{"id":3814,"date":"2025-09-08T22:30:38","date_gmt":"2025-09-09T01:30:38","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3814"},"modified":"2025-09-11T00:46:37","modified_gmt":"2025-09-11T03:46:37","slug":"resenha-de-ponto-segredo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/09\/08\/resenha-de-ponto-segredo\/","title":{"rendered":"Resenha de Ponto Segredo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Resenha de <em>Ponto Segredo<\/em><\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\">Livro de poemas de Maria Cristina Teixeira Prandini<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ana Maria Siqueira Leal<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem foi o primeiro poeta brasileiro? Ser\u00e1 Castro Alves? Que com seu \u201cNavio Negreiro\u201d e outras poesias aponta para o sofrimento do povo preto e o descreve com tanta sensibilidade?<\/p>\n<p>Na passagem da Monarquia para a Rep\u00fablica, vozes protestam: Jos\u00e9 de Alencar, Machado de Assis, \u00c1lvares de Azevedo, que descortinam o car\u00e1ter de nosso povo espoliado. Outro marco importante para a poesia nacional \u00e9 a Semana de 22: um marco da modernidade.<\/p>\n<p>Proliferam no Brasil, nesse per\u00edodo e posteriormente, diversas revistas de poesia: <em>Zunai, Art<\/em><em>\u00e9<\/em><em>ria, Zero, Atlas, Ouri<\/em><em>\u00e7o<\/em>. Nos anos 60 e 70, os poemas estavam nos postes ou pichados nas paredes e nos muros, com a ajuda do <em>spray<\/em>, de um mime\u00f3grafo ou de um <em>silk screen<\/em>.<\/p>\n<p>M\u00e1rio de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, expoentes desse per\u00edodo, despejam seus poemas modernos, concretos numa m\u00e9trica pouco conhecida.<\/p>\n<p>Criatividade brasileira, onde se inscreve Maria Cristina Prandini, menina que ama as palavras e desde pequena pensa nelas e com elas.<\/p>\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o de Cristina, \u00c1urea Rampazzo comenta (\u2026)\u00a0 <em>\u201c<\/em><em>Essa voz inaugural, j<\/em><em>\u00e1 <\/em><em>sabia que a poesia nem sempre se encontra anunciada no sublime, <\/em><em>\u00e0<\/em><em>s vezes se mistura <\/em><em>\u00e0<\/em><em>s coisas do cotidiano, nomeando sentimentos e desconfian<\/em><em>\u00e7as\u201d (&#8230;).<\/em> S\u00e3o 53 poemas &#8211; j\u00e1 no in\u00edcio encontro \u201cHeran\u00e7a\u201d. Lendo esse poema, n\u00e3o posso deixar de sentir o que Cristina sente. Essas lembran\u00e7as do av\u00f4 &#8211; caf\u00e9 com gosto de anan\u00e1s, caf\u00e9 na caneca verde \u00e1gate. Assim ela foi iniciada nos mist\u00e9rios da linguagem.<\/p>\n<p>Em \u201cNoite Adentro\u201d, na mesma linha de &#8220;Heran\u00e7a&#8221;, esse poema retorna as lembran\u00e7as dos av\u00f3s,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>aprendi bem cedo a sua do<\/em><em>\u00e7<\/em><em>ura.<br \/>\n<\/em><em>Alumbramento, por exemplo, n\u00e3o tem gosto de quindim?<br \/>\n<\/em><em>Capturar\u2026 <\/em><em>arroz doce com canela<br \/>\n<\/em><em>Minha av<\/em><em>\u00f3 <\/em><em>acordava no meio da noite,<br \/>\n<\/em><em>Fugia dos pesadelos<br \/>\n<\/em><em>buscando os doces em calda<br \/>\n<\/em><em>Figo, cidra, marmelo<br \/>\n<\/em><em>Quando nenhum servia<br \/>\n<\/em><em>se consolava com leite e a\u00e7\u00facar queimado<br \/>\n<\/em><em>Ins\u00f4<\/em><em>nia para mim,<br \/>\n<\/em><em>passou a ter gosto de cheiro bem marcado<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Eu acompanhava minha av<\/em><em>\u00f3<br \/>\n<\/em><em>e no dia seguinte sonolenta<br \/>\n<\/em><em>inventava palavras para o meu av<\/em><em>\u00f4,<br \/>\n<\/em><em>que se ria muito, de tudo<br \/>\n<\/em><em>Ele tinha dormido a noite inteira<\/em><\/p>\n<p>No poema \u201cRecorda\u00e7\u00f5es\u201d, dedicado ao neto Felipe,<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>\u201c<\/em><em>algumas palavras querem ser ditas bem lentamente (<\/em><em>\u2026)<br \/>\n<\/em><em>Algumas nos acordam<br \/>\n<\/em><em>Estupendo<br \/>\n<\/em><em>Outras nos adormecem<br \/>\n<\/em><em>C<\/em><em>antelena<br \/>\n<\/em><em>As palavras s<\/em><em>\u00f3 <\/em><em>querem saber de mandar<\/em><em>\u201d<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">Em \u201cSina\u201d,<br \/>\n&#8220;<em>Um dia desses experimento a obedi<\/em><em>\u00ea<\/em><em>ncia &#8211; s<\/em><em>\u00f3 pr\u00e1 <\/em><em>ver que gosto tem\u201d<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cNunca mais\u201d:<br \/>\n&#8220;<em>Foi no enterro do seu Joaquim<br \/>\n<\/em><em>Lembro-me bem<br \/>\n<\/em><em>Encantei-me com as flores<br \/>\n<\/em><em>Com os sequilhos, com o caf<\/em><em>\u00e9 <\/em><em>e biscoitos<br \/>\n<\/em><em>de polvilho<br \/>\n<\/em><em>Mas houve quem dissesse<br \/>\n<\/em><em>Nunca mais, nunca mais<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>Entendi que morrer <\/em><em>\u00e9 <\/em><em>para sempre<br \/>\n<\/em><em>Espantei-me que houvesse aula depois<br \/>\n<\/em><em>A madre superiora riu de minha ingenuidade<br \/>\n<\/em><em>&#8216;Morre gente todos os dias&#8217;<br \/>\n<\/em><em>Percebendo meu espanto arrematou<br \/>\n<\/em><em>&#8216;Todos os minutos&#8217;<\/em><em>\u201d<\/em><\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o caberia aqui falar de todos os poemas, mas vou continuar pincelando alguns que foram mais expressivos para mim.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cSombras\u201d;<br \/>\n<em>&#8220;<\/em><em>caf<\/em><em>\u00e9 <\/em><em>fraco me deixa assim<br \/>\n<\/em><em>Desarvorada&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cRessentimento\u201d:<br \/>\n&#8220;<em>A quieta mulher em sua madurez<br \/>\n<\/em><em>trancada a chave<br \/>\n<\/em><em>o cheiro de s<\/em><em>\u00e2<\/em><em>ndalo<br \/>\n<\/em><em>escuta a chegada do outono<br \/>\n<\/em><em>em breve a beleza se vai<br \/>\n<\/em><em>e a sabedoria n\u00e3o chegou ainda&#8221;<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cGram\u00e1tica\u201d<br \/>\n&#8220;<em>Pensando bem, eu n\u00e3o preciso saber o plural de arco-<\/em><em>\u00edris<\/em><em>&#8220;<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cDespudorada\u201d:<br \/>\n<em>&#8220;Enquanto a poesia n\u00e3o chega,<br \/>\n<\/em><em>s\u00f3 <\/em><em>penso bobagens&#8221;<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cMelancolia\u201d:<br \/>\n&#8220;<em>\u00c0<\/em><em>s vezes me encanto com uma palavra<br \/>\n<\/em><em>cismei que sozinho tinha acento<br \/>\n<\/em><em>o dicion<\/em><em>\u00e1<\/em><em>rio me diz que n\u00e3<\/em><em>o<br \/>\n<\/em><em>s\u00fabita tristeza me invade<br \/>\n<\/em><em>al<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m de sozinho<br \/>\n<\/em><em>nem acento tem&#8221;<\/em><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cCom Leminski\u201d:<br \/>\n&#8220;<em>Louvado seja Deus<br \/>\n<\/em><em>N<\/em><em>\u00e3o apenas entre roupas lavadas no varal<br \/>\n<\/em><em>mas tamb<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m entre as sujeidades do mundo imundo&#8221;<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cSolar\u201d:<br \/>\n<strong><em>&#8220;<\/em><\/strong><em>A gargalhada<br \/>\n<\/em><em>multiplica-se em vogais<br \/>\n<\/em><em>alaranjadas<\/em><em>&#8220;<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cPr\u00e9 &#8211; hist\u00f3ria\u201d, a \u00faltima que poderia ser a primeira:<br \/>\n&#8220;<em>Quando eu era bem menino<br \/>\n<\/em><em>pesava palavras a ermo<br \/>\n<\/em><em>nas conversas entre os adultos<br \/>\n<\/em><em>O que dizer, eu perguntava<br \/>\n<\/em><em>quando respondiam, ficava t\u00e3<\/em><em>o triste<br \/>\n<\/em><em>a brincadeira terminava<br \/>\n<\/em><em>\u00e0<\/em><em>s vezes eram <\/em><em>\u00f3<\/em><em>timas fontes<br \/>\n<\/em><em>A Salve Rainha por exemplo<br \/>\n<\/em><em>de onde retirar a palavra desterro<br \/>\n<\/em><em>Deu trabalho ningu<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m sabia<br \/>\n<\/em><em>tem de haver um erro, n\u00e3<\/em><em>o<br \/>\n<\/em><em>\u00e9 <\/em><em>o marido da Terra<br \/>\n<\/em><em>algu<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m tirou algo de algu<\/em><em>\u00e9<\/em><em>m<br \/>\n<\/em><em>foi mandado embora<\/em><em>\u2026<\/em><em>&#8220;<\/em><\/p>\n<p>Finalizando, algumas palavras: Cristina dedica seus poemas a seus queridos. Filhos, neto, a seu analista e ao seu amor que se foi.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Maria Cristina Teixeira Prandini, psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae e Diretora do Instituto Vox de psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao tecer um ponto de origem, Ana Leal enla\u00e7a a trama da poesia de Cristina Prandini, inserindo fios de mem\u00f3rias, cheiros e hist\u00f3rias.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[81],"tags":[83],"edicao":[335],"autor":[122],"class_list":["post-3814","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leitura","tag-leituras","edicao-boletim-76","autor-ana-maria-siqueira-leal","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3814"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3814\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3879,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3814\/revisions\/3879"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3814"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3814"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}