{"id":3579,"date":"2025-04-10T17:14:10","date_gmt":"2025-04-10T20:14:10","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3579"},"modified":"2025-04-11T11:51:37","modified_gmt":"2025-04-11T14:51:37","slug":"grupo-de-trabalho-psicanalise-de-grupo-entre-o-singular-e-o-plural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/04\/10\/grupo-de-trabalho-psicanalise-de-grupo-entre-o-singular-e-o-plural\/","title":{"rendered":"Grupo de trabalho Psican\u00e1lise de grupo: entre o singular e o plural"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Grupo de Trabalho <\/strong><strong><em>Psican<\/em><\/strong><strong><em>\u00e1lise de Grupo<\/em><\/strong><strong>: entre o singular e o plural <\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <\/strong><strong>Juliana Farah<\/strong><strong>, Adriana Novais, <\/strong><strong>Camila Hachul<\/strong><strong>, Julia Concei\u00e7\u00e3o, <\/strong><strong>Ligia Ungaretti<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Come\u00e7o este texto no singular, ainda que sabendo ser isso uma ilus\u00e3o, j\u00e1 que a singularidade \u00e9 marcada pela pluralidade de rela\u00e7\u00f5es que estabelecemos ao longo da vida. N\u00e3o \u00e9 demais lembrar que desde nosso nascimento estamos inseridos em um grupo e que duplas, sejam elas m\u00e3e-beb\u00ea, casal ou analista-analisando, tamb\u00e9m s\u00e3o pequenos grupos. Escrevo escutando a polifonia de vozes do Grupo de trabalho <em>Psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise de <\/em><em>grupo: t<\/em><em>eoria e <\/em><em>pr\u00e1<\/em><em>tica<\/em>, tentando delimitar o que \u00e9 meu, singular; o que \u00e9 fruto do trabalho deste grupo, efeito transformador do <em>aparelho ps\u00ed<\/em><em>quico <\/em><em>grupal<\/em>; e o que \u00e9 heran\u00e7a, transmiss\u00e3o ps\u00edquica transgeracional.<\/p>\n<p>Em outubro de 2023, Ligia Ungaretti, psicanalista em forma\u00e7\u00e3o pelo Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, me escreveu a seguinte mensagem: \u201cvoc\u00ea pretende recome\u00e7ar o grupo do Sedes em algum momento?\u201d. Na hora, n\u00e3o entendi a que grupo ela se referia, sobretudo pelo termo \u201crecome\u00e7ar\u201d. Ela havia visto no <em>site <\/em>do Departamento que o grupo de trabalho e pesquisa <em>Din<\/em><em>\u00e2micas grupais e institucionais<\/em> estava inativo. O grupo em quest\u00e3o, do qual fiz parte entre 2016 e 2019, havia encerrado suas atividades em 2020, quando Paulo Jeronymo Pessoa de Carvalho, ent\u00e3o interlocutor, se deparou com um esvaziamento do grupo diante da migra\u00e7\u00e3o dos encontros para as telas, for\u00e7ada pela pandemia da Covid-19. Curioso pensar que o grupo se encerra justamente em um momento no qual h\u00e1 um crescimento significativo da demanda por trabalhos em grupo: rodas de conversas, grupos reflexivos, psicoterapias em grupo, grupos de elabora\u00e7\u00e3o, de apoio e operativos. Podemos pensar que o esvaziamento daquele GT revela uma problem\u00e1tica antiga, um descompasso entre o n\u00famero de psicanalistas fazendo grupos, coordenando dispositivos, propondo e sustentando pr\u00e1ticas cl\u00ednicas com grupos e os espa\u00e7os de reflex\u00e3o psicanal\u00edtica sobre grupos, sobretudo dentro das institui\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o formulada, ali\u00e1s, pelo pr\u00f3prio GT em artigo da Percurso de 2010:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Apesar de muitos dos praticantes, coordenadores desses dispositivos, serem psicanalistas e usarem elementos psicanal\u00edticos na instaura\u00e7\u00e3o e desenvolvimento dessas pr\u00e1ticas, o que se observa \u00e9 uma aus\u00eancia de reflex\u00e3o sobre elas, especialmente reflex\u00e3o psicanal\u00edtica. Por que isso tem se dado? Quais s\u00e3o os v\u00e9rtices dessa aus\u00eancia? A que isso responde? (Silveira e Carvalho, 2010)<\/p>\n<p>De todo modo, a sustenta\u00e7\u00e3o desse grupo durante 16 anos (2004-2020) no interior do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae revela, em primeiro lugar, a abertura e a contin\u00eancia desta institui\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o do grupo. Em segundo lugar, revela a persist\u00eancia de um pequeno n\u00famero de psicanalistas desta institui\u00e7\u00e3o, psicanalistas estes que encamparam a produ\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de reflex\u00e3o sobre a teoria e a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica com grupos, incluindo col\u00f3quios internos e desdobramentos para al\u00e9m da institui\u00e7\u00e3o, como disserta\u00e7\u00f5es de mestrado, doutorado e publica\u00e7\u00f5es de livros e artigos, que, se n\u00e3o foram produtos diretos do GT, sem d\u00favida s\u00e3o dele tribut\u00e1rios<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Voltemos a 2023, quando a aus\u00eancia deste espa\u00e7o foi sentida por uma aluna do Curso de Psican\u00e1lise, que me conhecia por conta de um curso que dou sobre o trabalho psicanal\u00edtico com grupos em outra institui\u00e7\u00e3o, ou seja, mobilizada pela quest\u00e3o do grupo desde fora do Departamento, mas com desejo de traz\u00ea-la novamente para dentro. Assim como Ligia, uma outra ex-aluna se interessou por essa possibilidade e juntou-se a n\u00f3s, Camila Hachul.<\/p>\n<p>Aqui, o relato singular passa a ser plural: o <em>eu<\/em> do in\u00edcio do texto d\u00e1 espa\u00e7o a um <em>n<\/em><em>\u00f3<\/em><em>s<\/em>, mas um <em>n<\/em><em>\u00f3<\/em><em>s<\/em> que mant\u00e9m espa\u00e7o para as singularidades. N\u00f3s, movidas por quest\u00f5es similares \u00e0s que o antigo grupo trabalhava, mas tamb\u00e9m com novas inquieta\u00e7\u00f5es, decidimos fundar o grupo de trabalho <em>Psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise de <\/em><em>grupo: t<\/em><em>eoria e <\/em><em>pr\u00e1<\/em><em>tica<\/em>. Para a funda\u00e7\u00e3o do grupo, Camila e Ligia tornaram-se aspirantes a membro do Departamento, para que n\u00e3o f\u00f4ssemos um grupo com maioria de externos. O grupo hoje \u00e9 composto por, al\u00e9m de n\u00f3s tr\u00eas, Adriana Novais, Julia Concei\u00e7\u00e3o, Suzana Pastori e Mariana Victorino. Somente uma de n\u00f3s \u00e9 membro do Departamento, uma \u00e9 externa e as outras tornaram-se aspirantes a membro no processo de entrada para o grupo.<\/p>\n<p>Neste um ano de exist\u00eancia, apenas um membro do Departamento demonstrou interesse em participar do GT, enquanto pessoas externas ao Departamento t\u00eam continuamente nos contactado buscando um espa\u00e7o de interlocu\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es relativas \u00e0 psican\u00e1lise de grupo. Dentre as inquieta\u00e7\u00f5es que mobilizam nossas pesquisas e reflex\u00f5es, est\u00e1 a baixa ades\u00e3o de membros do Departamento, trazendo \u00e0 tona uma problem\u00e1tica antiga, nomeada por Ka\u00ebs, que diz respeito \u00e0 ideia de que o grupo funciona como matriz fecunda e traum\u00e1tica da inven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, tendo como principal efeito uma resist\u00eancia epist\u00eamica dos psicanalistas sobre o objeto grupo (Ka\u00ebs 1997, p. 25).<\/p>\n<p>Ora, reconhecer, validar e incluir o grupo como objeto da psican\u00e1lise demanda, a um s\u00f3 tempo, coragem de colocar em trabalho alian\u00e7as inconscientes historicamente constitu\u00eddas na psican\u00e1lise e disposi\u00e7\u00e3o para rever aspectos da metapsicologia freudiana. N\u00f3s nos situamos neste projeto: juntas estamos lendo textos fundamentais de Ren\u00e9 Ka\u00ebs, preocupadas com as alian\u00e7as inconscientes e os pactos denegativos da psican\u00e1lise em suas intersec\u00e7\u00f5es com a sociedade, sobretudo no que diz respeito \u00e0 ra\u00e7a, g\u00eanero e classe. Adotando a metapsicologia proposta por Ka\u00ebs, na qual o sujeito do inconsciente \u00e9 tamb\u00e9m sujeito do v\u00ednculo e onde importa sobremaneira a articula\u00e7\u00e3o entre intraps\u00edquico e intersubjetividade, estamos o tempo todo pondo em quest\u00e3o o que concerne ao sujeito em sua singularidade, o que concerne ao grupo e o que concerne aos processos, forma\u00e7\u00f5es e pessoas que constituem v\u00ednculo entre o grupo e os membros do grupo (Ka\u00ebs 2001, p. 28).<\/p>\n<p>Tal perspectiva nos parece pertinente quando observamos que os dilemas atuais da humanidade nos imp\u00f5em a tarefa de refletir e confrontar as m\u00faltiplas crises que nos atravessam. Nos convocam a nos reinventar enquanto coletividade humana, a olhar e pensar sobre os v\u00ednculos que foram estabelecidos at\u00e9 este momento hist\u00f3rico; e, sobretudo, nos interrogam sobre quais os la\u00e7os necess\u00e1rios a serem forjados para enfrentar tais crises, para ent\u00e3o projetar e garantir um futuro comum.<\/p>\n<p>Nosso grupo de trabalho atualmente est\u00e1 lendo o livro <em>Um singular plural, a psican\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>\u00e0 prova do grupo<\/em>, de Ren\u00e9 Ka\u00ebs, intercalando com discuss\u00f5es cl\u00ednicas, pensando a pertin\u00eancia do dispositivo grupal nos tratamentos psicanal\u00edticos na contemporaneidade e refletindo sobre diferen\u00e7as e semelhan\u00e7as nos trabalhos que j\u00e1 est\u00e3o sendo feitos pelos psicanalistas no \u00e2mbito p\u00fablico e privado. Nosso plano \u00e9 seguir nessa linha de pesquisa e atualizar nosso foco de trabalho a partir das demandas do pr\u00f3prio GT, sempre tendo o dispositivo psicanal\u00edtico de grupo como principal objeto de estudo, em suas v\u00e1rias configura\u00e7\u00f5es &#8211; grupo homog\u00eaneo, heterog\u00eaneo, fam\u00edlia, casal, entre outros.<\/p>\n<p>O grupo de trabalho tem se mostrado uma inst\u00e2ncia privilegiada, que abarca muito de nossas reflex\u00f5es e pensamentos do cotidiano psicanal\u00edtico, pois \u00e9 em grupo tamb\u00e9m que se formam analistas e onde \u00e9 poss\u00edvel construir, coletivamente, teorias psicanal\u00edticas. Nesse sentido, temos vivido um ambiente onde \u00e9 poss\u00edvel articular a psican\u00e1lise com os processos sociopol\u00edticos, possibilitando tratarmos com menos amarras a diversidade e a necessidade de uma psican\u00e1lise mais inclusiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n<p>KA\u00cbS, R. <em>O grupo e o sujeito do grupo.<\/em> S\u00e3o Paulo: Casa do Psic\u00f3logo, 1997.<br \/>\nKA\u00cbS, R. <em>Um singular plural<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2001.<br \/>\nSILVEIRA, F. e CARVALHO, P. J. P. A experi\u00eancia cl\u00ednica grupal e o modelo psicanal\u00edtico. <em>Percurso<\/em>, pp. 117-124, 2010.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalistas, integrante do grupo de trabalho Psican\u00e1lise de grupo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Muitos s\u00e3o os exemplos, mas incluo aqui alguns cap\u00edtulos do livro <em>A subjetividade nos grupos e institui\u00e7\u00f5es: Constitui\u00e7\u00e3<\/em><em>o, <\/em><em>media\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a<\/em>, organizado por Cristiane Abud (2015); o doutorado de Fernando da Silveira (2016), Ouro, cobre e chumbo: A psican\u00e1lise, o grupo e o movimento anal\u00edtico brasileiro em tempos de ditadura;\u00a0 minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, Farah, J. (2019), Emagrecer \u00e9 uma barra (de chocolate): a psican\u00e1lise de grupo no tratamento de pacientes com queixas em rela\u00e7\u00e3o a sobrepeso e obesidade; entre outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a esse novo GT, aberto a interessados em estudar e pesquisar essa tem\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[141],"tags":[268],"edicao":[301],"autor":[303,304,305,302,280],"class_list":["post-3579","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento-2","tag-formacao-continua","edicao-boletim-74","autor-adriana-novais","autor-camila-hachul","autor-julia-conceicao","autor-juliana-farah","autor-ligia-ungaretti-jesus","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3579"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3579\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3602,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3579\/revisions\/3602"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3579"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3579"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}