{"id":3750,"date":"2025-06-13T17:39:34","date_gmt":"2025-06-13T20:39:34","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3750"},"modified":"2025-06-13T17:39:34","modified_gmt":"2025-06-13T20:39:34","slug":"adolescencia-construimos-um-frankenstein","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/06\/13\/adolescencia-construimos-um-frankenstein\/","title":{"rendered":"Adolesc\u00eancia: constru\u00edmos um Frankenstein?"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Adolesc\u00eancia: constru\u00ed<\/strong><strong>mos um Frankenstein?<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tiago Corbisier Matheus<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muito tem se falado e escrito sobre a s\u00e9rie de quatro cap\u00edtulos (viva a objetividade!) <em>Adolesc\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>, dirigida por Philip Barantini. Com propriedade, trata de um tema sens\u00edvel em nossa cultura, que \u00e9 a perspectiva de futuro que cultivamos para n\u00f3s, para os nossos, fam\u00edlia e sociedade. Este \u00e9 o lugar que atribu\u00edmos \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es e seus sujeitos adolescentes, portadores que s\u00e3o de nossas expectativas de futuro, seja no receio de agruras que amea\u00e7am, seja na esperan\u00e7a de mudan\u00e7a daquilo que inquieta e incomoda. Num mundo disruptivo como o nosso, marcado pelo incremento da desigualdade social, pela polariza\u00e7\u00e3o e acirramento de disputas pol\u00edticas, pela desconstru\u00e7\u00e3o de utopias longamente cultivadas, percebemos o esvaziamento dos ideais coletivamente compartilhados no meio social e a fragiliza\u00e7\u00e3o dos dispositivos mediadores da vida em sociedade, intensificando as experi\u00eancias de desamparo e desesperan\u00e7a que nos acompanham. O que nos resta como esperan\u00e7a tende a ficar sobrecarregado.<\/p>\n<p>O universo familiar tem funcionado como reduto neste cen\u00e1rio de desesperan\u00e7a generalizada, como uma bolha capaz de subsistir \u00e0 revelia e fazer frente \u00e0s adversidades do campo social ampliado, pautadas como t\u00eam sido por conflitos disruptivos e exclus\u00e3o. Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 de hoje que a institui\u00e7\u00e3o familiar cumpre tal fun\u00e7\u00e3o, bem como n\u00e3o \u00e9 nova a cr\u00edtica que se faz deste arranjo e de suas consequ\u00eancias. Sabemos que tal polariza\u00e7\u00e3o entre amea\u00e7a e esperan\u00e7a resultam numa vis\u00e3o manique\u00edsta do mundo (<em>o bem est\u00e1 aqui e o mal est\u00e1 <\/em><em>fora, no entorno a ser evitado<\/em>), fomentando segrega\u00e7\u00e3o e hostilidade, bem como o cultivo de valores hier\u00e1rquicos mis\u00f3ginos e tradicionalistas, que visam a conservar a desigualdade da estrutura social vigente e seus dispositivos de poder (<em>que o bem seja glorificado e o mal, destru\u00eddo<\/em>).<\/p>\n<p>Assim, a institui\u00e7\u00e3o fam\u00edlia funciona hoje, para muitos, como um feudo, uma inst\u00e2ncia imagin\u00e1ria em torno da qual cada sujeito sonha reescrever sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, a fim de superar as marcas de dor que carrega. Todos vivemos excessos ou insufici\u00eancias, mas estes tendem a adquirir uma significa\u00e7\u00e3o mais aguda num contexto social adverso, sobrecarregando a nova gera\u00e7\u00e3o, que \u00e9 tomada como alvo das proje\u00e7\u00f5es de um futuro melhor \u2013 <em>meu filho, meu mundo<\/em>.<\/p>\n<p>Entre os demais personagens abordados na s\u00e9rie, temos outra institui\u00e7\u00e3o c\u00famplice da primeira e que h\u00e1 d\u00e9cadas vem servindo como alicerce para este projeto de forma\u00e7\u00e3o dos novos membros (das fam\u00edlias e das sociedades). Esta segunda tem sido alvo de intensos e ambivalentes investimentos, tanto no cultivo de utopias de um mundo melhor, quanto em sua desqualifica\u00e7\u00e3o, sendo responsabilizada pelo <em>fracasso<\/em> deste projeto (<em>os jovens de hoje est\u00e3o perdidos!<\/em>). H\u00e1 muito a escola ocupa um lugar estrat\u00e9gico n\u00e3o somente na forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em favor da amplia\u00e7\u00e3o do repert\u00f3rio simb\u00f3lico da nova gera\u00e7\u00e3o, que ent\u00e3o pode ter acesso \u00e0s aquisi\u00e7\u00f5es de saber alcan\u00e7adas pelas demais gera\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m tem sido um lugar privilegiado para a socializa\u00e7\u00e3o juvenil. Com o esvaziamento do espa\u00e7o da rua como lugar de encontro, ela se tornou o local onde costumam se formar os grupos de pares entre jovens que, em suas ambival\u00eancias e intensidades pulsionais, servem de apoio para o exerc\u00edcio de rela\u00e7\u00f5es horizontais (em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia) e para a constru\u00e7\u00e3o da t\u00e3o almejada autonomia (reconhecer-se como sujeito de direito e de desejo). A escola, quando se presta a tanto, funciona como palco da negocia\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre gera\u00e7\u00f5es, oferecendo espa\u00e7o para o protagonismo juvenil construir suas subculturas \u2013 conforme seus recortes raciais, de g\u00eanero ou ideol\u00f3gicos \u2013 como rea\u00e7\u00e3o \u00e0s demais gera\u00e7\u00f5es, que pretendem direcionar a bagagem e a conduta da mais jovem.<\/p>\n<p>Logo, a escola \u00e9 tomada pela institui\u00e7\u00e3o familiar como bra\u00e7o direito, sendo responsabilizada pela efetiva\u00e7\u00e3o de seu ideal formador. A escola \u00e9 cobrada (e, no caso das escolas particulares, tamb\u00e9m cobra) por isso. Ocorre que a pr\u00f3pria escola tamb\u00e9m tem sido idealizada nesta fun\u00e7\u00e3o, como se fosse capaz, ela pr\u00f3pria, de responder pelos valores, comportamentos e ideais juvenis; como se fosse capaz de, sozinha, realizar a utopia da modernidade, na qual o humano seria o pr\u00f3prio gestor de sua realidade social e autor deliberado de seu destino.<\/p>\n<p>Finalmente, o terceiro personagem retratado \u00e9 mais recente, mas n\u00e3o menos destacado, pois invadiu de modo avassalador e irrevers\u00edvel cora\u00e7\u00f5es e mentes n\u00e3o s\u00f3 do mundo juvenil, subvertendo boa parte de tudo o que no universo familiar ou escolar vem h\u00e1 muito sendo cultivado. As ditas <em>redes sociais<\/em> (nome curioso dado para as redes de rela\u00e7\u00f5es virtuais, como se estas definissem a realidade social efetiva de cada pessoa e seu entorno) surgem, hoje, como algoz produtor de tantos sintomas sociais, colocando as duas institui\u00e7\u00f5es, fam\u00edlia e escola, em xeque.<\/p>\n<p>As <em>redes sociais<\/em> s\u00e3o fruto de constru\u00e7\u00f5es coletivas, oriundas de esfor\u00e7os compartilhados na produ\u00e7\u00e3o de tecnologias que vieram atender anseios presentes em um mundo cada vez mais acelerado e urbanizado. Convergiram de interesses de diferentes ordens e segmentos, compondo assim um universo e um ferramental que passaram a interferir tamb\u00e9m nas aspira\u00e7\u00f5es presentes entre seus tantos usu\u00e1rios, seja cultivando imagens narc\u00edsicas de sucesso e realiza\u00e7\u00e3o pessoal, seja viabilizando uma intera\u00e7\u00e3o que se sup\u00f5e mais preservada da viol\u00eancia urbana ou do risco do contato direto entre pessoas, pr\u00f3prio da vida cotidiana de cada sujeito. A possibilidade de definir um perfil social pr\u00f3prio, despido de feridas e marcas indesejadas, para se lan\u00e7ar no meio social, tornou-se sedutora. O retorno do recalcado, em contrapartida, tem sua perspic\u00e1cia e percorre caminhos diversos, de modo que o que pode ser negado ou evitado no mundo virtual, acaba surgindo de modo adverso, como estranhamento, disfun\u00e7\u00e3o, discord\u00e2ncia ou fantasma, tal como a s\u00e9rie nos faz ver.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie <em>Adolesc\u00ea<\/em><em>ncia<\/em>, como met\u00e1fora bem constru\u00edda, permite v\u00e1rios recortes e questionamentos, o que percebemos nas distintas an\u00e1lises que t\u00eam sido feitas a seu respeito. Destaco aqui a ang\u00fastia que ela nos provoca quando exp\u00f5e a fal\u00eancia do nosso ideal de futuro, ao trazer a imagem de um jovem rec\u00e9m ingresso na puberdade, aparentemente amado e bem tratado, oriundo de uma singela e dedicada fam\u00edlia de classe m\u00e9dia inglesa, que \u00e9 ent\u00e3o apontado como autor de um ato de viol\u00eancia extrema \u2013 ao ultrapassar o impens\u00e1vel tabu <em>n\u00e3o matar\u00e1s<\/em>. Somos fisgados na provoca\u00e7\u00e3o e nos perguntamos: aonde foi que erramos? O que ter\u00edamos feito ou deixado de fazer para que tanto zelo e empenho possam ter assim culminado numa cena de horror? A falta de resposta faz eco, suscitando culpa, pesar e medo. A escola, como bra\u00e7o da fam\u00edlia, surge como c\u00famplice respons\u00e1vel pela derrocada, n\u00e3o sendo capaz de bem conduzir a forma\u00e7\u00e3o dos grupos de pares ali cultivados, n\u00e3o oferecendo refer\u00eancias significativas o suficiente entre educadores e saber produzido, que mediassem as aspira\u00e7\u00f5es juvenis e favorecessem ideais a serem cultivados? Ou teriam sido as redes sociais que, silenciosa e ardilosamente, teriam invadido lares crist\u00e3os, sabotando \u00e0 revelia corpos e mentes?<\/p>\n<p>Tr\u00eas personagens que seriam c\u00famplices na a\u00e7\u00e3o, numa trama que fica exposta sem aviso pr\u00e9vio. Percebe-se, logo, que o assassinato \u00e9 do sonho cultivado na fam\u00edlia m\u00e9dia, de resistir \u00e0s desventuras de um mundo corrompido pela desesperan\u00e7a e viol\u00eancia. Mas como? Por que?<\/p>\n<p>A s\u00e9rie apresenta um pai que evita repetir com o filho a opress\u00e3o que teria sofrido frente a seu pr\u00f3prio pai, um pai dedicado ao projeto de fam\u00edlia e forma\u00e7\u00e3o da prole. Por\u00e9m, tra\u00eddo por suas aspira\u00e7\u00f5es, n\u00e3o consegue evitar dar sinais do seu desapontamento com o filho, quando este se mostra menos h\u00e1bil e afeito aos esportes do que teria fantasiado. Ainda assim, esse pai busca mostrar aceita\u00e7\u00e3o e considera\u00e7\u00e3o para com o gesto extremo do filho, o que n\u00e3o acontece quando \u00e9 provocado pela comunidade do entorno, hostil diante da not\u00edcia que corre ao recriminar a fam\u00edlia pelo ato de viol\u00eancia atribu\u00eddo ao filho. A hostilidade entre vizinhos (narcisismo das pequenas diferen\u00e7as) contribui para o aumento da tens\u00e3o e culpabiliza\u00e7\u00e3o destes pais, que se percebem acusados junto ao filho. Ao ter seu furg\u00e3o, instrumento de trabalho, pichado em fun\u00e7\u00e3o das atitudes do filho, amea\u00e7ado em seu lugar de provedor, esse pai se mostra impulsivo e irasc\u00edvel, fazendo lembrar a atitude do filho no ato extremo. Ainda que n\u00e3o tenha chegado \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias em sua irrita\u00e7\u00e3o, se mostra c\u00famplice da incontin\u00eancia do filho, em sua impulsividade.<\/p>\n<p>O filho teria levado a incontin\u00eancia do pai \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias? Identificar-se-iam em torno da ang\u00fastia de exclus\u00e3o ou desamparo em seus respectivos grupos de pares? Ambos mostram a dificuldade que o universo masculino enfrenta diante da amea\u00e7a do poder patriarcal: o que cabe aos homens se n\u00e3o mais ocupam o lugar de poder na fam\u00edlia ou nas rela\u00e7\u00f5es amorosas?<\/p>\n<p>A escola que a s\u00e9rie nos apresenta surpreende, por um lado, pela estrutura f\u00edsica e espacial de uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica, pouco semelhante \u00e0 nossa realidade local. Mas, por outro lado, ela se mostra prec\u00e1ria quanto \u00e0s pr\u00e1ticas e estrat\u00e9gias pedag\u00f3gicas adotadas. Professores e coordenadores mostram dificuldade de di\u00e1logo com alunos, que por sua vez n\u00e3o escondem sua indisposi\u00e7\u00e3o e rispidez entre pares ou com os adultos. Os educadores, quando confrontados, mostram-se amea\u00e7ados em sua fun\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ando m\u00e3o de atitudes autorit\u00e1rias de distintas modalidades, denunciando assim a fragilidade do projeto escolar. Sinais de descaso e insatisfa\u00e7\u00e3o s\u00e3o dados de parte a parte; o pavio de uns e outros \u00e9 curto, criando um barril de p\u00f3lvora constante. O clima pesado da institui\u00e7\u00e3o mostra que ela est\u00e1 longe do ideal para o qual fora proposta.<\/p>\n<p>Os policiais que investigam o crime cometido surgem como testemunhas do desencontro entre alunos e professores, confirmando suas pr\u00f3prias lembran\u00e7as juvenis a respeito do percurso escolar. Mas eles n\u00e3o est\u00e3o isentos do fosso constatado, pois logo se d\u00e3o conta da dist\u00e2ncia que tamb\u00e9m os separa dos jovens e de seu universo virtual, do qual pouco conhecem, apesar da proximidade f\u00edsica. \u00c9 um mundo marcado por um jogo hostil, estigmatizante e pouco acolhedor, que os separa em <em>winners<\/em> ou <em>loosers<\/em>, sem margem para negocia\u00e7\u00e3o. Se a narrativa em curso do jovem infrator sugere a tentativa de quebra desta dicotomia, indicando assim sua inconformidade e busca de sa\u00edda de uma posi\u00e7\u00e3o dada, o sonho de mudan\u00e7a serve mais para justificar a sedu\u00e7\u00e3o que acompanha a viol\u00eancia deste jogo perigoso, que cultiva entre pares uma hierarquia intransigente e refrat\u00e1ria. Esta \u00e9 a l\u00f3gica que acompanha o mundo paralelo dos jovens retratados na s\u00e9rie, fruto da dedica\u00e7\u00e3o juvenil, que ocorre sob os desavisados olhares parentais. Jogo de exclus\u00e3o e expia\u00e7\u00e3o revalidado no cotidiano escolar, com brincadeiras violentas mais ou menos salientes, mas que, a contar pelo enredo apresentado, n\u00e3o est\u00e3o ao alcance da atua\u00e7\u00e3o de professores e educadores, rendidos em seu lugar de autoridade refrat\u00e1ria e est\u00e9ril.<\/p>\n<p>Somos assim expostos a uma rede de desencontros entre atores que vivem distintas, mas nem t\u00e3o distantes, modalidades de solid\u00e3o, temperadas como s\u00e3o pelo desamparo de sonhos derramados. Como m\u00e9trica deste universo, temos o individualismo contempor\u00e2neo e ide\u00e1rio da meritocracia: a disputa entre pares prevalece ante \u00e0s possibilidades de perten\u00e7a, sustentando como ideal de realiza\u00e7\u00e3o pessoal a aspira\u00e7\u00e3o de ascender ao grupo dominador em detrimento do dominado. Um seleto grupo de jovens eleitos como objeto desejado adquire poder desmedido para os demais, conforme a luta pelo reconhecimento que disputam. A l\u00f3gica meritocr\u00e1tica confere legitimidade \u00e0 viol\u00eancia sofrida: cada um se v\u00ea como respons\u00e1vel pelo pr\u00f3prio sofrimento e pelo lugar ocupado na hierarquia entre pares, conforme as marcas e insufici\u00eancias que pretendia esconder no perfil estabelecido.<\/p>\n<p>O momento da adolesc\u00eancia descreve o dif\u00edcil caminho da constru\u00e7\u00e3o da autonomia de cada jovem (poder agir e falar em nome pr\u00f3prio), no desprendimento da autoridade e refer\u00eancia parental. Depende, para tanto, do amor e da sustenta\u00e7\u00e3o narc\u00edsica recebidos (ter sido objeto de cr\u00e9dito dos pais), bem como da refer\u00eancia simb\u00f3lica da\u00ed decorrente (repert\u00f3rio e ideais herdados e ressignificados). Os tais <em>limites<\/em> incorporados pelo pr\u00f3prio jovem s\u00e3o constru\u00eddos ao longo da trajet\u00f3ria de forma\u00e7\u00e3o desde a primeira inf\u00e2ncia e n\u00e3o como algo pontual a ser inserido unilateralmente pela dupla parental, como exerc\u00edcio de autoridade. A adolesc\u00eancia \u00e9 resultado de uma constru\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria de rela\u00e7\u00f5es e com ela eclodem desafios que j\u00e1 v\u00eam sendo gestados durante algum tempo, at\u00e9 mesmo ao longo de gera\u00e7\u00f5es. O movimento de desprendimento do adolescente convoca os pais a se reverem em suas posi\u00e7\u00f5es e trajet\u00f3rias, mas tal exerc\u00edcio, ainda que essencial, n\u00e3o basta para evitar atitudes disruptivas de adolescentes que vivem a estigmatiza\u00e7\u00e3o e a agress\u00e3o entre seus pares. De fato, os pais s\u00e3o tamb\u00e9m respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o de seus filhos, mas n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos e a bolha familiar n\u00e3o garante o sucesso do projeto ali gestado. Somos seres sociais, j\u00e1 dizia o velho mestre.<\/p>\n<p>A escola, como institui\u00e7\u00e3o privilegiada na forma\u00e7\u00e3o juvenil, \u00e9 chamada a se rever constantemente em suas estrat\u00e9gias, que, inevitavelmente, nunca ser\u00e3o suficientes para contemplar os anseios tanto de pais, quanto da sociedade em geral, na forma\u00e7\u00e3o da nova gera\u00e7\u00e3o. Num contexto social din\u00e2mico e complexo como o nosso, a escola precisar\u00e1 dialogar sempre com o caldo cultural do qual participamos, a fim de escutar, problematizar e propor caminhos para quest\u00f5es que chegam com as novas gera\u00e7\u00f5es. Tal tarefa precisa ser feita coletivamente, junto com os jovens, que anseiam por participa\u00e7\u00e3o social e protagonismo nas realidades das quais participam; jovens querem se tornar sujeitos de suas pr\u00f3prias vidas. As escolas t\u00eam o desafio de permitir a emerg\u00eancia deste protagonismo, escutando o que dizem os jovens e oferecendo caminhos capazes de viabilizar a responsabiliza\u00e7\u00e3o destes pelos ideais almejados.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como sustentar tal proposta se n\u00e3o for coletivamente, numa constru\u00e7\u00e3o entre muitos, quebrando ou reduzindo a contund\u00eancia do individualismo que o ide\u00e1rio meritocr\u00e1tico atual carrega. A escola n\u00e3o ser\u00e1 capaz de realizar tal projeto sozinha, se n\u00e3o tiver interlocu\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o com outros atores sociais, institui\u00e7\u00f5es capazes de participar direta ou indiretamente desta constru\u00e7\u00e3o que nos envolve a todos. A escola depende da porosidade que encontre em tantos atores sociais, como intelectuais, agentes da cultura, profissionais da sa\u00fade, agentes do poder p\u00fablico, da sociedade civil ou mesmo da iniciativa privada, pois o ide\u00e1rio a ser almejado pela nova gera\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto das redes (sempre dissonantes) estabelecidas entre esses atores. \u00c9 da cumplicidade entre esses tantos que se torna poss\u00edvel sustentar a forma\u00e7\u00e3o de cada um como uma constru\u00e7\u00e3o comum.<\/p>\n<p>As redes sociais, por sua vez, precisam de legisla\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, n\u00e3o somente veiculada por pais que monitorem as a\u00e7\u00f5es dos filhos que porventura fiquem fechados em seus quartos. As redes sociais s\u00e3o resultado do conjunto de for\u00e7as sociais envolvidas e direcionadas para aquilo que, direta ou indiretamente, tantas gera\u00e7\u00f5es almejam, que \u00e9 o ide\u00e1rio vigente. Se o individualismo prevalecer no caldo cultural atual, n\u00e3o h\u00e1 como esperar que jovens se contraponham a ele necessariamente, como se fossem eles os respons\u00e1veis pelo que as demais gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o puderam fazer. Jovens reagem \u00e0s quest\u00f5es que pulsam em cada realidade social; s\u00e3o por um lado sintoma destas, mas s\u00e3o tamb\u00e9m sujeitos agentes, que denunciam e problematizam aquilo que as demais gera\u00e7\u00f5es negam ou expiam nos mais novos. N\u00e3o s\u00e3o somente os mais jovens que atualmente perdem refer\u00eancias e s\u00e3o capazes de tantas perversidades nas redes, em favor de suas fantasias narc\u00edsicas, mas s\u00e3o eles que mostram, por vezes, maior inconsequ\u00eancia diante de suas fantasias. Se h\u00e1 perversidade, esta n\u00e3o \u00e9 fruto exclusivo dos jovens e o desafio de sua desmontagem exige o compromisso de todos aqueles que se alienam de seus conflitos e sintomas, expiando-os nos mais jovens.<\/p>\n<p>Precisamos de cada um desses esfor\u00e7os, nestes diferentes planos, mas, sobretudo, precisamos sustentar uma utopia de a\u00e7\u00e3o compartilhada e coletiva em favor de algo al\u00e9m do bem estar individual. \u00c9 preciso buscar a constru\u00e7\u00e3o de uma cultura de bem estar capaz de alcan\u00e7ar uns junto com outros e n\u00e3o de alguns em detrimento de outros. \u00c9 preciso que o ideal de cada um envolva em alguma medida o bem estar do outro, de modo que o ideal n\u00e3o seja ser \u00fanico \u2013 <em>especial<\/em>, <em>prime<\/em> ou <em>diferenciado<\/em> \u2013 pois isso implica que outros n\u00e3o o ser\u00e3o, compondo uma gangorra na qual para algu\u00e9m subir \u00e9 preciso que outro venha a descer. Precisamos atuar coletivamente, em favor de projetos de bem estar coletivos, nos quais as pessoas, jovens e educadores possam se realizar no fr\u00e1gil e constante exerc\u00edcio de alteridade que inclui sempre o outro como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade. Precisamos de uma utopia coletiva para fazer frente ao dogmatismo excludente e alienado de quem assume como projeto a separa\u00e7\u00e3o do mundo entre dualidades, quem \u00e9 <em>do bem<\/em> e quem \u00e9 <em>do mal<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Abril\/2025<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em consistente posicionamento, Tiago Matheus resenha <em>Adolesc\u00eancia<\/em>, a s\u00e9rie, na dire\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de sa\u00eddas coletivas. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[328,56,329],"edicao":[317],"autor":[327],"class_list":["post-3750","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao","tag-adolescencia","tag-educacao","tag-series","edicao-boletim-75","autor-tiago-matheus","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3750","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3750"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3750\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3751,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3750\/revisions\/3751"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3750"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3750"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3750"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3750"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3750"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}