{"id":3848,"date":"2025-09-08T23:43:20","date_gmt":"2025-09-09T02:43:20","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3848"},"modified":"2025-09-11T00:52:28","modified_gmt":"2025-09-11T03:52:28","slug":"um-olhar-sobre-as-masculinidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/09\/08\/um-olhar-sobre-as-masculinidades\/","title":{"rendered":"Um olhar sobre as masculinidades"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Um olhar sobre as masculinidades<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Ismael dos Anjos<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas minhas costas, um homem e um menino caminham de m\u00e3os dadas. O mais velho, passo firme, pochete atravessada, olha e se dirige para a esquerda como quem reconhece o terreno. O mais novo, em postura id\u00eantica, mas espelhada, caminha para a direita como quem ainda tateia o ch\u00e3o e o mundo.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o literal de uma tatuagem que tenho em minhas costas, reproduzida a partir de uma foto capturada pela minha m\u00e3e. Ao mesmo tempo, essa \u00e9, tamb\u00e9m, uma imagem carregada de sentido figurado sobre minha rela\u00e7\u00e3o com meu pai.<\/p>\n<p>Durante muitos e muitos anos, vivemos \u00e0s rusgas ainda que silenciosamente. Apesar de semelhan\u00e7as f\u00edsicas (cara de um, focinho do outro) e uma admira\u00e7\u00e3o profunda pela capacidade de sobreviv\u00eancia daquele homem negro, eu entrava em conflito di\u00e1rio com quase todas as maneiras dele ser e estar no mundo. Parecia duro demais, emotivo de menos, preconceituoso em pautas de costumes\u2026 ele, tampouco, se satisfazia com minhas escolhas \u2014 a da tatuagem inclusive.<\/p>\n<p>Como os par\u00e1grafos acima evidenciam, a conversa e as pr\u00e1ticas sobre masculinidades e suas implica\u00e7\u00f5es s\u00e3o algo que me movimenta no dia-a-dia e fazem parte da minha vida. Com o tempo, elas passaram a fazer parte tamb\u00e9m da minha profiss\u00e3o e do meu ativismo.<\/p>\n<p>Primeiro, como jornalista, trabalhei nas revistas ditas masculinas. Escrevi para <em>Playboy,<\/em> <em>VIP<\/em>, <em>Alfa<\/em>, publica\u00e7\u00f5es que trabalhavam com um ideal de homem que nunca fui e nem conseguiria ser. A partir de 2013, comecei a escrever para o PapodeHomem, um <em>site<\/em> que tamb\u00e9m mirava no p\u00fablico masculino, mas por meio de reflex\u00f5es diferentes: o que \u00e9 ser homem? Que homem que eu aprendi a ser e isso ainda faz sentido pra mim? Quais s\u00e3o as minhas refer\u00eancias sobre o tema? Em 2019, essas perguntas e reflex\u00f5es tomaram a forma de um projeto: o <em>Sil\u00eancio dos homens<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cSil\u00eancio?\u201d. Sim, eu sei que os homens falam bastante, falam alto, interrompem as mulheres e que essa palavra soa incongruente. Ao mesmo tempo, h\u00e1 um sil\u00eancio espec\u00edfico que costuma imperar: o da restri\u00e7\u00e3o emocional. Desenvolvido pelo PapodeHomem e com o apoio institucional da ONU Mulheres, o projeto se debru\u00e7ou na pesquisa de g\u00eanero a partir de uma perspectiva pouco usual, mergulhando para entender como se d\u00e1 o desenvolvimento das masculinidades no Brasil, os problemas e caminhos pr\u00e1ticos para mudan\u00e7as t\u00e3o necess\u00e1rias \u2014 afinal, n\u00e3o h\u00e1 perspectiva de equidade de g\u00eanero sem que os homens (com as devidas intersec\u00e7\u00f5es de categorias como ra\u00e7a, classe, orienta\u00e7\u00e3o sexual\u2026) compreendam que as dores que eles sentem se desdobram nas muitas dores que eles causam.<\/p>\n<p>Fui respons\u00e1vel pela coordena\u00e7\u00e3o da iniciativa como um todo, que inclu\u00eda uma equipe de mais de 30 pessoas entre pesquisa qualitativa, pesquisa quantitativa e produ\u00e7\u00e3o de um document\u00e1rio longa-metragem. A pesquisa quantitativa ouviu mais de 47 mil pessoas no pa\u00eds inteiro, e \u00e9 considerada at\u00e9 hoje a maior j\u00e1 realizada no Brasil sobre esse tema. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=NRom49UVXCE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O filme est\u00e1 dispon\u00edvel no YouTube<\/a> e de l\u00e1 pra c\u00e1 reuniu mais de 2,2 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas com mais de 200 sess\u00f5es de exibi\u00e7\u00e3o simult\u00e2neas e volunt\u00e1rias apenas na primeira noite, da sala das casas de pessoas, faculdades e at\u00e9 em uma igreja.<\/p>\n<p>Essa repercuss\u00e3o n\u00e3o foi \u00e0 toa. Falar de masculinidades pode at\u00e9 n\u00e3o ser a coisa mais urgente do mundo, mas as pr\u00e1ticas a ela conectadas, como os exerc\u00edcios de poder, est\u00e3o ligadas intrinsecamente \u00e0s mudan\u00e7as urgentes que a sociedade precisa experimentar.<\/p>\n<p>Abaixo, listo alguns dos principais achados da pesquisa:<\/p>\n<ul>\n<li>A maioria dos homens, 68%, afirma ter o pai como principal refer\u00eancia de masculinidade. Mas s\u00f3 1 em cada 10 j\u00e1 conversou com o pai sobre o que significa ser homem.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">A jun\u00e7\u00e3o desses dois n\u00fameros me faz pensar que a maioria de n\u00f3s mira na imagem que tem do pai para criar uma vers\u00e3o para si, ao inv\u00e9s de ter acesso a essa refer\u00eancia de forma humanizada, entendendo que ali h\u00e1 acertos, erros, desejos, frustra\u00e7\u00f5es. \u00c9 como se, desde a mais tenra idade, cri\u00e1ssemos uma fic\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, que s\u00f3 vamos descobrir n\u00e3o ser vi\u00e1vel e irreal anos mais tarde, depois de aprender na pr\u00e1tica, ao quebrar expectativas.<\/p>\n<ul>\n<li>Ao todo, apenas 3 em cada 10 homens possuem o h\u00e1bito de conversar (sempre ou muitas vezes) sobre os seus maiores medos e d\u00favidas com os amigos. 1 em cada 4 homens de at\u00e9 17 anos afirma se sentir solit\u00e1rio sempre.<\/li>\n<li>Tamb\u00e9m perguntamos o quanto os homens concordam terem sido ensinados de cada uma das cren\u00e7as a seguir, durante a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia:\n<ul>\n<li>Ser bem sucedido profissionalmente: 85%<\/li>\n<li>N\u00e3o se comportar de modos que pare\u00e7am femininos: 78%<\/li>\n<li>Ser fisicamente forte: 73%<\/li>\n<li>Ser o respons\u00e1vel pelo sustento financeiro da fam\u00edlia: 67%<\/li>\n<li>N\u00e3o expressar minhas emo\u00e7\u00f5es: 57%<\/li>\n<li>Dar em cima das mulheres sempre que poss\u00edvel: 48%<\/li>\n<\/ul>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora essa liga\u00e7\u00e3o imbrical entre masculinidades e sucesso mere\u00e7a uma conversa s\u00f3 sobre ela (n\u00e3o tem lugar no p\u00f3dio para todo mundo e muitos homens se sentem menos homens ao n\u00e3o serem promovidos, serem demitidos, falirem uma empresa, n\u00e3o serem mais os provedores da casa e por a\u00ed vai), queria me concentrar no segundo \u00edndice do trecho acima.<\/p>\n<p>Os homens, ao desenvolverem uma no\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica e restritiva do que \u00e9 ser homem, criaram uma armadilha para si. Vivemos em uma sociedade em que as prerrogativas do que \u00e9 esse homem, no singular, foram paulatinamente se distanciando de caracter\u00edsticas que nos fazem eminentemente humanos. Se o g\u00eanero feminino \u00e9 aquele que, entendemos, est\u00e1 em constante contato com as emo\u00e7\u00f5es, eu corro o risco de ser lido como menos homem se me abrir para esse rol de sentimentos.<\/p>\n<p>Durante a pesquisa, descobrimos tamb\u00e9m que seis a cada 10 homens afirma lidar hoje com dist\u00farbios emocionais, em algum n\u00edvel, nos dias de hoje. Os mais prevalentes? Ansiedade, depress\u00e3o, ins\u00f4nia, uma rela\u00e7\u00e3o conturbada com pornografia, pensamentos suicidas, dist\u00farbios sexuais, v\u00edcio em apostas, jogos eletr\u00f4nicos e dist\u00farbios alimentares. Apesar disso, s\u00f3 1 a cada 10 diz frequentar um terapeuta atualmente. A maioria prefere enfrentar (e sofrer) calado e sozinho, aguentando o tranco.<\/p>\n<p>Costumo dizer que esse \u00e9 o \u00edndice da masculinidade t\u00f3xica, termo que se popularizou na \u00faltima d\u00e9cada. Se produtos t\u00f3xicos s\u00e3o aqueles que n\u00e3o se resumem ao \u201chospedeiro\u201d e se espalham pelo ambiente ao redor, o mesmo acontece com esses homens que sabem que t\u00eam um problema e n\u00e3o conseguem pedir ajuda. Essas quest\u00f5es param de habitar apenas neles, e passam a afetar esposas, colegas de trabalho, filhos, filhas e todo mundo que convive ao seu redor.<\/p>\n<p>Felizmente, ao falar sobre o <em>Sil\u00eancio<\/em>, temos conseguido multiplicar conversas importantes. Outras pesquisas t\u00eam sido feitas de l\u00e1 pra c\u00e1 (uma recente foca nos Meninos, de 13 a 17 anos), e o tema passou a ser mais debatido em entrevistas, <em>posts <\/em>nas redes sociais, palestras em empresas e tamb\u00e9m em escolas. V\u00e1rios grupos de homens foram criados, e uma das ferramentas que vejo ser mais bem sucedida \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o de rodas de conversa, que estimulam homens a se abrirem e aprenderem a dialogar entre si, quebrando os m\u00faltiplos n\u00e3o-ditos, criando refer\u00eancias positivas ombro-a-ombro em que eles possam se espelhar (se fulano passou por isso, eu tamb\u00e9m consigo!) e, idealmente, rompendo com h\u00e1bitos e pr\u00e1ticas nocivas.<\/p>\n<p>Para mudar centenas de anos de uma cultura patriarcal, ainda h\u00e1 muito a ser dito, pesquisado e, principalmente, feito. N\u00e3o acredito que existam solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas nem, tampouco, que exista linha de chegada. A palavra, perene, \u00e9 compromisso.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Jornalista, fot\u00f3grafo, documentarista, palestrante e especialista em comunica\u00e7\u00e3o, Ismael dos Anjos coordenou o projeto <em>O sil\u00eancio dos homens<\/em>, pesquisa e document\u00e1rio (2019).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A import\u00e2ncia de escutar <em>O sil\u00eancio dos homens<\/em> e falar sobre ele. Por Ismael dos Anjos, especial para o boletim <span style=\"color: #ff0000;\">on<\/span>line.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[107],"tags":[145,54,345],"edicao":[335],"autor":[346],"class_list":["post-3848","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-decolonial","tag-cinema","tag-decolonial","tag-masculinidades","edicao-boletim-76","autor-ismael-dos-anjos","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3848","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3848"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3848\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3897,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3848\/revisions\/3897"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3848"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3848"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3848"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3848"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3848"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}