{"id":3745,"date":"2025-06-13T17:31:36","date_gmt":"2025-06-13T20:31:36","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3745"},"modified":"2025-06-13T17:31:36","modified_gmt":"2025-06-13T20:31:36","slug":"sexualidade-genero-e-poder-na-cena-psicanalitica-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/06\/13\/sexualidade-genero-e-poder-na-cena-psicanalitica-contemporanea\/","title":{"rendered":"Sexualidade, g\u00eanero e poder na cena psicanal\u00edtica contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Sexualidade, g\u00eanero e poder na cena psicanal\u00edtica contempor\u00e2nea<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Um relato sobre a aula aberta com Silvia Alonso \u2013 Curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea<br \/>\nInstituto Sedes Sapientiae \u2013 20 de maio de 2025<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Soares da Cruz<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No dia 20 de maio de 2025, o Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae promoveu uma Aula Aberta que mobilizou intensamente professores, membros e alunos de seus espa\u00e7os de transmiss\u00e3o. A atividade, parte do ciclo de aulas abertas do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea, foi protagonizada pela psicanalista Silvia Leonor Alonso e teve como tema central as rela\u00e7\u00f5es entre sexualidade, g\u00eanero e poder: hist\u00f3ria, psican\u00e1lise e interseccionalidade.<\/p>\n<p>A abertura do evento foi realizada por M\u00e1rcia de Mello Franco, coordenadora do curso, que ressaltou o compromisso do Departamento com a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de pensamento capazes de acolher e tensionar as problem\u00e1ticas emergentes na cl\u00ednica e na cultura contempor\u00e2neas. Destacou-se, nessa introdu\u00e7\u00e3o, a urg\u00eancia em se pensar temas como subjetividades em tempos de acelera\u00e7\u00e3o, crise pol\u00edtica e ascens\u00e3o da extrema-direita, assim como o impacto das transforma\u00e7\u00f5es sociais nos modelos de identidade, g\u00eanero e sexualidade.<\/p>\n<p><strong>Uma aula que atravessa hist\u00f3ria, cl\u00ednica e pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Silvia Alonso estruturou sua confer\u00eancia em torno da articula\u00e7\u00e3o entre sexualidade, poder e psican\u00e1lise, explorando os modos como as normatividades sexuais e de g\u00eanero foram historicamente produzidas e transgredidas. Em sua fala inicial, trouxe o exemplo potente da Berlim da d\u00e9cada de 1920, com destaque para o document\u00e1rio <em>Cabar\u00e9 Eldorado: o alvo dos nazistas<\/em>, que mostra como espa\u00e7os<em> queer<\/em> e de diversidade sexual foram, num primeiro momento, tolerados e at\u00e9 instrumentalizados pelo poder, para em seguida serem brutalmente perseguidos com a ascens\u00e3o do nazismo.<\/p>\n<p>O relato da destrui\u00e7\u00e3o do Instituto de Magnus Hirschfeld e da persegui\u00e7\u00e3o aos homossexuais marca, como apontou Alonso, o entrela\u00e7amento perverso entre moralidade sexual, aparato jur\u00eddico e pol\u00edtica de exclus\u00e3o. A normatividade social muda com a mudan\u00e7a do poder pol\u00edtico, enfatizou. O que era invisibilizado se torna alvo da viol\u00eancia sistem\u00e1tica, e as sexualidades que fugiam ao ideal da ra\u00e7a pura foram apagadas do espa\u00e7o p\u00fablico e social.<\/p>\n<p><strong>Feminismos e rupturas epist\u00eamicas<\/strong><\/p>\n<p>A partir dessa cena hist\u00f3rica inaugural, Silvia desenvolveu uma genealogia cr\u00edtica do pensamento feminista, demonstrando como os feminismos \u2013 sempre no plural \u2013 foram fundamentais para desnaturalizar as categorias de g\u00eanero e reivindicar novos lugares subjetivos para as mulheres e dissid\u00eancias. A pensadora abordou a import\u00e2ncia de Simone de Beauvoir e sua ruptura antropol\u00f3gica ao politizar o singular e singularizar o pol\u00edtico, bem como a centralidade do conceito de <em>diferen\u00e7a<\/em> nos desdobramentos feministas p\u00f3s-maio de 68.<\/p>\n<p>Silvia destacou que os feminismos, embora inicialmente marcados por uma perspectiva universalista (centrada na mulher branca, cis e de classe m\u00e9dia), transformaram-se por meio das lutas das mulheres negras, trans, ind\u00edgenas e l\u00e9sbicas, configurando hoje uma \u201crede que conecta diversidades\u201d em vez de uma massa uniforme. Essa pluraliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m impulsionou novas abordagens do conceito de g\u00eanero, que, como salientou, desnaturalizam o masculino e o feminino, e introduzem o desafio de ultrapassar a binariedade e a heteronormatividade impl\u00edcitas em sua pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n<p><strong>Psican<\/strong><strong>\u00e1lise entre rupturas e conservadorismos<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o que atravessou toda a aula foi: Como a psican\u00e1lise responde a essas transforma\u00e7\u00f5es? Silvia lembrou que a teoria psicanal\u00edtica nasceu, ela mesma, como uma ruptura com o saber m\u00e9dico e patriarcal da virada do s\u00e9culo XIX. Citando Juan Carlos Volnovich, trouxe a lembran\u00e7a da confer\u00eancia de Freud em Viena em 1886, em que ele afirmava a histeria masculina e a origem traum\u00e1tica da histeria, colocando no banco dos r\u00e9us os homens abusadores e toda a comunidade m\u00e9dica da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Entretanto, essa subvers\u00e3o n\u00e3o se manteve est\u00e1vel: a partir da famosa <em>Carta de 1897<\/em>, Freud recua de sua teoria da sedu\u00e7\u00e3o e come\u00e7a a formular a fantasia como motor ps\u00edquico dos sintomas, muitas vezes em detrimento do reconhecimento da viol\u00eancia real. Alonso destacou os movimentos pendulares entre abertura e fechamento na teoria freudiana, ora instaurando novas possibilidades de escuta e simboliza\u00e7\u00e3o da sexualidade, ora capitulando a um certo biologismo e normatividade social.<\/p>\n<p>A conferencista sublinhou o papel amb\u00edguo da psican\u00e1lise nesse campo: por um lado, a pot\u00eancia de sua escuta e de conceitos como puls\u00e3o, sexualidade infantil e inconsciente permitem pensar a sexualidade como plural e n\u00e3o biologicamente determinada; por outro, o apego a modelos f\u00e1lico-centrados e bin\u00e1rios impediu avan\u00e7os mais radicais. \u00c9 preciso distinguir o Freud que faz teoria, e abre caminhos, do Freud que negocia com o poder, e os fecha, resumiu.<\/p>\n<p><strong>Epistemologia da alteridade: contribui\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas<\/strong><\/p>\n<p>Avan\u00e7ando para o pensamento mais recente, Silvia Alonso explorou as contribui\u00e7\u00f5es de autores que v\u00eam trabalhando a quest\u00e3o de g\u00eanero e sexualidade na psican\u00e1lise a partir de outras perspectivas. Destacou a import\u00e2ncia da teoria da sedu\u00e7\u00e3o generalizada de Jean Laplanche, que introduz o conceito de mensagem enigm\u00e1tica e de designa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero como processos atravessados pelo inconsciente do outro. Laplanche, segundo Alonso, permite deslocar o olhar para os in\u00edcios da vida ps\u00edquica, onde o g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 apenas interiorizado, mas traduzido sob o efeito de mensagens opacas e conflituais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m trouxe as contribui\u00e7\u00f5es de Marcia Ar\u00e1n, que prop\u00f5e uma cr\u00edtica \u00e0 centralidade do complexo de \u00c9dipo e \u00e0 primazia do falo, sugerindo a retomada da no\u00e7\u00e3o freudiana de feminilidade como pot\u00eancia n\u00e3o captur\u00e1vel pela l\u00f3gica da representa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. E, por fim, apresentou as ideias de Grada Kilomba, que prop\u00f5e uma epistemologia interseccional cr\u00edtica a partir do cruzamento entre g\u00eanero e ra\u00e7a, revelando os m\u00faltiplos vetores de domina\u00e7\u00e3o implicados nas pr\u00e1ticas cl\u00ednicas e sociais.<\/p>\n<p><strong>Debates: entre escuta e pot\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a palestra, a conversa com o p\u00fablico revelou o engajamento da audi\u00eancia com as provoca\u00e7\u00f5es da autora. Foram levantadas quest\u00f5es sobre a articula\u00e7\u00e3o entre classe, ra\u00e7a e sexualidade, a fun\u00e7\u00e3o dos movimentos identit\u00e1rios no reconhecimento da pot\u00eancia em si, e as possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o institucional da psican\u00e1lise frente \u00e0 multiplicidade dos sujeitos contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Silvia Alonso ressaltou que o desafio atual n\u00e3o est\u00e1 apenas em reconhecer as exclus\u00f5es, mas tamb\u00e9m em criar linguagens e formas de escuta que sejam capazes de sustentar a diferen\u00e7a e a alteridade. Rejeitou a ideia de que se trate de simplesmente \u201cinverter o poder\u201d, propondo, em vez disso, um deslocamento \u00e9tico e pol\u00edtico para o reconhecimento da pot\u00eancia criativa de sujeitos que foram historicamente silenciados. Trouxe como exemplo a fil\u00f3sofa e psicanalista Luce Irigaray e sua proposta de construir um \u201cfalar mulher\u201d, como forma de romper com a linguagem patriarcal hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p><strong>Escutar o que ainda n\u00e3o tem nome<\/strong><\/p>\n<p>A aula foi conclu\u00edda com uma reflex\u00e3o sobre o papel da psican\u00e1lise em tempos de assombro; nas palavras de Alonso: \u201ca sexualidade na psican\u00e1lise tem que estar a servi\u00e7o da criatividade, da inventividade do sujeito para encontrar uma solu\u00e7\u00e3o singular\u201d. Isso, contudo, exige trabalho te\u00f3rico e pol\u00edtico, exige reformular os pr\u00f3prios conceitos que organizam a escuta. Freud escutou o desejo das hist\u00e9ricas num tempo em que esse desejo n\u00e3o tinha lugar na cultura. Hoje, somos convocados a escutar outras formas de desejo e subjetiva\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o t\u00eam nome, ou que foram nomeadas apenas como desvio.<\/p>\n<p><strong>Relev\u00e2ncia do encontro para a forma\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>A Aula Aberta com Silvia Alonso foi, sem d\u00favida, um marco na hist\u00f3ria recente do curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea e do Departamento de Psican\u00e1lise como um todo. O evento reafirmou o compromisso da institui\u00e7\u00e3o com uma psican\u00e1lise viva, aberta ao tempo presente, capaz de dialogar com os impasses contempor\u00e2neos sem perder sua especificidade cl\u00ednica e conceitual.<\/p>\n<p>Mais do que um evento pontual, essa aula inscreve-se em um movimento de amplia\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica e institucional da psican\u00e1lise no Brasil, e expressa o desejo de muitos analistas por uma escuta que n\u00e3o apenas reconhe\u00e7a as diferen\u00e7as, mas que as sustente como operadores do pensamento.<\/p>\n<p>Vale assistir \u00e0 grava\u00e7\u00e3o da aula no canal do Departamento de Psican\u00e1lise no YouTube: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VXT3ewRZgzM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VXT3ewRZgzM<\/a><\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professor no curso Psicopatologia Psicanal\u00edtica e Cl\u00ednica Contempor\u00e2nea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em aula aberta pelo curso de Psicopatologia, Silvia Alonso aponta o caminho de uma psican\u00e1lise viva. Um relato de Marcelo Soares da Cruz.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[131,325,52],"edicao":[317],"autor":[123],"class_list":["post-3745","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-feminino","tag-feminismos","tag-psicopatologia-psicanalitica","edicao-boletim-75","autor-marcelo-soares-da-cruz","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3745","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3745"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3745\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3746,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3745\/revisions\/3746"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3745"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3745"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3745"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3745"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3745"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}