que o amigo escritor debocha e deplora.<\/p>\n<p>A narradora trabalha com uma amiga psic\u00f3loga que atende mulheres v\u00edtimas de tr\u00e1fico humano e s\u00e3o convidadas a fazer di\u00e1rios. Algumas recusam, outras escrevem e escondem; outras mostram. A psic\u00f3loga escreve um livro sobre essas experi\u00eancias brutais. Ganha um pr\u00eamio liter\u00e1rio importante, tem um bloqueio criativo,\u00a0 estuda a teoria do desapego do budismo e decide nunca mais publicar nada. \u00c9 preciso escarafunchar o que \u00e9 a ambi\u00e7\u00e3o de um escritor para saber de sua vida e sua morte. Carreira liter\u00e1ria e desapego s\u00e3o inconcili\u00e1veis. Essa amiga psic\u00f3loga ainda escreve poemas que \u201cfuncionam para rezar\u201d.<\/p>\n<p>O rio fabuloso dos bichos cruza a narrativa, com palavras permitidas apenas \u00e0s crian\u00e7as e aos animais, como \u201cinoc\u00eancia\u201d ou \u201ccompaix\u00e3o\u201d. Uivar de dor s\u00f3 bichos e crian\u00e7as podem. E quem n\u00e3o \u00e9 bicho e crian\u00e7a no fim? Que grande medo despertar vergonha ou pena, ainda mais na Nova York do s\u00e9culo 21, ainda mais na hora da morte. \u201cAcredito que a intensidade da compaix\u00e3o que uma pessoa sente por um animal tem a ver como isso suscita pena de si mesma\u201d. A narradora ultrapassa ou dan\u00e7a na n\u00e9voa? Ela cr\u00ea na mem\u00f3ria da inf\u00e2ncia, \u201c\u00e9poca em que \u00e9ramos t\u00e3o animais quanto humanos, os sentimentos avassaladores de desamparo (&#8230;) e o anseio pela prote\u00e7\u00e3o que nossos instintos nos diziam que estava l\u00e1, desde que chor\u00e1ssemos bem alto\u201d.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o quer ser sentimental se det\u00e9m na composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica das l\u00e1grimas. Mas a narradora enlutada sabe que os filmes populares fazem chorar. No folclore e nas f\u00e1bulas, ela sublinha, as l\u00e1grimas, o s\u00eamen e o sangue podem ter propriedades m\u00e1gicas, curar, restituir a vis\u00e3o a quem um dia foi cegado pela dor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Poeta, psicanalista e membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, colaboradora deste boletim <span style=\"color: #990000;\">on<\/span>line.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>O amigo<\/em> foi vencedor do <em>National Book Award <\/em>de 2018, considerado o melhor livro de fic\u00e7\u00e3o daquele ano. A obra foi adaptada para o cinema em 2024, com os atores Naomi Watts e Bill Murray. Tem foto do dog alem\u00e3o na internet. Este foi o primeiro livro de Sigrid Nunez publicado no Brasil, em 2019. Entre outras obras, ela tamb\u00e9m \u00e9 autora de <em>O que voc<\/em><em>\u00ea <\/em><em>est<\/em><em>\u00e1 <\/em><em>enfrentando, <\/em>que inspirou o filme de\u00a0 Pedro Almod\u00f3var.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre o nevoeiro entre o luto e a escrita, Deborah de Paula Souza aborda desconcertante romance de Sigrid Nunez.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[81],"tags":[83,88],"edicao":[301],"autor":[139],"class_list":["post-3569","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leitura","tag-leituras","tag-literatura","edicao-boletim-74","autor-deborah-de-paula-souza","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3569"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3569\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3659,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3569\/revisions\/3659"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3569"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3569"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}