{"id":3592,"date":"2025-04-11T10:14:29","date_gmt":"2025-04-11T13:14:29","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3592"},"modified":"2025-04-11T10:14:29","modified_gmt":"2025-04-11T13:14:29","slug":"abstinencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/04\/11\/abstinencia\/","title":{"rendered":"Abstin\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Abstin<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncia<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Maria Sigal<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>O sentido da pol<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>a liberdade.<br \/>\n<\/em>Hannah Arendt<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Regra de abstin<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia: abstin<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia de desejar pelo outro sim, nunca abstin<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia de assumir as responsabilidades como sujeitos da hist<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sigmund Freud aconselha a abstin\u00eancia como ferramenta valiosa para acompanhar a aten\u00e7\u00e3o flutuante e ser capaz de instituir uma escuta que nos permita aproximarmo-nos dos pensamentos inconscientes. O que fizeram alguns psicanalistas com esse princ\u00edpio enunciado por Freud?<\/p>\n<p>No verbete do <em>Vocabul<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rio da Psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise<\/em> de Jean Laplanche (1987, p. 1), abstin\u00eancia \u00e9 um princ\u00edpio ou uma regra da pr\u00e1tica anal\u00edtica segundo a qual o tratamento anal\u00edtico deve ser conduzido de modo tal que o paciente encontre o menos poss\u00edvel de satisfa\u00e7\u00f5es substitutivas para seus sintomas. Para o analista, implica o preceito de se recusar a satisfazer os pedidos do paciente e a preencher efetivamente os pap\u00e9is que este tende a lhe impor. Em certos casos e em certos momentos do tratamento, a regra da abstin\u00eancia pode constituir-se em indica\u00e7\u00f5es relativas a comportamentos repetitivos que dificultam o trabalho de rememora\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos acrescentar que \u00e9 importante n\u00e3o s\u00f3 nos abstermos de satisfazer o paciente, mas tamb\u00e9m de desejar pelo outro: diferenciar o desejo pr\u00f3prio daquilo que o paciente p\u00f5e em jogo na transfer\u00eancia como forma de encontrar os caminhos de sua subjetividade. A desejar por ele j\u00e1 estiveram seus pais ou aqueles que, \u00e0 sua volta, foram objetos de seu desejo na inf\u00e2ncia, aqueles cuja moeda era o amor e a aprova\u00e7\u00e3o e que se reatualizam hoje na transfer\u00eancia. Referimo-nos \u00e0queles que s\u00e3o o motor de sua sexualidade infantil. Hoje, na repeti\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos nos atribuir esse lugar.<\/p>\n<p>Em artigo de 1915, Freud (1975b, p. 168) aborda essa quest\u00e3o e diz: \u201cquero propor a regra de que \u00e9 preciso manter nos doentes necessidades e aspira\u00e7\u00f5es, como formas que impelem para o trabalho e para a mudan\u00e7a, e evitar cal\u00e1-las com suced\u00e2neos\u201d.<\/p>\n<p>E o que esses conceitos de neutralidade e abstin\u00eancia teriam a ver com o psicanalista politicamente neutro, que n\u00e3o pode se expressar frente \u00e0s ocorr\u00eancias de seu tempo?<\/p>\n<p>Parece que muitos psicanalistas, apoiados num conceito que nos oferece a psican\u00e1lise, o transmutaram e inventaram uma f\u00f3rmula c\u00f4moda para se manter alheios \u00e0 realidade e fazer do tratamento uma forma de se desresponsabilizar e n\u00e3o assumir seu lugar cidad\u00e3o, evadir-se das lutas e esconder-se atr\u00e1s de uma neutralidade que n\u00e3o faz bem nem aos pacientes, nem a si mesmos. Entenderam por abstin\u00eancia a abstin\u00eancia de viver, de participar, de ter opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Parece que psicanalistas n\u00e3o t\u00eam time de futebol, n\u00e3o escrevem nos jornais posicionando-se frente aos fatos que lhes atingem, n\u00e3o assinam peti\u00e7\u00f5es ou manifestos, n\u00e3o podem assumir suas escolhas sexuais livremente. Precisam vestir terno preto com risca de giz \u2013como se diz que ensinava Meltzer\u2013 para evitar que o paciente possa reconhecer nossas diferen\u00e7as e assim influenciar a proje\u00e7\u00e3o? Segundo esta concep\u00e7\u00e3o, o psicanalista deve se apresentar como tela em branco para permitir que o paciente fantasie. Houve uma \u00e9poca em que se pretendia atribuir ao psicanalista uma imagem m\u00edtica, que apenas emergia na penumbra do consult\u00f3rio, afastada da realidade e do contato com o paciente. De que psican\u00e1lise estamos falando? Freud atendia em sua casa, seus pacientes cruzavam com suas filhas, conheciam seu ambiente e, como nos conta no <em>Homem dos Ratos <\/em>(1975a, p. 157), o paciente associa com uma jovem que encontra nas escadas de sua casa, e traz uma presen\u00e7a de algo do mundo de Freud que o transforma em sua realidade imagin\u00e1ria. A vida de Freud continua, e o paciente faz com essa evid\u00eancia o que deseja. Analisava seus pr\u00f3prios disc\u00edpulos, com os quais <em>a posteriori<\/em> mantinha encontros cient\u00edficos, brigas institucionais e discuss\u00f5es t\u00e9cnicas. Se a psican\u00e1lise tem uma marca, \u00e9 a singularidade de trabalhar em transfer\u00eancia a neurose cl\u00ednica, abordando o inconsciente. N\u00e3o se pode confundir o lugar do analista na sess\u00e3o, na qual se sustentam as atribui\u00e7\u00f5es de suposto saber, com o homem, o sujeito que tem um lugar no espa\u00e7o social.<\/p>\n<p>Por sermos psicanalistas, temos que deixar que a hist\u00f3ria nos passe por cima? Nossas declara\u00e7\u00f5es, nossas apari\u00e7\u00f5es ser\u00e3o sempre vistas pelo paciente segundo sua forma de nos ver na transfer\u00eancia. Essas posi\u00e7\u00f5es do psicanalista como homem p\u00fablico se enunciam em um espa\u00e7o diferente do da condu\u00e7\u00e3o da cura.<\/p>\n<p>Em que, como psicanalistas, estamos afetados pelo mundo que nos circunda?<\/p>\n<p>Nestes sombrios tempos, nos quais testemunhamos atrocidades que jamais pensamos que poderiam ser o foco da condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, em tempos de horror em que se fazem tentativas de desmontar universidades e planos de\u00a0 pesquisas, nos quais o ensinar a pensar atrav\u00e9s da filosofia, da sociologia e da arte resulta amea\u00e7ador porque \u00e9 necess\u00e1rio que n\u00e3o se estimulem as mentes cr\u00edticas, em momentos nos quais se pode defender a propriedade privada a bala e todo mundo pode estar armado e transportar armas, em que as diferen\u00e7as e as escolhas sexuais t\u00eam que ser reguladas, nos perguntamos: O que os psicanalistas dever\u00edamos fazer: <em>Abstermo-nos<\/em>?<\/p>\n<p>Vivemos, no nosso pa\u00eds e no mundo, um momento de retorno ao passado, que tenta abolir e renegar todos os processos que nos proporcionaram um avan\u00e7o na hist\u00f3ria, tanto no aspecto moral quanto no econ\u00f4mico. Frente ao estado de desamparo em que chegamos ao mundo, estado que se reatualiza nos momentos de crises, as religi\u00f5es avan\u00e7am oferecendo a salva\u00e7\u00e3o e a certeza de um mundo seguro e mais garantido, utilizando-se da sugest\u00e3o para marcar os horizontes. Temos que compactuar com isto?<\/p>\n<p>Da mesma maneira, t\u00eam se ressuscitado, no nosso pa\u00eds, legisla\u00e7\u00f5es contra as quais lutamos h\u00e1 anos, luta que se imp\u00f4s a partir do triunfo da antipsiquiatria e atrav\u00e9s da qual foi poss\u00edvel humanizar a loucura. Agora, por interm\u00e9dio de uma nota t\u00e9cnica 11\/2019 divulgada pelo Minist\u00e9rio de Sa\u00fade no m\u00eas de fevereiro de 2019, e que abrange uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as, se abandonam os princ\u00edpios legais e assistenciais das v\u00e1rias estrat\u00e9gias de assist\u00eancia psicossocial consolidadas pela Reforma Psiqui\u00e1trica Brasileira, com riscos s\u00e9rios de retrocesso das pol\u00edticas de Sa\u00fade Mental no pa\u00eds. Entre outras determina\u00e7\u00f5es se pretende impor a interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria de usu\u00e1rios de drogas e moradores de rua, retornando \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o dos manic\u00f4mios. Esse golpe mortal nas conquistas conseguidas tamb\u00e9m vai na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria das recomenda\u00e7\u00f5es de entidades internacionais como a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS). A psican\u00e1lise est\u00e1 intimamente ligada a esta lutas, pois prop\u00f5e uma conduta n\u00e3o higienista diante dos conflitos ps\u00edquicos, entre eles os que se expressam atrav\u00e9s da drogadic\u00e7\u00e3o. Freud nos ensinou que, no futuro, a psican\u00e1lise tamb\u00e9m avan\u00e7aria a novos horizontes e ela realmente tem se compromissado com a sa\u00fade p\u00fablica, a loucura e novas formas de atendimento.<\/p>\n<p>Por que est\u00e3o sofrendo tantos retrocessos muitas de nossas investiga\u00e7\u00f5es sobre a sexualidade, sobre a depress\u00e3o, sobre a psicopatologia que se debru\u00e7a sobre a ang\u00fastia crucial do sujeito, sobre a possibilidade de a psican\u00e1lise atuar numa cl\u00ednica que n\u00e3o se restrinja ao consult\u00f3rio privado, abrindo suas asas para a Sa\u00fade Mental no \u00e2mbito da sa\u00fade p\u00fablica?<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o deixa d\u00favidas: \u00e9 porque essas medidas est\u00e3o inseridas numa pol\u00edtica mais ampla que vem dominando o mundo nos \u00faltimos anos. H\u00e1 uma tend\u00eancia a revitalizar o fascismo, o antissemitismo, o racismo, a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s diferen\u00e7as de g\u00eanero, e h\u00e1 retrocessos econ\u00f4micos que afetam as popula\u00e7\u00f5es mais necessitadas. Entendemos por revitalizar <em>des-recalcar<\/em> problemas que n\u00e3o foram resolvidos verdadeiramente, e sim recalcados, atuando sempre como modalidades do inconsciente individual e social. O <em>politicamente correto<\/em> foi uma f\u00f3rmula que serviu para mascarar os verdadeiros conflitos. As pol\u00edticas ditatoriais, permissivas com essas condutas delet\u00e9rias, afrouxam o recalque, e cada um se sente no direito de manifestar seus ataques. Cresce a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O processo psicanal\u00edtico deveria estar em oposi\u00e7\u00e3o radical aos atos totalit\u00e1rios, uma vez que pretende facultar ao sujeito a obten\u00e7\u00e3o de uma liberdade interna para questionar, e n\u00e3o para se submeter cegamente. Um esp\u00edrito livre n\u00e3o pode passar sobre os acontecimentos e os indiv\u00edduos com um olhar indiferente. N\u00e3o podemos aceitar o vale-tudo; pelo contr\u00e1rio, a \u00e9tica visa \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o entre puls\u00f5es e exig\u00eancias \u00e9tica e est\u00e9ticas.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise nos confronta com um homem que \u00e9 constitu\u00eddo na sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, na hist\u00f3ria individual e coletiva a que pertence. N\u00e3o a hist\u00f3ria como passado, mas como um passado historicizado no presente, a hist\u00f3ria como entrecruzamento de itiner\u00e1rios poss\u00edveis. A hist\u00f3ria vista desse modo n\u00e3o manifesta um destino ao qual somos alheios. Podemos nos apropriar do recalcado, do desconhecido, podemos dar outros sentidos a nossos atos, podemos construir novas narrativas, podemos lutar para mudar a hist\u00f3ria, podemos nos comprometer de uma forma implicada com o mundo que nos rodeia.<\/p>\n<p>Assim, a psican\u00e1lise aparece como um saber que desaliena, \u00e9 uma forma de interven\u00e7\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica. Pela forma em que nosso saber opera, acaba eventualmente se tornando amea\u00e7ador, ao propor que o sujeito seja mais regido pelo desejo do que pelo terror e pelo submetimento. Esta ideia tem acarretado duros golpes para a psican\u00e1lise, j\u00e1 que tem sido banida e perseguida por todos os pensamentos autorit\u00e1rios que desejam submeter os sujeitos a suas normas r\u00edgidas e morais pr\u00f3prias. Foi um saber banido por todas as sociedades intolerantes que prop\u00f5em a exclus\u00e3o e morte das minorias.<\/p>\n<p>Os psicanalistas alem\u00e3es tiveram que fugir de seu pa\u00eds porque o nazismo os perseguiu. A psican\u00e1lise foi um saber condenado pelos pensamentos fascistas, banido pelas diversas ditaduras de direita e de esquerda, e questionado ultimamente pelas ideologias neoliberais que, com o <em>mainstream<\/em> da psiquiatria, propiciam as terapias cognitivistas e de resultados dirigidos, com proposta de metas a serem alcan\u00e7adas, tentando abolir o conflito e renegar a infelicidade social. Tamb\u00e9m \u00e9 atacada pelas ideologias moralistas e religiosas, que veem nela uma amea\u00e7a. Estas apresentam a psican\u00e1lise como uma ci\u00eancia que subverte os valores da fam\u00edlia e da religi\u00e3o, o que induziria o sujeito a condutas perversas.<\/p>\n<p>No seio da psican\u00e1lise, a pol\u00edtica foi um elemento fundante, seja na forma das pol\u00edticas cient\u00edficas presentes nas lutas te\u00f3ricas das quais os psicanalistas n\u00e3o se omitiram, seja atrav\u00e9s das lutas pol\u00edticas institucionais das quais fomos e somos testemunhas e das quais nos chegam incessantes not\u00edcias que respondem \u00e0s divis\u00f5es que se imp\u00f5em no campo psicanal\u00edtico. Os analistas em forma\u00e7\u00e3o participavam e compartilhavam, nas institui\u00e7\u00f5es, com seus analistas, momentos graves de tens\u00e3o e diferen\u00e7a. Nunca se entendeu isto como algo que impossibilitava uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os psicanalistas tiveram participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em processos dolorosos de omiss\u00f5es que deixaram rastros na hist\u00f3ria da psican\u00e1lise e da psican\u00e1lise no Brasil. Omitir-se \u00e9 uma forma de participar politicamente.<\/p>\n<p><strong>Testemunhos da hist<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>ria<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, tristes hist\u00f3rias pol\u00edticas mostram encruzilhadas tr\u00e1gicas da psican\u00e1lise e suas institui\u00e7\u00f5es, como \u00e9 o caso de Helena Besserman Vianna (1994), perseguida implacavelmente pela Sociedade \u00e0 qual pertencia, por querer desvendar a verdade sobre membros que colaboraram com a tortura. N\u00e3o era conveniente na \u00e9poca fazer oposi\u00e7\u00e3o ao regime, denunciando membros coniventes com a ditadura militar, isto poderia trazer problemas tanto para a institui\u00e7\u00e3o quanto para os membros que dela formavam parte. Era mais operativo, como defesa, recusar a realidade, assim como a crian\u00e7a desmente a castra\u00e7\u00e3o: <em>Vejo, mas n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o acredito no que minha vis<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o me mostra<\/em>. Este era o lema: <em>N<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o h<\/em><em>\u00e1 <\/em><em>mortos nem desaparecidos, n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o h<\/em><em>\u00e1 <\/em><em>tortura, n<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>disto que n<\/em><em>\u00f3<\/em><em>s,\u00a0 psicanalistas, devemos nos ocupar.<\/em><\/p>\n<p>No pr\u00f3logo ao livro de Besserman Vianna (1994, p. 9), Ricardo Horacio Etchegoyen, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Argentina em 1993, faz refer\u00eancia ao entrecruzamento entre a pol\u00edtica das sociedades psicanal\u00edticas e a pol\u00edtica da ditadura. A Dra. Besserman denuncia Am\u00edlcar Lobo, um candidato da SPRJ, como membro da equipe de tortura do 1\u00ba Batalh\u00e3o do Ex\u00e9rcito durante a \u00e9poca mais feroz da ditadura (de 1974 a 1979, no governo Garrastazu M\u00e9dici), assim como denuncia seu analista didata, Le\u00e3o Cabernite, na \u00e9poca presidente da Sociedade Psicanal\u00edtica do Rio de Janeiro. Este \u00faltimo, supostamente para proteger a psican\u00e1lise, defende Lobo contra todas as\u00a0 evid\u00eancias. Am\u00edlcar Lobo, enquanto analista, utilizava seu saber a favor da viol\u00eancia, presenciando as sess\u00f5es de tortura e regulando os processos que podiam manter a v\u00edtima com vida. Le\u00e3o Cabernite, seu analista didata, sabia sem d\u00favida sobre os horrores cometidos e, em nome do sigilo terap\u00eautico, foi conivente com esta situa\u00e7\u00e3o. Dessa vez, a hist\u00f3ria fez justi\u00e7a a Helena Vianna que, ainda em vida, pode assistir \u00e0 retrata\u00e7\u00e3o de seu nome, enquanto seus dois perseguidores, coniventes com a ditadura militar, eram denunciados e expulsos da SPRJ.<\/p>\n<p>Para lembrar outro ato que desmascara a rela\u00e7\u00e3o entre posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e atua\u00e7\u00e3o no campo psicanal\u00edtico e sua implica\u00e7\u00e3o institucional, temos que recordar a expuls\u00e3o de dois destacados psicanalistas, H\u00e9lio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas, banidos da institui\u00e7\u00e3o por exporem publicamente suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. A partir de uma apresenta\u00e7\u00e3o realizada por H\u00e9lio Pellegrino durante o semin\u00e1rio \u201cA psican\u00e1lise e sua inser\u00e7\u00e3o no modelo capitalista&#8221;, no audit\u00f3rio da PUC-Rio (1980) se deflagrou a crise que esses dois analistas tiveram com a Sociedade de Psican\u00e1lise de Rio de Janeiro, motivada pela den\u00fancia do apoliticismo da institui\u00e7\u00e3o e pelo fato de ela ter, entre seus quadros de candidatos a analistas didatas, o torturador velado Amilcar Lobo. Tal crise se estendeu por dois anos, e culminou com a expuls\u00e3o de Mascarenhas e Pellegrino, reintegrados somente por decreto judicial. Temos ainda, na hist\u00f3ria latinoamericana, a excis\u00e3o dos grupos <em>Plataforma<\/em> e <em>Documento<\/em> da APA (Sociedade de Psican\u00e1lise Argentina). Grupos que lutavam para que fossem aceitas a discuss\u00e3o e a manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos analistas, al\u00e9m de problematizarem quest\u00f5es ligadas \u00e0 pol\u00edtica institucional, como o c\u00e2none da an\u00e1lise did\u00e1tica. Nessa \u00e9poca tentou-se banir os trabalhos sociais de Freud do ensino da forma\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, diferenciar abstin\u00eancia e neutralidade da neglig\u00eancia do \u00e2mbito em que se desenvolve nosso trabalho como analistas.<\/p>\n<p>Por fim, a psicanalista Regina Schnaiderman, uma das professoras fundadoras do Curso de Psican\u00e1lise do Sedes, compromissada com sua \u00e9poca, de esp\u00edrito democr\u00e1tico e engajamento pol\u00edtico conhecido, grande lutadora contra a ditadura que assolou o Brasil, tamb\u00e9m sofreu persegui\u00e7\u00f5es por assumir a defesa da democracia em \u00e9pocas de ditadura.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos repetir esses erros, somos chamados a tomar posi\u00e7\u00f5es sem nos omitirmos do transcurso da hist\u00f3ria. Entendo que melhor poderemos escutar nossos pacientes quanto mais conscientes e analisadas tenhamos nossas rela\u00e7\u00f5es com o pacto social.<\/p>\n<p>Gilou Garc\u00eda Reinoso (1973, p. 47), conhecida psicanalista argentina j\u00e1 falecida, contempor\u00e2nea de Pichon-Rivi\u00e8re e de Emilio Rodrigu\u00e9, que pertenceu ao grupo Plataforma da Argentina, nos formulou o seguinte questionamento, que fa\u00e7o meu:<\/p>\n<p><em>\u201c<\/em><em>Parto do paradoxo: como profissional, como intelectual, como indiv<\/em><em>\u00ed<\/em><em>duo, como psicanalista, desenvolvo minha atividade aparentemente sem nenhuma perturba<\/em><em>\u00e7\u00e3<\/em><em>o, num mundo em que, por outro lado, tudo est<\/em><em>\u00e1 <\/em><em>perturbado. Ent<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o que classe de liberdade <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>a minha? <\/em><em>\u00c9 <\/em><em>liberdade ou isolamento?<\/em><em>\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncias<\/strong><\/p>\n<p>FREUD, S. (1909) A prop\u00f3sito de un caso de neurosis obsesiva. In: <em>Obras Completas<\/em>, tomo X. Buenos Aires: Amorrortu, 1975a.<\/p>\n<p>_________ (1915). Puntuaciones sobre el amor de transfer\u00eancia. In: <em>Obras Completas<\/em>, tomo XII. Buenos Aires: Amorrortu, 1975b.<\/p>\n<p>LAPLANCHE, J. <em>Vocabul<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rio da Psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1987.<\/p>\n<p>REINOSO, G. G. (1973). <em>Questionamos a psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise e as institui<\/em><em>\u00e7\u00f5<\/em><em>es<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes.<\/p>\n<p>VIANNA, H. B. <em>N<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o conte a ningu<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, 1994.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Originalmente publicado em <em>Psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise &amp; Barroco em revista.<\/em> Edi\u00e7\u00e3o especial: Psican\u00e1lise e Pol\u00edtica: vers\u00f5es e revers\u00f5es do mundo e do imundo, v. 17, n. 02, outubro de 2019.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora do Curso de Psican\u00e1lise desde 1976, cofundadora do curso Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica: Conflito e Sintoma em 1997, que coordenou at\u00e9 o final de 2024.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num vigoroso artigo, Ana Sigal reafirma a \u00e9tica da psican\u00e1lise, diferenciando o conceito de abstin\u00eancia da ideia de isen\u00e7\u00e3o frente \u00e0s atrocidades do mundo. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[262],"tags":[53],"edicao":[301],"autor":[148],"class_list":["post-3592","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-conflito-e-sintoma","tag-conflito-e-sintoma","edicao-boletim-74","autor-ana-maria-sigal","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3592","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3592"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3592\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3593,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3592\/revisions\/3593"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3592"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3592"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3592"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3592"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3592"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}