{"id":3747,"date":"2025-06-13T17:35:36","date_gmt":"2025-06-13T20:35:36","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3747"},"modified":"2025-06-13T17:35:58","modified_gmt":"2025-06-13T20:35:58","slug":"entre-o-sujeito-de-direito-e-o-sujeito-do-desejo-por-uma-clinica-implicada-no-contexto-do-acolhimento-institucional-de-criancas-e-adolescentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/06\/13\/entre-o-sujeito-de-direito-e-o-sujeito-do-desejo-por-uma-clinica-implicada-no-contexto-do-acolhimento-institucional-de-criancas-e-adolescentes\/","title":{"rendered":"Entre o sujeito de direito e o sujeito do desejo: por uma cl\u00ednica implicada no contexto do acolhimento institucional de crian\u00e7as e adolescentes"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Entre o sujeito de direito e o sujeito do desejo: por uma cl<\/strong><strong>\u00ed<\/strong><strong>nica implicada no contexto do acolhimento institucional de crian<\/strong><strong>\u00e7<\/strong><strong>as e adolescentes<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ana Raquel Bueno Moraes Ribeiro<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pr<\/strong><strong>\u00f3<\/strong><strong>logo<\/strong><\/p>\n<p>O que pode a psican\u00e1lise na comunidade, diante de viol\u00eancias e do desamparo social? Quando o psicanalista oferece sua escuta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es sociais cr\u00edticas, em institui\u00e7\u00f5es da assist\u00eancia, de educa\u00e7\u00e3o ou da sa\u00fade, ele \u00e9 confrontado com problem\u00e1ticas diversas do universo cl\u00e1ssico do consult\u00f3rio particular. Nesse contexto, a dimens\u00e3o sociopol\u00edtica do sofrimento se faz presente e produz novos interrogantes sobre como seriam dispositivos cl\u00ednicos capazes de escutar o sujeito, em meio ao emaranhado de quest\u00f5es institucionais, sociais e pol\u00edticas. O presente trabalho discute impasses e caminhos poss\u00edveis no atendimento psicoterap\u00eautico de crian\u00e7as e adolescentes em acolhimento institucional.<\/p>\n<p><strong>Diante do sujeito de direito, em busca do sujeito do desejo<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 pouco mais de dez anos, em 2014, aceitei o desafio de coordenar um programa de atendimento psicoterap\u00eautico para crian\u00e7as e adolescentes acolhidos institucionalmente. Trata-se de uma popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de extremo desamparo social. O Acolhimento \u00e9 uma medida de prote\u00e7\u00e3o do Estado prevista no ECA \u2013 Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente, para a faixa et\u00e1ria de 0 a 18 anos, quando h\u00e1 risco ou a efetiva viola\u00e7\u00e3o de seus direitos. A medida afeta pais e m\u00e3es que, em sua maioria, desejam criar seus filhos, mas que enfrentam recorrentes viola\u00e7\u00f5es de direitos fundamentais \u00e0 pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia e \u00e0 garantia de condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para o cuidado de uma crian\u00e7a ou adolescente. Sem suporte comunit\u00e1rio e familiar para apoi\u00e1-los nessa tarefa, a rede socioassistencial que acompanha essas pessoas solicita judicialmente o acolhimento das crian\u00e7as ou adolescentes em uma institui\u00e7\u00e3o. O Acolhimento \u00e9 uma medida de prote\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter excepcional e provis\u00f3rio, que visa a garantir, entre tantos direitos, a sa\u00fade f\u00edsica e mental desses meninos e meninas.<\/p>\n<p>O acolhimento institucional deixa evidente o t\u00eanue limite entre a viola\u00e7\u00e3o e a garantia de direitos dessa medida de Estado, dado que o afastamento de crian\u00e7as e adolescentes de suas fam\u00edlias, na busca pela garantia, viola em algum grau o direito \u00e0 conviv\u00eancia familiar e comunit\u00e1ria, implicando lutos e perdas de v\u00e1rias ordens.<\/p>\n<p>A pobreza n\u00e3o configura um motivo de acolhimento, nem justifica o afastamento de uma crian\u00e7a de sua fam\u00edlia, mas esse \u00e9 o recorte socioecon\u00f4mico da popula\u00e7\u00e3o acolhida. N\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7as e adolescentes de fam\u00edlias ricas em abrigos, ainda que riqueza material n\u00e3o configure garantia de prote\u00e7\u00e3o e cuidado. Em fun\u00e7\u00e3o da interseccionalidade<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> dos marcadores sociais, tamb\u00e9m h\u00e1 um perfil \u00e9tnico-racial predominante entre os acolhidos. Crian\u00e7as e adolescentes pretos ou pardos s\u00e3o maioria nos servi\u00e7os de acolhimento, somando 64,3% no Brasil e chegando a 70% na regi\u00e3o sudeste (Sistema Nacional de Ado\u00e7\u00e3o, 2020). Essa \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o que sofre com a desigualdade e diariamente \u00e9 vitimada pela exclus\u00e3o social e por viol\u00eancias de v\u00e1rias ordens. Dar voz e escuta a esses meninos e meninas \u00e9 uma prioridade na prote\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia e da juventude brasileira.<\/p>\n<p>O Instituto Fazendo Hist\u00f3ria \u00e9 uma OSC<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> que desde 2005 atua nesse contexto, elegendo o direito ao acesso \u00e0 hist\u00f3ria de vida como elemento central na elabora\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o afetiva dessas viv\u00eancias. Ao longo de vinte anos, o Com Tato, programa integrante do IFH, acompanhou centenas de crian\u00e7as e adolescentes em psicoterapia. O programa \u00e9 composto por psic\u00f3logos volunt\u00e1rios que atendem em seus consult\u00f3rios particulares. O atendimento \u00e9 gratuito e segue pelo tempo que for necess\u00e1rio, podendo continuar mesmo que a crian\u00e7a ou o adolescente mude de servi\u00e7o de acolhimento, volte a morar com a fam\u00edlia, seja adotado ou saia do acolhimento pela maioridade. Os atendimentos s\u00e3o acompanhados semanalmente por um supervisor cl\u00ednico experiente, tamb\u00e9m volunt\u00e1rio. Os casos s\u00e3o discutidos junto \u00e0 rede socioassistencial, incluindo psic\u00f3logos e assistentes sociais dos servi\u00e7os de acolhimento e do judici\u00e1rio, al\u00e9m de profissionais da sa\u00fade, das escolas, entre outros.<\/p>\n<p>A oferta da escuta psicanal\u00edtica gratuita n\u00e3o \u00e9 algo novo. O pr\u00f3prio Freud, em 1918, apontou, sob os efeitos da primeira grande guerra, a necessidade de que a psican\u00e1lise estivesse acess\u00edvel a todos. Desde ent\u00e3o, mundo afora, diferentes dispositivos cl\u00ednicos foram e ainda s\u00e3o criados nesse sentido. No Brasil, seguindo o movimento argentino das d\u00e9cadas de 1960-70, as chamadas cl\u00ednicas psicanal\u00edticas p\u00fablicas, sociais ou gratuitas v\u00eam sendo pensadas e praticadas, evidenciando as qualidades transgressoras e subversivas que est\u00e3o nos fundamentos da psican\u00e1lise. De maneira geral, esses dispositivos priorizam o deslocamento do psicanalista e de sua pr\u00e1tica cl\u00ednica para o territ\u00f3rio dos conflitos sociais, como forma de permitir a escuta do sofrimento em sua dimens\u00e3o sociopol\u00edtica e de como contextos de extrema desprote\u00e7\u00e3o social produzem ou aprisionam sujeitos que n\u00e3o chegam aos consult\u00f3rios. Aqui proponho um giro, uma tor\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No contexto do acolhimento institucional, levar uma crian\u00e7a ou adolescente para atendimento em um consult\u00f3rio, fora do servi\u00e7o de acolhimento onde moram, tem uma particularidade central. Desde 1990, o ECA atribuiu \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes o status de sujeito de direito, incluindo o direito \u00e0 conviv\u00eancia familiar e comunit\u00e1ria. Disso decorre que crian\u00e7as e adolescentes acolhidos n\u00e3o podem ser privados de circular pela cidade: estudam na escola do bairro, frequentam a pra\u00e7a, v\u00e3o aos equipamentos de sa\u00fade p\u00fablicos e\/ou privados para atendimento m\u00e9dico ou psicol\u00f3gico, entre outros. Assim, os atendimentos psicoterap\u00eauticos devem acontecer fora das unidades de acolhimento, como forma de ruptura ao modelo asilar vigente at\u00e9 ent\u00e3o nas chamadas institui\u00e7\u00f5es totais. A escolha por ofertar atendimento psicoterap\u00eautico no consult\u00f3rio para a popula\u00e7\u00e3o em acolhimento est\u00e1 pautada pela letra da lei, mas sobretudo consiste em uma escolha \u00e9tica e pol\u00edtica. N\u00e3o sem efeitos.<\/p>\n<p>O atendimento no consult\u00f3rio busca sustentar o lugar de sujeito de direito para crian\u00e7as e adolescentes afastados de suas fam\u00edlias e sob cuidados provis\u00f3rios do Estado. Mas tal dispositivo exige uma posi\u00e7\u00e3o ainda mais atenta do analista, sob risco de silenciar o sujeito do desejo, aquele para quem a escuta psicanal\u00edtica do inconsciente deve mirar.<\/p>\n<p>Ainda que esses meninos e meninas sejam fisicamente levados ao atendimento no consult\u00f3rio, os casos que chegam aos psicanalistas nessa cl\u00ednica s\u00e3o diferentes de pacientes particulares, fundamentalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 face sociopol\u00edtica do sofrimento que os acompanha. Tal como migrantes ou refugiados que se veem obrigados a deixar seu pa\u00eds, essas crian\u00e7as e adolescentes, afastados da fam\u00edlia, perdem seus v\u00ednculos afetivos, culturais e muitas vezes territoriais. De repente, s\u00e3o lan\u00e7ados a uma condi\u00e7\u00e3o de estrangeiridade, desgarrados de suas refer\u00eancias e hist\u00f3ria. Frequentemente, n\u00e3o se apresenta uma demanda de interven\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, ou mesmo psicol\u00f3gica, enquanto gritam demandas objetivas voltadas, em geral, para car\u00eancias materiais e urg\u00eancias de diferentes ordens. Al\u00e9m disso, essas crian\u00e7as e adolescentes, confrontados com viol\u00eancias, por vezes apresentam um excesso de consist\u00eancia do acontecimento a que foram submetidos, a ponto de impedir o recalque, o esquecimento necess\u00e1rio \u00e0 separa\u00e7\u00e3o e aos processos de luto.<\/p>\n<p>Nesse contexto, ainda que fora da condescend\u00eancia filantr\u00f3pica, uma psican\u00e1lise historicamente amalgamada ao consult\u00f3rio\/div\u00e3 e \u00e0 l\u00f3gica de um roteiro t\u00e9cnico orientado \u00e0 escuta do sintoma pode produzir um efeito iatrog\u00eanico \u00e0s pessoas em desamparo social. E foi justamente nesse sentido que dispositivos cl\u00ednicos sociais foram configurados a partir do deslocamento do psicanalista para o territ\u00f3rio &#8211; um deslocamento como ato anal\u00edtico. Depois de d\u00e9cadas desse fazer, podemos pensar como uma escuta psicanal\u00edtica implicada no sofrimento sociopol\u00edtico pode ser feita mesmo entre quatro paredes de uma sala de atendimento. A quest\u00e3o que se apresenta \u00e9 que, para al\u00e9m do espa\u00e7o f\u00edsico, \u00e9 o lugar simb\u00f3lico ocupado pelo psicanalista que est\u00e1 em jogo na cena anal\u00edtica. N\u00e3o se trata de uma posi\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica qualquer, mas especificamente engendrada na produ\u00e7\u00e3o da desigualdade e da qual a maioria dos psicanalistas usufrui, especialmente em uma rede formada de volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>Acompanhando Lacan (1955\/2010), entendemos que a resist\u00eancia \u00e9 sempre do analista, quando ele n\u00e3o entende o lugar que ocupa e com o que ele tem que lidar. No contexto de extrema desprote\u00e7\u00e3o social, tal resist\u00eancia pode tornar-se um impeditivo \u00e0 escuta cl\u00ednica e pode se revelar na responsabiliza\u00e7\u00e3o ou na vitimiza\u00e7\u00e3o do sujeito frente \u00e0s mis\u00e9rias e viol\u00eancias, dificultando seu reconhecimento como desejante.<\/p>\n<p>Tomar o outro degradado no discurso social como um sujeito do desejo, em extremo sofrimento por conting\u00eancias geradas pela ordem social da qual o psicanalista usufrui \u00e9 \u201clevantar o recalque que promove a dist\u00e2ncia social e permite-nos conviver, alegres, surdos, indiferentes ou paranoicos, com o outro miser\u00e1vel. Nessas situa\u00e7\u00f5es, a escuta sup\u00f5e romper o pacto de sil\u00eancio do grupo social a que pertencemos e do qual usufru\u00edmos\u201d (Rosa, 2023, p. 48). Manter a possibilidade de escuta anal\u00edtica, transgressora em rela\u00e7\u00e3o aos fundamentos da organiza\u00e7\u00e3o social implica romper com um tipo de la\u00e7o que evita o confronto entre \u201co conhecimento da situa\u00e7\u00e3o social e o saber do outro como um sujeito desejante\u201d (Rosa, 2023, p. 50). E isso pode (ou n\u00e3o) ocorrer na rua, na pra\u00e7a e, qui\u00e7\u00e1 num consult\u00f3rio particular.<\/p>\n<p>Ao longo de dez anos como coordenadora do Com Tato, acompanhei o manejo de situa\u00e7\u00f5es complexas envolvendo a (im)possibilidade de escuta de sujeitos atravessados pela medida de acolhimento institucional. Nessas situa\u00e7\u00f5es, a virada (sempre que houve) se deu a partir da mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o do analista, em diferentes estrat\u00e9gias de n\u00e3o recuo diante do impasse do jogo imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico que se interpunha na escuta. Acompanhei impasses que fizeram terapeutas revisitarem sua trajet\u00f3ria profissional a partir do mal-estar do encontro com o (in)familiar, o <em>unheimlich<\/em>, dos \u201cabjetos\u201d. Um mal-estar enraizado em conflitos gerados no e pelo la\u00e7o social, o qual exige manejo para n\u00e3o recair sobre os sujeitos, individualizando seu sofrimento, patologizando ou criminalizando suas sa\u00eddas.<\/p>\n<p>Acompanhei casos como o da adolescente que chegou para atendimento a pedido da institui\u00e7\u00e3o: \u201cela \u00e9 briguenta e agressiva. Bateu numa menina na escola, quase foi expulsa. No abrigo quebrou a casa toda num ataque de f\u00faria\u201d. Levada ao consult\u00f3rio, a jovem ficou na sala de espera encolhida sob o capuz. O olhar fixo no ch\u00e3o evidenciava o desconforto de estar ali. As primeiras sess\u00f5es foram de longos sil\u00eancios, a despeito dos convites da analista para a conversa. Depois de semanas, entre o sil\u00eancio e algumas faltas, a adolescente foi surpreendida com a proposta da analista de sair para a rua. Assim as sess\u00f5es passaram a acontecer andando pelo bairro do consult\u00f3rio. A adolescente levantou seu olhar e com o rosto j\u00e1 fora do capuz, p\u00f4de nomear o estranhamento: \u201caqui \u00e9 tudo diferente&#8230;\u201d. Fez-se um primeiro significante para nomear o (des)encontro entre analista\/ analisante, entre os lugares opostos ocupados pela dupla, inclus\u00e3o e exclus\u00e3o lado a lado, frente a frente. A partir da\u00ed, aos poucos, construiu-se um dizer sobre a dificuldade de se localizar no mundo, do n\u00e3o lugar, dos efeitos de desenraizamento e desterritorializa\u00e7\u00e3o vividos pela jovem at\u00e9 ali. J\u00e1 n\u00e3o era mais necess\u00e1rio estar na rua para que as sess\u00f5es acontecessem e o \u201cimposs\u00edvel de habitar\u201d se esvaziou de sentidos aprisionantes. A jovem p\u00f4de n\u00e3o apenas ocupar o consult\u00f3rio, mas se ocupar de si mesma. Retornou \u00e0 escola e de \u201cbriguenta\u201d passou a \u201clutadora\u201d, no sonho por ocupar outros espa\u00e7os, antes proibidos: \u201cquero ser advogada para <em>lutar<\/em> pelos direitos das crian\u00e7as e adolescentes acolhidos\u201d. Para al\u00e9m do deslocamento f\u00edsico da analista, o deslocamento simb\u00f3lico e de abertura da escuta permitiu o deslizamento meton\u00edmico do significante.<\/p>\n<p>Em outro momento, acompanhei o impasse emblem\u00e1tico da terapeuta que recebeu em seu consult\u00f3rio um adolescente encaminhado pelo programa. Foram apenas 3 sess\u00f5es para que ela, constrangida, reconhecesse sua impossibilidade de escuta. Assustou-se com o tamanho do jovem: \u201cn\u00e3o era um adolescente, era um homem\u201d, diria depois. Assustou-se com o fato de que ele trouxe um amigo para a segunda sess\u00e3o. Assustou-se com a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia, enraizada na criminalidade. Assustou-se, muito e derradeiramente, quando ele mostrou em v\u00eddeo uma cena real de \u201ccrueldade expl\u00edcita demais\u201d. Assustada, silenciou. Para a terapeuta, por mais que reconhecesse conscientemente o imagin\u00e1rio da situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havia mais ali um sujeito a ser escutado, apenas uma amea\u00e7a. \u201cCrime\u201d n\u00e3o era para ela mais um significante que atravessava a conflitiva do adolescente, mas seu lugar identit\u00e1rio. Foi necess\u00e1ria uma delicada reconstru\u00e7\u00e3o do encaminhamento para outra psicanalista com possibilidade de escutar o que ele dizia do seu conflito entre viver (crime como \u00fanica sa\u00edda para seguir sonhando) e morrer (como efeito perverso do assujeitamento a esse caminho). O adolescente aceitou seguir em atendimento com a segunda analista, produzindo quest\u00f5es, a partir das tens\u00f5es que o atravessam na sua hist\u00f3ria. A primeira analista tamb\u00e9m seguiu no programa, n\u00e3o sem interrogantes e deslocamentos, n\u00e3o mais a mesma nesta e em qualquer outra cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio, dor e falta de demanda est\u00e3o no cotidiano dessa cl\u00ednica. Mas n\u00e3o somente. H\u00e1 uma pot\u00eancia nesses meninos e meninas a ser escutada. A interven\u00e7\u00e3o do psicanalista est\u00e1 justamente em barrar o gozo do discurso do Outro sem furo que cola o sujeito a uma posi\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria que o silencia. Para isso, cabe ao psicanalista \u201cabrir m\u00e3o da ilus\u00e3o e do gozo de usufruir acriticamente da cultura recebida, supondo (e sustentando) a falsa ideia de que ela garante a prote\u00e7\u00e3o de todos\u201d (Rosa <em>et alli<\/em>, 2017).<\/p>\n<p>Nesse sentido, a posi\u00e7\u00e3o do psicanalista deve abrir espa\u00e7o para a restitui\u00e7\u00e3o de um campo m\u00ednimo de significantes para que o sujeito possa se dizer. Uma pr\u00e1tica psicanal\u00edtica implicada que exige interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o convencionais, na rua, na pra\u00e7a ou mesmo no div\u00e3, a partir do encontro que permita ao sujeito a constru\u00e7\u00e3o de um lugar discursivo em uma posi\u00e7\u00e3o de fala. Uma delicada tessitura de uma poss\u00edvel trama ficcional para fazer frente, como rede protetiva, \u00e0 t\u00e3o dif\u00edcil presen\u00e7a do real.<\/p>\n<p><strong>Momento de concluir&#8230; ou um pouco do que trouxe comigo <\/strong><\/p>\n<p>Recebi com alegria o convite para participar da Jornada da ASAPPIA \u201cInf\u00e2ncias e adolesc\u00eancias em tempos de crueldade\u201d, especialmente pela oportunidade de compartilhar reflex\u00f5es que temos desenvolvido no grupo de trabalho Fam\u00edlias no s\u00e9culo XXI e no pr\u00f3prio Departamento de Psican\u00e1lise do Sedes. Estar com pares para fazer circular nossas pr\u00e1ticas de <em>pensa-dores<\/em> \u00e9, em geral, gratificante e dessa vez n\u00e3o foi diferente. Em particular, me pareceu importante compartilhar aqui al\u00e9m do que levei, um pouco do que trouxe de l\u00e1, do que ouvi dos colegas argentinos, peruanos e chilenos.<\/p>\n<p>Enquanto estava preparando minha fala para o evento, considerei que encontraria interlocutores por mim desconhecidos, mas que compartilhavam um fazer cl\u00ednico psicanal\u00edtico na comunidade, em contextos de viol\u00eancias e desprote\u00e7\u00e3o social. Dois pensamentos me acompanharam. Por um lado, talvez fosse b\u00e1sico demais propor para profissionais desse tipo de trabalho pensar os atravessamentos de marcadores sociais no lugar do psicanalista em seu fazer cl\u00ednico. Por outro, suspeitei que n\u00e3o seria muito popular fazer furo no pacto da branquitude para um grupo de pessoas brancas. Por fim, encontrei uma audi\u00eancia gentil e atenciosa, que me acompanhou mesmo em l\u00edngua estrangeira, expressando interesse e inquieta\u00e7\u00e3o. Aquilo que poderia levantar resist\u00eancias, ao final, provocou falas fortes e importantes. Jovens analistas, que se nomearam perif\u00e9ricos, relataram surpresa e alegria em ouvir algo incomum nos espa\u00e7os psicanal\u00edticos. Tamb\u00e9m foi ressaltada a necessidade de resgatar autores argentinos, criadores de movimentos das chamadas cl\u00ednicas sociais e p\u00fablicas, silenciados nos longos anos de ditadura argentina. Mas foi o sil\u00eancio reflexivo que pareceu dar not\u00edcias do encontro com o (in)familiar, inc\u00f4modo nosso de cada dia. Algo que me d\u00e1 esperan\u00e7a de que possamos seguir esses di\u00e1logos necess\u00e1rios e urgentes, por l\u00e1 e, especialmente, por aqui tamb\u00e9m. Sigamos!!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer<\/strong><strong>\u00ea<\/strong><strong>ncias Bibliogr<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>ficas<\/strong><\/p>\n<p>AKOTIRENE, Carla. <em>Interseccionalidade.<\/em> S\u00e3o Paulo: Editora Janda\u00edra, 2020. 152p.<\/p>\n<p>LACAN, Jacques (1955). O desejo, a vida e a morte. In: <em>O Semin<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rio Livro 2 <\/em><em>\u2013 <\/em><em>O eu na teoria de Freud e na t<\/em><em>\u00e9<\/em><em>cnica da psican<\/em><em>\u00e1<\/em><em>lise.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar, 2010. pp. 299-317.<\/p>\n<p>ROSA, Miriam Debieux. <em>A cl<\/em><em>\u00ed<\/em><em>nica psicanal<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica em face da dimens<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o sociopol<\/em><em>\u00ed<\/em><em>tica do sofrimento.<\/em> S\u00e3o Paulo: Escuta\/Fapesp, 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2023. 197p.<\/p>\n<p>ROSA, Miriam Debieux; EST\u00caV\u00c3O, Ivan Ramos; BRAGA, Ana Paula Musatti (2017) Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica Implicada: Conex\u00f5es com a cultura, a sociedade e a pol\u00edtica. <em>Psicologia em Estudo<\/em>, v. 22, p. 359-369.<\/p>\n<p>Sistema Nacional de Ado\u00e7\u00e3o (2020) Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/paineisanalytics.cnj.jus.br\/single\/?appid=ccd72056-8999-4434-b913-f74b5b5b31a2&amp;sheet=e78bd80b-d486-4c4e-ad8a-736269930c6b&amp;lang=pt-BR&amp;opt=ctxmenu,currsel&amp;select=clearall\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/paineisanalytics.cnj.jus.br\/single\/?appid=ccd72056-8999-4434-b913-f74b5b5b31a2&amp;sheet=e78bd80b-d486-4c4e-ad8a-736269930c6b&amp;lang=pt-BR&amp;opt=ctxmenu,currsel&amp;select=clearall<\/a><\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto apresentado em 29\/03\/25 na Jornada 2025 da ASAPPIA &#8211; Associa\u00e7\u00e3o Argentina de Psiquiatria e Psicologia da Inf\u00e2ncia e da Adolesc\u00eancia: \u201cInfancias y Adolescencias em Tiempos de Crueldades\u201d em Buenos Aires, Argentina, a convite da FLAPPSIP \u2013 Federaci\u00f3n Latinoamericana de Asociaciones de Psicoterapia Psicoanal\u00edtica e Psicoan\u00e1lisis.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> O conceito de interseccionalidade foi cunhado pela intelectual afroestadunidense Kimberl\u00e9 Crenshaw e \u201cvisa dar instrumentalidade te\u00f3rico-metodol\u00f3gica \u00e0 inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado \u2013 produtores de avenidas identit\u00e1rias em que mulheres negras s\u00e3o repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe, modernos aparatos coloniais\u201d (Akotirene, 2020, p. 19).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Organiza\u00e7\u00e3o da Sociedade Civil &#8211; entidade privada, sem fins lucrativos, que desenvolve atividades de interesse p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um relato de Ana Raquel Ribeiro sobre sua experi\u00eancia institucional e cl\u00ednica.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[49,154],"edicao":[317],"autor":[326],"class_list":["post-3747","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao","tag-flappsip","tag-psicanalise-com-criancas","edicao-boletim-75","autor-ana-raquel-ribeiro","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3747","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3747"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3747\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3749,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3747\/revisions\/3749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3747"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3747"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3747"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3747"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3747"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}