{"id":3850,"date":"2025-09-08T23:46:04","date_gmt":"2025-09-09T02:46:04","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3850"},"modified":"2025-09-11T00:48:03","modified_gmt":"2025-09-11T03:48:03","slug":"nossa-vinganca-e-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/09\/08\/nossa-vinganca-e-o-amor\/","title":{"rendered":"Nossa vingan\u00e7a \u00e9 o amor"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Nossa vingan\u00e7a \u00e9 o amor<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Esse \u00e9 o t\u00edtulo da Antologia po\u00e9<\/em><em>tica da uruguaia Cristina Peri Rossi, lan<\/em><em>\u00e7ado este ano no Brasil. Perseguida em seu pa\u00eds de origem e na ditadura franquista da Espanha, a amiga de Julio Cort\u00e1<\/em><em>zar <\/em><em>\u2013 quase 84 anos \u2013 ganhou o prestigiado Pr\u00eamio Cervantes em 2021.\u00a0 A colet\u00e2nea bil\u00edngue cobre o per\u00edodo de 1971 a 2024 e revela o poder da poesia na defesa inabal\u00e1vel do territ\u00f3rio de Eros.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>por D\u00e9<\/strong><strong>borah de Paula Souza<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Parece personagem de cinema: uma jovem mulher, aos 30 anos, perde sua cidadania, deixa tudo para tr\u00e1s e foge num barco com a namorada, carregando sua m\u00e1quina de escrever. Era a primeira vez que Cristina Peri Rossi sa\u00eda do seu pa\u00eds, ela n\u00e3o via outra alternativa depois do golpe militar do Uruguai, em 1973. Sobre o ex\u00edlio, a poeta \u00e9 sucinta: \u201cO melhor \u00e9 n\u00e3o nascer\/mas em caso de nascer\/o melhor \u00e9 n\u00e3o ser exilado\u201d.<\/p>\n<p>Na vida de Cristina, o ex\u00edlio pode ser pol\u00edtico, social, familiar, amoroso. Nos anos 1960, ela j\u00e1 era professora universit\u00e1ria, militante de esquerda, colaboradora de um jornal comunista, e considerada uma das escritoras mais brilhantes de sua gera\u00e7\u00e3o quando lan\u00e7ou <em>Evo\u00e9, <\/em>seu primeiro livro de poesias, evocando o \u00eaxtase das bacantes gregas. Causou esc\u00e2ndalo com seu erotismo l\u00e9sbico. Um ano depois, toda sua obra foi censurada e os meios de comunica\u00e7\u00e3o foram proibidos de citar seu nome. Para a autora, \u201cas mulheres s\u00e3o livros que \u00e9 preciso escrever\u201d. No que depende dela, o resultado \u00e9 magn\u00edfico: s\u00e3o 40 livros, sendo 18 de poesia.<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio da inf\u00e2ncia, na biblioteca do tio materno, foi marcante para o exerc\u00edcio da escrita como afirma\u00e7\u00e3o de vitalidade. Ali, onde ela passava dias lendo, s\u00f3 havia livros de homens e apenas tr\u00eas escritoras: Safo, Virginia Woolf e Alfonsina Storni. Na vis\u00e3o do tio, as mulheres n\u00e3o escrevem. E se escrevem, se matam. Cristina desmentiu o vatic\u00ednio dram\u00e1tico, mas nunca foi imune \u00e0 amea\u00e7a, tanto que citou o epis\u00f3dio no pr\u00f3prio discurso quando recebeu o Pr\u00eamio Cervantes de Literatura, em 2021, considerado a maior gl\u00f3ria da l\u00edngua espanhola.<\/p>\n<p>Para Safo, Woolf e outras autoras que pagaram o pre\u00e7o da escrita, ela dedica o poema <em>Genealogia: <\/em><\/p>\n<p>\u201cdoces antepassadas minhas\/ afogadas no mar\/ou suicidadas em jardins imagin\u00e1rios\/ trancadas em castelos de muros lil\u00e1s\/ e arrogantes\/ espl\u00eandidas em seu desafio (&#8230;) soberbas em sua solid\u00e3o\/e no pequeno esc\u00e2ndalo de suas vidas (&#8230;).\u201d<\/p>\n<p>As quest\u00f5es da mulher e do feminino permeiam boa parte de sua poesia. Com humor c\u00e1ustico, ela desfere golpes contra Flaubert, \u201cum macho franc\u00eas esnobe\u201d que sonhou Emma Bovary e acabou ressentido porque, ela tem certeza, Bovary nunca sonharia com ele, e ainda por cima ficou mais famosa que seu criador. No poema <em>Teoria <\/em><em>l<\/em><em>iter<\/em><em>\u00e1ria<\/em>, detona a fogueira das vaidades e o machismo dos autores, ironicamente chamados de p\u00f3s-modernos:<\/p>\n<p>\u201cescrevem porque t\u00eam o p\u00eanis curto\/ou o nariz torto\/ porque um amigo lhes roubou a amante\/e outro ganhava dele no p\u00f4quer\/ Escrevem porque querem ser chefes da tribo\/e ter muitas mulheres (&#8230;).<\/p>\n<p>Em outros momentos, a hist\u00f3ria se passa como um filme terr\u00edvel, que ela descreve aturdida: \u201cTenho contemplado com pavor o Grande Espet\u00e1culo do Mundo\/ Homens guerreando homens estuprando homens esquartejando homens torturando (&#8230;) eu os vi na vida real\/ Videla\/ e na porta da minha casa\/ meu pai (&#8230;) e no entanto\/apesar de tudo (&#8230;) lembro de voc\u00ea e a ternura inunda meu cora\u00e7\u00e3o (&#8230;).<\/p>\n<p>Quanto mais leio e releio, mais me atrapalho ao escrever esse artigo, pois o que desejo mesmo colocar aqui s\u00e3o as palavras dela, para que a sua vingan\u00e7a comece a se processar em n\u00f3s. \u00c9 assim que ela faz. Como a crian\u00e7a enferma de quem se diz: quase morreu, mas n\u00e3o morreu, vingou. E para tanto sua escrita pode atingir uma febre de 40 graus e produzir em n\u00f3s tanto a doen\u00e7a quanto sua cura. Penso que n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que seu livro mais recente, publicado em 2024, chama-se <em>Fata Morgana<\/em>. Manejar as palavras como instrumento transformador, capaz de operar o que a poeta opera nos leitores, \u00e9 arte de feiti\u00e7aria. Foi assim que o livro me fisgou. Desavisada, flanando na livraria, sem saber nada ainda dessa hist\u00f3ria, fui hipnotizada pelo t\u00edtulo: <em>Nossa vingan\u00e7a \u00e9 o a<\/em><em>mor<\/em>. Acontece que tinha fila no caixa e eu fui embora. S\u00f3 que a frase seguiu ecoando como mantra, n\u00e3o pude esquec\u00ea-la e encomendei meu exemplar. E ando com ele (quase 400 p\u00e1ginas&#8230;) para lembrar n\u00e3o sei bem o qu\u00ea que eu n\u00e3o posso esquecer, mas o livro sabe e analisa o poss\u00edvel do poeta: ser \u00edntimo dos nomes e n\u00e3o das coisas.<\/p>\n<p>Assim: (&#8230;) cada palavra que usa\/reverte\/ como as \u00e1guas de um oceano intermin\u00e1vel\/a mares anteriores (&#8230;)\/reconstr\u00f3i partes de uma cosmogonia antiga\/e lan\u00e7a fios de seda rumo a sistema futuros (&#8230;).\u00a0 Gracias, Cristina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uruguai, Espanha, Brasil: resson\u00e2ncias<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos em gratid\u00e3o e d\u00edvida eterna com tradutores dos livros que falam conosco. Sejam os romances, os livros de psican\u00e1lise ou de poesia, que considero os mais dif\u00edceis de traduzir. Recomendo vivamente a nota dos organizadores e tradutores da colet\u00e2nea, Ayel\u00e9n Medail e Cide Piquet, que come\u00e7a com um poema curto da autora:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u00a0\u201cAmar \u00e9 traduzir \u2013 trair\/ Nost\u00e1lgicos para sempre\/do para\u00edso antes de Babel.\u201d<\/p>\n<p>De certo modo, traduzir \u00e9 revirar a l\u00edngua materna at\u00e9 que ela seja outra, uma l\u00edngua aberta ao mundo. Se o nome da poeta foi proibido de ser citado no Uruguai, como seria conhecido\/traduzido aqui? Demorou. Conhecemos os europeus e os russos, mas pouco sabemos dos poetas latino-americanos. Os tradutores explicam como realizaram a dif\u00edcil tarefa de selecionar os 150 poemas da Antologia, atentos \u00e0 representatividade dos temas caros a Cristina, entre eles o desejo e o homoerotismo, a pol\u00edtica, o ex\u00edlio, o amor, o tempo, a mem\u00f3ria, a proximidade da morte. O tradutores buscaram tamb\u00e9m o que tivesse \u201cresson\u00e2ncia com a atual poesia brasileira\u201d. Est\u00e3o encapsuladas na palavra <em>resson<\/em><em>\u00e2<\/em><em>ncia<\/em> a m\u00fasica e o mist\u00e9rio. Por isso se diz, e concordo, que s\u00e3o os poetas que sabem traduzir poesia e pescar os peixes que \u00e0s vezes saltam na onda ou numa reportagem, como foi o caso da edi\u00e7\u00e3o desta colet\u00e2nea, sonhada a partir de uma reportagem da revista Piau\u00ed, em 2022, que conta e contextualiza a hist\u00f3ria de Cristina, simpatizante do grupo guerrilheiro Tupamaros, no qual um dos l\u00edderes foi Pepe Mujica, que s\u00f3 muito depois se tornaria presidente do Uruguai.<\/p>\n<p>Antes de terminar este artigo com uma vingan\u00e7a avassaladora de Cristina Peri Rossi, \u00e9 importante destacar que ela mesma traduziu para o espanhol <em>Ang\u00fa<\/em><em>stia, de <\/em>Graciliano Ramos, e <em>La\u00e7<\/em><em>os de <\/em><em>fam\u00ed<\/em><em>lia, de <\/em>Clarice Lispector. Al\u00e9m disso, ela mant\u00e9m o vigor da sua voz na defesa do feminismo contra o patriarcado, na luta contra as injusti\u00e7as de g\u00eanero e o feminic\u00eddio. Sua empatia com o sofrimento das mulheres no mundo desencadeou o caso memor\u00e1vel de Marilyn Buck \u2013 uma mulher branca que foi presa por ter ajudado uma prisioneira negra a fugir da pris\u00e3o. Numa penitenci\u00e1ria do Texas, Marilyn aprendeu espanhol para traduzir o livro <em>Estado de ex\u00ed<\/em><em>lio, <\/em>de Cristina, que definiu tal gesto como um \u201cato po\u00e9tico\u201d. Penso que a sequ\u00eancia desses atos\u2014ajudar uma prisioneira a escapar e aprender outra l\u00edngua para traduzir o ex\u00edlio \u2014 se n\u00e3o recupera o para\u00edso antes de Babel, recupera a possibilidade de confiar na vida e no amor. \u00c9 desse naipe o jogo que Cristina instalou no tabuleiro do mundo.<\/p>\n<p>A seguir, replico aqui, na \u00edntegra, um dos meus poemas prediletos que, espero, possa ressoar nas leitoras e leitores deste Boletim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um amor dos pequenos<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Passada a idade dos grandes amores<br \/>\n\u2013 cheios de estrog\u00eanios e de horm\u00f4nios<br \/>\nbem como de mal-entendidos e dificuldades \u2013<\/p>\n<p>volte os olhos para os pequenos<br \/>\nos pequenos amores:<br \/>\no amor do padeiro pelo p\u00e3o<\/p>\n<p>o amor da vi\u00fava por sua horta<br \/>\no amor da minha amiga Andrea por sua gata Frida<\/p>\n<p>o amor do m\u00e9dico pela crian\u00e7a com leucemia<\/p>\n<p>o amor do livreiro pelo cheiro do papel<\/p>\n<p>o amor do cozinheiro pelas batatas.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o dos grandes<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o paix\u00f5es excludentes<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 del\u00edrios orgias nem explos\u00f5es de ci\u00fames<\/p>\n<p>n\u00e3o fazem tanto barulho<br \/>\nn\u00e3o terminam com um frasco de comprimidos<br \/>\nou um sil\u00eancio eterno e rancoroso<\/p>\n<p>Pe\u00e7a-me um amor dos pequenos<br \/>\nn\u00e3o dos grandes<br \/>\ne eu te darei um amor dos pequenos<br \/>\nn\u00e3o dos grandes<\/p>\n<p>O tempo a tudo devora<br \/>\nespecialmente<br \/>\nas coisas grandes<br \/>\n(Dido, En\u00e9as, Dante, Beatriz,<br \/>\nTrist\u00e3o, Isolda, Romeu, Julieta)<\/p>\n<p>mas \u00e0s vezes tem piedade da av\u00f3<br \/>\nsolit\u00e1ria e de sua gata<br \/>\ne lhes permite chegar \u00e0 velhice<br \/>\nsem devor\u00e1-las antes do tempo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aposta vital no poder de transforma\u00e7\u00e3o que o encontro com as palavras reverbera. Convite de D\u00e9borah de Paula Souza \u00e0 leitura de Cristina Peri Rossi.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[88],"edicao":[335],"autor":[139],"class_list":["post-3850","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-escritos","tag-literatura","edicao-boletim-76","autor-deborah-de-paula-souza","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3850","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3850"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3850\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3893,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3850\/revisions\/3893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3850"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3850"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}