{"id":3758,"date":"2025-06-13T18:08:14","date_gmt":"2025-06-13T21:08:14","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3758"},"modified":"2025-06-13T18:08:49","modified_gmt":"2025-06-13T21:08:49","slug":"o-analista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/06\/13\/o-analista\/","title":{"rendered":"O analista"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>O analista<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Maria Cristina Petry Barros Martinha<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>An\u00e1<\/em><em>lise <\/em><em>termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel&#8230; E quando o Real da morte se imp\u00f5e intempestivamente? O que um analisante teria a dizer sobre o fim de an\u00e1lise entre a morte Simb\u00f3lica e a morte Real do analista?<\/em><\/p>\n<p><em>Uma homenagem<\/em> in memoriam<em> para Oscar Angel Cesarotto, analista lacaniano, nascido em 28\/01\/1950 em Buenos Aires, Argentina e que faleceu recentemente em S\u00e3o Paulo na data de 11\/04\/2025. Dados biogr\u00e1ficos e rela\u00e7\u00e3o das suas obras poder\u00e3o ser encontrados em seu \u00faltimo livro <\/em>Inconsci\u00eancias \u2013 Psican\u00e1lise \u2013 Semi\u00f3tica \u2013 Cultura material,<em> lan<\/em><em>\u00e7ado em 2019 pela editora Iluminuras.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em An\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, Freud revela um certo pessimismo quanto \u00e0 efic\u00e1cia terap\u00eautica da psican\u00e1lise, considerando at\u00e9 mesmo os fatores constitucionais dentre as dificuldades com que ela se defronta e, al\u00e9m da defesa do eu e da for\u00e7a dos traumas, a puls\u00e3o de morte \u2013 respons\u00e1vel por grande parte da resist\u00eancia encontrada na an\u00e1lise \u2013 \u00e9 tida como a causa suprema de conflito na mente.<\/p>\n<p>J\u00e1 Lacan, em sua retomada de Freud, assim como a travessia da resist\u00eancia \u00e0 cura e do complexo de castra\u00e7\u00e3o, defende que a cura adviria do confronto do sujeito com a verdade do seu desejo.<\/p>\n<p>O processo anal\u00edtico abordado por Lacan atrav\u00e9s dos tr\u00eas tempos l\u00f3gicos<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u2013 instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir \u2013 ressalta que o analista atua para precipitar o momento de concluir do sujeito, rompendo com a temporalidade cronol\u00f3gica e promovendo uma apropria\u00e7\u00e3o subjetiva das viv\u00eancias. Deve estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre o desejo e a morte como condi\u00e7\u00e3o humana, aproximando o sujeito do Real \u2013 aquilo que resiste \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fim da an\u00e1lise \u00e9 tido, n\u00e3o como uma erradica\u00e7\u00e3o da falta ou de uma cura total dos sintomas, mas sim como uma destitui\u00e7\u00e3o subjetiva; podemos dizer at\u00e9 mesmo de uma morte simb\u00f3lica do analista \u2013 colocado inicialmente como detentor do saber (Sujeito Suposto Saber) \u2013 uma vez que a transfer\u00eancia se desfaz. Implica a queda dos significantes mestres que representavam para o sujeito, das identifica\u00e7\u00f5es idealizadas advindas do Outro, e do objeto que o completava na fantasia. Trata-se de uma transforma\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o do sujeito, liberando-o da aliena\u00e7\u00e3o e permitindo-lhe assumir a responsabilidade por seu desejo.<\/p>\n<p>E quando o Real da morte do analista se imp\u00f5e para o sujeito? O que um analisante que perde o seu analista de modo repentino para a morte teria a dizer? Quais as implica\u00e7\u00f5es da morte f\u00edsica do analista?<\/p>\n<p>Penso que a forma do analisante lidar com essa perda dependeria do grau de sua &#8220;travessia do fantasma&#8221; e de sua pr\u00f3pria &#8220;destitui\u00e7\u00e3o subjetiva&#8221; at\u00e9 aquele momento de sua an\u00e1lise, permitindo-lhe ou n\u00e3o integrar a perda como uma conting\u00eancia da manifesta\u00e7\u00e3o\u00a0do\u00a0Real, o imposs\u00edvel de se inscrever, com maior ou menor capacidade de aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos entender a an\u00e1lise como intermin\u00e1vel no sentido de que sempre fica um resto inapreens\u00edvel de um Real que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se inscrever. No caso de um analisante que se encontrasse em meio ao seu processo anal\u00edtico e se deparasse com a morte do seu analista, creio que o intermin\u00e1vel seria da ordem da transfer\u00eancia que n\u00e3o p\u00f4de ser finalizada, o que provavelmente dificultaria o in\u00edcio de um novo processo anal\u00edtico.<\/p>\n<p>E o analisante j\u00e1 em mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o subjetiva, o que poderia tamb\u00e9m dizer quando, durante um processo anal\u00edtico ainda que em tempo de finaliza\u00e7\u00e3o, morre o analista?<\/p>\n<p>Um tr\u00e1gico fim de an\u00e1lise onde n\u00e3o existem palavras que deem conta dessa inexor\u00e1vel realidade. A morte \u00e9 decididamente o Real que se imp\u00f5e, extempor\u00e2neo, fortuito, imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Como lidar com essa situa\u00e7\u00e3o, depender\u00e1 da capacidade de cada um e, acredito, de como foi conduzida a an\u00e1lise at\u00e9 ent\u00e3o. Poder\u00e1 surgir um sentimento de desamparo, que seja fugaz, ou de orfandade, ou at\u00e9 mesmo de abandono, ou ainda&#8230;, enfim, cada caso \u00e9 um caso.<\/p>\n<p>Conheci o Oscar por volta dos anos 90 quando, juntamente com o M\u00e1rcio Peter, tamb\u00e9m j\u00e1 falecido, realizou um curso de introdu\u00e7\u00e3o a Lacan em seu consult\u00f3rio no Jardim Paulistano, onde, com Geraldino Ferreira, falecido no final de 2024, compunham esse trio referendado de psicanalistas lacanianos. Ap\u00f3s o t\u00e9rmino do curso, procurei-o para iniciar uma an\u00e1lise que se deu por um bom tempo, no ritmo de tr\u00eas vezes por semana.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns dez anos retomei a an\u00e1lise, desde ent\u00e3o semanalmente, a fim de lidar com a realidade da morte do meu pai, grande mestre, no que fui recuperando o sentido da sua fun\u00e7\u00e3o em minha vida, da sua lei, do seu nome, finalizando todo um processo que incluiu, tamb\u00e9m, a ressignifica\u00e7\u00e3o da morte de minha m\u00e3e, e ainda, a da primeira analista, ap\u00f3s um tempo do encerramento daquele primeiro percurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Participei por alguns anos da Associa\u00e7\u00e3o Livre \u2013 S\u00e3o Paulo, onde Oscar &#8211; professor, mestre, doutor, psicanalista, semioticista, escritor e uma s\u00e9rie de outros tantos dignos atributos \u2013 em parceria com Fani Hisgail, Paul Kardoux e convidados, coordenava as reuni\u00f5es tem\u00e1ticas sobre o ensino de Lacan e tamb\u00e9m as reuni\u00f5es cl\u00ednicas, al\u00e9m do <em>Caf\u00e9 lacaniano<\/em> promovido na Livraria da Vila, mensalmente, aos s\u00e1bados.<\/p>\n<p>Agora, em recent\u00edssima data, n\u00e3o tive palavras e talvez ainda n\u00e3o as tenho plenas para dizer do que sinto, mas certamente lamento muito a perda por morte repentina de meu ainda analista, quem sempre esteve ao meu lado me ajudando a lidar com tantas perdas e lutos, mas tamb\u00e9m com tantos ganhos, reconhecimentos e gratid\u00e3o pela vida. Saberei eu lidar com esse t\u00e3o recente e inesperado acontecimento? Penso que sim, afinal, uma das \u00faltimas afirma\u00e7\u00f5es que lhe fiz, em sess\u00e3o de antev\u00e9spera, foi a de que me via em paz, amando a vida, desejosa de viver tantos anos quantos me fosse poss\u00edvel viver, capaz de aceitar as coisas como elas s\u00e3o. Um coment\u00e1rio final que me preocupou: ao lhe dizer que eu iria ao cardiologista cuidar da minha press\u00e3o arterial, ele comenta que tamb\u00e9m estava sentindo que precisava cuidar dessa parte&#8230;<\/p>\n<p>Segundo Lacan, a verdadeira an\u00e1lise deve nos preparar para aceitar a realidade da condi\u00e7\u00e3o humana, em toda a sua finitude.<\/p>\n<p>Que voc\u00ea, Oscar, meu analista de tantos anos, a quem dedico <em>in memoria<\/em><em>m <\/em>estas palavras, esteja em paz!<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Freud, S. (1937), v. XXIII, ed. Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1975.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Lacan, J. (1945), Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.<\/p>\n<p>__________ Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/p>\n<p>__________ O Semin\u00e1rio, lv. 16, De um Outro a outro. Rio de Janeiro: Zahar, 2006<\/p>\n<p>Cesarotto, Oscar e Souza Leite, M\u00e1rcio Peter, Jacques Lacan &#8211; Uma Biografia Intelectual. S\u00e3o Paulo, Iluminuras, 2001.<\/p>\n<p>Cesarotto, Oscar, Inconsci\u00eancias &#8211; Psican\u00e1lise \u2013 Semi\u00f3tica \u2013 Cultura Material. S\u00e3o Paulo, Iluminuras, 2019.<\/p>\n<p>Quinet, Antonio, As 4+1 Condi\u00e7\u00f5es da An\u00e1lise.\u00a0 Rio de Janeiro: Zahar, 1995.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o Real se imp\u00f5e, o que pode um sujeito? <em>In memoriam<\/em> de Oscar Angel Cesarotto, Maria Cristina Petry escreve.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[169],"tags":[179],"edicao":[317],"autor":[258],"class_list":["post-3758","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-in-memoriam","tag-in-memoriam","edicao-boletim-75","autor-cristina-petry","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3758"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3759,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3758\/revisions\/3759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3758"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3758"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}