{"id":3829,"date":"2025-09-08T23:04:49","date_gmt":"2025-09-09T02:04:49","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3829"},"modified":"2025-09-11T00:47:11","modified_gmt":"2025-09-11T03:47:11","slug":"ensaio-sobre-a-repeticao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/09\/08\/ensaio-sobre-a-repeticao\/","title":{"rendered":"Ensaio sobre a repeti\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Ensaio sobre a repeti\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Leonardo Ferreira Galv\u00e3o Tavares<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema caro e significativo \u00e0 psican\u00e1lise. Determinados acontecimentos de vida escapam \u00e0 compreens\u00e3o e necessitam ser revividos. Essas repeti\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocorrem de forma consciente; funcionam como rastros inscritos no inconsciente, que retornam trazendo conte\u00fados recalcados, ainda que em formas distorcidas ou fragmentadas. Assim, a repeti\u00e7\u00e3o opera por um caminho atrav\u00e9s do qual o indiv\u00edduo pode buscar uma representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pacientes chegam \u00e0 cl\u00ednica tentando dar um rumo a ela, muitas vezes n\u00e3o reconhecem esse repetir que se manifesta nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais e consigo mesmo. Na cl\u00ednica, a escuta psicanal\u00edtica, atenta e flutuante, volta-se para essas manifesta\u00e7\u00f5es de repeti\u00e7\u00e3o, percebendo-as como elementos centrais do discurso do analisando. Repeti\u00e7\u00f5es que s\u00e3o sustentadas por desejos inconscientes que, ao se realizarem parcialmente, perpetuam ciclos de sofrimento e frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o acomete a todos, tanto os neur\u00f3ticos quanto os psic\u00f3ticos, cada qual \u00e0 sua maneira. Algumas pessoas buscam incansavelmente repetir a realiza\u00e7\u00e3o amorosa, uma experi\u00eancia de enamoramento que se dissipa com o tempo. Esse movimento, frequentemente inconsciente, pode ser interpretado como uma tentativa de reinscri\u00e7\u00e3o do passado no presente, uma atualiza\u00e7\u00e3o, revelando o quanto o indiv\u00edduo est\u00e1 preso a marcas ps\u00edquicas que condicionam suas escolhas de vida. Na pr\u00e1tica cl\u00ednica, observamos que a escolha da pessoa amada reflete tra\u00e7os de experi\u00eancias anteriores, desvelando essa cont\u00ednua tentativa, fracassada, de retorno inconsciente a uma satisfa\u00e7\u00e3o passada.<\/p>\n<p>Essa repeti\u00e7\u00e3o falha gera sofrimento, ainda que tenha inicialmente atendido \u00e0s exig\u00eancias do princ\u00edpio do prazer em realizar experi\u00eancias agrad\u00e1veis. Observa-se, ent\u00e3o, um conflito de for\u00e7as: o desejo de obter prazer a partir do mesmo caminho, uma puls\u00e3o que insiste em repetir, confronta-se com o novo e o imprevis\u00edvel. Esse embate \u00e9 o que permite \u00e0 experi\u00eancia de an\u00e1lise sua pot\u00eancia transformadora, elaborar para construir novas maneiras de lidar com seus pr\u00f3prios impasses.<\/p>\n<p>Este ensaio<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> tem como objetivo examinar a repeti\u00e7\u00e3o na obra freudiana e em sua express\u00e3o cl\u00ednica, destacando tanto suas possibilidades de elabora\u00e7\u00e3o quanto seus impasses. Para isso, retoma textos fundamentais de Freud e articula-os a vinhetas cl\u00ednicas de modo a discutir como a repeti\u00e7\u00e3o pode se apresentar como via de transforma\u00e7\u00e3o ou como destino que resiste \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Repeti\u00e7\u00e3o em Freud<\/strong><\/p>\n<p>Freud (1914) mostra que todos os sintomas neur\u00f3ticos s\u00e3o repetidos durante a an\u00e1lise, o que pode ser ben\u00e9fico para o paciente ao encontrar um lugar seguro e prop\u00edcio onde a repeti\u00e7\u00e3o pode ocorrer e, consequentemente, permitir a interven\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica. Mesmo quando Elisabeth persistia em comunicar que seu estado doente permanecia inalterado, ele continuou a an\u00e1lise de sua paciente: \u201cTivesse eu nesse est\u00e1gio renunciado ao tratamento ps\u00edquico da doente, o caso da srta. Elisabeth v. R&#8230; provavelmente se tornaria irrelevante para a teoria da histeria\u201d (FREUD, 1895, p. 208).<\/p>\n<p>No texto \u201cEstados hipnoides\u201d, h\u00e1 a seguinte afirma\u00e7\u00e3o de Freud: &#8220;o hist\u00e9rico sofre sobretudo de reminisc\u00eancias&#8221; (BREUER, 1893, p. 313). Mais tarde, Freud (1904) percebeu que as lembran\u00e7as das hist\u00e9ricas eram, de certa forma, fantasias que n\u00e3o representavam a realidade de maneira factual, ou seja, eram representa\u00e7\u00f5es da realidade ps\u00edquica. N\u00e3o \u00e0 toa, esta foi uma das raz\u00f5es pelas quais ele abandonou o m\u00e9todo cat\u00e1rtico, que, por meio da hipnose, buscava retornar \u00e0 raiz do problema, trazer o conte\u00fado inconsciente \u00e0 consci\u00eancia, lembrar da cena traum\u00e1tica para intervir usando a sugest\u00e3o, pois assim acreditava-se ser poss\u00edvel a transforma\u00e7\u00e3o dos sintomas e a libera\u00e7\u00e3o dos afetos at\u00e9 ent\u00e3o estrangulados.<\/p>\n<p>Com seu sintoma mais not\u00e1vel, a convers\u00e3o, as hist\u00e9ricas tentavam, mesmo sem saber, mostrar algo atrav\u00e9s do corpo, indicando uma verdade de si repetidamente e inconscientemente. J\u00e1 no texto \u201cRecordar, repetir e elaborar\u201d, Freud (1914) argumenta que a repeti\u00e7\u00e3o ocorre porque o paciente n\u00e3o consegue lembrar. Aquilo que se repete foi apartado da consci\u00eancia. O recordar \u00e9 substitu\u00eddo pelo repetir, o repetir \u00e9 sin\u00f4nimo de atuar, e este exige manejo e interven\u00e7\u00e3o cl\u00ednica a fim de uma elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em \u201cA din\u00e2mica da transfer\u00eancia\u201d, Freud (1912) explica que o paciente repete modelos estabelecidos (imagos) na figura do analista, para quem direciona sua libido:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201c\u00c9 perfeitamente normal e compreens\u00edvel, portanto, que o investimento libidinal de uma pessoa em parte insatisfeita, mantido esperan\u00e7osamente em prontid\u00e3o, tamb\u00e9m se volte para a pessoa do m\u00e9dico (&#8230;) ele incluir\u00e1 o m\u00e9dico em uma das\u00a0 \u2018s\u00e9ries&#8217; que o doente formou at\u00e9 ent\u00e3o\u201d. (FREUD, 1912, p. 136).<\/p>\n<p>Ao conceber o sintoma como forma\u00e7\u00e3o de compromisso entre inst\u00e2ncias, uma resposta a um conflito entre consciente e inconsciente, torna-se evidente a persist\u00eancia em manifesta\u00e7\u00e3o. Essa persist\u00eancia em repetir \u00e9 pr\u00f3pria do inconsciente.<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o transferencial sabemos que o paciente repete com o analista seus sintomas, aquilo que o faz sofrer l\u00e1 fora.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cLogo notamos que a transfer\u00eancia mesma \u00e9 somente uma parcela de repeti\u00e7\u00e3o, e que a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 transfer\u00eancia do passado esquecido, [transfer\u00eancia] n\u00e3o s\u00f3 para o m\u00e9dico, mas para todos os \u00e2mbitos da situa\u00e7\u00e3o presente. Devemos estar preparados, portanto, para o fato de que o analisando se entrega \u00e0 compuls\u00e3o de repetir, que ent\u00e3o substitui o impulso \u00e0 recorda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas na rela\u00e7\u00e3o pessoal com o m\u00e9dico, mas tamb\u00e9m em todos os demais relacionamentos e atividades contempor\u00e2neas de sua vida, por exemplo quando, no decorrer do tratamento, escolhe um objeto amoroso, toma para si uma tarefa, come\u00e7a um empreendimento\u201d. (FREUD, 1914, p. 201).<\/p>\n<p>Ele percebeu que a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 um modo do paciente recordar: &#8220;ele n\u00e3o o reproduz como lembran\u00e7a, mas como ato, ele o repete naturalmente sem saber que o faz\u201d (FREUD, 1914, p. 151).<\/p>\n<p>Freud (1914) propunha que, \u00e0 medida que o tratamento anal\u00edtico progredisse, haveria um processo de recorda\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o; isso exigiria interven\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia, que impediria um avan\u00e7o no sentido de cura pois, quanto maior a resist\u00eancia, mais o recordar ser\u00e1 substitu\u00eddo pelo repetir.<\/p>\n<p>Esse era o modo como Freud tratava a repeti\u00e7\u00e3o, com intuito de diminuir o sofrimento do indiv\u00edduo. O repetir est\u00e1 no in\u00edcio de uma an\u00e1lise que chega ao fim atrav\u00e9s de um \u00e1rduo e cuidadoso trabalho de elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No texto \u201cO inquietante\u201d, Freud (1919) diz que alguns acontecimentos repetidos podem provocar um sentimento inquietante e exemplifica contando sobre uma vez em que tentou sair de uma rua conhecida por ter muitas prostitutas e acabou retornando v\u00e1rias vezes ao mesmo lugar. Nesse caso ele descreve uma sensa\u00e7\u00e3o de inevitabilidade, a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 algo contra o qual n\u00e3o se pode lutar.<\/p>\n<p>Posteriormente, em \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d, Freud (1920) explora a compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o por meio do trauma, baseando-se em sua experi\u00eancia cl\u00ednica sobre sonhos recorrentes. Ele mostra que nos sonhos de neurose traum\u00e1tica o paciente revive o desagrad\u00e1vel do trauma, algo que n\u00e3o alcan\u00e7a uma representa\u00e7\u00e3o e tenta insistentemente ser simbolizado, o que coloca em xeque a teoria de que o aparelho ps\u00edquico \u00e9 regido apenas pelo princ\u00edpio do prazer, de que um sonho seria somente a realiza\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada de um desejo reprimido.<\/p>\n<p>Freud (1920) relata tamb\u00e9m que seu neto, ao brincar com um carretel, o jogo do <em>Fort-da <\/em>(traduzido por <em>ida<\/em> e <em>volta<\/em>), repete uma experi\u00eancia de prazer e desprazer, encena partida e retorno, repeti\u00e7\u00e3o do desaparecimento e surgimento do objeto arremessado e atado na corda. Ele observou que o desaparecimento do objeto seria desagrad\u00e1vel (pois o que Freud de fato observou na brincadeira do neto \u00e9 que o desaparecer do carretel, o <em>Fort<\/em>, era o que dava \u00e0 crian\u00e7a mais prazer) e questiona como, ent\u00e3o, a repeti\u00e7\u00e3o dessa experi\u00eancia aflitiva, enquanto jogo, harmonizava-se com o princ\u00edpio do prazer. A partir desta observa\u00e7\u00e3o, ele formula que existe algo al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer.<\/p>\n<p>Freud (1920, p. 181) aponta para um \u201ctra\u00e7o demon\u00edaco\u201d, algo que escapa e pode ser vivido como um destino inevit\u00e1vel e constata: \u201csentimo-nos encorajados a supor que na vida ps\u00edquica h\u00e1 realmente uma compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, que sobrepuja o princ\u00edpio do prazer\u201d (p. 183). Isso demon\u00edaco \u00e9 a puls\u00e3o de morte. Uma das bases para se pensar em puls\u00e3o de morte foi ter observado a repeti\u00e7\u00e3o que gera desprazer. Com isso, Freud formulou novos conceitos acerca da din\u00e2mica e manifesta\u00e7\u00f5es do inconsciente.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Repeti\u00e7\u00e3o na cl\u00ednica<\/strong><\/p>\n<p>Restos, fragmentos e conte\u00fados inconscientes depositados pelo paciente reverberam na experi\u00eancia subjetiva do analista. Devaneios durante a sess\u00e3o, sonhos que ressoam elementos das hist\u00f3rias escutadas, pensamentos que transbordam o <em>setting<\/em> anal\u00edtico. O caso cl\u00ednico, por vezes, ocupa o corpo e a mente do analista, exigindo uma esp\u00e9cie de decodifica\u00e7\u00e3o em diferentes espa\u00e7os \u2013 na sess\u00e3o, em supervis\u00e3o, em discuss\u00f5es cl\u00ednicas. H\u00e1, portanto, o convite para integrar esses conte\u00fados e dar-lhes um contorno, novo sentido.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o transferencial configura um campo anal\u00edtico privilegiado onde se atualizam repeti\u00e7\u00f5es que revelam desejos e conflitos inconscientes. Ao escutar o paciente, ele revive esquemas afetivos, relacionais e paradoxais. Essas repeti\u00e7\u00f5es n\u00e3o se limitam a evoca\u00e7\u00f5es passivas de lembran\u00e7as, mas se apresentam como um movimento ativo que busca compensar aus\u00eancia, falta, reencena, inconscientemente, experi\u00eancias ainda n\u00e3o elaboradas. Repetem-se porque algo ainda n\u00e3o aconteceu, o paciente persiste em encontrar, na cena anal\u00edtica, uma via para representar o que permanece em suspenso. Contudo, nem sempre \u00e9 poss\u00edvel ou necess\u00e1rio conduzir a repeti\u00e7\u00e3o \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o. Algumas repeti\u00e7\u00f5es simplesmente insistem, se imp\u00f5em como parte da vida ps\u00edquica, e o trabalho anal\u00edtico, nesses casos, \u00e9 mais sobre sustent\u00e1-las e reconhecer sua presen\u00e7a do que sobre tentar elabor\u00e1-las.<\/p>\n<p>Essas repeti\u00e7\u00f5es se manifestam de diversas formas: seja atrav\u00e9s de narrativas que retornam ciclicamente, seja por meio de afetos intensos e contradit\u00f3rios. Por vezes, os pacientes projetam no analista figuras e experi\u00eancias n\u00e3o compreendidas, como se ele fosse um deposit\u00e1rio dessas marcas. Em muitos casos, percebo em minha cl\u00ednica que a repeti\u00e7\u00e3o surge como uma tentativa silenciosa de encontrar sentido ou reparar o que ficou inacabado.<\/p>\n<p>O trabalho com essa din\u00e2mica demanda uma escuta sens\u00edvel, disposi\u00e7\u00e3o afetiva e interven\u00e7\u00f5es cuidadosas. Algumas interven\u00e7\u00f5es se d\u00e3o por meio da palavra, outras pelo sil\u00eancio, pelo manejo atento, presen\u00e7a espont\u00e2nea e viva, pelo campo sensorial e clima emocional entre a dupla anal\u00edtica. Sustentar o espa\u00e7o da repeti\u00e7\u00e3o sem se precipitar em interpreta\u00e7\u00f5es que interrompam o processo de elabora\u00e7\u00e3o do paciente \u00e9 fundamental. Quando uma repeti\u00e7\u00e3o inconsciente pode ser elaborada, o paciente encontra a possibilidade de romper com o ciclo, abrindo espa\u00e7o para novas formas de rela\u00e7\u00e3o com seus afetos e com o mundo.<\/p>\n<p>Esse processo, entretanto, demanda tempo, envolvimento e \u00e9 permeado por resist\u00eancias que se imp\u00f5em. Sabe-se que onde h\u00e1 resist\u00eancia, h\u00e1 tamb\u00e9m transfer\u00eancia, e \u00e9 nesse jogo que se constr\u00f3i o trabalho anal\u00edtico. A elabora\u00e7\u00e3o daquilo que se repete e sua transforma\u00e7\u00e3o permite que o paciente reedite sua hist\u00f3ria, criando novos caminhos para circula\u00e7\u00e3o do desejo e potencializando sua capacidade de se relacionar consigo mesmo e com o outro.<\/p>\n<p>Lembro-me de um caso em que a paciente lamentava repetidamente a perda de um estilo de vida confort\u00e1vel. Suas narrativas, marcadas por sentimentos de vergonha e frustra\u00e7\u00e3o, se entrela\u00e7avam com sua experi\u00eancia atual de rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Aos poucos, foi poss\u00edvel reconhecer como essa repeti\u00e7\u00e3o era uma tentativa de resgatar algo que havia se perdido, mas tamb\u00e9m um modo de sustentar uma aus\u00eancia que talvez jamais pudesse ser plenamente elaborada. O trabalho anal\u00edtico n\u00e3o dissolveu o luto, mas permitiu que ele fosse nomeado, reconhecido e, de alguma forma, inclu\u00eddo na narrativa de vida da paciente.<\/p>\n<p>Outro exemplo recorrente \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de afetos ambivalentes, como o \u00f3dio e a cr\u00edtica, direcionados a figuras parentais. Em muitos casos, essas manifesta\u00e7\u00f5es revelam a tentativa inconsciente de dar continuidade a experi\u00eancias n\u00e3o elucidadas, trazendo para o campo anal\u00edtico afetos dolorosos e complexos. O trabalho com essas repeti\u00e7\u00f5es possibilita que o paciente reconhe\u00e7a tais afetos e, pouco a pouco, encontre outras formas de se relacionar com essas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Cada uma dessas situa\u00e7\u00f5es ilustra como a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 um espelho do passado e um enigma que resiste \u00e0 representa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 algo de irredut\u00edvel em repeti\u00e7\u00f5es e talvez compele ao analista mais acompanhar o mist\u00e9rio que carregam. Em outros casos, a escuta anal\u00edtica, combinada a interven\u00e7\u00f5es sens\u00edveis, permite transform\u00e1-las em um caminho. Um caminho, este, onde a elabora\u00e7\u00e3o possibilita a constru\u00e7\u00e3o representacional.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise do conceito de repeti\u00e7\u00e3o na obra de Freud permite compreender que este fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 apenas uma resist\u00eancia a ser traduzida, mas um operador central do inconsciente. Esse ensaio buscou mostrar que a repeti\u00e7\u00e3o pode se apresentar, por um lado, como via de elabora\u00e7\u00e3o, possibilitando ao sujeito novas formas de rela\u00e7\u00e3o com seus afetos; por outro, pode insistir como destino irredut\u00edvel, que n\u00e3o se transforma, mas que ainda assim precisa ser sustentado no campo anal\u00edtico. A escuta cl\u00ednica exige do analista n\u00e3o apenas a interpreta\u00e7\u00e3o, mas a disposi\u00e7\u00e3o \u00e9tica de acompanhar aquilo que retorna, mesmo quando n\u00e3o se deixa elaborar. Esse \u00e9 o desafio que a repeti\u00e7\u00e3o imp\u00f5e: reconhecer sua dimens\u00e3o paradoxal, entre compuls\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o, e sustentar sua presen\u00e7a como parte constitutiva da experi\u00eancia ps\u00edquica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BREUER, J. <strong>Estados hipnoides<\/strong> <em>in<\/em> Obras completas, volume 2: Estudos sobre a histeria (1893-1895) em coautoria com Josef Breuer; tradu\u00e7\u00e3o Laura Barreto; revis\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016, pp. 303-314.<\/p>\n<p>FREUD, S. <strong>Srta. Elisabeth von R&#8230;<\/strong> <em>in<\/em> Obras completas, volume 2: Estudos sobre a histeria (1893-1895) em coautoria com Josef Breuer; tradu\u00e7\u00e3o Laura Barreto; revis\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016, pp. 194-260.<\/p>\n<p>FREUD, S. <strong>O m\u00e9<\/strong><strong>todo psicanal<\/strong><strong>\u00edtico de Freud<\/strong> <em>in<\/em> Obras completas, volume 6: Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade, an\u00e1lise fragment\u00e1ria de uma histeria (\u201co caso Dora\u201d) e outros textos (1901-1905); tradu\u00e7\u00e3o Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016, pp. 321-330.<\/p>\n<p>FREUD, S. <strong>A din\u00e2mica da transfer\u00ea<\/strong><strong>ncia<\/strong> <em>in<\/em> Obras completas, volume 10: Observa\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (\u201co caso Schreber\u201d), artigos sobre a t\u00e9cnica e outros textos (1911-1913); tradu\u00e7\u00e3o Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp. 133-146.<\/p>\n<p>FREUD, S. <strong>Recordar, repetir e elaborar<\/strong> <em>in<\/em> Obras completas, volume 10: Observa\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (\u201co caso Schreber\u201d), artigos sobre a t\u00e9cnica e outros textos (1911-1913); tradu\u00e7\u00e3o Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp. 193-209.<\/p>\n<p>FREUD, S. <strong>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/strong> <em>in<\/em> Obras Completas, volume 14: Hist\u00f3ria de uma neurose infantil (\u201cO homem dos lobos\u201d), al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer e outros textos (1917-1920); tradu\u00e7\u00e3o e notas Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp. 161-239.<\/p>\n<p>FREUD, S. <strong>O inquietante<\/strong> <em>in<\/em> Obras Completas, volume 14: Hist\u00f3ria de uma neurose infantil (\u201cO homem dos lobos\u201d), al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer e outros textos (1917-1920); tradu\u00e7\u00e3o e notas Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp. 328-376.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psic\u00f3logo e psicanalista em cont\u00ednua forma\u00e7\u00e3o, atualmente pelo Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Uma vers\u00e3o preliminar deste trabalho foi apresentada como monografia no semin\u00e1rio \u201cDa terapia cat\u00e1rtica ao m\u00e9todo psicanal\u00edtico\u201d coordenado por Fl\u00e1vio Carvalho Ferraz. Agrade\u00e7o as contribui\u00e7\u00f5es do citado analista e da turma, que enriqueceram a discuss\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a as indaga\u00e7\u00f5es sens\u00edveis de Leonardo Tavares sobre o lugar do analista no manejo da transfer\u00eancia na cl\u00ednica psicanal\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[9],"tags":[116],"edicao":[335],"autor":[340],"class_list":["post-3829","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-dos-cursos","tag-curso-de-psicanalise","edicao-boletim-76","autor-leonardo-ferreira-galvao-tavares","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3829","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3829"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3829\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3884,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3829\/revisions\/3884"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3829"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3829"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3829"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3829"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3829"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}