{"id":3841,"date":"2025-09-08T23:27:21","date_gmt":"2025-09-09T02:27:21","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3841"},"modified":"2025-09-11T00:47:42","modified_gmt":"2025-09-11T03:47:42","slug":"comentario-ao-filme-ponto-de-encontro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/09\/08\/comentario-ao-filme-ponto-de-encontro\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio ao filme <em>Ponto de encontro<\/em>"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Coment\u00e1rio ao filme <em>Ponto de e<\/em><em>ncontro<\/em><\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Clarissa Giacomo da Motta<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><strong> e Camila Munhoz<\/strong><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-3842\" src=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/b76_7a.jpg\" alt=\"\" width=\"424\" height=\"239\" srcset=\"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/b76_7a.jpg 424w, https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/b76_7a-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 424px) 100vw, 424px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Foto do acervo do Coletivo Filhos &amp; Netos por Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 um prazer enorme para mim e para todo o grupo <em>Faces do t<\/em><em>raum<\/em><em>\u00e1tico<\/em> receber hoje aqui, no Sedes, Paulina e Roberto, cineastas de <em>Ponto de e<\/em><em>ncontro<\/em>, e contar com a presen\u00e7a, mesmo que virtual, de Lucho e Alfredo, na conversa que teremos a seguir sobre esse filme t\u00e3o potente que acabamos de assistir<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Enquanto voc\u00eas respiram e assentam um pouco o impacto dessa obra e elaboram quest\u00f5es para o nosso debate, gostaria de compartilhar algumas reflex\u00f5es \u2014 como um pequeno aquecimento para a conversa que nos espera em seguida, que \u00e9, de fato, o ponto central do nosso encontro. A fala que lerei a seguir foi escrita por mim e por Camila Munhoz.<\/p>\n<p>Come\u00e7o pelo t\u00edtulo: <em>Ponto de Encontro.<\/em> Quantos encontros cabem no mesmo ponto? Quantas vidas se salvaram e quantas se perderam em frente \u00e0 Quinta Vergara? Quantos mundos colapsaram ap\u00f3s o sequestro daqueles dois homens? E o que \u00e9 uma vida? Devemos contar as vidas que estavam sendo vividas naquela data? As vidas que tinham acabado de nascer e as que ainda demorariam a nascer, contam? Que vida sobra para quem sobreviveu? Tentar reconstruir um momento terr\u00edvel exige coragem, coragem de provocar sofrimento em si e nos outros, de se sentir como o algoz que praticou a viol\u00eancia na primeira vez. Lembrar d\u00f3i? E n\u00e3o lembrar, causa o qu\u00ea? Se aproximar desse filme a partir de d\u00favidas e n\u00e3o certezas \u00e9 seguir o que o cineasta Claude Lanzman, quando fez <em>Shoah<\/em>, prop\u00f4s: nunca compreender o incompreens\u00edvel. Aguero, peruano, filho de militantes do Sendero Luminoso, ao se perguntar se ap\u00f3s sofrer viol\u00eancias impens\u00e1veis \u00e9 poss\u00edvel perdoar e esquecer, na mesma linha diz: precisamos partir das d\u00favidas, com humildade, mod\u00e9stia e compaix\u00e3o. Teriam essas perguntas respostas?<\/p>\n<p>Esse filme \u00e9 sobre o encontro entre Lucho e Alfredo, presos em uma fat\u00eddica cela na Vila Grimald durante a ditadura chilena, o que entrela\u00e7ou a vida deles e de seus familiares. Esses jovens militantes do Movimento de Esquerda Revolucion\u00e1ria (MIR), pais de primeira viagem, moradores da mesma cidade, que viram seus sonhos de um pa\u00eds socialista esfacelarem com o golpe militar de 1973, vieram a se conhecer no c\u00e1rcere. L\u00e1, puderam se identificar, para al\u00e9m da pol\u00edtica, como pais de beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos, como dois jovens com alegria e gosto pelo jogo (notadamente o domin\u00f3) e, tamb\u00e9m, como v\u00edtimas dos horrores da pris\u00e3o, da tortura, do medo da morte. A hist\u00f3ria termina com o desaparecimento e assassinato de Alfredo e a soltura de Lucho, que sobreviveu, mas n\u00e3o sem marcas indel\u00e9veis.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio \u00e9 tamb\u00e9m sobre o encontro, 45 anos depois, da \u00e2nsia de Paulina e Alfredo, seus filhos, em tentar juntar as pe\u00e7as, as lembran\u00e7as, os cacos de um mosaico narrativo desconexo, reunido pelo fluxo cont\u00ednuo de dor. \u00c9 ainda sobre o encontro entre as hist\u00f3rias de Silvia e Ginny, duas mulheres que no susto viram seu mundo e projeto de futuro ru\u00edrem e o que foram e n\u00e3o foram capazes de fazer com os escombros. Al\u00e9m disso, \u00e9 sobre o encontro entre gera\u00e7\u00f5es, e a tentativa de, ao costurar fatos, mem\u00f3rias, ser poss\u00edvel reconstituir e transmitir para os descendentes de Lucho e Alfredo, uma hist\u00f3ria que \u00e9 tamb\u00e9m deles. E \u00e9 disso que se trata aqui: de mem\u00f3ria, de transmiss\u00e3o, de testemunho, de hist\u00f3ria em busca de sentido.<\/p>\n<p>Porque o trauma n\u00e3o termina no corpo de quem o vive. Ele se espalha &#8211; como fragmento, lacuna, sil\u00eancio &#8211; afetando tamb\u00e9m aqueles que est\u00e3o perto, os que v\u00eam depois, descendentes ou n\u00e3o. Eles e todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mas quais s\u00e3o as possibilidades e os limites de tal transmiss\u00e3o? Seriam as palavras suficientes para dar conta da magnitude do que se viveu e do que se perdeu? A psicanalista Mariana Wikinski nos lembra que, nas situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas, n\u00e3o h\u00e1 relato que d\u00ea conta da factualidade do acontecido, pois quase invariavelmente o aparelho perceptivo \u00e9 afetado. Ela diz: \u201cVem em nosso aux\u00edlio, nesse sentido, o conceito de signos de percep\u00e7\u00e3o, signos prim\u00e1rios que ficam desprendidos da recorda\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica, d\u00e3o conta da sensorialidade do vivido, circulam err\u00e1ticos pelo aparelho ps\u00edquico, nem conscientes, nem inconscientes, n\u00e3o sepult\u00e1veis, e permanecem em estado puro \u00e0 medida que n\u00e3o sejam enla\u00e7ados simbolicamente com outras representa\u00e7\u00f5es\u201d. Wikinski segue dizendo que, frente ao trauma, \u201cn\u00e3o h\u00e1 um sujeito que se recorda, mas sim um aparelho ps\u00edquico tomado de assalto\u201d (Wikinski, p. 45). Nesse sentido, como transmitir o que foi vivido no corpo e que dificilmente se traduz em palavras? Como transmitir a rigidez do corpo encarcerado? A textura do medo? O cheiro da cela? Os sons da escurid\u00e3o?<\/p>\n<p>A partir dessa compreens\u00e3o, podemos afirmar que as situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas desorganizam o que foi articulado, alteram a forma como o Eu p\u00f4de at\u00e9 aquele momento se organizar em \u201cum eixo de consist\u00eancia subjetiva\u201d, afetando, assim, seus mecanismos de defesa e seus tra\u00e7os de identidade, produzindo o que Wikinski denomina como \u201cfraturas na constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d (p. 45). Um dos efeitos do trauma \u00e9 a impossibilidade de contarmos com um relato do acontecimento real, como se fosse uma foto, uma transcri\u00e7\u00e3o literal. Onde as palavras se mostram insuficientes, a arte aparece como recurso para tocar o corpo, convocar sensorialidades e afetos, nos fazer entender pelas entranhas.<em> Ponto de Encontro<\/em> nos mostra como a arte pode oferecer um espa\u00e7o transicional \u2014 esse entre-lugar entre o vivido e o representado. Dessa forma, o document\u00e1rio \u00e9 tamb\u00e9m um encontro entre a realidade e a encena\u00e7\u00e3o. Os atores interpretando os mortos, os vivos sendo convidados a testemunhar \u2014 tudo se mistura. E, nessa mistura, algo se move. Ser\u00e1? A cena em que Silvia abra\u00e7a o ator que interpreta Alfredo \u00e9 profundamente tocante. Um momento quase alucinat\u00f3rio, em que realidade e encena\u00e7\u00e3o se borram. Ali, ela abra\u00e7a o marido. Ou tenta. Ou abra\u00e7a sua aus\u00eancia. E nos perguntamos: foi um momento de elabora\u00e7\u00e3o ou de retraumatiza\u00e7\u00e3o? Ou seriam os dois? Porque figurar o horror tamb\u00e9m pode ser insuport\u00e1vel. Tentar preencher as lacunas pode despeda\u00e7ar. Mas haveria outro caminho de enfrentamento poss\u00edvel que n\u00e3o esse? Os riscos de n\u00e3o se tentar tamb\u00e9m existem.<\/p>\n<p>Jorge Semprun, um escritor, militante comunista e sobrevivente de um campo de concentra\u00e7\u00e3o, conseguiu fazer algo com suas mem\u00f3rias apenas no final de sua vida. Sobre isso, ele diz: \u201cNo entanto, vem-me uma d\u00favida sobre a possibilidade de contar. N\u00e3o que a experi\u00eancia vivida seja indiz\u00edvel. Ela foi inviv\u00edvel, o que \u00e9 outra coisa, como se compreender\u00e1 facilmente. Outra coisa que n\u00e3o se refere \u00e0 forma de um relato poss\u00edvel, mas \u00e0 sua subst\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e0 sua articula\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 sua densidade. S\u00f3 alcan\u00e7ar\u00e3o essa subst\u00e2ncia, essa densidade transparente os que souberem fazer de seu testemunho um objeto art\u00edstico, um espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o. Ou de recria\u00e7\u00e3o. <em>S\u00f3 o artif\u00ed<\/em><em>cio de um relato que se possa controlar conseguir\u00e1 <\/em><em>transmitir parcialmente a verdade do testemunho<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A arte, nesse filme, funciona como esse campo entre o dentro e o fora, entre o vivido e o pensado, entre o horror e a possibilidade de simboliz\u00e1-lo, entre a submiss\u00e3o ao outro e o controle da cena ensaiada. A arte, assim como o brincar, que aparece no jogo de domin\u00f3, descolam o sujeito de uma realidade insuport\u00e1vel. Na pris\u00e3o, Lucho e Alfredo,\u00a0 ao fazerem uma transgress\u00e3o criativa, fazem uso desse jogo como partilha de afetos e resist\u00eancia ao desespero e \u00e0 morte. Ao final do filme, apresentar o domin\u00f3 para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es \u00e9, ainda, uma aposta na continuidade da vida.<\/p>\n<p>Ao colocarem o pr\u00f3prio corpo para viverem a constru\u00e7\u00e3o desse document\u00e1rio e reviverem a hist\u00f3ria ocorrida h\u00e1 45 anos, assistimos \u00e0 tentativa de nossos protagonistas de reintegrar peda\u00e7os de si-mesmos. Como no caso de Alfredo, o filho. Afinal, a viol\u00eancia perpetrada pelo Estado n\u00e3o se encerrou com o sequestro, assassinato e desaparecimento do corpo de seu pai, pelo contr\u00e1rio. Um dos efeitos dessa viol\u00eancia irresoluta, fica claro no fato de Alfredo viver e atuar sua raiva, provocando medo de que seu destino repetisse o de seu pai. Viol\u00eancia e raiva que s\u00f3 se dissipam no nascimento das filhas, manifesta\u00e7\u00e3o mais que expressiva da puls\u00e3o de vida vencendo a de morte. No entanto, ainda sobrava um corpo insepulto. A viv\u00eancia-encena\u00e7\u00e3o no document\u00e1rio, parece, nesse sentido, apresentar o que n\u00e3o se viveu, possibilitar o testemunho de seu assassinato, devolver o corpo roubado.<\/p>\n<p>Mas, mesmo com toda a for\u00e7a do cinema, seria a encena\u00e7\u00e3o suficiente para devolver algo de Alfredo a seus familiares e contribuir com seus processos de luto? Teria sido a raiva aplacada, o vazio apaziguado? Haveria repara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para tamanha viol\u00eancia perpetrada pelo Estado? E no caso de Lucho? Quais os efeitos para si-mesmo de seu testemunho? Apesar de ter sobrevivido, o homem que voltou n\u00e3o era mais o mesmo. No filme, ele afirma que estava quebrado. Para al\u00e9m das marcas da tortura, como lidar com o peso das escolhas feitas? Escolhas que marcaram n\u00e3o s\u00f3 a ele. E Paulina e Ginny? Como lidar com a complexidade de serem v\u00edtimas do Estado, mas tamb\u00e9m das escolhas feitas por aquele que foi vitimado? A travessia de Paulina no filme , entre tentar compreender o pai e chegar a se reconhecer como mais uma das afetadas pelo trauma, \u00e9 um dos poss\u00edveis efeitos reparadores do document\u00e1rio.<\/p>\n<p>O filme, \u00e9, por fim, um encontro, entre o privado, a solid\u00e3o do traum\u00e1tico de v\u00edtimas de crimes de Estado, e as hist\u00f3rias ditatoriais dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, o que concerne a todos n\u00f3s. O passado e sua heran\u00e7a nefasta seguem assombrando o presente. Afinal, o que n\u00e3o \u00e9 reconhecido socialmente, elaborado, significado e levado \u00e0 justi\u00e7a, para que haja alguma repara\u00e7\u00e3o, retorna como um assombro recusado e segue esgar\u00e7ando o tecido social.<\/p>\n<p>Podemos ver isso com as imagens do \u201cEstallido Social\u201d (explos\u00e3o social) de 2019. Como uma \u201ccoincid\u00eancia\u201d, na \u00e9poca da filmagem, ocorreu no Chile uma das maiores ondas de protestos sociais da Am\u00e9rica Latina. Tudo come\u00e7ou com o an\u00fancio de aumento da tarifa de metr\u00f4 que desencadeou uma onda de boicotes e protestos, iniciada por estudantes. A repress\u00e3o policial foi truculenta e a viol\u00eancia escalou. O ent\u00e3o presidente decretou Estado de Emerg\u00eancia e enviou o ex\u00e9rcito \u00e0s ruas. A revolta cresceu e se espalhou pelo pa\u00eds, com duras cr\u00edticas \u00e0 viol\u00eancia, ao modelo econ\u00f4mico neoliberal, \u00e0 desigualdade social, \u00e0 ilegitimidade da constitui\u00e7\u00e3o de 1980, tudo isso heran\u00e7as da ditadura de Pinochet. Mais vidas ainda afetadas. Mas, n\u00e3o seria a viol\u00eancia do Estallido uma forma da mem\u00f3ria n\u00e3o reconhecida do per\u00edodo da ditadura se apresentar?<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que <em>Ponto de e<\/em><em>ncontro<\/em> n\u00e3o \u00e9 apenas um filme de mem\u00f3ria. \u00c9 um filme sobre a <em>necessidade da mem<\/em><em>\u00f3ria<\/em> como gesto \u00e9tico, pol\u00edtico e ps\u00edquico. \u00c9 sobre necessitarmos, como nos diz a psicanalista argentina Elina Aguiar, da mem\u00f3ria e de algo a mais: precisamos \u201caprender a n\u00e3o fecharmos os olhos frente \u00e0quilo que segue vigente daquele desastre\u201d (p. 27). \u00c9 preciso construirmos narrativas coletivas sobre o acontecido que possam embasar a busca por justi\u00e7a e por movimentos reparat\u00f3rios. Ainda com Aguiar, \u201crecordar, denunciar e repudiar o terrorismo de Estado n\u00e3o basta. Podemos nos perguntar sobre nossa responsabilidade sobre o sil\u00eancio e a impunidade com que seguem se atualizando hoje nas formas atuais de marginaliza\u00e7\u00e3o homicida que est\u00e3o naturalizadas\u201d (p. 33).<\/p>\n<p>Por fim, retomo a imagem do mosaico trazida por Lucho. Ainda no come\u00e7o do document\u00e1rio, ele diz: \u201cS\u00f3 voc\u00eas, os filhos, poderiam contar essa hist\u00f3ria. Eu n\u00e3o conseguiria\u201d. Talvez essa seja uma das heran\u00e7as do trauma: a tarefa de dar continuidade ao que foi interrompido. N\u00e3o apenas por necessidade de compreender o que ficou enigm\u00e1tico, recusado, n\u00e3o-elaborado. Mas porque as marcas violentas e sangrentas das gera\u00e7\u00f5es passadas tamb\u00e9m nos constituem, nos assombram e \u00e9 preciso que n\u00f3s, das gera\u00e7\u00f5es seguintes, nos responsabilizemos por elas. Nesse sentido, contar a hist\u00f3ria n\u00e3o para fech\u00e1-la em uma imagem definitiva e est\u00e1tica, mas para coloc\u00e1-la em movimento. Ao acabar em um encontro festivo, o document\u00e1rio nos faz pensar: haveria, afinal, repara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel ap\u00f3s a travessia do mort\u00edfero? O vidro da janela quebrada, por outro lado, nos remete a um resto incaptur\u00e1vel, algo que nos escapa, irresoluto. E \u00e9 justamente nesse ponto \u2014 esse ponto de encontro entre o que pode ser dito e o que resta mudo \u2014 que tamb\u00e9m nos encontramos hoje.<\/p>\n<p>02\/08\/25<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>Aguero, Jos\u00e9 Carlos. <em>Los <\/em><em>rendidos: sobre el don de perdonar. <\/em>1a edi\u00e7\u00e3o, 5a reimpress\u00e3o. Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 2018.<\/p>\n<p>Aguiar, Elina. <em>M\u00e1s que memoria: construyendo futuro con memoria. <\/em>Em: El dolor social de nuestro tiempo. N\u00e9stor Carlinsky; Juan Jos\u00e9 Falcone; Nilda Rodr\u00edguez Rafaelli. 1a ed. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires:Lugar Editorial, 2018.<\/p>\n<p>Lanzman, C. <em>Hier Ist Kein Warum (Folheto do filme Shoah)<\/em>. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 1986.<\/p>\n<p>Semprun, J. <em>A escrita ou a vida. <\/em>(trad. Rosa Freire d\u00b4Aguiar). Companhia das Letras: S\u00e3o Paulo, 1995.<\/p>\n<p>Wikinski, Mariana. A voz das testemunhas. Em: Grupo Faces do Traum\u00e1tico (org.) <em>Testemunho e experi<\/em><em>\u00eancia traum\u00e1<\/em><em>tica: traumas em tempos de cat\u00e1<\/em><em>strofe<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escuta, 2023.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rk\/a\/xfp9XCkzSSDrWgtp7M5JyTF\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">SciELO Brasil &#8211; El &lt;i&gt;Estallido Social&lt;\/i&gt; en Chile: \u00bfrumbo a un Nuevo Constitucionalismo? El &lt;i&gt;Estallido Social&lt;\/i&gt; en Chile: \u00bfrumbo a un Nuevo Constitucionalismo?<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/radiouc.cl\/a-5-anos-del-estallido-social-como-se-origino-y-que-provoco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A 5 a\u00f1os del Estallido Social: \u00bfC\u00f3mo se origin\u00f3 y qu<u>\u00e9 <\/u>provoc\u00f3? | Radio UC<\/a><\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Psicanalista, membro do Departamento de Psican\u00e1lise do Instituto Sedes Sapientiae<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> O filme se encontra dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ondamedia.cl\/statics\/shows\/punto-de-encuentro.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/ondamedia.cl\/statics\/shows\/punto-de-encuentro.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que pode a arte na cria\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria, hist\u00f3ria e repara\u00e7\u00e3o diante do horror perpetrado pela viol\u00eancia de Estado. Por Clarissa Motta e Camila Munhoz.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[145,138],"edicao":[335],"autor":[203,343],"class_list":["post-3841","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias-do-departamento","tag-cinema","tag-direitos-humanos","edicao-boletim-76","autor-camila-munhoz","autor-clarissa-giacomo-da-motta","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3841","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3841"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3841\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3889,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3841\/revisions\/3889"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3841"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3841"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}