{"id":3756,"date":"2025-06-13T18:05:04","date_gmt":"2025-06-13T21:05:04","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3756"},"modified":"2025-06-13T18:05:04","modified_gmt":"2025-06-13T21:05:04","slug":"e-se-mamae-tiver-penis-por-uma-psicanalise-mais-baguncada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/06\/13\/e-se-mamae-tiver-penis-por-uma-psicanalise-mais-baguncada\/","title":{"rendered":"E se mam\u00e3e tiver p\u00eanis? Por uma psican\u00e1lise mais bagun\u00e7ada"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>E se mam\u00e3e tiver p\u00eanis? Por uma psican\u00e1lise mais bagun\u00e7ada<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lu\u00ed<\/strong><strong>sa Helena de Moraes Godoy<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Zero<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>A gente fica mordido, n\u00e3o fica?<br \/>\n<\/em><em>Dente, l<\/em><em>\u00e1bio, teu jeito de olhar<br \/>\n<\/em><em>Me lembro do beijo em teu pesco\u00e7o<br \/>\n<\/em><em>Do meu toque grosso<br \/>\n<\/em><em>Com medo de te transpassar e transpassei<br \/>\n<\/em><em>Peguei at<\/em><em>\u00e9 <\/em><em>o que era mais normal de n<\/em><em>\u00f3<\/em><em>s<br \/>\n<\/em><em>E coube tudo na malinha de m\u00e3o do meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/em><em>Deixa eu bagun\u00e7<\/em><em>ar voc<\/em><em>\u00ea, deixa eu bagun\u00e7<\/em><em>ar voc<\/em><em>\u00ea<br \/>\n<\/em><em>Deixa eu bagun\u00e7<\/em><em>ar voc<\/em><em>\u00ea, deixa eu bagun\u00e7<\/em><em>ar voc<\/em><em>\u00ea<br \/>\n<\/em><em>Deixa eu bagun\u00e7<\/em><em>ar voc<\/em><em>\u00ea, deixa<br \/>\n<\/em><em>eu bagun\u00e7<\/em><em>ar voc<\/em><em>\u00ea<br \/>\n<\/em><em>Deixa eu bagun\u00e7<\/em><em>ar voc<\/em><em>\u00ea<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Liniker e os Caramelows, 2016)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Come\u00e7o a escrever inspirada pela m\u00fasica Zero, do primeiro \u00e1lbum de Liniker e os Caramelows &#8211; antes, inclusive, do in\u00edcio de sua carreira solo. Ouvi essa m\u00fasica pela primeira vez h\u00e1 muitos anos, era 2017, em um document\u00e1rio chamado <em>Liberdade de g\u00ea<\/em><em>nero<\/em>. Ali eram contadas diversas hist\u00f3rias de pessoas trans, travestis e n\u00e3o bin\u00e1ries, inclusive a de Liniker. A m\u00fasica Zero era a abertura, carregando consigo um convite: deixa eu bagun\u00e7ar voc\u00ea.<\/p>\n<p>Bagun\u00e7ada, escutava a letra da m\u00fasica e sentia uma esp\u00e9cie de arrepio, que percorria meu corpo. Como que me contornando. As hist\u00f3rias que vinham a seguir me atravessaram, transpassaram de maneira permanente. Foi um marco do in\u00edcio da minha transi\u00e7\u00e3o. E \u00e9 curioso como a m\u00fasica fala um pouco disso, n\u00e3o? Do encontro que atravessa, do toque que transpassa &#8211; do outro que deixa marca. Da bagun\u00e7a que o encontro com o outro nos causa e nos deixa. E como levamos um pouco do outro conosco &#8211; na malinha de m\u00e3o do nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde que nasce, o beb\u00ea \u00e9 olhado, cuidado, tocado. Vai se constituindo \u00e0 medida em que um outro o enxerga, alimenta, limpa. Vai se constituindo em uma costura afetiva que funda as primeiras marcas do psiquismo. A partir da\u00ed, do que resta do outro em n\u00f3s, \u00e9 poss\u00edvel sermos. De maneira simplificada, \u00e9 assim que a psican\u00e1lise versa sobre o surgimento do sujeito no contato com o outro. O outro possibilita, mas tamb\u00e9m faz trabalhar, na medida em que deixa um resto de si em n\u00f3s &#8211; um resto que precisa ser elaborado, encaminhado, incorporado no nosso Eu. De alguma maneira, podemos pensar que outro nos ampara nesse desenvolvimento, mas tamb\u00e9m bagun\u00e7a.<\/p>\n<p>A maneira de organizar essa bagun\u00e7a pulsional \u00e9 o que me interessa neste texto. Olhar para a maneira como a teoria psicanal\u00edtica vem se colocando enquanto discurso e pr\u00e1tica, mais ou menos aberta a pensar subjetividades que v\u00e3o al\u00e9m do que se considera universal. Como trabalharei mais \u00e0 frente, o caminho da metapsicologia vem se construindo como positivador de uma maneira de ser e de se constituir, associada a marcadores e c\u00f3digos sociais que sustentam o sistema patriarcal e racista em que nos vemos.<\/p>\n<p>Parto, portanto, do desconforto que vem sendo gerado pelo contato com a transmiss\u00e3o da teoria psicanal\u00edtica. Parto da surpresa, tamb\u00e9m, diante da dificuldade de encontrar textos que versem metapsicologicamente acerca das experi\u00eancias n\u00e3o cis-heterenormativas no contexto da sexua\u00e7\u00e3o, fora da associa\u00e7\u00e3o \u00e0 patologia, ao desvio. E, aqui, meu foco ser\u00e1 nas transidentidades.<\/p>\n<p>Muitos s\u00e3o os trabalhos com que me deparei que trazem a quest\u00e3o da transexualidade associada a uma recusa \u00e0 castra\u00e7\u00e3o e\/ou uma resolu\u00e7\u00e3o em aberta do \u00c9dipo &#8211; como tamb\u00e9m se pud\u00e9ssemos pensar em um \u00c9dipo t\u00e3o fechado em termos de resolu\u00e7\u00e3o, excluindo toda a trama viva de identifica\u00e7\u00f5es que seguem se dando e enredando no decorrer tamb\u00e9m da vida adulta.<\/p>\n<p>Outros muitos textos buscam na obra freudiana uma abertura para outras formas de subjetiva\u00e7\u00e3o que escapem a uma l\u00f3gica bin\u00e1ria apoiada em um falocentrismo dado. S\u00e3o tentativas importantes, mas que podemos pensar que ainda refor\u00e7am uma l\u00f3gica cisg\u00eanera que no m\u00e1ximo possibilita um deslizamento para uma associa\u00e7\u00e3o mais poss\u00edvel entre vagina e posi\u00e7\u00f5es ativas, ou entre presen\u00e7a de p\u00eanis e sujeito castrado.<\/p>\n<p>Dessa maneira, surge em mim o desejo de trabalhar metapsicologicamente as possibilidades de sexua\u00e7\u00e3o e de constitui\u00e7\u00e3o das subjetividades que escapem \u00e0 l\u00f3gica f\u00e1lica e bin\u00e1ria, herdeira de um <em>cis-tema<\/em> de sexo\/g\u00eanero e ra\u00e7a constru\u00eddo socialmente. Entretanto, isso \u00e9 apenas um desejo, e que foi se colocando como um imenso desafio para mim. Tantos textos que circulam, elaboram, deslizam e deslocam pontos importantes da teoria como o conceito de falo, o paradigma da diferen\u00e7a sexual, a percep\u00e7\u00e3o da alteridade calcada no \u00f3rg\u00e3o e a quest\u00e3o em torno da castra\u00e7\u00e3o e do complexo de \u00c9dipo estruturante. Tantos textos que, apesar da importante contribui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o alcan\u00e7am uma proposi\u00e7\u00e3o de abandono de certos termos e entendimentos. Enquanto isso, ao meu ver, as experi\u00eancias trans e travestis continuam &#8211; elas sim &#8211; foraclu\u00eddas dos escritos cl\u00ednicos e da metapsicologia.<\/p>\n<p>Ainda assim, diante desse desejo, me proponho a percorrer alguns destes textos, fazendo um movimento semelhante, do qual n\u00e3o pude escapar. Farei apenas uma tentativa de construir um racioc\u00ednio que acompanha o processo de sexua\u00e7\u00e3o e retira dele mesmo a possibilidade de repensar. Que boas bagun\u00e7as as transidentidades n\u00e3o podem trazer \u00e0 psican\u00e1lise?<\/p>\n<p><strong>G\u00eanero e subjetiva\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para situar quem l\u00ea na problem\u00e1tica que estou trazendo, vale revisitar a ideia do que \u00e9 o processo de forma\u00e7\u00e3o subjetiva para a psican\u00e1lise, e onde o g\u00eanero entra nisso. Para tanto, invocarei os conceitos de castra\u00e7\u00e3o e de complexo de \u00c9dipo. Conceitos importantes na teoria psicanal\u00edtica que d\u00e3o contorno \u00e0 pr\u00f3pria ideia de sexualidade. Mais que isso, s\u00e3o conceitos que falam de momentos importantes na subjetiva\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>O beb\u00ea humano chega ao mundo inteiramente dependente de um outro. De algu\u00e9m que o alimente, de algu\u00e9m que o limpe, de algu\u00e9m que o mantenha vivo. A partir dessa rela\u00e7\u00e3o, nos constitu\u00edmos, como disse mais acima, como sujeitos. A partir dessa rela\u00e7\u00e3o surge o que conhecemos como um Eu. Tamb\u00e9m n\u00e3o totalmente conhecido, esse Eu \u00e9, ainda assim, um importante contorno conquistado pelo sujeito, na medida em que h\u00e1 aqui uma separa\u00e7\u00e3o do que sou eu e do \u00e9 o outro.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o foi desde sempre que pudemos ter essa percep\u00e7\u00e3o. Nascemos um tanto confundidos com o ambiente que nos cerca. O cuidado que recebemos, o toque que chega \u00e0 nossa pele, chega com um tanto de excita\u00e7\u00e3o. Partes do nosso corpo s\u00e3o excitadas enquanto cuidadas. A boca que mama \u00e9 o disparador desse processo em que aquilo que coincide com fun\u00e7\u00f5es muito biol\u00f3gicas nossas ganha outra significa\u00e7\u00e3o e experimenta algo a mais do que o que era essencial. O beb\u00ea mama porque precisa se alimentar, mas logo buscar\u00e1 o seio para al\u00e9m dessa necessidade, achando ali um encontro que traz mais al\u00e9m do alimento, traz prazer. Vai se implantando um circuito pulsional, marcas desse encontro. A isso chamamos sexualidade em psican\u00e1lise, ou aqui, sexualidade infantil. Nas palavras de Ana Maria Sigal, em seus <em>Escritos cl\u00ednicos e metapsicol\u00f3gicos:<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">(&#8230;) o sexual em Freud n\u00e3o pode ser reduzido ao genital. Temos a oralidade e a analidade que tamb\u00e9m correspondem \u00e0 sexualidade. A grande descoberta freudiana est\u00e1 no reconhecimento de que sobre as fun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas h\u00e1 um <em>plus<\/em> de prazer, irredut\u00edvel \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o da necessidade. (SIGAL, 2009, p. 29)<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a crian\u00e7a, implantada de sexualidade, vai percorrendo um caminho de significar essa excita\u00e7\u00e3o, dar encaminhamentos a ela. Se n\u00e3o h\u00e1 o seio, h\u00e1 a busca no dedo por algo que fa\u00e7a as vezes. Esse \u00e9 um caminho de elabora\u00e7\u00e3o que vai trazer para o campo o corpo da crian\u00e7a. Corpo que come, faz coc\u00f4, que chora e dorme; mas que, ao longo do tempo, deseja, busca fora de si o que n\u00e3o \u00e9 mais ofertado. Desmame, desfralde &#8211; processos comumente conhecidos &#8211; marcam essa caminhada; s\u00e3o passagens que v\u00e3o distanciando a crian\u00e7a daquela figura t\u00e3o prim\u00e1ria e necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>A sexualidade se faz, portanto, em rela\u00e7\u00e3o. Instaura-se uma pesquisa do pr\u00f3prio corpo e daquilo que restou do contato com aquela figura cuidadora. O autoerotismo acompanha a crian\u00e7a nessa pesquisa daquilo que sobrou, enquanto ela vai achando no pr\u00f3prio corpo caminhos poss\u00edveis de elabora\u00e7\u00e3o e de encontro. Do pr\u00f3prio corpo, em algum momento, a crian\u00e7a ir\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o ao mundo, ao que est\u00e1 fora dessa rela\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, e que a\u00ed ela encontrar\u00e1 a alteridade &#8211; uma gama de interdi\u00e7\u00f5es \u00e0 essa rela\u00e7\u00e3o que aparentava ser suficiente, na qual a crian\u00e7a via-se como total, altamente valorosa nos olhos que quem a cuidou. At\u00e9 aqui, entendia-se ser tudo tamb\u00e9m para essas figuras, mas a realidade imp\u00f5e limites e traz a realiza\u00e7\u00e3o de que h\u00e1, para essa figura, algo al\u00e9m.<\/p>\n<p>A esse processo de percep\u00e7\u00e3o da alteridade costura-se o que chamamos castra\u00e7\u00e3o. \u00c9 a percep\u00e7\u00e3o que n\u00e3o somos \u00fanicos, h\u00e1 o aspecto da diferen\u00e7a &#8211; h\u00e1 outras al\u00e9m de mim e, no desenvolver da metapsicologia, essa percep\u00e7\u00e3o est\u00e1 calcada no reconhecimento da diferen\u00e7a sexual. A percep\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 apenas um \u00f3rg\u00e3o genital. Seria, para al\u00e9m do reconhecimento da diferen\u00e7a, a assun\u00e7\u00e3o que uns t\u00eam, outros n\u00e3o. Ainda distante da associa\u00e7\u00e3o disso com homem ou mulher, a crian\u00e7a diferencia, no entanto, f\u00e1licos de castrados.<\/p>\n<p>Ana, em seus escritos referidos acima, revisita o texto freudiano de 1923, \u201cA organiza\u00e7\u00e3o genital infantil\u201d e desenvolve a partir dele a ideia do complexo de \u00c9dipo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 castra\u00e7\u00e3o e sua import\u00e2ncia na constitui\u00e7\u00e3o do psiquismo e na organiza\u00e7\u00e3o da sexualidade infantil. Para a autora, a partir de 1923, a sexualidade fica menos atrelada ao biol\u00f3gico enquanto condicionante da percep\u00e7\u00e3o da alteridade, e traz a import\u00e2ncia do outro no percurso de cada um &#8211; que chaves tradutivas o ambiente que cerca a crian\u00e7a pode oferecer.<\/p>\n<p>Apesar da abertura, ainda vemos em Freud, segundo Ana, o problema em que a crian\u00e7a sup\u00f5e que onde n\u00e3o h\u00e1 p\u00eanis, ou houve ou ainda haver\u00e1. Essa \u00e9 a hip\u00f3tese infantil, mas que ainda carrega uma ideia da castra\u00e7\u00e3o que impediria a possibilidade de considera\u00e7\u00e3o das alteridades em um sentido positivado. A crian\u00e7a se confronta com a diferen\u00e7a, ou ainda, com a aus\u00eancia do p\u00eanis em algumas, dando-se conta de que existem diferentes. A ideia de que algo se perdeu ou ainda vir\u00e1 a ser perdido \u00e9 a pr\u00f3pria recusa \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, \u00e9 a pr\u00f3pria impossibilidade de considera\u00e7\u00e3o da alteridade &#8211; fica marcada a diferen\u00e7a, em lugar da diversidade. Nesse momento de considera\u00e7\u00e3o, Freud estaria assumindo um percurso universal encabe\u00e7ado por uma figura universal, protagonista de uma hist\u00f3ria \u00fanica: o menino. Elaborando a ideia do falo como organizador, \u201cFreud assimila o gen\u00e9rico humano ao masculino\u201d (p. 41).<\/p>\n<p>Ana faz interessantes observa\u00e7\u00f5es ao nos alertar da possibilidade da confus\u00e3o do p\u00eanis com o falo, pr\u00f3pria da fase em que a crian\u00e7a se d\u00e1 conta da diferen\u00e7a sexual, e a perman\u00eancia dessa associa\u00e7\u00e3o seria pr\u00f3pria da neurose. Ainda assim, entendo que a problem\u00e1tica que a autora vai colocando acompanha a ideia da suposi\u00e7\u00e3o, ou produ\u00e7\u00e3o, de uma universalidade. Coincide na vis\u00e3o infantil, na neurose adulta e nos restos da teoria essa confus\u00e3o, ao meu ver. Algo do que se l\u00ea, ao se tornar teoria, tamb\u00e9m se cria enquanto realidade.<\/p>\n<p>Ademais, a grande abertura que Ana vai nos trazendo \u00e9 a marca\u00e7\u00e3o do caminho rumo a uma sexualidade adulta totalmente amalgamada na intersubjetividade, totalmente associada a um outro. Ser\u00e1 esse outro que far\u00e1 a leitura do sexo anat\u00f4mico e das caracter\u00edsticas sexuais secund\u00e1rias segundo seus fantasmas, nos diz a autora, \u201ccolocando a crian\u00e7a em determinados lugares a partir dos quais ela significa, e com os quais se identifica ou dos quais foge no percurso de sua busca desejante.\u201d (p. 36).<\/p>\n<p>Ficamos, portanto, de Freud \u00e0 Liniker, passando por Ana Sigal, com a import\u00e2ncia do outro na nossa constitui\u00e7\u00e3o, e do que se coloca enquanto necessidade de tradu\u00e7\u00e3o e como isso pode ser feito. Daqui, chamarei para a conversa outro importante autor nessa discuss\u00e3o. Jean Laplanche, em sua considera\u00e7\u00e3o sobre o sexual, nos traz tamb\u00e9m a ideia de um \u00c9dipo relacionado \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, mas al\u00e9m disso, um \u00c9dipo que parte do adulto e de sua sexualidade e que versa sobre a necessidade da crian\u00e7a de traduzir esse resto deixado pelo cuidador. Para o autor:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201c(&#8230;) um <em>infans <\/em>desprovido de puls\u00f5es sexuais, com um adulto, que abriga em si mesmo n\u00e3o somente sua experi\u00eancia sexual madura, mas tamb\u00e9m os restos mais ou menos bem integrados (&#8230;) de sua sexualidade infantil.\u201d (LAPLANCHE, <em>Sexual &#8211; 2000-2006<\/em>, p. 284)<\/p>\n<p>Em conson\u00e2ncia com o dizer de Sigal, fica ent\u00e3o uma necessidade da crian\u00e7a de significar esses restos deixados pelo adulto. Aqui se dar\u00e1 uma passagem importante da constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e \u00e9 onde entrar\u00e1 tamb\u00e9m a quest\u00e3o de g\u00eanero. Parte desse resto, condensado por Laplanche em mensagens enigm\u00e1ticas, diz respeito \u00e0 excita\u00e7\u00e3o sexual disparada pelos cuidados prim\u00e1rios &#8211; aquela que afirmei se dar pelo toque que transpassa-, e parte dir\u00e1 respeito \u00e0 atribui\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Desde o nome que recebemos, o g\u00eanero que nos designam ao nascer. Mensagens bastante incipientes, inconscientes, deixadas pelo adulto que, no momento da leitura da diferen\u00e7a e da alteridade pela crian\u00e7a, ser\u00e1 significada. Lembramos aqui da import\u00e2ncia da diferen\u00e7a sexual nesse sentido, \u00e9 onde Freud se apoiar\u00e1 para o que correr\u00e1 de maneira como: eu sou, eu sou homem, ou eu sou mulher.<\/p>\n<p>Ao tratar da castra\u00e7\u00e3o, desse momento de percep\u00e7\u00e3o da alteridade, Laplanche ressalta se referir \u00e0 percep\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a anat\u00f4mica entre os sexos e de outro lado a atribui\u00e7\u00e3o dessa diferen\u00e7a a um corte, resultante de um conflito. Laplanche sublinha, ainda, essa diferen\u00e7a como anat\u00f4mica, e n\u00e3o fisiol\u00f3gica ou biol\u00f3gica. Algo que diz respeito \u00e0 morfologia dos \u00f3rg\u00e3os e n\u00e3o ao seu funcionamento. Podemos entender ent\u00e3o que sim, se percebe algo anatomicamente diferente, e que para a crian\u00e7a isso est\u00e1 em um registro que ainda antecede uma significa\u00e7\u00e3o que traga uma hierarquia ou mesmo uma diferencia\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Essas duas mensagens dever\u00e3o ser traduzidas, processadas pela crian\u00e7a com a ajuda do ambiente pr\u00f3ximo. De alguma forma, o que se encontra neste ambiente \u00e9 a hipervaloriza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a\/aus\u00eancia de p\u00eanis. Nesse sentido, o complexo de \u00c9dipo n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o, mas um mito (p. 286). Configura-se, juntamente com a associa\u00e7\u00e3o da ideia de castra\u00e7\u00e3o como um esquema narrativo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cEsses romances, esses roteiros vari\u00e1veis entre os indiv\u00edduos, seriam, pois, da ordem de esquemas narrativos culturalmente transmitidos, e n\u00e3o, como gostaria a teoria cl\u00e1ssica, da ordem das fantasias filogen\u00e9ticas, pretensamente \u2018origin\u00e1rias\u2019.\u201d (LAPLANCHE, 2000-2006, p. 286)<\/p>\n<p>Se tudo isso acontece em rela\u00e7\u00e3o, na intersubjetividade, \u00e9 tamb\u00e9m o adulto e\/ou o ambiente que cerca a crian\u00e7a que fornecer\u00e1 material, ou c\u00f3digos, para isso que ambos os autores colocam enquanto tradu\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. Esses c\u00f3digos tradutivos ser\u00e3o fornecidos pelo ambiente e estar\u00e3o em conson\u00e2ncia, portanto, com aquilo que o ambiente possui enquanto refer\u00eancia. O que Laplanche nos conta \u00e9 que, no decifrar dessas mensagens, inserida em um ambiente, a crian\u00e7a encontraria uma hipervaloriza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a ou aus\u00eancia do p\u00eanis.<\/p>\n<p>Aqui temos a passagem do autoerotismo &#8211; tradu\u00e7\u00e3o primeira, encabe\u00e7ada pela crian\u00e7a em seu corpo ainda parcializado &#8211; para um novo momento, de entrada na cultura e de significa\u00e7\u00e3o da sexualidade infantil, perverso e polimorfa, pelo que a cultura tem a oferecer.<\/p>\n<p>De certa maneira, vamos entendendo a constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica atrelada a essa necessidade de se organizar na ideia de um Eu. Quando nos referimos ao autoerotismo, nos referimos a um corpo que ainda n\u00e3o se inteirou de si mesmo, nem em si mesmo. O contato com o outro nos bagun\u00e7a e ser\u00e1 o disparador para que possamos nos organizar, nos reconhecer enquanto um. Essa organiza\u00e7\u00e3o narc\u00edsica \u00e9 necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Essa organiza\u00e7\u00e3o envolve, como vimos, dar destino de elabora\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade infantil, que vai se fazendo presente a partir do contato do outro com o corpo da crian\u00e7a, partindo de necessidades instintuais, biol\u00f3gicas, para algo al\u00e9m. Um corpo implantado de sexualidade \u00e9 um corpo que precisa de algo al\u00e9m do cuidado b\u00e1sico &#8211; precisa de amor. \u00c9 um corpo marcado, cuja sexualidade se organiza nessa ideia de um Eu desprendido duma rela\u00e7\u00e3o dual que habita de modo desejante o mundo. Essa rela\u00e7\u00e3o dual nos constitui, nos coloca &#8211; e \u00e9 importante que isso aconte\u00e7a &#8211; em um lugar \u00fanico, ideal. Quando isso se perde, a crian\u00e7a vai ao mundo buscar ser. Tudo isso, em uma cultura dividida entre homens e mulheres, envolve se definir enquanto tal. N\u00e3o se trata mais de ter ou n\u00e3o ter, apenas. Ter ou n\u00e3o ter estar\u00e1 associado a ser homem ou mulher. E n\u00e3o nos decidimos sozinhos nesse aspecto; quem nos cerca, assim como o ambiente como um todo, nos fornecer\u00e1 essas possibilidades.<\/p>\n<p>Se poder ir ao mundo, perceber o outro enquanto diferente e se organizar em si est\u00e1 atrelado \u00e0 percep\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a sexual e, principalmente, a presen\u00e7a ou aus\u00eancia de p\u00eanis, o cerco vai se fechando. Se apenas isso nos servir para significar a experi\u00eancia da sexua\u00e7\u00e3o e nos definirmos enquanto sujeitos &#8211; sujeitos homens e mulheres &#8211; o cerco se fecha ainda mais. Ou ainda, essa hip\u00f3tese, em que esses c\u00f3digos tradutivos s\u00e3o pensados como universais na medida em que operam em todo sujeito, diriam de uma cultura bin\u00e1ria, em que se exclui e pune sujeitos que desviam dessa norma.<\/p>\n<p>Se a psican\u00e1lise se mant\u00e9m organizada em torno desse paradigma da diferen\u00e7a sexual como \u00fanico organizador da sexualidade infantil, determinante de um sujeito, e balizador da pr\u00f3pria teoria, entendo que caminhamos mal. Ao final de seu texto, Ana tamb\u00e9m nos convida a uma abertura.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cse nos desligarmos do Freud biol\u00f3gico, recuperamos o Freud da sexualidade perverso-polimorfa: se nos deslig\u00e1ssemos do conceito de sexualidade como produto natural do corpo org\u00e2nico para focalizarmos o corpo er\u00f3geno, produto da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito desejante, poder\u00edamos encontrar outras sa\u00eddas, no meu entender, mais interessantes\u201d (SIGAL, 2009, p. 44).<\/p>\n<p>Esse corpo er\u00f3geno vai al\u00e9m do org\u00e2nico. Vai al\u00e9m da associa\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o a um g\u00eanero. Ele \u00e9 mais bagun\u00e7ado, mais atravessado &#8211; mais transpassado de desejos, pr\u00f3prios e n\u00e3o pr\u00f3prios. Do que espero e esperam de mim. Do que desejo, desejam e desejaram de mim. \u00c9 um corpo imantado de sexualidade que n\u00e3o corresponde apenas a fun\u00e7\u00f5es ou \u00f3rg\u00e3os vitais. \u00c9 plural. As sa\u00eddas s\u00e3o plurais.<\/p>\n<p><strong>M\u00e1quinas fazedoras de monstros<\/strong><\/p>\n<p>O que acontece quando a universaliza\u00e7\u00e3o de sa\u00eddas ed\u00edpicas est\u00e1 associada \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o cisg\u00eanera e bin\u00e1ria de possibilidades &#8211; homem com p\u00eanis, mulher sem p\u00eanis &#8211; \u00e9 que a psican\u00e1lise cria uma ideia de sujeito que n\u00e3o abarca verdadeiramente a pluralidade que de fato encontramos na sociedade. O que acontece \u00e9 que ela se associa a outros dispositivos de poder sustentados pela binariedade racial e de g\u00eanero que classificam sujeitos humanos e n\u00e3o humanos. Sujeitos e outros. Se poderia existir a alteridade, a diversidade, o que se coloca \u00e9 uma alteriza\u00e7\u00e3o violenta e a diferen\u00e7a que separa. \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil de certa forma, mas sustentada ao longo dos s\u00e9culos com viol\u00eancia. \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o que produz monstros.<\/p>\n<p>Em 2019, o fil\u00f3sofo e pensador Paul Preciado foi chamado a falar para centenas de psicanalistas nas jornadas da Escola da Causa Freudiana, na Fran\u00e7a, acerca do tema \u201ca mulher na psican\u00e1lise\u201d. Sua fala, n\u00e3o conclu\u00edda naquele momento, est\u00e1 publicada no livro <em>Eu sou o Monstro que vos fala &#8211; relat<\/em><em>\u00f3<\/em><em>rio para uma academia de psicanalistas<\/em>, que causou rebuli\u00e7o na classe. Podemos dizer que Preciado nos traz um alerta, al\u00e9m de um tapa na cara, para a necessidade de olharmos para a metapsicologia a partir do eco que as identidades desviantes produziram e produzem na sociedade. Mas, para bem al\u00e9m disso, podemos pensar em seu texto como um apelo. Escutemos:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201capelo ardentemente a uma transforma\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise \u00e0 emerg\u00eancia de uma psican\u00e1lise mutante, \u00e0 altura do paradigma em que vivemos. talvez apenas esse processo de transforma\u00e7\u00e3o, por mais terr\u00edvel e desmantelador que possa parecer, mere\u00e7a hoje ser chamado de psican\u00e1lise.\u201d (p. 90)<\/p>\n<p>O pensador, um homem trans, vai nos conduzindo ao longo do trabalho na quest\u00e3o de g\u00eanero na psican\u00e1lise e na cultura ao longo do tempo. Ele vai nos falando da diferen\u00e7a sexual, t\u00e3o valorizada na psican\u00e1lise, como um dispositivo, um regime ao qual estamos todos submetidos e inseridos de maneira a nem sequer nos percebermos nele. Como um peixe que mora dentro do mar, mas n\u00e3o sabe que mora dentro do mar; pelo menos n\u00e3o reconhece a coisa dessa forma, de uma maneira que haveria algo para al\u00e9m do mar.<\/p>\n<p>Preciado fala de um dispositivo de g\u00eanero e ra\u00e7a que legitima um certo ordenamento pol\u00edtico e econ\u00f4mico que foi sendo disseminado ao longo dos s\u00e9culos pela coloniza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios n\u00e3o europeus. Dispositivo que classifica, discrimina e oprime &#8211; mata, a bem da verdade. Enquanto organizador de um sistema, esses dispositivos aos quais inevitavelmente a psican\u00e1lise se alinha produzem essa universalidade na qual as exist\u00eancias que est\u00e3o fora s\u00e3o punidas por isso. Mas esse dispositivo n\u00e3o operou sempre da mesma forma, n\u00e3o teve sempre a mesma cara. Essa disposi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero que conhecemos, a epistemologia da diferen\u00e7a sexual da qual a psican\u00e1lise faz uso \u00e9, segundo o autor, pol\u00edtica, hist\u00f3rica e mutante.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante como Preciado vai historicizando o g\u00eanero ao longo dos s\u00e9culos e sua transforma\u00e7\u00e3o. At\u00e9 a Idade M\u00e9dia, por exemplo, predominava uma epistemologia monossexual, na qual existia apenas o \u00f3rg\u00e3o masculino e o homem, a mulher viria enquanto compara\u00e7\u00e3o hierarquicamente inferior, ou invertida anatomicamente. O entendimento do que seriam um homem, uma mulher, ou um sujeito se transformou.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cao longo do s\u00e9culo XVIII e XIX, as novas t\u00e9cnicas m\u00e9dicas e visuais deram origem progressivamente a uma \u201cest\u00e9tica da diferen\u00e7a sexual\u201d, que op\u00f4s a anatomia do p\u00eanis \u00e0 vagina, os ov\u00e1rios aos test\u00edculos, a produ\u00e7\u00e3o de esperma e a reprodu\u00e7\u00e3o uterina, os cromossomos x e y, mas tamb\u00e9m o trabalho produtivo masculino e a domesticidade feminina\u201d (p. 54).<\/p>\n<p>Tomando esse trecho apenas como refer\u00eancia, sem me alongar na historiciza\u00e7\u00e3o, ficamos com a ideia de um sistema que de fato n\u00e3o foi sempre o mesmo. Uma cultura que se organiza de maneiras diferentes ao longo do tempo. Ou, retomando Ana Sigal e Laplanche, de um ambiente tradutor, que oferta c\u00f3digos e possibilidades de significa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m mutante.<\/p>\n<p>Quando faz uso do paradigma da diferen\u00e7a sexual, a psican\u00e1lise diz de um c\u00f3digo tradutor para os restos n\u00e3o significados, e apenas um. Ana, Laplanche e Preciado fazem coro ao situar isso em uma categoria epist\u00eamica que cria determinadas condi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o outras, o que seria poss\u00edvel e o que n\u00e3o seria. Apenas isso. S\u00f3 n\u00e3o apenas isso na medida em que se universaliza um sujeito e, ao faz\u00ea-lo, a psican\u00e1lise desumaniza outros. Se alinha a uma linhagem perigosa de exclus\u00e3o, a um projeto perverso de mundo. \u00c9 a isso que Preciado nos chama aten\u00e7\u00e3o, a uma teoria que d\u00e1 sentido ao processo de subjetiva\u00e7\u00e3o de acordo com o regime da diferen\u00e7a sexual, do g\u00eanero bin\u00e1rio e heterossexual.<\/p>\n<p>Preciado nos implica a pensar uma \u201cdespatriarcaliza\u00e7\u00e3o, deseterossuexializa\u00e7\u00e3o e descoloniza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise &#8211; como discurso, narrativa, institui\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica cl\u00ednica.\u201d (p. 89). O que fica de fora se n\u00e3o fizermos dessa forma? Se o que d\u00e1 sentido \u00e0 sexualidade, se o que significa os restos da sexualidade n\u00e3o representada se apoia nesse binarismo, algo fica de fora. O convite \u00e9 a bagun\u00e7ar a psican\u00e1lise, a permitir um atravessamento definitivo da teoria por esses sujeitos monstruosos, figuras da noite n\u00e3o representadas, que restam como n\u00e3o ditos ao psiquismo.<\/p>\n<p><strong>Um apelo \u00e0 pluralidade<\/strong><\/p>\n<p>Preciado traz a urg\u00eancia de repensar a maneira como a metapsicologia psicanal\u00edtica se organizou ao longo do tempo. Algo da ordem da sobreviv\u00eancia da psican\u00e1lise n\u00e3o s\u00f3 enquanto teoria, mas enquanto cl\u00ednica, pr\u00e1tica em si. Acredito nessa urg\u00eancia e compartilho do apelo, assim como aposto em caminhos que envolvem sim, abdicar de alguns conceitos na maneira em que est\u00e3o difundidos, mas n\u00e3o se desfazer de tudo. Aposto em caminhos que subvertem a leitura da metapsicologia e que deslocam o entendimento na pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<p>Ivy Souza de Carvalho, em sua tese de doutorado <em>O enigma plural do g\u00ea<\/em><em>nero<\/em>, faz aberturas important\u00edssimas e, ao meu ver, inspiradoras. A autora parte de ideias laplanchianas, tamb\u00e9m presentes em Ana Sigal, e prop\u00f5e uma abertura ainda mais radical da perspectiva do processo de unifica\u00e7\u00e3o do Eu.<\/p>\n<p>Ao considerar o processo de constitui\u00e7\u00e3o do Eu, Ivy tamb\u00e9m invoca a intersubjetividade, a sexualidade que se d\u00e1 e elabora em rela\u00e7\u00e3o. Ela traz a ideia de elabora\u00e7\u00e3o a partir da sexualidade ligada ou desligada. Pensemos em cadeias significantes, ou em encaminhamentos da excita\u00e7\u00e3o por s\u00edmbolos que signifiquem. Para a autora, seguindo a ideia de Laplanche, a sexualidade desligada seria justamente a presen\u00e7a do outro em n\u00f3s. H\u00e1 de se ligar, traduzir o que resta de modo que o sujeito se apropria do que ficou solto em uma narrativa que fa\u00e7a sentido para ele.<\/p>\n<p>Se nos ligarmos \u00e0s ideias trazidas mais acima, estamos falando dos esquemas narrativos de Laplanche, dos c\u00f3digos tradutivos de Ana Sigal. De que maneira damos sentido ao que resta em n\u00f3s, deixado pelo outro, restos que, relembra Ivy, est\u00e3o inscritos no corpo. Sua tese traz o autoerotismo como primeiro momento de tradu\u00e7\u00e3o, mesmo que fragmentada, se pensarmos em um corpo que ainda n\u00e3o se unificou narcisicamente. E aqui est\u00e1 a grande abertura de Ivy, a aposta nesse momento do autoerotismo. Mas n\u00e3o s\u00f3; Ivy fala de metapsicologia resgatando as ideias laplanchianas das mensagens enigm\u00e1ticas e prop\u00f5e aberturas na medida em que faz uma inovadora associa\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento de seu argumento partindo de experi\u00eancias trans e n\u00e3o bin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Ivy est\u00e1 se perguntando e nos oferecendo um caminho para trabalharmos com o enigma de g\u00eanero, e o faz considerando experi\u00eancia e corpos n\u00e3o cisg\u00eaneros no contexto do digital como tamb\u00e9m uma nova possibilidade de tradu\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 potente na medida em que ela faz teoria trazendo para a base de sua tese essas figuras. Podemos dizer que de uma maneira a dar lugar, dar espa\u00e7o e possibilidade de representa\u00e7\u00e3o ao que tantas vezes ficou irrepresent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ao teorizar sobre essas experi\u00eancias n\u00e3o cisg\u00eaneras com um olhar despatologizante, Ivy contextualiza a quest\u00e3o da diferen\u00e7a sexual na psican\u00e1lise:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cNo caso da organiza\u00e7\u00e3o corporal cisg\u00eanera, o genital vem exercer uma fun\u00e7\u00e3o que segue na mesma linha do narcisismo, como se uma parte representasse o todo corporal. Narcisicamente falando, o Eu n\u00e3o \u00e9 o todo do sujeito (&#8230;) mas ele \u00e9 uma parte do sujeito que aparece como se fosse a representa\u00e7\u00e3o do todo. O genital seria o lado corporal dessa fun\u00e7\u00e3o narc\u00edsica, na medida em que opera uma fantasia de que \u00e9 essa parte que garante a unifica\u00e7\u00e3o do sujeito, como se apenas fosse poss\u00edvel ligar o desligamento pr\u00f3prio da sexualidade por este roteiro.\u201d (SOUZA CARVALHO, 2023, p. 167).<\/p>\n<p>Roteiro, esquema narrativo, apenas uma possibilidade oferecida pela cultura, entre tantas. Ivy nos convida a outras possibilidades, e seu resgate do autoerotismo se costura \u00e0s experi\u00eancias de corpos dissidentes, ao falar de uma tradu\u00e7\u00e3o corporal n\u00e3o bin\u00e1ria, algo de uma espontaneidade do sujeito e que preservaria a pluralidade das puls\u00f5es parciais. Em suas palavras:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201c(\u2026) as tradu\u00e7\u00f5es corporais n\u00e3o bin\u00e1rias, que preservam a pluralidade das puls\u00f5es parciais, teriam tamb\u00e9m rela\u00e7\u00e3o com a espontaneidade pr\u00f3pria das tradu\u00e7\u00f5es autoer\u00f3ticas, uma vez que essas s\u00e3o tecidas na singularidade aut\u00f4noma do sujeito\u201d (p. 170).<\/p>\n<p>Ivy prop\u00f5e uma esp\u00e9cie de resgate do autoerotismo, da pluralidade da sexualidade infantil, perverso-polimorfa, como inspira\u00e7\u00e3o a pensar a constru\u00e7\u00e3o de mitos-s\u00edmbolos tamb\u00e9m mais plurais. A ideia de um recontorno poss\u00edvel do corpo pulsional, do corpo er\u00f3geno a partir de encontros muitas vezes mais tardios nas experi\u00eancias trans. Proponho, a partir de Ivy, um resgate da pot\u00eancia da ideia de sexualidade perverso-polimorfa de Freud pela psican\u00e1lise, descentrando assim do p\u00eanis masculino como \u00fanico organizador narc\u00edsico do sujeito e da pr\u00f3pria psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>N\u00e3o advogo aqui, assim como entendo que Ivy tamb\u00e9m n\u00e3o o fez, pela desimport\u00e2ncia dessa unifica\u00e7\u00e3o narc\u00edsica no destino neur\u00f3tico. Deste contorno que cabe sim ao Eu, uma pele que possibilite alguma filtragem do dentro e do fora. O autoer\u00f3tico pode, nesse sentido, vir mesmo mais como inspira\u00e7\u00e3o do que como repeti\u00e7\u00e3o de um outro invasivo, impossibilitando tradu\u00e7\u00f5es. Ivy traz a ideia de tradu\u00e7\u00f5es plurais e encabe\u00e7adas pelo sujeito de maneira autoral.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o, a meu ver, ganha mais se parar de girar em torno de se h\u00e1 em Freud possibilidades para al\u00e9m do \u00c9dipo tradicional, ou mesmo se falo equivale ou n\u00e3o ao p\u00eanis. Freud escreveu em um determinado tempo, e escreveu sobre este determinado tempo. Freud escreveu a partir das refer\u00eancias e dos c\u00f3digos culturais de sua \u00e9poca, de Viena, e da Europa. A quest\u00e3o poderia, ent\u00e3o, facilmente deslizar para n\u00f3s, hoje. Pensamos n\u00f3s em possibilidades para al\u00e9m do normativo? De que maneira isso atravessa nossa escuta? De que maneira a metapsicologia que nos sustenta, nos termos em que se faz, contribui para produzir realidades, e que realidades nos interessaria construir. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 com Freud, mas conosco.<\/p>\n<p>Na esteira do que nos conta Ivy, a partir da provoca\u00e7\u00e3o de Preciado, com Laplanche e Ana Sigal na malinha de m\u00e3o, como pensar em sa\u00eddas para a teoria que n\u00e3o s\u00f3 incluam, mas proponham novas solu\u00e7\u00f5es para o enigma do g\u00eanero, visando a desuniversaliza\u00e7\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o f\u00e1lica encontrada pela psican\u00e1lise em costura com a nossa cultura ocidental. E a\u00ed pensemos em \u201cmais uma\u201d op\u00e7\u00e3o, um \u201ce\u201d, e n\u00e3o a invers\u00e3o do centro de um pensamento universalizador. De maneira que convivam diferentes e plurais possibilidades.<\/p>\n<p>Escutemos o apelo de Preciado, e peguemos carona com Ivy para revisitar momentos da teoria que possam nos conduzir a outros lugares, mesmo que envolvam reescrever e reinscrever a teoria. Que possamos nos bagun\u00e7ar e inspirar pelo outro, pelo que vem de fora, pelo que \u00e9 estrangeiro.<\/p>\n<p>Que possamos escutar a cl\u00ednica, escutar as periferias, o que vem da margem. Que possamos nos deixar atravessar pelas experi\u00eancias dos corpos dissidentes, dos corpos trans, dos corpos pretos. Que possamos nos abrir.<\/p>\n<p>E ainda, que a aposta de que outros c\u00f3digos tradutivos possam ser buscados e aplicados. Uma aposta que aponta para algo do pr\u00e9 genital no sentido metapsicol\u00f3gico, no sentido da organiza\u00e7\u00e3o da metapsicologia, uma aposta em um Freud do perverso polimorfo, da abertura e da despatologiza\u00e7\u00e3o. O Freud da sexualidade infantil.<\/p>\n<p>Que possamos reconhecer o que ficou datado, o que ficou im\u00f3vel ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, que n\u00e3o pode se contaminar, se bagun\u00e7ar. Deixemos entrar o que est\u00e1 de fora, de maneira a escutar onde falhamos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>(&#8230;) sou chorona, sou canceriana com ascendente em aqu\u00e1rio (&#8230;) sou determinada, sou corajosa, mas sou muito medrosa. sou complexa, sou contradit<\/em><em>\u00f3<\/em><em>ria, trabalho com o erro, com a falha, com o fracasso. eu sou o fracasso, eu fracassei, sou o fracasso de tudo aquilo que esperavam que eu fosse. n\u00e3o sou homem, nem sou mulher, sou travesti. e assim sou eu, por isso estou aqui.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">(Lina Pereira, em apresenta\u00e7\u00e3o no BBB22)<\/p>\n<p>Assim Lina se apresentou em sua participa\u00e7\u00e3o no BBB 22, <em>reality show<\/em> da TV Globo. Assim como ela, muitas e muitos de n\u00f3s representamos o fracasso do que se esperava de n\u00f3s nesse <em>cis-tema <\/em>sexo\/g\u00eanero. Que bom. Que bom poder falhar, n\u00e3o? Que bom poder n\u00e3o ter, n\u00e3o ser. Que bom desistir dessa busca. Isso tudo, de forma que todo um novo campo de possibilidades se abra no sentido dos \u201cseres\u201d e \u201cteres&#8221;. Tomara que o mesmo possa acontecer com a psican\u00e1lise que, assim como n\u00f3s, fracassou.<\/p>\n<p>Meu apelo \u00e9 que possamos, enquanto psicanalistas, reconhecer o fracasso n\u00e3o como impossibilidade ou desorganiza\u00e7\u00e3o, mas como pot\u00eancia de um novo. Uma crise que gera cria\u00e7\u00e3o e possibilidade de um devir. No modelo do que se distancia do ideal perdido e pode seguir um ideal constru\u00eddo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>bibliografia:<\/strong><\/p>\n<p>LINIKER\u00a0\u00a0\u00a0 E\u00a0\u00a0\u00a0 OS\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 CARAMELOWS.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (2016)\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Zero.\u00a0\u00a0 <\/em>\u00c1lbum\u00a0\u00a0 Remonta.\u00a0\u00a0 Dispon\u00edvel\u00a0\u00a0 em: <a href=\"https:\/\/www.letras.mus.br\/liniker-e-os-caramelows\/zero\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.letras.mus.br\/liniker-e-os-caramelows\/zero\/<\/a>. acesso em: 13\/11\/2024<\/p>\n<p>FREUD, S. (1923). A organiza\u00e7\u00e3o genital infantil. In <em>Sigmund Freud Obras <\/em><em>completas. vol. 16<\/em>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2020;<\/p>\n<p>SIGAL, A. M. (2009) A organiza\u00e7\u00e3o genital infantil. In: <em>Escritos m<\/em><em>etapsicol<\/em><em>\u00f3<\/em><em>gicos e cl\u00ednicos. <\/em>S\u00e3o Paulo, Casa do Psic\u00f3logo, 2009;<\/p>\n<p>LAPLANCHE, J. (2000-2006) Castra\u00e7\u00e3o e \u00c9dipo como c\u00f3digos e esquemas narrativos<em>.<\/em> In <em>Sexual &#8211; a sexualidade ampliada no sentido freudiano.<\/em> Porto Alegre, Dublinense, 2015;<\/p>\n<p>PRECIADO, P. B. (2022). <em>Eu sou o monstro que vos fala <\/em>&#8211; Relat\u00f3rio para uma academia de psicanalistas. Rio de Janeiro, Zahar, 2022;<\/p>\n<p>SOUZA CARVALHO, I. (2023) <em>O e<\/em><em>nigma <\/em><em>plural do g\u00ea<\/em><em>nero<\/em>. 229f. Tese (Doutorado- Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia Cl\u00ednica). Instituto de Psicologia, Universidade de S\u00e3o Paulo, 2023; dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47133\/tde-08122023-155222\/en.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47133\/tde-08122023-155222\/en.php<\/a><\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o de Lina Pereira no BBB 22, TV Globo (2022). dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/HugoGloss\/videos\/quem-%25C3%25A9-linn-da-quebrada-com-a-palavra-lina-pereira-ao-vivo-em-cores-e-em-todas-a\/302383608615651\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.facebook.com\/HugoGloss\/videos\/quem-%C3%A9-linn-da-quebrada-com-a-palav <\/a><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/HugoGloss\/videos\/quem-%25C3%25A9-linn-da-quebrada-com-a-palavra-lina-pereira-ao-vivo-em-cores-e-em-todas-a\/302383608615651\/\">ra-lina-pereira-ao-vivo-em-cores-e-em-todas-a\/302383608615651\/ <\/a>acesso em 15\/11\/2024.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Originalmente apresentado como monografia de 3o ano do Curso de Psican\u00e1lise em 2024.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista em forma\u00e7\u00e3o no Curso de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em apelo \u00e0 escuta psicanal\u00edtica, eloquente escrito de Lu\u00edsa Godoy questiona o imp\u00e9rio do infantil <em>cis-tema<\/em> sexo-g\u00eanero. Leia na \u00edntegra.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[116,332],"edicao":[317],"autor":[331],"class_list":["post-3756","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicanalise-e-politica","tag-curso-de-psicanalise","tag-transidentidades","edicao-boletim-75","autor-luisa-godoy","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3756","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3756"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3756\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3757,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3756\/revisions\/3757"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3756"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3756"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3756"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3756"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3756"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}