{"id":3733,"date":"2025-06-13T17:15:51","date_gmt":"2025-06-13T20:15:51","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3733"},"modified":"2025-06-17T14:45:55","modified_gmt":"2025-06-17T17:45:55","slug":"s-o-p-p-a-servico-de-orientacao-psicanalitica-pensando-a-alimentacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/06\/13\/s-o-p-p-a-servico-de-orientacao-psicanalitica-pensando-a-alimentacao\/","title":{"rendered":"S.O.P.P.A &#8211; Servi\u00e7o de Orienta\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica: Pensando a alimenta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong>S.O.P.P.A \u2014 Servi\u00e7<\/strong><strong>o de Orienta<\/strong><strong>\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica: Pensando a Alimenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0Desdobramentos \u00e9tico-cl\u00ednicos do <em>Cozinha como Experi\u00ea<\/em><em>ncia <\/em>na cria\u00e7\u00e3o de novos dispositivos de cuidado<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por<\/strong><strong>\u00a0\u00a0<\/strong><strong>Arielle Natalicio Garrido<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>,<strong> Mariana David<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> <strong>e Margarida Melhem (Kika)<\/strong><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este texto tem como objetivo apresentar o servi\u00e7o S.O.P.P.A. \u2014 Servi\u00e7o de Orienta\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica: Pensando a Alimenta\u00e7\u00e3o \u2014, que surge como um desdobramento te\u00f3rico-cl\u00ednico do projeto <em>Cozinha como Experi\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p>Em tempos de conex\u00f5es intensas e aceleradas, os encontros em torno da mesa foram afetados de maneira significativa. A vida urbana ocidental, associada ao desenvolvimento das tecnologias digitais, alterou de forma fundamental a rela\u00e7\u00e3o do humano com o tempo, que se v\u00ea cada vez mais subtra\u00eddo em sua capacidade de vivenciar processos. Nos dizeres de Agamben: <em>\u201ca experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais algo que nos seja dado fazer\u201d<\/em>; \u201c<em>o homem moderno volta para casa \u00e0 noitinha extenuado por uma mix\u00f3rdia de eventos \u2014 divertidos ou ma\u00e7antes, banais ou ins\u00f3litos, agrad\u00e1veis ou atrozes \u2014, entretanto, nenhum deles se tornou experi\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>\u201d. Um exemplo disso s\u00e3o os v\u00eddeos curtos de 10 segundos que ensinam receitas complexas nas redes sociais, fornecendo a falsa ilus\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel experienciar o cozinhar sem considerar os processos envolvidos, que, por sua vez, exigem uma temporalidade pr\u00f3pria. Assim, o car\u00e1ter simb\u00f3lico e ritual\u00edstico do cozinhar se transforma em algo fugaz e pouco processual.<\/p>\n<p>Outro fen\u00f4meno que se tem observado com frequ\u00eancia \u00e9 a prolifera\u00e7\u00e3o de transtornos e diagn\u00f3sticos relacionados \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, que restringem a experi\u00eancia subjetiva do alimentar-se. No <em>Cozinha como Experi\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>, propomos o uso da culin\u00e1ria como dispositivo de resist\u00eancia ao modo contempor\u00e2neo de apreens\u00e3o da experi\u00eancia do alimentar-se, que pode, muitas vezes, se dar de forma <em>gourmetizada<\/em> e fetichizada, distanciando os sujeitos de suas hist\u00f3rias e costumes, e produzindo patologias.<\/p>\n<p>A culin\u00e1ria, enquanto atividade essencialmente humana, est\u00e1 na base do desenvolvimento das civiliza\u00e7\u00f5es. Todo o ritual que envolve a alimenta\u00e7\u00e3o \u2014 da prepara\u00e7\u00e3o dos pratos ao encontro em torno da mesa \u2014 configura uma importante forma de transmiss\u00e3o de valores transgeracionais e culturais. A fun\u00e7\u00e3o alimentar humana est\u00e1, desde o princ\u00edpio da vida, permeada por afetos, sejam estes positivos ou negativos, ultrapassando seu valor intrinsecamente nutricional e\/ou funcional. O modo como nos alimentamos \u00e9 um importante indicador sobre nossa sa\u00fade mental. Ao mesmo tempo, estados emocionais de ang\u00fastia, medo e tristeza podem afetar significativamente a rela\u00e7\u00e3o que estabelecemos com os alimentos. Portanto, um olhar cuidadoso para a rela\u00e7\u00e3o que mantemos com o ato de comer pode ajudar a identificar conflitos ps\u00edquicos que, por sua vez, podem ser cuidados a partir de uma escuta sens\u00edvel e n\u00e3o patologizante da alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tanto o ato de comer quanto o de cozinhar dependem do acesso ao alimento, da experimenta\u00e7\u00e3o e da observa\u00e7\u00e3o do processo de transforma\u00e7\u00e3o dos ingredientes. Acreditamos, assim, que pensar a alimenta\u00e7\u00e3o pode ser uma forma de promo\u00e7\u00e3o de sa\u00fade e preven\u00e7\u00e3o de transtornos alimentares, e que a cozinha pode ser um laborat\u00f3rio privilegiado, onde se ampliam repert\u00f3rios, se geram mem\u00f3rias afetivas e onde se fortalece o senso de coletividade.<\/p>\n<p>Sendo assim, nossos estudos, desenvolvimentos e a\u00e7\u00f5es buscam resgatar uma dimens\u00e3o artesanal de fazeres e pr\u00e1ticas relacionadas ao campo alimentar, que se fundamentam na comensalidade (o comer coletivamente), em sua fun\u00e7\u00e3o mediadora dos v\u00ednculos e la\u00e7os sociais. Propomos a constru\u00e7\u00e3o e oferta de dispositivos que consideram a interface entre psican\u00e1lise e alimenta\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de um vi\u00e9s psicopatol\u00f3gico, amplamente abordado pela literatura psicanal\u00edtica dos <em>transtornos <\/em>alimentares.<\/p>\n<p>Alinhadas a essas ideias, nasceu, h\u00e1 quinze anos, o <em>Cozinha como Experi\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>. Nesse espa\u00e7o, utilizamos a culin\u00e1ria como uma ferramenta intermedi\u00e1ria para trabalhar as quest\u00f5es ligadas \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o de forma l\u00fadica, social e\/ou terap\u00eautica, por meio da realiza\u00e7\u00e3o de oficinas grupais ou projetos individuais, pensados caso a caso. A palavra <em>experi<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia<\/em> \u2014 que d\u00e1 o motor ao projeto \u2014 traz, em sua etimologia, a ideia de conhecer al\u00e9m do per\u00edmetro, das fronteiras, dos limites, podendo tamb\u00e9m significar tentativa e ensaio.<\/p>\n<p>As oficinas propostas apoiam-se na experi\u00eancia de cozinhar e comer em grupo, sendo todo o processo estimulado, orientado e compartilhado pela equipe. As oficinas s\u00e3o tem\u00e1ticas, e os temas s\u00e3o variados. Em termos gerais, elenca-se um assunto a ser debatido e prop\u00f5e-se uma reflex\u00e3o ao grupo, enquanto a comida \u00e9 preparada conjuntamente. Ao t\u00e9rmino, al\u00e9m de apreciar os pratos elaborados, abre-se espa\u00e7o para um di\u00e1logo sobre a din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es e o envolvimento pessoal de cada um na atividade. Durante o compartilhamento, cozinhar e comer juntos potencializam a troca, o pensar e a imers\u00e3o na experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Pensamos a constru\u00e7\u00e3o das oficinas como um dispositivo que implica um \u201cfazer culin\u00e1rio\u201d em grupo, num tempo-espa\u00e7o que se preste como resist\u00eancia \u00e0 l\u00f3gica temporal contempor\u00e2nea. Isso promoveu, ao longo de nosso trabalho, uma amplia\u00e7\u00e3o na compreens\u00e3o sem\u00e2ntica do \u201ccomer\u201d e do \u201ccozinhar\u201d, que, por sua vez, resultou na possibilidade de organizar interven\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas no campo da alimenta\u00e7\u00e3o, em contextos e enquadres distintos do modelo tradicional poltrona-div\u00e3.<\/p>\n<p>As oficinas do <em>Cozinha como Experi\u00ea<\/em><em>ncia<\/em> pretendem, portanto, constituir-se como espa\u00e7o de transmiss\u00e3o, de circula\u00e7\u00e3o de discursos diversos e de encontros. Apostamos que a culin\u00e1ria produz efeitos subjetivantes nos sujeitos participantes e pode oferecer a possibilidade de se encontrarem com novos modos de estar e ser no mundo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma d\u00e9cada de atua\u00e7\u00e3o, apoiadas nos f\u00e9rteis encontros que tivemos ao longo desse caminho, identificamos a necessidade de ampliar a acessibilidade ao <em>Cozinha como Experi\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>, no intuito de favorecer os processos de articula\u00e7\u00e3o entre alimenta\u00e7\u00e3o e sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Ao propor a extens\u00e3o do nosso olhar cl\u00ednico a partir do ato de cozinhar e comer coletivamente, buscamos ampliar possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o e resgate da pot\u00eancia criativa de cada indiv\u00edduo. Nesse sentido, buscamos utilizar a cozinha como um dispositivo no qual se considera a biografia alimentar da pessoa\/fam\u00edlia\/grupo em quest\u00e3o, seus h\u00e1bitos e valores culturais.<\/p>\n<p>Assim nasce o S.O.P.P.A<strong>.<\/strong>, um servi\u00e7o de acolhimento e orienta\u00e7\u00e3o, fundamentado na teoria psicanal\u00edtica, criado para ajudar qualquer pessoa ou grupo que deseje pensar sobre sua rela\u00e7\u00e3o com a comida. Al\u00e9m disso, o S.O.P.P.A. atualmente prop\u00f5e um aprofundamento de estudos te\u00f3rico-cl\u00ednicos, por meio do qual oferecemos supervis\u00f5es, grupos de estudo e discuss\u00f5es na interface entre psican\u00e1lise e alimenta\u00e7\u00e3o para profissionais da sa\u00fade interessados no tema.<\/p>\n<p>E-mail Cozinha como Experi\u00eancia: <a href=\"mailto:contato@cozinhacomoexperiencia.com.br\">contato@cozinhacomoexperiencia.com.br<\/a><\/p>\n<p>Instagram: @cozinhacomoexperiencia<\/p>\n<p>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<br \/>\nAGAMBEN, Giorgio. I<em>nf\u00e2ncia e hist\u00f3ria: destrui\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e origem da hist\u00f3<\/em><em>ria.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o: Henrique Burigo. 2. ed. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2005.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, ex-aluna do Curso de Psican\u00e1lise, integrante do grupo de Problem\u00e1ticas alimentares do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a os desdobramentos \u00e9tico-cl\u00ednicos do <em>Cozinha como Experi\u00eancia<\/em> na cria\u00e7\u00e3o de novos dispositivos de cuidado. Por Arielle Garrido, Nana David e Kika Melhem.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[315],"tags":[320],"edicao":[317],"autor":[318,319,129],"class_list":["post-3733","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-comida","tag-comida","edicao-boletim-75","autor-arielle-natalicio-garrido","autor-margarida-melhem-kika","autor-mariana-david","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3733","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3733"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3733\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3787,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3733\/revisions\/3787"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3733"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3733"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}