{"id":3937,"date":"2025-11-16T09:09:01","date_gmt":"2025-11-16T12:09:01","guid":{"rendered":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/?p=3937"},"modified":"2025-11-17T16:53:23","modified_gmt":"2025-11-17T19:53:23","slug":"ansiedade-relacionada-as-telas-e-o-papel-do-adulto-na-protecao-das-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/2025\/11\/16\/ansiedade-relacionada-as-telas-e-o-papel-do-adulto-na-protecao-das-criancas\/","title":{"rendered":"Ansiedade relacionada \u00e0s telas e o papel do adulto na prote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as."},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><strong>Ansiedade relacionada \u00e0s telas e o papel do adulto na prote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as<\/strong><\/h1>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Rivaldo Lima<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00c9 o ambiente circundante que torna poss\u00edvel o crescimento de cada crian\u00e7a; sem uma<br \/>\nconfiabilidade ambiental m\u00ednima, o crescimento pessoal da crian\u00e7a n\u00e3o pode se<br \/>\ndesenrolar, ou desenrola-se com distor\u00e7\u00f5es. (Winnicott, 1960, p. 45)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O uso excessivo de telas tem sido um dos grandes problemas da atualidade, afetando todas as faixas et\u00e1rias, principalmente as mais jovens. Quando pensamos na inf\u00e2ncia, a aten\u00e7\u00e3o se torna ainda maior, pois essa \u00e9 considerada uma fase peculiar de desenvolvimento e que, por isso, requer um esfor\u00e7o de toda a sociedade para que esse p\u00fablico tenha prioridade absoluta de prote\u00e7\u00e3o contra qualquer forma de viol\u00eancia, como preconiza a Constitui\u00e7\u00e3o Federal (CF) e o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA).<\/p>\n<p>Esse ponto da CF e do ECA &#8211; de que crian\u00e7a e adolescente devem ter prioridade absoluta para tudo o que for necess\u00e1rio ao seu desenvolvimento saud\u00e1vel &#8211; \u00e9 muito certeiro, especialmente porque vai ao encontro de uma das principais teorias psicol\u00f3gicas que existem: a psican\u00e1lise winnicottiana.<\/p>\n<p>De acordo com a teoria de D. W. Winnicott (pediatra e psicanalista), cada crian\u00e7a nasce com uma tend\u00eancia ao amadurecimento emocional mas que, para se tornar real, necessita de um ambiente facilitador. Esse ambiente \u00e9 composto pelos adultos respons\u00e1veis pelos cuidados da crian\u00e7a. Tais cuidados envolvem proteger a crian\u00e7a de viv\u00eancias que estejam fora do seu ritmo natural de desenvolvimento, ou seja, que estejam em desacordo com sua idade e maturidade. Isso inclui a prote\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito digital. O modo como pais e respons\u00e1veis administram o acesso das crian\u00e7as \u00e0s telas pode facilitar ou dificultar seu crescimento e sua sa\u00fade ps\u00edquica.<\/p>\n<p>S\u00e3o dois os principais grandes riscos que o uso indiscriminado das telas oferece: preju\u00edzo no desenvolvimento da crian\u00e7a e viol\u00eancia contra ela. O primeiro pode acontecer mesmo na aus\u00eancia do segundo e, sempre que houver o segundo, o primeiro geralmente surgir\u00e1 como consequ\u00eancia. Quanto mais nova a crian\u00e7a, mais intensos podem ser os preju\u00edzos.<\/p>\n<p>O principal risco relacionado ao dano no desenvolvimento se refere \u00e0 pobreza de rela\u00e7\u00e3o humana, que, por sua vez, dificulta significativamente o amadurecimento emocional da crian\u00e7a, podendo chegar ao extremo de p\u00f4r em xeque o seu senso de exist\u00eancia pessoal.<\/p>\n<p>Vamos explicar melhor. Winnicott tem algumas formula\u00e7\u00f5es c\u00e9lebres em que vale nos determos. Uma delas diz: \u201cQuando olho, sou visto. Portanto, existo\u201d (Winnicott, 1967, p. 182). Nesse contexto, ele est\u00e1 se referindo \u00e0 din\u00e2mica de intera\u00e7\u00e3o do beb\u00ea (ou da crian\u00e7a) com sua m\u00e3e (ou com seu cuidador principal). Em linhas gerais, o que o autor quer dizer \u00e9 que o sentimento de exist\u00eancia da crian\u00e7a &#8211; e tudo o que isso desdobra &#8211; depende de ela ser enxergada, n\u00e3o apenas no modo simb\u00f3lico da palavra, mas tamb\u00e9m literalmente: quando \u00e9 vista olho no olho. Basta pensarmos no exemplo do beb\u00ea encarando a m\u00e3e enquanto mama em seu peito e recebe de volta esse olhar e as express\u00f5es faciais, com o rosto da m\u00e3e funcionando como um espelho. Isso mostra o quanto olhar nos olhos mexe com quest\u00f5es primitivas do nosso ser.<\/p>\n<p>Essa necessidade humana (de ser visto) \u00e9 profunda e fundamental: ela afeta nossa base, nosso sentimento de exist\u00eancia e de que somos reais, de que temos import\u00e2ncia, de que a vida faz sentido. O padr\u00e3o de como fomos vistos na inf\u00e2ncia interfere diretamente na estrutura\u00e7\u00e3o de nossa personalidade e no modo como seguimos a vida.<\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o da tecnologia e da internet, o \u201colho no olho\u201d tem ficado cada vez mais raro. Tem sido muito comum as pessoas fazerem mais intera\u00e7\u00f5es remotas, \u00e0 dist\u00e2ncia. E, quando se encontram pessoalmente, o olhar \u00e9 facilmente desviado para o celular e, com isso, a presen\u00e7a por inteira vai ficando cada vez mais escassa. Se para n\u00f3s, adultos, isso j\u00e1 afeta a sa\u00fade mental, imagine para os pequeninos! Ali\u00e1s, estarmos imersos nessa din\u00e2mica faz com que eles reproduzam essas posturas. Um dos principais fatores que contribuem para o uso excessivo de telas pelas crian\u00e7as \u00e9 o exemplo dado pelos adultos.<\/p>\n<p>Fica percept\u00edvel que, conforme aumenta a intensidade do uso das telas, diminuem as habilidades sociais para contatos no mundo real.<\/p>\n<p>\u00c9 muito tentador para os cuidadores de crian\u00e7as entregarem um celular em suas m\u00e3os para que elas se distraiam e lhes deem \u201csossego\u201d. No entanto, se isso se tornar um padr\u00e3o, o contato olho no olho vai se perdendo e as telas v\u00e3o ficando cada vez mais atrativas &#8211; tanto para as crian\u00e7as quanto para os adultos.<\/p>\n<p>E as telas t\u00eam um alto poder de provocar mais intensidade de seu uso e se tornar um padr\u00e3o cada vez mais dif\u00edcil de administrar. Um de seus efeitos cerebrais est\u00e1 relacionado \u00e0 dopamina (neurotransmissor da motiva\u00e7\u00e3o e do prazer). Uma das principais caracter\u00edsticas da maioria dos conte\u00fados das telas \u00e9 a novidade constante. Talvez os <em>reels <\/em>ou v\u00eddeos curtos sejam o maior exemplo disso. Uma busca cont\u00ednua por novidades que deixa o pico de dopamina sempre em alta. Isso vai tornando a crian\u00e7a (e qualquer pessoa) menos tolerante a esperas, mais f\u00e1cil de se entediar, e mais suscet\u00edvel a ficar dependente dessa sensa\u00e7\u00e3o de coisas novas e de prazer ininterrupto. Por sinal, os v\u00edcios t\u00eam essa mec\u00e2nica. Al\u00e9m disso, o excesso de informa\u00e7\u00f5es e est\u00edmulos mant\u00e9m o c\u00e9rebro em cont\u00ednuo estado de alerta, o que aumenta os sintomas de ansiedade, ins\u00f4nia e irritabilidade.<\/p>\n<p>Outro risco \u00e9 a distor\u00e7\u00e3o do que \u00e9 brincar. Muitos pais dizem que os filhos est\u00e3o \u201cbrincando no celular\u201d. No entanto, jogar eletronicamente n\u00e3o \u00e9 o mesmo que brincar, principalmente se o jogo for solit\u00e1rio. O brincar que proporciona amadurecimento &#8211; e que \u00e9 indispens\u00e1vel &#8211; \u00e9 o brincar livre, que favorece a espontaneidade e a criatividade, que p\u00f5e em movimento a crian\u00e7a, seja fisicamente ou na imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro risco relacionado ao preju\u00edzo no desenvolvimento, e que \u00e9 fonte de ansiedades, s\u00e3o as compara\u00e7\u00f5es t\u00edpicas de redes sociais. Apesar de o acesso ser permitido somente da fase da adolesc\u00eancia em diante, muitas crian\u00e7as e pr\u00e9-adolescentes tamb\u00e9m se conectam.<\/p>\n<p>Muitas pessoas pensam que pelo fato de a crian\u00e7a estar quietinha, dentro de casa, ela est\u00e1 protegida. No entanto, essa \u00e9 uma fals\u00edssima sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. Pois al\u00e9m do preju\u00edzo emocional que a hiperconectividade pode causar, o uso da internet por crian\u00e7as as deixa expostas a uma s\u00e9rie de riscos de viol\u00eancia psicol\u00f3gica e sexual. N\u00e3o supervisionar o modo como a crian\u00e7a tem usado telas \u00e9 como deix\u00e1-la solta, sozinha, no meio de uma cidade cheia de estranhos. Muitos pensam que se o corpo est\u00e1 \u201cprotegido\u201d, em \u201cseguran\u00e7a\u201d, a crian\u00e7a estar\u00e1 totalmente fora de risco. Grande engano! Ali\u00e1s, \u00e9 bom lembrar que nem toda viol\u00eancia sexual passa pelo toque no corpo da crian\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 preciso o toque f\u00edsico para se cometer abusos infantis.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a esse risco de exposi\u00e7\u00e3o a coisas para as quais n\u00e3o se est\u00e1 preparado, podemos remeter a outra elabora\u00e7\u00e3o not\u00e1vel de Winnicott, a ideia de que o mundo deve ser apresentado \u00e0 crian\u00e7a em \u201cpequenas doses\u201d (Winnicott, 1949). Nesse sentido, \u00e9 papel de quem cuida da crian\u00e7a filtrar o que chega at\u00e9 ela. \u00c9 uma neglig\u00eancia grav\u00edssima se o respons\u00e1vel por uma crian\u00e7a a deixa usar telas sem supervis\u00e3o e acompanhamento, pois ela fica exposta a um mundo de coisas que podem ser completamente inapropriadas para sua fase de desenvolvimento, prejudicando-a.<\/p>\n<p>Para ir concluindo, algumas das recomenda\u00e7\u00f5es mais atuais s\u00e3o no sentido de que se evite telas &#8211; de qualquer tipo &#8211; para crian\u00e7as menores de dois anos e que o uso para as maiores seja sempre mediado por um adulto e com tempo definido (no m\u00e1ximo uma ou duas horas por dia). Outra orienta\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que crian\u00e7as de at\u00e9 doze anos n\u00e3o tenham smartphones pr\u00f3prios e que quanto mais tarde os tiverem, melhor &#8211; e sempre com supervis\u00e3o (Brasil, 2024).<\/p>\n<p>A necessidade humana b\u00e1sica de ser visto, se n\u00e3o for bem atendida, pode levar a variadas formas substitutivas de se buscar esse olhar, algumas maneiras at\u00e9 patol\u00f3gicas, inclusive. Cabe a n\u00f3s, e \u00e0 nossa rede de apoio, cuidarmos para suprirmos essa necessidade das crian\u00e7as ao nosso redor e, assim, contribuir para que o \u201csou visto, logo existo\u201d n\u00e3o seja substitu\u00eddo por \u201csou curtido [e suas varia\u00e7\u00f5es], logo existo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Brasil. Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o Social da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. <em>Crian\u00e7as, adolescentes e telas: guia sobre usos de dispositivos digitais.<\/em> Bras\u00edlia, DF: SECOM\/PR, 2024. eBook. ISBN 978-65-985657-0-1.<\/p>\n<p>Winnicott, D. W. (1949). O mundo em pequenas doses. In D. W. Winnicott, <em>A crian\u00e7a e o seu mundo<\/em>. Rio de Janeiro: LTC, 2022.<\/p>\n<p>Winnicott, D. W. (1960). Seguran\u00e7a. In D. W. Winnicott, <em>A fam\u00edlia e o desenvolvimento individual<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2018.<\/p>\n<p>Winnicott, D. W. (1967). O papel de espelho da m\u00e3e e da fam\u00edlia no desenvolvimento infantil. In D. W. Winnicott, <em>O brincar e a realidade<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2019.<\/p>\n<p>__________<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Psic\u00f3logo, psicanalista em forma\u00e7\u00e3o no 4o ano do Curso de Psican\u00e1lise do Departamento de Psican\u00e1lise. Coordenador de Atendimento do CNRVV &#8211; Centro de Refer\u00eancia \u00e0s V\u00edtimas de Viol\u00eancia &#8211; do Instituto Sedes Sapientiae.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o olhar digital ocupa o lugar do outro, que inf\u00e2ncia \u00e9 poss\u00edvel? Um escrito de Rivaldo Lima. <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[56],"edicao":[349],"autor":[350],"class_list":["post-3937","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-o-mundo-hoje","tag-educacao","edicao-boletim-77","autor-rivaldo-lima","pmpro-has-access"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3937","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3937"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3937\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4026,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3937\/revisions\/4026"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3937"},{"taxonomy":"edicao","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/edicao?post=3937"},{"taxonomy":"autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/sedes.org.br\/Departamentos\/Psicanalise\/boletimonline\/wp-json\/wp\/v2\/autor?post=3937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}