{"id":3752,"date":"2025-06-13T17:52:45","date_gmt":"2025-06-13T20:52:45","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3752"},"modified":"2025-06-13T17:52:45","modified_gmt":"2025-06-13T20:52:45","slug":"sobre-a-queda-do-ceu-e-nossos-paraquedas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/06\/13\/sobre-a-queda-do-ceu-e-nossos-paraquedas\/","title":{"rendered":"Sobre a queda do c\u00e9u e nossos paraquedas"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Sobre a queda do c<\/strong><strong>\u00e9<\/strong><strong>u e nossos paraquedas<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por<\/strong> <strong>Soraia Bento<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>S\u00e3o como formigas. Andam para um lado,<br \/>\n<\/em><em>viram de repente e continuam para outro.<br \/>\n<\/em><em>Olham sempre para o ch<\/em><em>\u00e3o e nunca veem o<br \/>\nc<\/em><em>\u00e9<\/em><em>u.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Davi Kopenawa, <em>Newsweek<\/em>, 29 de abril de 1991,<br \/>\nsobre os habitantes de Nova Iorque<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A convite do Col\u00e9gio Santa Cruz, venho conduzindo Rodas de Conversa com pais de alunos, em um evento anual que visa ao encontro das fam\u00edlias com a escola. A cada ano, um tema \u00e9 escolhido como disparador para o trabalho. A mim, parece que o tema central circunda possibilidades de se fazer comunidade, sob diversas formas. Conforme o texto de divulga\u00e7\u00e3o deste ano, o objetivo \u00e9 conquistar a pot\u00eancia do encontro, do di\u00e1logo e da reflex\u00e3o coletiva. Alguns paraquedas para evitar o enfraquecimento do v\u00ednculo no bin\u00f4mio fam\u00edlia-escola. O objetivo \u00e9 trabalhar as quest\u00f5es que emergem no cotidiano escolar, al\u00e9m de problem\u00e1ticas que inquietam o campo social.<\/p>\n<p>O evento sempre tem in\u00edcio com uma palestra que trata de grandes quest\u00f5es que, posteriormente, s\u00e3o elaboradas a partir de temas mais espec\u00edficos, em grupo menores.<\/p>\n<p>Esses grupos s\u00e3o facilitadores para tem\u00e1ticas pensadas a partir de uma excelente curadoria feita pela dire\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica e orientadores dos ensinos fundamental e m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Nesse ano a palestra de abertura teve como t\u00edtulo; \u201c<em>Por que voc<\/em><em>\u00eas, nap<\/em><em>\u00eb<\/em><em>p<\/em><em>\u00eb<\/em><em>, s\u00e3o tantos, mas vivem sempre fechados em suas casas<\/em>?\u201d <em>Uma conversa sobre tecer redes de cuidado e fazer comunidade.<\/em> A palestrante, Ehuana Yaira Yanomami, \u00e9 uma lideran\u00e7a ind\u00edgena, artista e pesquisadora. \u00c9 uma das organizadoras do Encontro das Mulheres Yanomami e pesquisadora pela Universidade Federal de Minas Gerais no Projeto Redes de Cuidado. \u00c9 uma militante na defesa da Amaz\u00f4nia e na luta contra o garimpo ilegal<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. A antrop\u00f3loga Ana Maria Machado foi uma excelente int\u00e9rprete, considerando o imenso desafio que \u00e9 encontrar termos traduz\u00edveis para duas cosmologias t\u00e3o distintas.<\/p>\n<p>Um palco, em um imenso anfiteatro lotado, teve a psicanalista Ilana Katz como anfitri\u00e3 para esse di\u00e1logo. No in\u00edcio, Katz nos conta que teve a grata oportunidade de receber as duas em sua casa por uma semana. Foram horas intermin\u00e1veis de conversa ao p\u00e9 da mesa, tecendo, com fios diferentes, as tramas que comp\u00f5em cada cultura. Que oportunidade valiosa!<\/p>\n<p>A chegada da Ehuana ao espa\u00e7o da escola demonstrava, em um tom grave, a sua express\u00e3o facial de estranhamento; s\u00f3 ao final ficamos sabendo que ela nunca havia falado para um p\u00fablico grande. Quando o audit\u00f3rio lotado se levantou para aplaudi-la durante minutos, ela nos gratificou com um sorriso t\u00e3o lindo e aberto que deu a impress\u00e3o de saber o que nos tocou profundamente.<\/p>\n<p>Durante o evento n\u00e3o fiz qualquer registro, portanto, esse relato \u00e9 filtrado pelo impacto afetivo e cognitivo que experimentei.<\/p>\n<p>Ehuana come\u00e7ou contando sobre sua experi\u00eancia de perambular pela cidade, numa esp\u00e9cie de \u201cantropologia reversa\u201d e nos confrontou com o seu olhar apurado sobre as atrocidades que nossa desigualdade evidencia na metr\u00f3pole. O \u201coutro\u201d denuncia o que j\u00e1 n\u00e3o vemos com a sensibilidade necess\u00e1ria. Problematizou o conceito de direitos humanos, de dific\u00edlima tradu\u00e7\u00e3o, ao assistir aos incont\u00e1veis humanos espalhados pelas ruas, sem casa, sem calor, sem comida, pedindo ajuda. Falou da sua imensa tristeza ao assistir \u00e0 desigualdade de condi\u00e7\u00f5es materiais que qualifica humanos com direitos e humanos sem direito algum. Se n\u00e3o h\u00e1 direitos iguais, ent\u00e3o, o que temos s\u00e3o privil\u00e9gios muito bem direcionados para um tipo espec\u00edfico de humanos. H\u00e1 vidas que valem e outras que n\u00e3o t\u00eam valor. Enfatizou a import\u00e2ncia que sua comunidade d\u00e1 ao cuidado com quem se encontra em condi\u00e7\u00e3o fragilizada. Sentem-se tristes ao ver semelhantes desiguais \u2026 soa <em>naif<\/em>? N\u00e3o deveria, n\u00e3o \u00e9 mesmo?!<\/p>\n<p>A cidade \u00e9 um territ\u00f3rio criado para \u201chumanos\u201d \u00a0e por humanos que anulam outras formas de existir. Ant\u00f4nio Bispo chama isso de <em>cosmofobia<\/em>. Se alguma natureza resiste ao concreto e asfalto, deve-se inteiramente \u00e0 sua for\u00e7a de resist\u00eancia contra a vontade de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Mora na grande casa que abriga parentes, entre eles, Davi Kopenawa. Cozinham e cuidam de quem precisa. Consideram bom ca\u00e7ador aquele que ca\u00e7a e n\u00e3o come a pr\u00f3pria ca\u00e7a, distribui tudo e depende de um outro bom ca\u00e7ador para fazer o mesmo. N\u00e3o h\u00e1 competitividade, seu prest\u00edgio depende da sua generosidade. N\u00f3s, povo da cidade, nos achamos importantes quando temos propriedades, trabalho, carro e outras toneladas de mercadorias que t\u00eam seu valor na montagem de uma imagem para nos destacar e n\u00e3o na sua utilidade. Os povos origin\u00e1rios sabem-se necess\u00e1rios. Para eles toda forma de vida \u00e9 valiosa e necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Sofri um <em>plot twi<\/em>st na minha cogni\u00e7\u00e3o. Lembro do Prof. Jos\u00e9 Geraldo, na CPI do MST respondendo \u00e0 Deputada Carolina de Toni. Ele usa a met\u00e1fora de Colombo para ilustrar nossa irremediavelmente limitada vis\u00e3o de mundo. No encontro dos ind\u00edgenas com os colonizadores, os primeiros n\u00e3o viram as caravelas porque n\u00e3o havia cogni\u00e7\u00e3o para representar uma imagem incompat\u00edvel com sua cultura. N\u00e3o havia c\u00f3digo lingu\u00edstico para decodificar o sentido do que assistiam. \u201cA gente s\u00f3 v\u00ea o que tem cogni\u00e7\u00e3o para ver: o que a senhora v\u00ea, n\u00e3o \u00e9 o que existe, mas, sim, o que a senhora recorta daquela vis\u00e3o. A realidade \u00e9 recortada por um processo de historiciza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o posso discutir vis\u00e3o de mundo, eu vejo outra coisa que a senhora!\u201d. Essa cena voltou nitidamente \u00e0 minha lembran\u00e7a enquanto ouvia Ehuana nos <em>ver<\/em>. O que ela viu que n\u00e3o p\u00f4de desver e o que n\u00e3o viu porque n\u00e3o sabia ver? Ao mesmo tempo, penso que quem luta contra o garimpo ilegal j\u00e1 viu todo tipo de atrocidades.<\/p>\n<p>Outro ponto alto do evento foi quando Debora Vaz, a diretora pedag\u00f3gica, lembrou da m\u00e1xima que usamos equivocadamente \u00e0 exaust\u00e3o: uma crian\u00e7a precisa de uma aldeia para se desenvolver&#8230; sim, mas Ehuana ensina que tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio criar uma crian\u00e7a para a aldeia, via de m\u00e3o dupla. Entendemos essa vers\u00e3o da forma mais ego\u00edsta que existe, nossa \u201cmajestade, o beb\u00ea\u201d realmente precisa de tanto, tanto&#8230; para seguir majestade. Nem sempre nos atemos ao ser coletivo de forma consistente. Como fazer para que esse sujeito nascente entenda que \u00e9 uma poeira c\u00f3smica sem o seu entorno humano e n\u00e3o humano?<\/p>\n<p>As crian\u00e7as na aldeia ind\u00edgena crescem juntas, aprendendo e ensinando na troca de experi\u00eancias, n\u00e3o h\u00e1 valora\u00e7\u00e3o, h\u00e1 diversidade de pot\u00eancias. Mostrou-nos imagens de brincadeiras e explora\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio, nas quais pequenos e grandes trocam suas vivacidades, sem hierarquia.<\/p>\n<p>Corta; vou ao encontro dos pais que escolheram minha tem\u00e1tica para dialogar. Tracei um roteiro para falar sobre ansiedade e depress\u00e3o na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. O t\u00edtulo que dei para a roda de conversa, \u201cO que ser\u00e1 que me d\u00e1\u201d, extra\u00ed de um verso de Chico Buarque<em>.<\/em><\/p>\n<p>Entrando na escola que mais parece um clube arborizado e espa\u00e7oso, atravessei campos de futebol e bonitas constru\u00e7\u00f5es, quando me deparei com um grafite onde se lia: \u201cO Eu \u00e9 o Outro\u201d. Que bela lembran\u00e7a para casar com a fala da ind\u00edgena Yanomami! N\u00e3o sei o que Eu e Outro significam para seu povo, mas entendi o valor do encontro com a alteridade, com o coletivo, com os sonhos e com outros mundos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right; padding-left: 280px;\"><em>Certa vez, fui questionado por um pesquisador de Cabo Verde: <\/em>\u201c<em>Como podemos contracolonizar falando a l\u00edngua do inimigo?\u201d<\/em><em>. E respondi: <\/em>\u201c<em>Vamos pegar as palavras do inimigo que est\u00e3o potentes e vamos enfraquec\u00ea-las. E vamos pegar as nossas palavras que est\u00e3o enfraquecidas e vamos potencializ\u00e1-las. Por exemplo, se o inimigo adora dizer des-envolvimento, n<\/em><em>\u00f3<\/em><em>s vamos dizer que desconecta&#8230; que a palavra boa <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>envolvimento.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ant\u00f4nio Bispo dos Santos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;O que ser\u00e1 que me d\u00e1\u201d&#8230; diz sobre um arrebatamento, alguma coisa que a gente n\u00e3o controla, que nos atravessa intensamente. \u00c9 alguma coisa que n\u00e3o tem rem\u00e9dio, nem nunca ter\u00e1, que n\u00e3o tem limite; que n\u00e3o tem cansa\u00e7o; que n\u00e3o tem descanso. Como n\u00e3o se sentir desiludido em um mundo \u00e0 beira do colapso?! A poesia fala dessas sensa\u00e7\u00f5es como algo inerente e inevit\u00e1vel, mas sabemos que, para al\u00e9m da dor at\u00e1vica do viver, h\u00e1 experi\u00eancias exacerbadas que nos defrontam com quadros psicopatol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Penso no olhar de outros modos de viver sobre nosso <em>corre<\/em> do dia a dia na grande metr\u00f3pole. Criamos um estilo de vida ansiog\u00eanico e depressor.<\/p>\n<p>Vamos destacar pontos sobre os efeitos, nas novas gera\u00e7\u00f5es, do estabelecimento de um tipo de comunica\u00e7\u00e3o que pode prescindir da presen\u00e7a do outro.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XXI traz, como caracter\u00edstica nova, o uso em larga escala do universo virtual, sitiando as rela\u00e7\u00f5es humanas. H\u00e1 quem pense que est\u00e1 em curso uma esp\u00e9cie de muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica, a partir dos efeitos das rea\u00e7\u00f5es dopamin\u00e9rgicas aos est\u00edmulos eletr\u00f4nicos, no nosso c\u00e9rebro. Mudamos o nosso modo de ser e estar no mundo, permanentemente. A tecnologia sempre despertou fasc\u00ednio e pavor. Nos fascinamos com a inesgot\u00e1vel capacidade humana de contornar obst\u00e1culos e promover avan\u00e7os; nos apavoramos com o risco da obsolesc\u00eancia das nossas capacidades, tamb\u00e9m com a imprevisibilidade das mudan\u00e7as inevit\u00e1veis; basta pensar nas discuss\u00f5es sobre a IA.<\/p>\n<p>Os nascidos entre 1995 e 2012 foram pensados como uma gera\u00e7\u00e3o iGen, h\u00edbrido entre gera\u00e7\u00e3o internet e gera\u00e7\u00e3o do Eu. Esse modo de rela\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da tela, tem como consequ\u00eancia um severo comprometimento na empatia e uma atrofia da sensibilidade. Na contram\u00e3o do bom-senso, Elon Musk, semanas atr\u00e1s declarou: \u201c a fraqueza fundamental da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental \u00e9 a empatia\u201d\u2026 Considera-se algu\u00e9m que pode nos salvar da empatia, porque ela levaria ao suic\u00eddio civilizacional. Para\u00a0 ele, a empatia inviabiliza o coletivo!<\/p>\n<p>Aprendemos a nos relacionar na experi\u00eancia com as trocas humanas, frente a frente, lidando com a rea\u00e7\u00e3o imediata do outro, expressando uma linguagem corporal, decodificando a do outro. Exige negocia\u00e7\u00e3o, temporalidade, conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recentes estudos registram uma piora significativa dos indicadores de depress\u00e3o, ansiedade, transtornos alimentares e automutila\u00e7\u00e3o entre crian\u00e7as e adolescentes, em v\u00e1rios pa\u00edses. Esses n\u00fameros s\u00e3o t\u00e3o alarmantes que quase perdem seu significado quando os ouvimos. Exemplo, cerca de 1.000 crian\u00e7as e adolescentes, entre 10 e 19 anos, cometem suic\u00eddio no Brasil a cada ano. Nos \u00faltimos anos, o n\u00famero de meninas entre 12 e 14 anos com algum tipo de diagn\u00f3stico de transtorno alimentar aumentou mais de 200 por cento.<\/p>\n<p>Por mais absurdos e chocantes que sejam esses n\u00fameros, \u00e0s vezes \u00e9 dif\u00edcil ver uma rea\u00e7\u00e3o proporcional no enfrentamento do problema. A proibi\u00e7\u00e3o dos celulares no per\u00edodo escolar e o adiamento da introdu\u00e7\u00e3o de celular na vida das crian\u00e7as at\u00e9 14 anos, s\u00e3o alguns exemplos recentes de medidas necess\u00e1rias. Achei a s\u00e9rie <em>Adolesc<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia<\/em> extraordin\u00e1ria, porque conseguiu mobilizar ang\u00fastias e busca por ajuda no manejo das intercorr\u00eancias na comunica\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o tinha visto nenhum estudo s\u00e9rio conseguir produzir.<\/p>\n<p>Claro que o sofrimento mental \u00e9 multifatorial: existem causas biol\u00f3gicas, de predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, familiares e sociais associadas, e seria redutor atribuirmos ao uso das redes e celulares com c\u00e2meras a responsabilidade por tudo, mas sim, n\u00e3o se pode negar sua import\u00e2ncia. Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de pensar nostalgicamente no mundo anal\u00f3gico porque esse \u00e9 um caminho sem volta.<\/p>\n<p>Estudos mostram que crian\u00e7as t\u00eam aprendido mais palavras no mundo digital do que com seus familiares. As palavras s\u00e3o c\u00f3digos de comunica\u00e7\u00e3o; nesse sentido, o significado das coisas e das palavras prov\u00e9m da afetividade e da confian\u00e7a. A palavra dita por esses adultos que s\u00e3o respons\u00e1veis pelo cuidado da crian\u00e7a tem voz, tem corpo presente e n\u00e3o pode ser substitu\u00edda por um universo digital descorporificado. \u00c9 sinistro, se pensarmos com aten\u00e7\u00e3o! Protegemos as crian\u00e7as de sa\u00edrem \u00e0s ruas sozinhas, mas deixamos as crian\u00e7as nos becos escuros da <em>Odiol\u00e2<\/em><em>ndia<\/em> (termo cunhado por Gisele Beiguelman, artista visual), que foi o que se tornou o territ\u00f3rio de conex\u00f5es no campo virtual.<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o do Eu se d\u00e1 na presen\u00e7a de um outro que fale conosco atrav\u00e9s de gestos e palavras, ou seja, atrav\u00e9s da linguagem. A voz do adulto respons\u00e1vel pelo cuidado com o beb\u00ea evoca o seu potencial de comunica\u00e7\u00e3o. Esse processo insere esse sujeito nascente em uma ordem simb\u00f3lica. A palavra representa o que est\u00e1 ausente, antes da nossa exist\u00eancia j\u00e1 h\u00e1 um c\u00f3digo de comunica\u00e7\u00e3o compartilhado que nos precede. Ele \u00e9 regido por uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria que n\u00e3o come\u00e7a e nem termina no intervalo da exist\u00eancia individual. Ent\u00e3o, esse adulto que cuida, oferece uma ponte entre o beb\u00ea e o seu entorno. A m\u00e3e desde sempre precisa falar com seu beb\u00ea, mesmo que ele n\u00e3o conhe\u00e7a o sentido das palavras, porque isso \u00e9 um convite a integrar a comunidade. O sentido das coisas depende de rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a e afetividade.<\/p>\n<p>Hoje lidamos todos, crian\u00e7as, jovens e adultos, com muitos medos: a viol\u00eancia cotidiana e das guerras, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas avassaladoras, efeitos da pandemia que deixaram sequelas (perdas cognitivas e motoras nas crian\u00e7as e idosos). Essas incertezas assombram as certezas necess\u00e1rias para uma sustenta\u00e7\u00e3o eg\u00f3ica.<\/p>\n<p>O Eu \u00e9 um \u201ccanteiro de ilus\u00f5es\u201d no dizer de Maria Rita Kehl, constitui-se a partir de sonhos e proje\u00e7\u00f5es alheias. Sofre abalos s\u00edsmicos nas diversas etapas pelas quais vai respondendo a uma progressiva exig\u00eancia do seu meio.<\/p>\n<p>A sobrecarga sobre nossas crian\u00e7as e adolescentes, comumente, gera sentimento de impot\u00eancia que pode conduzir a uma \u201cfuga&#8221; para a depress\u00e3o. Enquanto a depress\u00e3o denuncia o que falhou na comunica\u00e7\u00e3o intersubjetiva, a ansiedade denuncia um mundo imprevis\u00edvel demais. A depress\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o mais radical do desamparo e da solid\u00e3o, embora o sofrimento e a ang\u00fastia sejam condi\u00e7\u00e3o da vida. A ansiedade \u00e9 express\u00e3o da satura\u00e7\u00e3o do sistema perceptivo, bombardeado por tantas demandas.<\/p>\n<p>Em suma, o que daria um apaziguamento para tanta incerteza seria a certeza da perman\u00eancia do sentimento de um Eu, constante, firme e forte. Aqui chegamos ao ponto mais complexo do que acontece na adolesc\u00eancia. Vou emprestar o conceito \u201ccomplexo da lagosta\u201d, de Fran\u00e7oise Dolto, que compara o drama adolescente \u00e0 perda, de tempos em tempos, do exoesqueleto da lagosta. Esse estado de nudismo, em carne viva enquanto h\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de um novo exoesqueleto que a comporte, pode equivaler ao estado de ang\u00fastia adolescente. Entre o exoesqueleto da inf\u00e2ncia, que j\u00e1 n\u00e3o lhes cabe, e o do adulto, est\u00e3o eles expostos e fr\u00e1geis. Momento de novos amores, da defini\u00e7\u00e3o de uma identidade sexual, que pode ou n\u00e3o estar em concord\u00e2ncia o sexo biol\u00f3gico, da diferencia\u00e7\u00e3o com os pais\u2026<\/p>\n<p>A vontade de viver s\u00f3 se transmite com a verdade de quem quer viver, n\u00e3o com ret\u00f3rica. O exemplo \u00e9 o engajamento em projetos que gerem paix\u00e3o e comprometimento. Mais um paraquedas. A palavra comprometimento assusta toda uma gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo treinada para ter rela\u00e7\u00f5es l\u00edquidas, flu\u00eddas e cancel\u00e1veis. Por isso pais e escolas t\u00eam que fazer disso uma pauta di\u00e1ria. Precisamos nos conectar com o conceito de coletividade que exige a soma, saber-nos um elo em uma corrente.<\/p>\n<p>Os casos de suic\u00eddio noticiados nos \u00faltimos tempos levantam o v\u00e9u que encobre a solid\u00e3o desses jovens. As mortes provocadas por desafios da <em>web<\/em> (em menos de 2 anos, 20 crian\u00e7as e adolescentes morreram pelo <em>desafio do apag\u00e3o<\/em>)\u2026.Depress\u00f5es, automutila\u00e7\u00f5es, s\u00edndrome do p\u00e2nico, transtornos alimentares s\u00e3o algumas das express\u00f5es desse mal-estar.<\/p>\n<p>N\u00f3s, atualmente, somos considerados os \u201csujeito do desempenho\u201d, nas palavras do fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han: nos pensamos sujeitos livres, sem a press\u00e3o da obedi\u00eancia disciplinadora que caracterizou os tempos atr\u00e1s. Por\u00e9m, n\u00e3o nos damos conta do potencial avassalador que comporta o atual\u00edssimo imperativo categ\u00f3rico: <em>voc<\/em><em>\u00ea <\/em><em>pode, you can!<\/em> Quem suporta essa convoca\u00e7\u00e3o \u00e0 onipot\u00eancia enganosa, sem precisar entorpecer-se por drogas, redes sociais ou consumo desenfreado, em um estado de passividade que inibe o pensamento cr\u00edtico?! Ao dar-se conta de n\u00e3o ser t\u00e3o poderoso como se fez crer, adv\u00e9m \u201cO que ser\u00e1 que me d\u00e1\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Onde est\u00e3o os paraquedas? Como acion\u00e1-los? O que fazer para recuperarmos o desejo de viver nesse mundo? Ou como podemos construir juntos uma ideia de futuro que n\u00e3o remeta a um lugar desesperador e extremo? Imagino um caminho de elabora\u00e7\u00e3o que parta da inevitabilidade da frustra\u00e7\u00e3o e da ang\u00fastia, mas tamb\u00e9m do prazer no encontro e na troca. Cada um tem na pr\u00f3pria hist\u00f3ria um repert\u00f3rio de experi\u00eancias que acompanha os momentos de grande turbul\u00eancia. Quanto mais tiverem sido assistidos nas suas ang\u00fastias, melhores as chances de saber buscar boas sa\u00eddas. A percep\u00e7\u00e3o da transitoriedade da vida deve ser o chamamento para realiza\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>A <em>insurg<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia <\/em>pode ser uma delas, se germinar na vertente idealista (milit\u00e2ncias pol\u00edticas) ou pode ser destrutiva, se germinar nas formas de vandalismo, delinqu\u00eancia. Quando o sonho de um futuro \u00e9 retirado enquanto possibilidade, s\u00f3 resta a vers\u00e3o destrutiva como sa\u00edda.<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o fundamental para os nossos dias seria: Como manter acesa a chama do idealismo nesses tempos de distopia (opress\u00e3o, desespero ou priva\u00e7\u00e3o)? N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil! N\u00e3o ser abalado pelo que est\u00e1 acontecendo no cen\u00e1rio social \u00e9 claramente uma fuga infrut\u00edfera, sucumbir \u00e0 ang\u00fastia dilacerante \u00e9 mort\u00edfero. Ent\u00e3o, incentivar a participa\u00e7\u00e3o dos filhos no debate pol\u00edtico e n\u00e3o represar seus sonhos, ainda que distantes do que os pais considerem real, \u00e9 importante para manter acesa a \u201cchama da vida\u201d e do desejo. Vide a manifesta\u00e7\u00e3o que reuniu mais de 300 crian\u00e7as no Shopping Higien\u00f3polis, dias atr\u00e1s, contra atitudes racistas. Pode ser um ato pol\u00edtico a ressuscitar sujeitos ap\u00e1ticos. Foi lindo de ver.<\/p>\n<p>Para-excita\u00e7\u00e3o, para-raio, para-queda. O prefixo &#8220;para&#8221; comp\u00f5e com prote\u00e7\u00e3o, resguardo e amparo. Vamos insistir nessa composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae, professora e supervisora no Curso de Psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Para saber mais, vale a leitura da entrevista concedida por Ehuana Yanomami \u00e0 jornalista Eliane Brum para o portal <em>Suma\u00fama<\/em>, jornalismo do centro do mundo, em 15 de maio de 2025. 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