{"id":3735,"date":"2025-06-13T17:20:37","date_gmt":"2025-06-13T20:20:37","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3735"},"modified":"2025-06-13T17:20:37","modified_gmt":"2025-06-13T20:20:37","slug":"interfaces-da-nutricao-e-da-psicanalise-na-clinica-das-problematicas-alimentares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/06\/13\/interfaces-da-nutricao-e-da-psicanalise-na-clinica-das-problematicas-alimentares\/","title":{"rendered":"Interfaces da nutri\u00e7\u00e3o e da psican\u00e1lise na cl\u00ednica das problem\u00e1ticas alimentares"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Interfaces da n<\/strong><strong>utri<\/strong><strong>\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o e da <\/strong><strong>p<\/strong><strong>sican<\/strong><strong>\u00e1lise na cl\u00ednica das problem\u00e1ticas alimentares<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Camila Junqueira<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em 21 de Fevereiro de 2025, as professoras do curso de extens\u00e3o <em>A abordagem psicanal\u00edtica das problem\u00e1ticas alimentares<\/em> reuniram quatro convidadas muito especiais: Daniella Saad, Nat\u00e1lia Vignoli, Danielle Fontes e Renata Monteiro, para discutir as Interfaces entre a Nutri\u00e7\u00e3o e a Psican\u00e1lise. As quatro convidadas s\u00e3o nutricionistas e ex-alunas do curso, t\u00eam forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise e atualmente fazem parte da Rede de Estudo e Escuta Psicanal\u00edtica das Problem\u00e1ticas Alimentares &#8211; @reep_pa.<\/p>\n<p>O curso nasceu no seio de um grupo de trabalho do Departamento de Psican\u00e1lise, o Projeto de pesquisa e cl\u00ednica psicanal\u00edtica das problem\u00e1ticas alimentares, que acontece no Departamento de Psican\u00e1lise desde o ano 2000, e \u00e9 ministrado por:Camila Junqueira, D\u00e9bora Felgueiras, Liliane Mendon\u00e7a, Mabel Casakin, Maria Castanheira, Renata Gaspar e Rose Rossetti, todas membros do Departamento de Psican\u00e1lise deste Instituto, e esse ano, se juntam a n\u00f3s, Juliana Farah, tamb\u00e9m membro do Departamento de Psican\u00e1lise e Renata Monteiro, da Universidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>O atendimento dos casos sempre foi o eixo fundamental no nosso trabalho. N\u00f3s receb\u00edamos pacientes por procura espont\u00e2nea e casos encaminhados pelos ambulat\u00f3rios m\u00e9dicos que existem em S\u00e3o Paulo: Proata, Ambulim e Protad. Casos que depois de uma primeira abordagem m\u00e9dica, com interna\u00e7\u00e3o por vezes, tinham indica\u00e7\u00e3o de psicoterapia de longo prazo. Mas sempre sent\u00edamos uma grande dificuldade em discutir os casos em equipe, pois grande parte dos profissionais era composta por m\u00e9dicos, nutricionistas e psic\u00f3logos que trabalhavam a partir da abordagem comportamental e desconheciam as bases do pensamento psicanal\u00edtico, e a import\u00e2ncia do inconsciente para mudan\u00e7as mais consistentes do comportamento alimentar. E foi com o objetivo de apresentarmos a abordagem psicanal\u00edtica das problem\u00e1ticas alimentares para profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade que demos in\u00edcio ao curso em 2019. Esse ano o curso ir\u00e1 ganhar um segundo m\u00f3dulo de aulas, com \u00eanfase no trabalho interdisciplinar e multiprofissional.<\/p>\n<p>Comportamentos alimentares disfuncionais, a anorexia, a bulimia, e a compuls\u00e3o alimentar, entre outros, \u00e0s vezes menos evidentes, como \u00b4beliscadores\u00b4, compensadores, comedores emocionais etc., podem levar \u00e0 perda ou ao ganho de gordura corporal. A n\u00f3s, psicanalistas, cabe compreender os determinantes inconscientes desses comportamentos que levam o sujeito a repeti-los, ainda que lhe tragam sofrimentos. \u00c0 an\u00e1lise cabe implicar o sujeito com seu sintoma e ajud\u00e1-lo a compreender o que tem de gozo, o que tem de mensagem e o que tem de falta de capacidade simb\u00f3lica em sua montagem sintom\u00e1tica. Sem esclarecer o que h\u00e1 na \u2018base do <em>iceberg<\/em>\u2019, os sujeitos dificilmente v\u00e3o poder realizar mudan\u00e7as consistentes em seus comportamentos alimentares.<\/p>\n<p>Contudo, estudando os comportamentos alimentares, que muitas vezes encontram tra\u00e7os de fixa\u00e7\u00f5es na fase oral, vemos que suas bases s\u00e3o de dif\u00edcil acesso. A introdu\u00e7\u00e3o alimentar, e muito de suas marcas mn\u00eamicas, fazem parte daquilo que Ren\u00e9 Roussillon tem denominado de arcaico, e que deve ser diferenciado do infantil, pois foi instalado antes da linguagem ter sido bem estabelecida e carrega quase t\u00e3o somente marcas mn\u00eamicas sensoriais. Essa \u00e9 umas das raz\u00f5es pelas quais as problem\u00e1ticas alimentares nos imp\u00f5em, frequentemente, uma abordagem interdisciplinar, em que o trabalho com abordagem nutricional transcende os casos em que h\u00e1 uma urg\u00eancia org\u00e2nica (mais comumente em anorexias e bulimias) nos quais, a Nutri\u00e7\u00e3o garantir\u00e1 a vida do paciente enquanto a an\u00e1lise opera. A abordagem alimentar e nutricional encontrar\u00e1 um vasto campo de trabalho nas diferentes sintom\u00e1ticas alimentares, no qual a aten\u00e7\u00e3o nutricional poder\u00e1 ser catalisadora de <em>insights<\/em>, de lembran\u00e7as e de emo\u00e7\u00f5es que podem ser articuladas no processo anal\u00edtico e nutricional.<\/p>\n<p>Para estimular o debate acerca das interfaces entre o trabalho anal\u00edtico e nutricional, fiz algumas perguntas para as convidadas:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Camila Junqueira: Quais os limites da Nutri\u00e7\u00e3o ou quando eu encaminho para o psicanalista?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniella Ribeiro Saad: <\/strong>A forma\u00e7\u00e3o do nutricionista \u00e9 realizada em cinco anos e possui base generalista. Isso quer dizer que \u00e9 fundamentada no estudo da rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre o sujeito, o ambiente e a alimenta\u00e7\u00e3o. Essa perspectiva amplia o escopo de atua\u00e7\u00e3o do nutricionista para al\u00e9m da prescri\u00e7\u00e3o diet\u00e9tica, convocando-o a reconhecer as m\u00faltiplas dimens\u00f5es \u2014 biol\u00f3gicas, sociais, culturais, hist\u00f3ricas e ps\u00edquicas \u2014 que comp\u00f5em o ato de se alimentar. No entanto, mesmo sendo um profissional capacitado para escutar e intervir de forma integral no cuidado alimentar, \u00e9 fundamental reconhecer que, no \u00e2mbito das problem\u00e1ticas alimentares, o trabalho em rede, de forma multiprofissional e interdisciplinar, pode potencializar o tratamento e favorecer a recupera\u00e7\u00e3o da sa\u00fade das pessoas que apresentam sofrimentos relacionados ao corpo e \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica cl\u00ednica em Nutri\u00e7\u00e3o frequentemente confronta o profissional com manifesta\u00e7\u00f5es de sofrimento que se apresentam de maneira intensa e que demandam a escuta acurada de diversos profissionais envolvidos no cuidado em sa\u00fade. Sintomas como restri\u00e7\u00f5es alimentares severas, compuls\u00f5es, uso da comida como estrat\u00e9gia de regula\u00e7\u00e3o emocional, nega\u00e7\u00e3o persistente do estado nutricional e distor\u00e7\u00f5es da imagem corporal podem apontar para uma din\u00e2mica subjetiva que exige um manejo espec\u00edfico, pr\u00f3prio do campo da sa\u00fade mental. Nestes casos, a escuta do nutricionista \u00e9 fundamental e deve ser acompanhada do discernimento de que tais manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o, muitas vezes, express\u00f5es de um sofrimento ps\u00edquico que n\u00e3o se resolve apenas pela via da reeduca\u00e7\u00e3o alimentar ou da interven\u00e7\u00e3o nutricional isolada. \u00c9 necess\u00e1rio que a equipe trabalhe conjuntamente para a recupera\u00e7\u00e3o da sa\u00fade daquele que a procura ou que vem encaminhado por algu\u00e9m da rede de apoio social, como familiares, amigos ou professores.<\/p>\n<p>A escuta qualificada pode auxiliar no encaminhamento e no compartilhamento do cuidado entre profissionais da rede, uma vez que a rela\u00e7\u00e3o com a comida ocupa uma fun\u00e7\u00e3o que extrapola as dimens\u00f5es nutricionais e comunica, como toda linguagem, mecanismos de defesa que expressam excessos, vazios e outros sintomas ps\u00edquicos. Tal como ocorre nas problem\u00e1ticas alimentares, nas quais o corpo e a alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o utilizados como palco de conflitos inconscientes, muitas vezes profundos e inacess\u00edveis por outras vias. Nesses contextos, o sintoma alimentar deve ser escutado em sua singularidade, e o acompanhamento psicanal\u00edtico pode oferecer ao sujeito um espa\u00e7o para elaborar os sentidos inconscientes de seu sofrimento.<\/p>\n<p>Reconhecer os limites profissionais n\u00e3o representa uma fragilidade de cada profiss\u00e3o, mas uma demonstra\u00e7\u00e3o de maturidade \u00e9tica e t\u00e9cnica. O cuidado integral preconizado pelas Diretrizes Curriculares do Curso de Nutri\u00e7\u00e3o prop\u00f5e uma atua\u00e7\u00e3o interprofissional e interdisciplinar, com respeito \u00e0s especificidades de cada campo. Ao encaminhar o paciente a um colega psicanalista ou outro profissional da rede de cuidados especializada no atendimento a pessoas com transtornos alimentares, o nutricionista reafirma sua fun\u00e7\u00e3o como parte de uma rede de cuidado que visa a promover a sa\u00fade de forma complexa, cr\u00edtica e humanizada, possibilitando ao paciente construir seu caminho de sa\u00fade e de alteridade.<\/p>\n<p>Por fim, vale destacar que o encaminhamento n\u00e3o significa afastamento ou ruptura do v\u00ednculo, mas, ao contr\u00e1rio, pode fortalecer o cuidado compartilhado. O di\u00e1logo entre nutricionista, psicanalista e demais profissionais, quando poss\u00edvel e autorizado pelo paciente, favorece uma compreens\u00e3o ampliada do quadro cl\u00ednico e sustenta um projeto terap\u00eautico mais consistente. Nesse sentido, reconhecer quando encaminhar \u00e9 parte constitutiva da \u00e9tica do cuidado em Nutri\u00e7\u00e3o: um cuidado que escuta, reconhece seus limites e aposta na constru\u00e7\u00e3o conjunta de caminhos poss\u00edveis para o sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Camila Junqueira: Quais os limites da P<\/strong><strong>sican<\/strong><strong>\u00e1lise ou quando eu encaminho para o nutricionista?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nat\u00e1<\/strong><strong>lia Vignoli:<\/strong> H\u00e1 algum tempo o conceito de sa\u00fade tem sido associado com um valor moral, responsabilidade \u00fanica e exclusiva do indiv\u00edduo, em uma l\u00f3gica que acompanha a pol\u00edtica neoliberal e meritocrata. F\u00e1bio Herrmann e Marion Minerbo, em seu artigo \u201cCreme e Castigo\u201d, de 1998, discorrem de maneira brilhante sobre como a moral na sociedade passou do sexo para a comida e, acredito que nesta mesma l\u00f3gica, a sa\u00fade entra como moeda social de quem \u00e9 mais ou menos digno de respeito na sociedade, afinal, \u201cquerer \u00e9 poder\u201d.<\/p>\n<p>Saddi, no artigo \u201cMentalidade de dieta, controle social do corpo e clima contempor\u00e2neo\u201d, em 2020, passa pela hist\u00f3ria do corpo e traz \u00e0 tona o conceito de \u201ccorpo m\u00e1quina\u201d. Segundo a psicanalista:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>\u201cContamos calorias, controlamos inputs e outputs, calculamos massa magra, gorda etc. Nos exercitamos sob a \u00e9gide de par\u00e2<\/em><em>metros cient<\/em><em>\u00edficos para obtermos resultados\u201d <\/em>p. 218.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o associar esses aspectos \u00e0 maneira pela qual a comida \u00e9 hoje entendida pela maior parte da sociedade. As pessoas n\u00e3o se alimentam mais de comida, mas sim de nutrientes. Existe uma desconex\u00e3o profunda relacionada \u00e0 cultura bem como os rituais que muitas vezes identificam fam\u00edlias, culturas e povos &#8211; a comida fazia parte disso.<\/p>\n<p>Segundo a Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria), a defini\u00e7\u00e3o de alimento se d\u00e1 como:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>\u201cToda subst\u00e2ncia que se ingere no estado natural, semi-elaborado ou elaborado, destinada ao consumo humano, incluindo bebidas e subst\u00e2ncias utilizadas em sua elabora\u00e7\u00e3o, preparo ou tratamento\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Neste sentido podemos pensar que desde uma pedra de gelo, de um suplemento de vitaminas, at\u00e9 uma macarronada podem ser considerados alimentos, estando todos eles em p\u00e9 de igualdade em rela\u00e7\u00e3o ao seu significado. Contudo, ao dizermos \u201cmacarronada\u201d, \u201ckafta\u201d, \u201csushi\u201d e \u201cbacalhoada\u201d, por exemplo, entramos em uma cadeia significante cujas palavras carregam consigo outros significados, individuais, subjetivos e culturais, por exemplo: posso pensar em macarronada e isso ter o significado na minha experi\u00eancia, de \u201cdomingos em fam\u00edlia, descend\u00eancia italiana, av\u00f3 e pai\u201d.<\/p>\n<p>A comida \u00e9 isso, traz consigo toda a sua associa\u00e7\u00e3o cultural e viv\u00eancia subjetiva cuja defini\u00e7\u00e3o de \u201calimento\u201d n\u00e3o \u00e9 capaz de dar conta. A doutora em psicologia e psicanalista, pesquisadora da tem\u00e1tica de Problem\u00e1ticas Alimentares Camila Junqueira, em sua ilustre participa\u00e7\u00e3o no programa \u201cCaf\u00e9 Filos\u00f3fico\u201d na data de 6 de maio de 2025 (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=T8pelK-fOfQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=T8pelK-fOfQ<\/a>), explanou de maneira brilhante sobre o enfraquecimento das institui\u00e7\u00f5es (como fam\u00edlia, cultura e grupos) e o seu impacto na maneira como nos alimentamos. Comer est\u00e1 perdendo o sentido \u201ccivilizat\u00f3rio\u201d e passando para uma mera equa\u00e7\u00e3o de d\u00e9ficit ou super\u00e1vit cal\u00f3rico, como se um sujeito funcionasse como um ornamento cont\u00e1bil.<\/p>\n<p>Diferente do \u201ccorpo m\u00e1quina\u201d, estar em sociedade e inseridos na cultura, atrav\u00e9s da cadeia significante, nos faz dar sentido ao nosso ato de comer. Comemos porque estamos felizes, tristes, com fome, pois estamos em grupo ou mesmo porque n\u00e3o temos o que fazer. Ainda assim, inseridos na linguagem, \u00e9 poss\u00edvel trabalhar sobre essas maneiras atrav\u00e9s das quais a comida aparece, associando-as a marcas mn\u00eamicas, impressas desde a mais tenra idade, sob a esperan\u00e7a do reencontro da primeira ilus\u00e3o de completude e satisfa\u00e7\u00e3o, imposs\u00edvel de ser novamente alcan\u00e7ada.<\/p>\n<p>Segundo a professora doutora Marle Alvarenga, uma das fundadoras do Instituto de Nutri\u00e7\u00e3o Comportamental e nutricionista refer\u00eancia nos estudos sobre Comportamento Alimentar:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>&#8220;A comida tem fun\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas t\u00e3o importantes quanto \u00e0s fun\u00e7\u00f5es nutricionais. As necessidades nutricionais devem ser atingidas juntamente com as necessidades culturais e simb\u00f3licas. Obter os nutrientes sem atender \u00e0s necessidades culturais e simb\u00f3licas n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel. Somente a comida pode atender a estas duas necessidades\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Tratar o corpo de maneira mecanizada, o ato de alimentar-se como uma mera equa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade como um simples resultado dessas a\u00e7\u00f5es, t\u00eam colaborado para que os indiv\u00edduos se desconectem cada vez mais da sua cultura, dos seus sinais internos de fome, saciedade, da identifica\u00e7\u00e3o de suas prefer\u00eancias alimentares, dos seus sentimentos e, invariavelmente, da sua hist\u00f3ria e cultura, levando-os a um grande adoecimento ps\u00edquico, \u00e0 falta de identidade e a uma profunda ang\u00fastia em que ningu\u00e9m mais consegue falar de si ou sobre si sem o aux\u00edlio de nomea\u00e7\u00f5es externas, muitas vezes advindas de agentes da sa\u00fade posicionados no <em>discurso do mestre,<\/em> na ilus\u00e3o de que podem inferir sobre o sujeito de forma mais certeira do que ele mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Camila Junqueira:\u00a0<\/strong><strong>Dani, quando voc<\/strong><strong>\u00ea, formada em nutri\u00e7\u00e3o, decidiu estudar psican\u00e1<\/strong><strong>lise?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Danielle Fontes:<\/strong> Nessa pergunta tem muito de mim mesma&#8230; eu s\u00f3 me lembrava daquela m\u00fasica do Jo\u00e3o Nogueira, \u00a0<em>O poder da cria\u00e7\u00e3o<\/em>. Ele dizia:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>\u201cN\u00e3<\/em><em>o, ningu<\/em><em>\u00e9m faz samba s\u00f3 <\/em><em>porque prefere<br \/>\n<\/em><em>For\u00e7a nenhuma no mundo interfere<br \/>\n<\/em><em>Sobre o poder da cria\u00e7\u00e3o\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ningu\u00e9m faz psican\u00e1lise s\u00f3 porque prefere.<\/p>\n<p>Me formei como nutricionista em 2008, e minha vontade de estudar os alimentos, claramente veio por uma falta que tinha na minha casa. Falta de \u2018comida de verdade\u2019, t\u00ednhamos um excesso de industrializados junto com um estigma de gordofobia muito forte pela minha m\u00e3e. Sempre digo isso, ela me ajudou a escolher a minha profiss\u00e3o. Quando fiz nutri\u00e7\u00e3o me encantei pela parte qu\u00edmica, e f\u00edsica dos alimentos, como isso poderia modular nosso organismo, nossas c\u00e9lulas. Mas foi quando eu comecei a atender aglomerado de c\u00e9lulas, digo: humanos, fui entendendo que esse conjunto de c\u00e9lulas e \u00f3rg\u00e3os n\u00e3o respondia da maneira que quer\u00edamos, como no laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Em 2013\/2014 minha m\u00e3e teve um c\u00e2ncer de intestino e eu, por sintomas de intestino irrit\u00e1vel, comecei a fazer uma terapia de psican\u00e1lise. Eu ainda n\u00e3o sabia o que era inconsciente, n\u00e3o tinha ideia. Mas depois de 5 anos a dor f\u00edsica do corpo foi embora, e eu entendi o que era inconsciente na minha pele.<\/p>\n<p>Atendendo como nutri, eu comecei a perceber que muitos pacientes n\u00e3o queriam me contar o que eles tinham almo\u00e7ado ontem. Eu perguntava sobre a alimenta\u00e7\u00e3o, mas eles s\u00f3 me contavam sobre a separa\u00e7\u00e3o com o marido, sobre a frustra\u00e7\u00e3o do trabalho, ou ainda, sobre o desejo de ser mais bonito ou mais magro. Comprei minha primeira caixinha de len\u00e7os. E deixava o paciente falar e chorar.<\/p>\n<p>Naquele momento, eu entendi tamb\u00e9m que n\u00e3o se muda um comportamento s\u00f3 porque queremos. Muitas vezes, nem sabemos que temos aquele comportamento. Ent\u00e3o nos casos dos pacientes com exagero alimentar, ou beliscadores, ou compulsivos. Nem sempre eles conheciam ou sabiam como come\u00e7ava ou porque tinham aquele comportamento. Eu j\u00e1 percebia que o paciente me dizia algo inclusive quando ele n\u00e3o dizia nada. A minha cl\u00ednica se modificou tanto nesse per\u00edodo, eu n\u00e3o conseguia aplicar o mesmo protocolo em todos \u2026<\/p>\n<p>No dia 12 de novembro de 2017 tive uma aula com o psicanalista Daniel Roizman com o tema <em>Psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>l<\/em><em>acaniana: signo, significado e significantes<\/em> <em>\u2013 Recorte no comer linguagem.<\/em> Onde ele falava bastante sobre o livro dele <em>A obesidade n\u00e3o-toda, ou quando a gordura fala<\/em>.<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, atendi um caso marcante nessa mudan\u00e7a de pensamento cl\u00ednico. Uma adolescente com um quadro de ortorexia que n\u00e3o conseguia comer nada que n\u00e3o fosse, por ela, considerado saud\u00e1vel. Ao ponto de desmaiar em viagens com amigas.\u00a0 Tinha muita dificuldade de se expressar, e eu a chamei para sentar-se no sof\u00e1 (ao inv\u00e9s da mesa de consult\u00f3rio tradicional) e come\u00e7amos a conversar de outras coisas, aos poucos, e que n\u00e3o fosse sobre a comida&#8230; e foi ent\u00e3o que decidi estudar psican\u00e1lise!<\/p>\n<p>Em 2022 eu entrei na forma\u00e7\u00e3o do CEP e logo encontrei a Camila num v\u00eddeo de divulga\u00e7\u00e3o sobre o curso de Problem\u00e1ticas alimentares. E ent\u00e3o, em 2023 fiz o curso de Problem\u00e1ticas alimentares e me apaixonei ainda mais pela psican\u00e1lise, tinha encontrado a minha cl\u00ednica. As aulas come\u00e7aram a fazer sentido.<\/p>\n<p>Foi assim, a cl\u00ednica foi buscar a teoria.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 2 anos, com as supervis\u00f5es e grupos de estudos, com a forma\u00e7\u00e3o finalizada com o projeto da REEPPA, tamb\u00e9m venho aprendendo a distinguir mais onde come\u00e7a uma e termina a outra atividade que fa\u00e7o. Claro que eu sou a mistura disso, mas na minha cl\u00ednica respeitamos o lado de cada profissional.<\/p>\n<p>Como nutri, posso dizer que estudar psican\u00e1lise mudou como eu escuto, como eu ajo com o paciente e como posso intervir na rela\u00e7\u00e3o com a comida. Como psicanalista em forma\u00e7\u00e3o, posso dizer que amei ter entrado na psican\u00e1lise atrav\u00e9s da linguagem da alimenta\u00e7\u00e3o e da comida afetiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Camila Junqueira: Renata, conta para a gente como tem sido o trabalho de supervis\u00e3<\/strong><strong>o psicanal<\/strong><strong>\u00edtica com as nutricionistas que atuam com pacientes com transtornos alimentares?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Renata Monteiro:<\/strong> O trabalho de supervis\u00e3o psicanal\u00edtica com nutricionistas que atuam com problem\u00e1ticas alimentares tem se consolidado como um espa\u00e7o formativo potente, contribuindo para a constru\u00e7\u00e3o de uma cl\u00ednica cr\u00edtica e qualificada diante da complexidade que envolve o cuidado nutricional nesse campo. Esse processo, ancorado na escuta psicanal\u00edtica, permite que as nutricionistas ampliem sua compreens\u00e3o sobre os sentidos subjetivos do comer, integrando os aspectos ps\u00edquicos, culturais e relacionais da alimenta\u00e7\u00e3o aos saberes t\u00e9cnico-cient\u00edficos da \u00e1rea. A proposta se alinha de modo profundo aos princ\u00edpios que orientam o perfil do nutricionista egresso, conforme definido nas Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Nutri\u00e7\u00e3o, especialmente no que tange \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da interdisciplinaridade, da \u00e9tica, da escuta humanizada e da compreens\u00e3o ampliada dos determinantes da sa\u00fade.<\/p>\n<p>A supervis\u00e3o, nessa abordagem, \u00e9 sustentada pelo trip\u00e9 da forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica: an\u00e1lise pessoal, estudo te\u00f3rico e supervis\u00e3o cl\u00ednica. Ela se prop\u00f5e a oferecer um espa\u00e7o de elabora\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias cl\u00ednicas vividas pelas nutricionistas, promovendo n\u00e3o apenas a discuss\u00e3o de condutas, mas principalmente a reflex\u00e3o sobre os efeitos transferenciais, sobre as escutas silenciadas e sobre os lugares ocupados na cena terap\u00eautica. Com isso, o foco desloca-se da l\u00f3gica normativo-prescritiva para uma \u00e9tica do sujeito, que reconhece o sintoma alimentar como uma constru\u00e7\u00e3o singular e, muitas vezes, como a \u00fanica forma encontrada pelo sujeito para manejar ang\u00fastias primitivas, afetos inomin\u00e1veis e experi\u00eancias de desamparo.<\/p>\n<p>Essa perspectiva sustenta que o alimento, para al\u00e9m de seu valor nutricional, inscreve-se no campo do simb\u00f3lico \u2014 podendo representar afeto, defesa, vazio, excesso, substituto ou linguagem. A compreens\u00e3o do transtorno alimentar enquanto manifesta\u00e7\u00e3o de um sofrimento ps\u00edquico profundo implica, portanto, uma escuta que n\u00e3o busca corrigir, mas acolher, interpretar e sustentar o sujeito em sua travessia. Nesse contexto, a supervis\u00e3o psicanal\u00edtica fortalece o papel das nutricionistas como profissionais capazes de operar com a alteridade, com os afetos despertados no encontro com o outro e com os pr\u00f3prios limites e ang\u00fastias mobilizados nesse encontro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, nossa supervis\u00e3o resgata a pot\u00eancia da forma\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e emancipat\u00f3ria, como defendido nas Diretrizes Curriculares do Curso de Nutri\u00e7\u00e3o, oferecendo ferramentas para que as nutricionistas se posicionem eticamente frente aos discursos normativos da cultura da dieta, da medicaliza\u00e7\u00e3o do cuidado e da padroniza\u00e7\u00e3o dos corpos. A supervis\u00e3o psicanal\u00edtica contribui significativamente para ampliar o olhar do profissional, ao considerar que o comportamento alimentar n\u00e3o se reduz a uma soma de nutrientes ou a um conjunto de h\u00e1bitos, mas \u00e9 express\u00e3o de conflitos ps\u00edquicos, hist\u00f3ricos e sociais. Ela favorece a compreens\u00e3o de que, muitas vezes, a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 o meio que o sujeito encontra para lidar com ang\u00fastias profundas, sendo o sintoma alimentar a melhor estrat\u00e9gia que encontrou para sobreviver subjetivamente.<\/p>\n<p>Assim sendo, a supervis\u00e3o psicanal\u00edtica com nutricionistas que atuam nas problem\u00e1ticas alimentares tem possibilitado a constru\u00e7\u00e3o de um cuidado mais humanizado, implicado e \u00e9tico, em conson\u00e2ncia com as diretrizes de forma\u00e7\u00e3o que visam n\u00e3o apenas \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o diet\u00e9tica e \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o nutricional, mas a uma escuta do sujeito em sua complexidade. Trata-se, portanto, de um dispositivo que transforma a pr\u00e1tica profissional ao promover um reposicionamento do profissional frente ao sofrimento, a rela\u00e7\u00e3o com o alimento e ao corpo daqueles que nos procuram na cl\u00ednica das problem\u00e1ticas alimentares.<\/p>\n<p>Nesse sentido, ao reconhecer o nutricionista como mais um int\u00e9rprete de sentido, como membro de uma equipe multidisciplinar qualificada para a aten\u00e7\u00e3o \u00e0s problem\u00e1ticas alimentares e n\u00e3o apenas como prescritor de condutas, a supervis\u00e3o, amparada pelo trip\u00e9 psicanal\u00edtico, resgata a dimens\u00e3o \u00e9tica do cuidado. Isso se torna ainda mais relevante diante de um cen\u00e1rio marcado pela medicaliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, pela cultura da dieta e pelo discurso da performance corporal, que reduzem a subjetividade a padr\u00f5es normativos e produzem sofrimento ps\u00edquico. A supervis\u00e3o prop\u00f5e, ent\u00e3o, um deslocamento: do controle para o acolhimento; da normatiza\u00e7\u00e3o para a singularidade; da fala sobre o corpo para a escuta do sujeito.<\/p>\n<p>Por fim, ao promover o reconhecimento da transfer\u00eancia e do inconsciente na pr\u00e1tica cl\u00ednica, a supervis\u00e3o amplia a capacidade do nutricionista de construir v\u00ednculos mais consistentes e de sustentar uma escuta comprometida com a alteridade. Assim, contribui diretamente para a pr\u00e1tica de profissionais mais reflexivos, cr\u00edticos e \u00e9ticos, como prop\u00f5e o perfil do egresso do curso de Nutri\u00e7\u00e3o, favorecendo pr\u00e1ticas emancipat\u00f3rias, interdisciplinares e transformadoras no campo da sa\u00fade e da alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 * \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 *<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Camila Junqueira,<\/strong> psic\u00f3loga, psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes, doutora e p\u00f3s-doutora pelo IPUSP, professora e coordenadora do curso de extens\u00e3o: A abordagem psicanal\u00edtica das problem\u00e1ticas alimentares, supervisora cl\u00ednica e coordenadora da REEPPA.<\/p>\n<p><strong>Daniella Ribeiro Saad,<\/strong> nutricionista pela Universidade Federal de Vi\u00e7osa-UFV, aprimorada no Programa de Transtornos Alimentares AMBULIM do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP, e ex-aluna do nosso curso de Problem\u00e1ticas Alimentares, fez forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica pelo Centro de Estudos Psicanal\u00edticos &#8211; CEP, forma\u00e7\u00e3o em Observa\u00e7\u00e3o de beb\u00eas pelo m\u00e9todo Esther Bick no Instituto de Psicologia-IPSI-PoA e \u00e9 filiada ao Instituto Brasileiro de Psican\u00e1lise Winnicottiana &#8211; IBPW. Membro da REEPPA, atende em consult\u00f3rio particular na Vila Mariana em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>Nat\u00e1<\/strong><strong>lia Vignoli<\/strong>, nutricionista, com mestrado na \u00e1rea, p\u00f3s-graduada em nutri\u00e7\u00e3o funcional pelo Instituto Val\u00e9ria Pascoal, p\u00f3s-graduada em nutri\u00e7\u00e3o materno infantil, aprimorada no Programa de TA do Ambulim do IPQ-HC-FMUSP, com forma\u00e7\u00e3o em comer intuitivo, membro do grupo Endangered Bodies, do grupo Corpo e cultura e da REEPPA. Psicanalista com forma\u00e7\u00e3o pelo CEP,\u00a0 atua em escolas e em consult\u00f3rio particular com jovens e adultos em Perdizes\/Pompeia.<\/p>\n<p><strong>Danielle Fontes,<\/strong> nutricionista, mestre pela FMUSP, com especializa\u00e7\u00e3o em terapia nutricional pelo GANEP, e fitoterapia funcional pelo Instituto VP, e em cuidados integrativos pela UNIFESP. Psicanalista com forma\u00e7\u00e3o pelo CEP. Membro da REEPPA e atende em consult\u00f3rio particular em Perdizes\/Pomp\u00e9ia.<\/p>\n<p><strong>Renata Monteiro<\/strong>, nutricionista, psic\u00f3loga e psicanalista. \u00c9 mestre em Nutri\u00e7\u00e3o Humana e doutora em Psicologia Social pela UNB. P\u00f3s-doutora pela Escola de Nutri\u00e7\u00e3o da UFBA. Com especializa\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade (UnB) e em Pol\u00edticas P\u00fablicas (UNICAMP). Professora do Departamento de Nutri\u00e7\u00e3o da Faculdade de Ci\u00eancias da Sa\u00fade da UnB. Coordenadora do N\u00facleo de Estudos Psicanal\u00edticos das Sintom\u00e1ticas Corporais, Alimentares e Vulnerabilidades do Observat\u00f3rio de Pol\u00edticas de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutri\u00e7\u00e3o da UnB. Supervisora cl\u00ednica na Rede de Estudo e Escuta Psicanal\u00edtica das Problem\u00e1ticas Alimentares (REEPPA).<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psic\u00f3loga, psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora e p\u00f3s-doutora pelo IPUSP, professora e coordenadora do curso de extens\u00e3o <em>A abordagem p<\/em><em>sicanal<\/em><em>\u00edtica das p<\/em><em>roblem<\/em><em>\u00e1ticas alimentares<\/em>, supervisora cl\u00ednica e coordenadora da REEPPA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eloquente reportagem de Camila Junqueira em torno do evento de fevereiro no Sedes. 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